Relacionamentos encontram novos rumos na era do amor líquido

Ferramentas que facilitam o contato social, aplicativos e redes sociais na internet se transformaram em auxiliares na aproximação de pessoas

Mariana Felipe saiu pela primeira vez com alguém do Tinder quando conheceu Pedro Henrique. Deu namoro | Fotos: Arquivo Pessoal

Mariana Felipe saiu pela primeira vez com alguém do Tinder quando conheceu Pedro Henrique. Deu namoro | Fotos: Arquivo Pessoal

Augusto Diniz

“É a história mais velha do mundo/Um destino que foi desenhado/O que mais alguém pode querer/Além de amar e ser amado?” Os versos da canção “A História Mais Velha do Mundo”, do grupo pau­listano O Terno, evidenciam uma necessidade básica do ser humano desde sempre: a busca por se relacionar com outras pessoas. Desde quando as pessoas se casavam com os membros da mesma igreja, no século 19, até os cliques necessários para dar um match (combinar) no aplicativo Tinder, as pessoas continuam a tentar encontrar a realização de desejos e a satisfação de vontades no campo amoroso.

Seja em um namoro, casamento ou numa simples ficada, o convívio sempre foi necessário para saciar esses desejos, para encontrar o par perfeito ou achar um parceiro casual. O que antes acontecia no meio de convívio de pessoa, hoje tem a possibilidade de acontecer por meio da internet. E essas novas oportunidades chegam por meio das redes sociais ou aplicativos, nos quais há uma quantidade maior de pessoas ao alcance de um clique, uma curtida, um comentário, uma combinação ou uma hashtag.

Para o sociólogo polonês Zyg­munt Bauman, autor do livro “Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos La­ços Humanos” (Jorge Zahar Editor, 2004), as relações pautadas em uma lógica consumista de idealizações e concretizações, que se­guem a ordem capitalista, tornaram os relacionamentos, amorosos ou não, mais superficiais, fugazes e descartáveis. Da mesma forma como podem começar com um simples like, eles acabam a partir da exclusão de uma amizade no Facebook, por exemplo.

A expressão amor líquido vem de uma substância em estado líquido, que se forma por uma ligação de moléculas que pode ser rompida com mais facilidade do que em uma substância em estado sólido. “Numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro”, diz Bauman.

Apesar de as relações iniciadas em meios virtuais seguirem, em regra geral, um contato iniciado por uma apresentação superficial baseada na aparência, como na prateleira de produtos do Tinder — como certas pessoas gostam de definir as relações construídas por meio do aplicativo, na qual o homem ou a mulher ali presente se torna uma mercadoria a ser consumida pelos olhos do expectador que decide se gostou ou não do que viu passando o dedo para o lado direito ou esquerdo da tela —, cada usuário define a sua forma de utilização dessas ferramentas e tecnologias.

Mesmo na visão mais apocalíptica das relações individualistas construídas a partir da visão capitalista de mundo e do advento da aproximação virtual de pessoas que se isolam em telas luminosas com a universalização do acesso à internet, existem casos de pessoas que consolidaram relações amorosas por meio de aplicativos e redes sociais com pessoas que nunca tinham visto antes e vivem uma história amorosa real iniciada em plataformas virtuais.

Bastou um match

Quando a jornalista Mariana Felipe de Oliveira, de 22 anos, resolveu usar o Tinder no final de agosto de 2014, não passou pela cabeça dela que um aplicativo a colocaria em um namoro de dois anos e dois meses. Na primeira vez que resolveu sair com alguém que deu match, ou seja, deu combinação, uma saída para tomar açaí se transformou em um relacionamento sério.

