A revolta pelo sertanejo morto & a prelazia da mediocridade

A verdadeira identidade cultural de um povo não é transmitida pela TV no domingo à tarde nem desce goela adentro com cerveja e carne assada

Henrique Morgantini
Especial para o Jornal Opção

Morte do cantor goiano Cristiano Araújo em acidente causa comoção e muitas controvérsias

Morte do cantor goiano Cristiano Araújo em acidente causa comoção e muitas controvérsias

O episódio Cristiano Araújo, pelo menos para nós, goianos, foi um marco determinante para a compreensão do comportamento das pessoas na internet e, por conseguinte, fora dela. Mesmo sendo as redes sociais eletrônicas o maior exemplo de universalidade existente, naturalmente as redes vão formando nichos que se organizam tendo como parâmetro a vida de verdade, incluindo a sua geolocalização. Com o tempo você percebe que tem mais amigos de regiões próximas a você, numa reprodução virtual do que seria o seu bairro, a sua cidade e etc.

Neste caso, ninguém se revoltou mais na última semana que os goianos. O assunto está exaurido sob vários aspectos, mas a negativa de se tratar dele é também a negação da própria deficiência de comportamento em relação ao adverso e algo ainda pior: a negação a possíveis verdades reveladas.

O artista Cristiano Araújo era um sucesso absoluto e um candidato a mito das massas populares interessadas na moda renovada da música pop-sertaneja. Como criador de arte, o cantor e compositor era um personagem medíocre. As duas afirmações são essencialmente verdadeiras e a adesão a uma delas significa escolher uma arma para entrar em um duelo.

E foi o que aconteceu na internet “geolocalizada” recentemente. Não que fora de Goiás não houvesse comoção — claro que houve, afinal, o cantor era popular e levava sua música a diversos Estados brasileiros —, mas aqui em seu quintal, sua terra, ficou mais intensa a batalha pela beatificação artística do artista tragicamente acidentado. Morto, Araújo se tornou um totem da identidade goiana.

E foi nesta inverdade absurda que começou a confusão. O simples fato da manifestação do desconhecimento gerou revolta. Menos ainda, o fato de reconhecer a existência do artista, mas confundi-lo com outro semelhante, da mesma geração e do mesmo estilo, já foi o bastante para que uma série de ofensas e ameaças e xingamentos fossem propaladas.

Há na internet um tipo bastante característico. Eu inventei um termo que é o “Canalha do Sofá”. Ele reúne uma série de características, entre elas o benefício do anonimato, o que lhe confere brutal covardia, o anseio desenfreado de disparar impropérios e a pouca, pouquíssima capacidade de produzir opinião concatenada, dada a sua baixíssima intelectualidade.

O Canalha do Sofá não lê nem bula, nem o olho da notícia de sites jornalísticos, não sabe interpretar textos — porque jamais leu nada — e, por fim, ele tem uma opinião agressiva para emitir logo após ler a manchete. Em uma única frase ou duas — no caso de uma postagem de Facebook —, ele já tem a sua opinião formada pronta para sujar a rede através de seus dedos. O Canalha do Sofá não tem idade, sexo ou profissão definida. Ele pode ser tudo.

Ah, o Canalha do Sofá adora u­ma frase de fé e/ou autoajuda e uma foto que mande alguém ser me­lhor do que é, ainda que ele não o seja. Mas isso mal vem ao caso.

O fato é que nossos canalhas do sofá próximos nunca trabalharam com tanto afinco na última semana para atacar quem desprezasse a obra do cantor morto. Atuaram em alta performance. Iletrados funcionais, nem se deram ao trabalho de compreender textos e contextos e relativizar. Zeca Camargo foi o bode expiatório, mas a reboque do jornalista famoso da Rede Globo, sobrou para todo mundo: se você não conhece Cristiano Araújo, você é um imbecil. Não é uma ironia alguém que ouça devotamente uma canção cujo refrão é “bará-bará-berê” considerar quem não a conheça um idiota? Deixe­mos como ironia e não façamos julgamentos de qualquer ordem.

No entanto, a situação foi piorando conforme as ofensas iam se tornando repetitivas. Em questão de horas — porque a internet é mesmo assim rápida —, não conhecer ou não gostar da música do sertanejo tornou-se um desserviço ao imaginário, complexo e amplo conceito de goianidade.

Neste momento, abro um parêntese para dizer que, natural do Rio de Janeiro que sou, fui convidado não muito elogiosamente a me retirar de Goiás. Chamaram-me, inclusive de bandido que “vem do Rio para fazer não sei o que em Goiás”. Bará-Bará-Berê: ame-o ou deixe-o.

Até que, ao final da polêmica com cansaços por toda a parte, o momento da reflexão se sobrepôs. O extrato dos ataques ao texto interpretado como preconceituoso ou xenofóbico de Zeca Camargo sobre o artista revelou um incrível complexo de inferioridade igualmente geolocalizado.

