Retratos da pobreza: quem são os cidadãos postos à margem pela desigualdade

Enquanto uma parte da população se queixa do isolamento social e do ganho de peso durante a pandemia, uma outra parte dorme todas as noites não sabendo o que vai comer no dia seguinte

Marias, Joões, Josés: quem são os cidadãos postos à margem da sociedade pela pobreza extrema / Foto: Ton Paulo

Tão logo apareceu o carro que eu havia chamado pelo aplicativo, tratei de avisar por mensagem que estava a caminho. Havia combinado com Juliana e Kelly, as cabeças (e também as mãos e corações) à frente do projeto social Friends, de Goiânia, que eu as acompanharia ao longo do dia. Para elas, aquela seria mais uma quarta-feira comum de doações de cestas básicas e visitas. Desde o mês de março deste ano, as duas, em conjunto com amigos e conhecidos, têm se dedicado diariamente a conseguir doações de suprimentos para aqueles que perecem com a pobreza extrema, e que com a crise causada pela pandemia do novo coronavírus viram suas condições, já insuportáveis, desmoronarem de vez. Para essas pessoas que estávamos prestes a visitar, a Covid-19 era mais um problema para fazer companhia à maior e mais presente inimiga: a fome.

Conforme os quilômetros eram vencidos, a típica paisagem das áreas centrais da capital de Goiás começava a variar: os grandes prédios davam lugar às casas pequenas e humildes; os jardins das praças rareavam, fazendo aparecer o mato e os terrenos baldios. Mais de uma hora depois, eu havia chegado ao meu destino: o setor São Domingos, na região Noroeste de Goiânia. Num carro parado na rua, Juliana e Kelly me esperavam. Depois dos cumprimentos “à la quarentena”, Juliana vai até um barracão humilde com um pequeno portão de grades e chama por um nome feminino. Aquela era nossa primeira visita.

Jakeline

Era impossível não notar a alegria estampada no rosto daquela senhorinha ao ver a Kelly e a Juliana. De baixa estatura, cabelo curto e grisalho, da cor de algodão, e vincos profundos no rosto, Jakeline Aparecida, de 58 anos, abre o portão para nos receber. “Esse é o rapaz que eu falei pra senhora que vinha com a gente hoje!”, diz Juliana, se referindo a mim. Sem me aproximar e de máscara, cumprimento e faço um comentário descontraído. Dona Jakeline sorri, e escorada no portão, acena com a cabeça em direção às visitantes: “Essas aí são meus anjos”.

O vestido colorido de Dona Jakeline contrasta com seu olhar. Duro, sofrido. Ela é uma das pessoas adotadas pelo projeto de Juliana e Kelly, e que acabou se tornando parte de um forte vínculo afetivo. “Vovó, também tem a carne! Mas esqueci dentro do congelador. Eu vou trazer pra senhora depois, ta?”, exclama Juliana indo em direção ao porta-malas do carro para pegar a cesta básica que será doada. Dona Jakeline assente e observa, talvez tímida pela minha presença.

Ela vive sozinha no que é um cômodo com banheiro cedido pela vizinha, sua amiga. Moradora do setor São Domingos há cerca de cinco anos, Dona Jakeline é natural de Anápolis. Ela me conta que veio para Goiânia depois de ter perdido sua casa. Pergunto como se deu a perda. “Ah, meu filho. Não queria falar disso não, ainda é muito pesado pra mim”, me responde, num tom de voz sereno e um pouco rouco. Descubro, depois, a relação do fato com a prisão de seu filho.

Natural de Anápolis, Jakeline Aparecida, 58, mora em Goiânia há cerca de 5 anos e vive apenas de doações / Foto: Ton Paulo

A história com o filho, hoje já fora da cadeia, lhe rendeu um rompimento com o resto da família. O outro filho, assim como os irmãos de Dona Jakeline, vivem em Anápolis mas não mantêm nenhum contato com ela. “Por causa do meu filho, ne. Eles não aceitam até hoje. Mas eu vou fazer o quê? Era meu filho”, desabafa, enquanto mira o chão. Ela tem um neto de dois anos, o qual não vê há tempos. “Eu vi ele umas duas vezes, mas agora a mãe dele não deixa mais”, diz.