Caso você nunca tenha usado o Tinder, que contabiliza mais de 10 bilhões de matchs entre seus usuários desde 2012, a pessoa vê o perfil com fotos dentro do grupo de interesse que marca no aplicativo: sexo, raio de distância em quilômetros e idade mínima e máxima. Quando Mariana deu like na foto do engenheiro eletricista Pedro Henrique Franco, de 26 anos, por sorte, como ela descreve, o perfil dela também apareceu entre as mulheres que o rapaz curtiu no aplicativo, que havia mudado para Goiânia para iniciar um mestrado.

Como os dois curtiram o perfil um do outro, o Tinder avisou que eles combinaram, o conhecido “deu match”. Foi quando começaram a conversar pelo aplicativo. Poucos dias depois saíram para tomar açaí. Mariana tinha se mudado de Aná­polis para Goiâ­nia, onde fez faculdade de Jor­na­lismo. Pedro é de Jataí e veio para a capital fazer mestrado. O jovem estava na cidade há poucos dias quando os dois se conheceram pelo Tinder.

Com um pouco de medo por não conhecer Pedro até então, Mariana enviou a placa do carro do engenheiro eletricista para uma pessoa conhecida. “É esquisito sair com uma pessoa que você nunca viu, não tem referências. Eu fiz algo que sempre faço quando pego táxi”, conta.

O match entre os dois aconteceu poucos dias depois de ela instalar e começar a usar o aplicativo no celular. E como os dois começaram a namorar pouco tempo depois, o casal resolveu desinstalar o Tinder. “Eu não imaginava que meu namorado viria do Tinder” (risos), lembra Mariana. A jovem conta que nunca teve um relacionamento amoroso mais longo do que o com Pedro, que completa dois anos e três meses no final de novembro.

A insegurança do primeiro encontro com um desconhecido passou depois de se conhecerem naquela tarde em que foram tomar açaí. “Sempre achei normal usar a internet para conhecer pessoas. Tem várias formas de as pessoas se conhecerem, a internet é só mais uma delas.” Ela diz isso, mas revela que é a primeira vez que um namoro começou a partir de uma rede social ou aplicativo.
“Eu fiz o Tinder por insistência de amigos, na noite do meu aniversário — 20 de agosto —, dias antes de conhecer o Pedro. Mas também nunca fui de sair com várias pessoas, então só saí com ele porque desde que começamos a conversar pelo aplicativo nos demos muito bem.”

Nunca houve um pedido de namoro de nenhuma das partes na história de Mariana e Pedro. “Só depois de uns meses começamos a usar a palavra namoro. Nós não falávamos que estávamos namorando, sabe? Mais por cuidado mesmo, mas saíamos juntos sempre”, descreve a jovem.

Apesar de o relacionamento ter começado a partir de um contato inicial por uma ferramenta virtual, os dois só começaram a se identificar como namorados depois que foram apresentados aos pais, no molde mais tradicional das relações amorosas. O uso da tecnologia possibilitou que eles se conhecessem, mas o formato escolhido pelos dois para se relacionar se fortaleceu fora da internet.

Sobre os cuidados que tomou quando conheceu Pedro, hoje Mariana ri da história da placa do carro. “Isso da placa é uma boa dica, sempre falo para as minhas a­­migas. E, no meu caso, eu não era amiga dele no Facebook. Mas eu acho importante observar se o perfil da pessoa não é fake (falso).”

De repente, uma hashtag vira o início de um casamento em Dubai

Um comentário no Instagram de Sindy virou um casamento com Hamza Mohammed nos Emirados Árabes, no ano seguinte

Um comentário no Instagram de Sindy virou um casamento com Hamza Mohammed nos Emirados Árabes, no ano seguinte

Desde que a internet começou a ganhar usuários no Brasil, nos anos 1990, as pessoas passaram a utilizar as ferramentas virtuais para conhecer pessoas, como o chat (bate papo) do UOL, mIRC, ICQ, MSN, e-mail e blogs até chegar ao Orkut em 2004, que foi extinto em 2014. Hoje as duas rede sociais mais conhecidas são o Facebook e o Instagram.

