Pela quinta vez consecutiva, os opositores chegam às urnas prevendo mais uma derrota. O que faltou?

Marconi Perillo: poder aguçado para enxergar situações e se posicionar antecipadamente no embate eleitoral |  Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção
Marconi Perillo: poder aguçado para enxergar situações e se posicionar antecipadamente no embate eleitoral | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Afonso Lopes

Salvo uma hecatombe eleitoral sem qualquer precedentes na história, o governador Marconi Perillo será reeleito neste domingo, 26, com larga margem de votos sobre seu oponente, o peemedebista Iris Rezende. Será a quinta vez consecutiva que PSDB e PMDB protagonizam o cenário principal da disputa política estadual, e será também a quinta derrota dos peemedebistas. De resto, também são derrotados todos os demais grupamentos que compõem a oposição, como o PT e a chamada terceira via, que jamais conseguiu se impor com força real de combate.

É inegável que o eixo político li­de­rado por Marconi Perillo tem um somatório de méritos administrativos, políticos e eleitorais que justifica esse notável desempenho desde 1998, mas também é certo que os opositores conseguem errar nas mesmas coisas o tempo todo, co­mo se das derrotas não houvesse ne­nhum aprendizado a ser absorvido. Pior do que isso, os opositores não conseguem nem ao menos o­lhar para a história eleitoral do Es­ta­do, donde se encontram incontáveis detalhes que analisados corretamente formam um parecer in­ques­tionável sobre vitórias e derrotas.

Vanderlan Cardoso (direita): 3ª via? Iris Rezende: sem conseguir a união que tornaria possível a vitória
Vanderlan Cardoso (direita): 3ª via? Iris Rezende: sem conseguir a união que tornaria possível a vitória

Ruptura do poder

Desde o retorno das eleições diretas para governador, em 1982, o eleitorado goiano promoveu duas estupendas rupturas no poder instalado. Foi exatamente naquele ano, em 82, e em 1998. Em todas as demais eleições, o núcleo do poder não sofreu abalos mais sérios.

Apenas duas vezes, e nas duas há fatores idênticos. O primeiro deles é a união total das grandes forças oposicionistas. Em 1982, que ainda tinha muitos resquícios do bipartidarismo imposto pelo regime ditatorial, o PMDB formava um grande leque partidário, que reunia de comunistas do PCdoB e do PCB, aos herdeiros do espólio do PSD e do PSB, passando ainda por autênticos e moderados do velho MDB. Todos juntos, e sem dissidências, carregaram a candidatura de Iris Rezende a uma vitória que rompeu com o sistema de poder dominante, que ainda era remanescente da ditadura.

Também foi assim em 1998, quando os quatro grandes partidos da oposição de uniram e, ao fim de um complicado processo de escolha, caminharam com a candidatura de Marconi Perillo contra o amplo domínio palaciano do PMDB. An­tes de ter um nome para o governo, PSDB, DEM, PP e PTB ti­nham um propósito. Portanto, nessas duas eleições, que quebraram a estrutura do poder dominante no Estado, salta aos olhos esse primeiro fator: a união de toda a oposição, sem dissidências.

O segundo ponto comum entre 1982 e 1998 é a crise interna dos setores dominantes. Em 82, o PDS, descendente direto da Arena, chegou ao processo eleitoral profundamente dividido. O Palácio das Esmeraldas, comandado por Ary Valadão, foi derrotado nas convenções do partido pelo grupo de Otávio Lage (já falecido). Em 98, mais uma vez o Palácio das Esmeraldas foi derrotado internamente. A candidatura natural do PMDB era a reeleição do governador Maguito Vi­le­la, mas Iris Rezende, então Mi­nis­tro da Justiça, com ampla ma­ioria interna, se impôs candidato.

Somente esses dois fatores históricos já deveria servir de alerta máximo para os pensadores oposicionistas. Principal­men­te quanto ao aspecto da união total contra o centro do poder. É claro que essa união pode não ser suficiente para quebrar o sistema político dominante, mas sem ela, pelo menos até hoje, foi absolutamente impossível.

Reedição em 2014

Ao se focar apenas as duas últimas eleições, 2010 e a atual, pode-se observar a mesma linha de atuação oposicionista. Primei­ro, um culto à personalidade como nunca se tinha visto antes. A oposição se comportou como um cercadinho cheio de pavões, todos se exibindo maravilhosamente grandes e prestes a conquistar todo o eleitorado de maneira arrebatadora. Na atual eleição, inclusive, muito mais do que na anterior.

Por sinal, em 2010, havia, sim, um dos fatores comuns em 82 e 98: a crise interna no núcleo do poder. O Palácio das Esmeraldas se rebelou contra o próprio grupo a que pertencia. E nem assim os opositores se uniram para sacramentar uma derrota ao eixo político liderado por Marconi Perillo.

É possível que a aparente fragilidade político-eleitoral de Marconi em 2010, e que se imaginava ainda maior para agora, em 2014, tenha provocado nos opositores uma forma de insensatez absoluta, que os levou a menosprezar a capacidade de reação de Marconi, e sua extraordinária visão político-eleitoral. E esse erro, o menosprezo pelo adversário, é costumeiramente fatal nos processos eleitorais.

Em 2010 e em 2014, portanto, os opositores se comportaram exatamente da mesma forma. Aliás, de forma mais agravada ainda em 2014. No PMDB, por exemplo, a candidatura de Iris Rezende só se efetivou após se desgastar ao máximo num duríssimo embate interno. Foi uma candidatura sobrevivente, mas com ferimentos evidentes e com hemorragias incontroláveis. Não é sem motivos que Iris Rezende colheu nas urnas do primeiro turno a pior votação dentre todas eleições que disputou para o governo do Estado e para o Senado desde 1982, com apenas 898 mil votos. Ele foi menos votado agora do que ao ser derrotado no processo de reeleição para o Senado, em 2002, quando teve mais de 1 milhão de votos.

Vanderlan Cardoso, que se pretende um general do terceiro exército político eleitoral do Estado, também teve menos votos agora do que em 2010. Desta vez, ele não chegou ao meio milhão de votos, como na eleição anterior. Pode-se alegar, e com alguma razão, que este ano havia mais um concorrente de peso, Antônio Gomide, que provocou uma maior divisão dos votos. Mas Marconi, o candidato mais diretamente atingido pela votação de Gomide, especialmente em Anápolis, teve 50 mil votos a mais agora do que no primeiro turno de 2010.
Se na primeira das cinco vitórias do eixo político que está no poder em Goiás houve uma convergência das lideranças, nas demais houve a convergência em torno de uma liderança.

Marconi Perillo tem um poder extremamente aguçado para enxergar situações e se posicionar correta e antecipadamente. Dentro de quatro anos, os opositores mais uma vez vão ter que enfrentar o grupo liderado por ele. Se não foi fácil até aqui, é certo que continuará difícil.