Os ardorosos fãs do estilo sertanejo universitário se sentiram ofendidos não pela eventual — e nem de longe confirmada — profanação da memória do cidadão, pai, filho, de nome Cristiano Araújo, mas sim, pelo desprezo de significativa parte dos usuários de redes sociais, que veem neste segmento do sertanejo (o universitário) uma fonte de música sertaneja ruim, chata e uma prelazia da mediocridade. Prelazia esta, confirmada pelo comportamento revoltoso, mas desnorteado pela falta de argumentos e até mesmo capacidade de concatenação de ideias para defender qualquer tese.

O que sobrou do episódio é a nítida impressão de que há nos defensores e frequentadores destes eventos do estilo musical uma predisposição ao preconceito. Como se em qualquer esquina alguém o reconhecesse e o desmascarasse como um fã de onomatopeias inventadas — a confusão em que eu me meti na internet foi por ter dito que sempre confundi Cristiano Araújo com Gusttavo Lima: um canta “bará-bará-berê” e o outro canta “tcherere-tche-tche”. Os dois refrões integram canções fundadoras do estilo artístico-musical em questão.

Cá entre nós, é mes­mo complicado defender estes refrões. É natural compreender que nós, goianos comuns, confundamos identidade cultural com besteirol de massa. Afinal, o “ser goiano” a exemplo do “ser” qualquer outra coisa é uma profusão de clichês sem tamanho. Mas, se no domingo um representante goiano cantar um refrão idiotizado num programa de auditório, gera-se automaticamente uma autoestima desenfreada. Um quê de “estou sendo representado e mostrando ao Brasil o que é ser goiano”.

Não, não é. Nem como modelo da cultura brejeira, rural, riquíssima, estes podem ser exemplos a serem apresentados. Esta confusão somada à nevoa de um complexo de inferioridade — o Brasil durante muito tempo e ainda hoje é um grande Rio-São Paulo-Minas e eventual outros lugares — gera uma revolta sem precedentes quando alguém surge para mostrar não verdades absolutas, mas um outro lado a ser analisado.

Soa como ofensa, como agressão, como xenofobia. Assim como nós, brasileiros, temos um insistente complexo de vira-latas em relação ao mundo, manifesta na capacidade de falarmos mal de nós mesmos, os integrantes de Estados brasileiros que estão fora do ingrato e até criminoso (social e culturalmente falando) “Eixo” sentem a mesma coisa. E então, não reconhecer o trabalho artístico dos artistas do pop-sertanejo-universitário torna-se como atacar a cultura goiana.

Como disse, uma confusão perigosíssima. Se a cultura de Goiás se resumisse ou se fosse ao menos representada por tamanha limitação estético-cultural, mereceríamos todos sermos demovidos deste chão para que aqui se erguessem shoppings, estacionamentos ou casas de shows com agendas cheias de funk proibidão carioca e tchereretchetche.

Estas não são marcas da goianidade, da brasilidade, da carioquice ou sei lá o quê. Estes são clichês mercadológicos pobres, mas profundamente efetivos na missão a que se lançam: produzir dinheiro. Entender a análise de zecas camargos e aceitar a limitação da capacidade do cantor tragicamente morto e seus pares vivos como criadores de arte é, de fato, afirmar que temos riquezas culturais ímpares que não passam no Faustão e não rebolam no Gugu ou viram tema de pegação do programa do Rodrigo Faro.
A verdadeira goianidade, se existir e for apenas uma, não é feita de onomatopeias. Não usa cortes de cabelo punk ou camisas e calças agarradinhas. A verdadeira identidade cultural de um povo não é transmitida pela TV no domingo à tarde e nem desce goela adentro com cerveja e carne assada. A verdadeira identidade cultural de um povo não morre num acidente de carro. Ela não morre jamais.

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Rodrigo N. Leles

Gostei Morga! Sou jornalista e concordo contigo. Abs!

tiago da silva

Gostei muito Morga!, disse tudo. Sou Goiano, não gosto de sertanejo, e nem por isso, não me sinto menos Goiano…. nós precisamos antes de tudo, é procurar entender qualquer tipo de crítica, antes de sairmos atirando ofensas a quem quer que seja… tal atitude, só confirma a incapacidade, que o povo Brasileiro possui para entender e expor ideias isentas de sentimentalismo e romantismo.

Prof. Ivacil F. de Carvalho

Sou goiano com muito orgulho e concordo plenamente com o artigo! A verdadeira cultura goiana é representada por Cora Coralina (grande poetisa!), Ângela Barra e Marília Álvares (cantoras líricas de renome!), José J. da Veiga, Gilberto Mendonça Teles e outros grandes escritores! Dessa cultura, ninguém jamais me envergonhará, porque ela é goiana, brasileira, telúrica!!!!