Dona Jakeline, que trabalhou como doméstica e faxineira a vida toda, nunca foi à escola e só foi alfabetizada graças à dona de uma fazenda onde trabalhou quando tinha apenas 9 anos de idade. Hoje Dona Jakeline não tem nenhuma renda e vive apenas de doações e da bondade daqueles que cruzam o seu caminho. Segundo ela, há pouco menos de dois anos começou a receber uma pensão em razão de seu problema de saúde – uma depressão enfrentada há mais de 20 anos, e que faz com que ela tenha que ir a cada dois meses à Central de Medicamentos de Alto Custo Juarez Barbosa buscar seus remédios. Entretanto, o benefício foi cortado. “Eles não deram explicação nenhuma, só cortaram. O advogado fala que talvez posso voltar a receber, mas não sei de nada”, diz.

O dinheiro da pensão faz falta. Dona Jakeline elenca o que fazia enquanto recebia o benefício e recorda como era a realidade de seu barracão quando se mudou para ele. “Foi com esse benefício que eu consegui fazer um banheiro pra mim, porque era só um cômodo. Não tinha banheiro. Banho eu tomava com latinha, aqui no quintal, e o resto eu tinha que fazer numa sacolinha. Esse dinheiro me ajudava muito também pra comprar comida, remédio. Hoje é só de doação que eu vivo mesmo”, revela.

Há gratidão em seus olhos enquanto observa suas visitantes levarem a cesta básica para dentro do barracão. “Se não fossem as meninas eu não sei como seria”. Alimentar-se sempre foi uma luta diária para Dona Jakeline. Ela conta que costumava fazer suas refeições no Centros de Atenção Psicossocial, o CAPS, que agora, por causa da pandemia, não está mais oferecendo esse serviço. Ultimamente, ela garante que tem comido melhor, graças às doações e à ajuda que tem recebido, tanto de Kelly e Juliana quanto de amigos e vizinhos, mas destaca a realidade difícil de todos na região: “Aqui ninguém tem, todo mundo passa dificuldade. Às vezes a pessoa tira sem poder pra dar pra gente”.

Na parte externa do humilde barracão, a ausência de reboco é ofuscada pelas várias plantas de Dona Jakeline. Ela confessa sua paixão pelas plantinhas e as exibe com orgulho. Peço para tirar uma foto. “Pode, pode tirar sim”, responde, enquanto literalmente corre para sair do enquadramento.

As plantas de Jakeline dão vida à parte externa de seu barracão / Foto: Ton Paulo

Já na despedida, pergunto à Dona Jakeline o que ela espera para o futuro após esta terrível época de vírus e enfermidades respiratórias. Ela para, como se pensasse na resposta, e revela um medo. “Eu não queria que elas sumissem de mim”, diz, se referindo às suas benfeitoras. “Nunca, vovó!”, responde Juliana. Ali, naquele momento, fica óbvio: Dona Jakeline não estava preocupada com as doações – que a salvam diariamente – mas sim com a neta que ela sempre quis ter, e que agora parece ter encontrado.

João e Tatiana

As visitas de Juliana e Kelly à região do setor São Domingos parecem já ter ficado conhecidas. Prestes a partir e ir em direção ao segundo destino, percebo a aproximação do casal João e Tatiana, aparentemente atraídos pela movimentação em frente à casa de Dona Jakeline.

Sente-se a alegria de João Nojosa, de 42 anos, de longe. Vestindo uma camiseta verde-água um pouco suja de terra, chapéu com abas dobradas, bermuda jeans e chinelos, ele chega cumprimentando a todos efusivamente, com um grande sorriso de alguns poucos dentes. Sua esposa, Tatiana Pereira, de 41 anos, um pouco mais tímida, vem logo atrás.

Alguém pergunta a João sobre o saco de rede amarela que ele traz nas costas. “É resto de verdura ali da hortinha, pro meu porco”, explica, sorridente. Ele convida os presentes a irem até sua casa, e vai na frente num passo rápido, como um guia ansioso. Logo atrás, sua mulher, morena e esguia, num vestido colorido, e os visitantes. No pequeno trajeto, João começa a falar de sua participação na construção do bairro. “Foi eu que abri isso tudo aqui, ó”, diz apontando para a rua e para as casas. “Cheguei aqui, não tinha nada. Eu que abri tudo”.

Tatiana se mudou do Maranhão para Goiás em 2000, após casar-se com João. Na foto, ele carrega o que mais tarde seria o alimento de seu porco / Foto: Ton Paulo

Na área externa da casa, próximo ao tanque sobre tijolos onde Tatiana lava a louça, dois vira-latas brincalhões observam as visitas chegando. “Tati, passa um cafezinho pra eles lá”, pede João. A esposa sai apressada. Juliana já cuidou de deixar a cesta básica doada em um canto. A conversa da participação na construção do setor São Domingos emenda na longa lista de lugares onde João diz já ter trabalhado. De pisos de grandes supermercados de Goiânia até galpões de indústrias, João, que é natural do Estado do Tocantins, vai desfiando suas histórias. “Eu trabalhava demais viajando. Maranhão, Pará, aqui em Goiás. Eu trabalho mais na construção civil, mas minha profissão mesmo é operador de máquinas pesadas e fabricante de mangueira”, conta. Entretanto, tanto ele quanto Tatiana estão desempregados.

O fato de estar ocioso parece mexer com João, e o faz querer mostrar que trabalho sempre foi algo presente em sua vida. “Eu trabalho desde os nove anos de idade. Tatiana, pega minhas carteiras lá pra ele ver!”, pede à esposa, que ouvia a conversa enquanto a água do café fervia. Ela sai apressada e volta em menos de um minuto com duas carteiras de trabalho. As duas com todas as folhas preenchidas. Ele folheia os documentos como quem exibe uma medalha: orgulho, feliz.

João reclama que tentou conseguir o auxílio emergencial, benefício do governo federal para pessoas sem renda, mas não conseguiu. “Fiz o cadastro, tudo direitinho, mas foi negado. O gerente da Caixa [Econômica] disse que eu tinha que ir não sei aonde, na Receita, mas não fui não”, diz. O casal, assim como Dona Jakeline, também tem contado com doações para enfrentar a crise.

Com duas carteiras de trabalho cheias, João trabalha desde os 9 anos de idade / Foto: Ton Paulo

Durante o tempo todo em que João conversa, Tatiana assente e corrobora das falas do marido. A ligação entre eles é visível. João conta que no final da década de 1990 foi para o Maranhão em busca de emprego. Lá, acabou arranjando emprego com o pai de Tatiana. No ano de 2000, eles decidiram se mudar para Goiás. “No mesmo ano a gente se conheceu, já gostou um do outro e já casou!”, contam os dois, entre risos. Do relacionamento, vieram três filhos: dois homens e uma mulher. Os três já casados e com suas vidas separadas.

O café fica pronto, e eu tomo enquanto observo João falar de seu porco. Um chiqueiro improvisado foi montado nos fundos da casa simples. “To engordando ele”, diz João, sorridente, sobre o suíno. Já é início de noite quando, ao lado de Juliana e Kelly, deixamos a casa do João e da Tatiana. Ele nos leva até o carro e agradece a doação da cesta básica. Antes de se despedir, João aponta para dois adolescentes que parecem brigar usando vassouras no meio da rua. “Ta vendo aqueles dois ali? Preocupa não, é só brincadeira! Eles são irmãos”.

Sim, João realmente havia ajudado a construir aquele bairro, e mais do que ele imaginava.

João e Maria

Passava das 19h quando chegamos à casa do Sr. João Honório, de 65 anos, e sua esposa Maria Viana, de 52. A residência de portão cinza fica localizada no fim de uma rua do setor Finsocial. Já com a cesta básica na mão, Juliana bate no portão. Em pouco tempo surge João, um idoso grisalho de estatura baixa e magro, vestindo uma camisa vermelha e uma calça vinho que dão a ele o ar de ser ainda menor.

João anda um pouco curvado, talvez devido à idade, e tem a fala mansa, tranquila. Ele nos convida para entrar e já avisa: Maria não está. O irmão da esposa faleceu repentinamente, vítima de um AVC, o que fez com que ela fosse às pressas para Minas Gerais.

Na garagem da casa, uma velha Pampa divide espaço com uma Mobilete e alguns carrinhos, desses usados em feiras para vender produtos, além de lonas e ferros amontoados. Aquelas são as ferramentas de trabalho de João. O idoso vende pipoca industrializada, estilo milhopan, nas feiras e pontos de movimento de Goiânia, como a Região da 44. Ou melhor: vendia. Por causa da pandemia e a não realização das tradicionais feiras, João perdeu sua principal – e única – fonte de renda.

Em dias bons de venda, João Honório tira em torno de R$ 15 de lucro / Foto: Ton Paulo

Como meio de remediar, ele passou a vender seus produtos alimentícios na porta de um grande supermercado localizado no Setor Balneário Meia Ponte. Entretanto, não é a mesma coisa. Ele conta que em dias bons, chega a vender R$ 30. Porém, só metade disso é lucro. Ou seja, dias de muita venda, João fatura R$ 15 – em torno de R$ 450 ao mês para a família. Em alguns dias, a sorte lhe sorri, mas só em alguns dias. “Uma vez tinha uma família, com crianças, saindo do supermercado, e aí eu ofereci minhas pipocas. Só que eles passaram direto. Daí quando eles chegaram no carro, a menina voltou com um dinheiro enrolado na mão, parecia ser uma nota de dois reais. Quando ela me entregou, era uma nota de cem”, recorda.

O dia mencionado por João é uma exceção. Desde que deixou de vender em locais onde há grande fluxo de pessoas, ele e a esposa têm feito das tripas, coração para conseguir prover a casa, onde também mora sua neta de 12 anos. João tem tentado a aposentadoria, e garante que já está mexendo com a papelada. O que tem dado fôlego é a pensão por morte que Maria, viúva há dez anos, recebe. O dinheiro vai todo para as despesas básicas.

João Honório e Maria Viana são casados há 13 anos. O idoso ainda tem viva na memória a lembrança de quando a conheceu. “Eu encontrei ela na feira, num dia em que eu tava vendendo picolé. Aí um amigo nosso apresentou a gente, trouxe ela aqui em casa”, recorda. À época, ele tinha 52 – a idade de Maria hoje. Ele me pede alguns instantes e sai para buscar a certidão de casamento para me mostrar.

Na estante, alguns livros que mostram à devoção de Maria Viana ao estudo de sua religião / Foto: Ton Paulo

Ele é católico, e ela das Testemunhas de Jeová. Pergunto se ela conseguiu convertê-lo. “Não, eu continuo católico. Mas ela tem a religião dela, ne”, diz. Na sala simples de piso de concreto, sob a iluminação fraca de uma lâmpada incandescente, alguns livros relacionados à religião de Maria ocupam uma prateleira. Ao lado do móvel, uma mesa de madeira sustenta a cesta básica trazida por Juliana e Kelly.

“Ajuda demais, ne. Ta muito difícil pra gente, pra todo mundo. Parece que nessa época, os grandões enfraquecem e os pequenos acabam”, diz, enquanto abraça o corpo e olha para os alimentos que acabara de receber.

Gabriele

“Agora é a última casa de hoje”, me avisa Kelly enquanto nos despedimos de João Honório. No caminho, elas param enquanto Juliana desce e compra latas de Coca-Cola e pão-de-queijo. Nenhum dos três comeu nada desde às 16h. A situação é rotina para elas: quando saem para entregar doações, não existe hora de parar para comer ou de voltar pra casa. Enquanto conversamos no carro, Juliana fica o tempo todo no celular: negociando doações, recebendo pedidos de ajuda e agradecimentos. Não existe um botão de “Pause”.

Conforme avançamos, a noite cai mais densa e as casas começam a rarear. O setor Alto da Boa Vista, em Aparecida de Goiânia, é, na verdade, uma ocupação, e fica à margem do resto da cidade. O carro entra em uma estrada de terra, e no lugar quarteirões com iluminação pública e calçadas, vemos agora barracas de lona montadas de forma improvisada. Nos postes, os famosos “gatos” garantem a eletricidade de cada uma das frágeis estruturas. Alguns dos moradores estão sentados do lado de fora das barracas, rindo e conversando. Devido à região, a internet do celular de Juliana começa a falhar, e o GPS nos faz entrar equivocadamente em alguns becos até conseguir encontrar o destino certo.

Na entrada da barraca, Gabriele Rosa, vestindo uma blusa de lã, bermuda rosa, meias e chinelos, nos espera. A moça de 23 anos parece animada e abre um sorriso quando Kelly, a condutora, estaciona o carro. “Que bom que vocês vieram!”, exclama. Ela nos convida para entrar. O barraco tem dois pequenos cômodos: um é a cozinha e o outro é quarto e sala. As paredes são tábuas, placas de metal e lona, e o chão é de terra batida.

No segundo cômodo, numa rede azul estendida, está dormindo Brayan Felipe, de menos de um mês de vida. Ele é filho de Gabriele e Bruno, de 26 anos, casados há três anos. Ela conta, enquanto acalenta o bebê, que eles moravam de aluguel no setor Jardim Tirandentes quando ficaram desempregados ao mesmo tempo. “Ele trabalhava como costureiro e eu era auxiliar de costura. Mas aí teve essa crise, né, e o dono teve que fechar e mandou todo mundo embora”, diz.

Apesar da moradia precária, Gabriele conta que foi um alívio se livrar de despesas como aluguel e luz / Foto: Ton Paulo

Bruno, o marido, estava recebendo o seguro-desemprego. Porém, o auxílio já acabou. Gabriele e o marido estão dependendo de doações para viver. Ele faz serviços esporádicos, os famosos “bicos”, mas estes são ocasionais. Gabirele conta que tentou conseguir o auxílio emergencial do governo federal, mas não conseguiu. “Disseram que eu não preenchia os requisitos lá. Fiz a inscrição de novo, agora to esperando”. Pergunto o que ela pretende fazer com o dinheiro do auxílio emergencial, caso ele seja aprovado. Ela responde que pretende reformar a casa, melhorá-la.

Enquanto fala, o vento frio da noite entra no ambiente pelos vãos existentes nos encaixes das placas de metal e lona das paredes. Mas ela não reclama: muito pelo contrário. Na ocupação há cerca de quatro meses, Gabriele diz que se sente aliviada de não ter mais despesas como aluguel, água e luz. “Eu pensei que aqui ia ser ruim, mas ta sendo é muito bom! É difícil quando se paga aluguel. Lá no Tiradentes, só de aluguel a gente pagava quinhentos reais”, expõe, enquanto protege Brayan do vento frio que entra.

Enquanto conversamos, Sandra Carneiro, sogra de Gabriele, entra no quarto/sala. Ela morava junto com o casal antes de se mudarem para o Alto da Boa Vista, e hoje vive em um barraco vizinho ao da nora. Pergunto sobre a organização do lugar, e a resposta surpreende. Sandra é voluntária na associação de moradores da região, que juntos conseguiram construir até uma creche no setor. “A gente que se junta e faz tudo por aqui. Essa creche mesmo, fomos nós que construímos, sem ajuda nenhuma do governo. Os moradores que se organizaram e fizeram”.

Sandra revela que a associação, que conta com 47 voluntários, também é responsável pelo censo da ocupação. Segundo ela, há três meses cerca de 250 pessoas viviam no local. Hoje, já são 450. “Muita gente dessa região, nessa crise, perdeu o emprego e a renda e ficou sem ter para onde ir. Daí eles vieram pra cá”, explica. De acordo com ela, cerca de 30 gestantes vivem ali, além de idosos e pessoas com enfermidades, como câncer e diabetes. A precariedade do sistema elétrico é um dos pontos que preocupam nesse aspecto. “Tem um senhor em um barraco aqui que precisa deixar a insulina dele na geladeira. Mas como a energia é puxada do poste, é como a gente pôde fazer, ela cai muito”, diz.

Do lado de fora de um barraco, um homem faz uma fogueira para se esquentar / Foto: Ton Paulo

Poucos são os barracos que possuem banheiros. Descubro depois que há um número específicos de banheiros, que são coletivos: normalmente um para cada três barracos. Somente os moradores com condições melhores possuem banheiros próprios.

A coleta de lixo foi outro ponto que Sandra fez questão de me explicar. Ela diz que o caminhão do lixo não consegue entrar no setor devido aos fios elétricos pendurados em alturas baixas. Os membros da associação, então, passam um dia por semana nos barracos recolhendo uma quantia em dinheiro, que vai para o combustível de um veículo que passava recolhendo o lixo dos moradores. “A gente sempre pede pro pessoal colocar o lixo numa sacolinha, num caixote, que a gente passa recolhendo. Tem um rapaz ali que tem a caminhonete, a gente coloca a carretinha e pega o lixo. Aqui o pessoal é muito unido”, conta.

Juliana deixa a cesta básica num canto da cozinha, enquanto saímos e nos despedimos. Do lado de fora, o vento sem paredes de concreto para interrompê-lo açoita a lona das barracas. Na frente de uma delas à frente, alguém faz uma fogueira. Compreensível pelo frio daquela noite. Passamos por ela enquanto deixamos o lugar. Um homem, vestindo um moletom, estende as mãos em direção ao fogo no intuito de se esquentar, enquanto nos observa.

“Ajudar vira um vício”

A realidade de famílias carentes em Goiás é dura e numerosa. Segundo um relatório do Instituto Mauro Borges que usa dados de 2018 do Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico), instrumento que identifica e caracteriza as famílias de baixa renda e permite mensurar a realidade socioeconômica da população, 775.448 famílias cadastradas, totalizando 2.057.100 pessoas, são consideradas de baixa renda no estado.

Dos cadastrados no CadÚnico em Goiás, a maior parte dos domicílios sofre com algum tipo de privação na dimensão renda. São 450.155 domicílios nessa condição, que representa 58,1% dos cadastrados. E foi esse perfil de indivíduo que Juliana Arantes, de 28 anos, decidiu começar a ajudar.

Formada em Relações Públicas, a jovem saía de um supermercado localizado na Vila Redenção em Goiânia, em março deste ano, quando ouviu dois homens em situação de rua conversando entre si. Um deles queria saber por que havia tantas pessoas usando máscaras na rua. Tocada pelo estado de marginalização extrema em que estavam os homens, Juliana fez um vídeo em que pedia ajuda para tirá-los daquela situação. Funcionou, e como funcionou.

A iniciativa acabou virando um grupo de ajuda, e no dia 21 do mesmo mês nasceu o Friends. Alguns amigos, incluindo Juliana e a esteticista Kelly Freitas, decidiram se juntar e organizar um esquema de aquisição de doações para pessoas em situação de vulnerabilidade social, e cuja condição se agravou com a pandemia do coronavírus.

Desde que o grupo começou a ganhar notoriedade, as doações chegam de todos os tipos e de todos os lados. “Teve vez de a gente receber uma doação de ketchup”, relembra Juliana. E toda ajuda é bem-vinda, destaca ela. Graças à rede de contatos do grupo, doações chegam até através de lives de duplas sertanejas como Lucca e Roberto e Cleber e Cauan. Numa dessas lives, o Friends chegou a arrecadas R$ 10 mil, valor que foi todo convertido em alimentos para as famílias beneficiadas.

O grupo tem um rígido controle de gastos e prestação de contas. Após a aquisição dos alimentos, os valores empregados e a quantidade de cestas básicas adquiridas são divulgados como meio de consolidar a transparência do processo de doação.

Juliana e Kelly (dirigindo) a caminho de uma doação / Foto: Ton Paulo

Juliana e Kelly são alguns dos membros mais ativos do grupo. As duas, que já se conheciam antes de compor o Friends, estabeleceram um profundo vínculo de amizade com o processo de doação. “A minha mãe é do grupo de risco da Covid-19, e eu comecei a ficar receosa porque saio muito pra fazer as doações. Então a Kelly me convidou pra ficar na casa dela. Lá virou uma segunda casa pra mim”, diz Juliana.

Kelly conta que entrou de corpo e alma no projeto, e relembra situações que a marcaram. “Teve uma vez em que fomos levar uma cesta básica na casa de uma senhora, e quando chegamos lá ela disse que havíamos chegado na hora certa. Ela contou pra gente que como não tinha nada de comida em casa, matou um pintinho para comer. Aquilo mexeu muito comigo”, recorda.

A esteticista também menciona uma ocasião em que a intenção de ajudar o projeto por parte de uma conhecida a deixou comovida. Segundo Kelly, a mulher entrou em contato com ela dizendo que queria muito ajudar o projeto, mas que estava desempregada. “Ela pediu a conta bancária e perguntou se podia depositar dez reais, e ela depositou”, relembra, com a voz embargada.

Para Kelly, quando se começa, ajudar vira um vício. Ela conta que sai com Kelly para algum lugar e no carro já deixa algumas cestas básicas. Quando notam alguma pessoa na rua que podem estar precisando, as duas param e entregam os alimentos.

O grupo, que nasceu pequeno e com a simples vontade de ajudar aqueles que precisam, acabou virando um grande movimento, e hoje Kelly e Juliana já planejam transformar o Friends em uma OnG. “Até começamos a mexer com a papelada, mas por causa da pandemia, parou tudo”, explica. Para elas, “existe uma diferença entre querer ajudar e estar disposto a ajudar”, e levando em conta todas as famílias que tiveram no movimento delas a renovação da esperança, Juliana e Kelly estão no caminho certo.

Uma resposta para “Retratos da pobreza: quem são os cidadãos postos à margem pela desigualdade”

  1. Jose Eduardo disse:

    Muito bom ver essa iniciativa ! Parabens, que Deus abencoe e muitas pessoas mais possam ajudar, que nossos politicos possam sair as ruas e ver a realidade com seus proprios olhos.

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