Aos poucos, as hashtags, que são palavras-chave acompanhadas do símbolo # para criar um hiperlink, ou seja, algo que cria uma ligação entre o assunto e facilita uma busca, por exemplo, se popularizaram. É normal ver fotos publicadas no Instagram cheias de hash­tags que determinam o assunto ou as figuras que aparecem naquela foto como o local em que ela foi tirada, do que se trata, o humor da pessoa que a tirou. Isso faz com que o alcance de público dessa foto aumente.

E foi por meio de alguma das hash­tags nerds ou games que a blogueira Sindy Guimarães Moham­med, de 24 anos, viu a vida dela mudar completamente pouco tempo de­pois. Até o dia 15 de maio de 2014, ela era apenas uma estudante de Jornalismo da Univer-sidade Federal de Goiás (UFG) e dava aulas de inglês.

Foi na sua conta no Ins­tagram (@sindy_mohammed) que Sindy recebeu um comentário de uma pessoa desconhecida. Ela conta que primeiro estranhou o contato por comentário do indiano Hamza Feroz Mohammed (@mr_unfunded). Depois as conversas se intensificaram. Do Instagram os dois migraram para o Facebook. “Na­quela mesma noite eu fiquei das 11 da noite até 7 da manhã conversando com ele direto sem consegui pregar o olho. Era muita coisa em comum. Eu me sentia tão estranha, porque eu podia conversar tanto com ele. Tantas coisas parecidas em música, gosto e jogos.”

Enquanto Sindy sofria com uma pneumonia em Goiânia, o contato com o indiano que morava em Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos, se intensificava. “A primeira coisa que ele ouviu da minha voz pelo Skype foi eu pedindo desculpa porque provavelmente eu não ia conseguir falar muito porque minha voz estava muito estranha. Mas mesmo assim a gente conversou”, lembra.

Do Instagram para o Facebook, do Facebook para o Skype, do Skype para o WhatsApp até o início do namoro. “Em pouco tempo virou um relacionamento e a gente começou a namorar. E a gente decidiu que a gente ia tentar um pelo outro porque era uma ligação do destino. Minha mãe costumava brincar comigo que era um presente de Deus.”

Sindy considera que a forma como eles se conheceram, através de uma hashtag no Instagram, foi “a forma mais louca possível”. “Tinha uma coisa inexplicável.” Nem os 13 mil quilômetros de distância e o relacionamento virtual atrapalharam a vontade da brasileira e do indiano de ficarem juntos.

Aos poucos, a rotina virtual do relacionamento passou a incluir jantares juntos pela webcam. Em 6 de outubro de 2014, quase cinco meses depois do primeiro contato pelo Instagram, Sindy embarcou de Goiânia para Sharjah. “Para todas as pessoas que estão em um relacionamento à distância, quero dizer que vocês podem acreditar nisso. Não esperem que ninguém ajude vocês, não esperem que seja fácil. Mas se tem amor, não tem nada no mundo que vai separar vocês.”

De Dubai até Sharjah são 40 quilômetros de distância separados por uma rodovia. O primeiro contato pessoal dos dois veio com “um abraço meio desajeitado”. “Aqui você não pode beijar em público. É considerado algo muito íntimo”, explica Sindy. Foi esse o motivo de eles não terem se beijado no primeiro momento.

Ao voltar para Goiânia, as dificuldades da distância aumentaram. Ela terminou a faculdade e voltou, em definitivo, no início de 2015, para os Emirados Árabes. “Era o fim da distância entre a gente.” No mês de março daquele ano, os dois se casaram em Dubai. Em abril, os dois foram para a Índia. “Com a presença dos meus pais na Índia, que foi o melhor presente de casamento que eu podia ter recebido, no dia 8 de maio, nós tivemos o nosso sangeet, que é uma festa tradicional indiana de casamento.”

Dois dias depois, o casal realizou uma cerimônia “mais ocidental” com troca de alianças e votos também na Índia. A lua de mel incluiu viagem para Bali, na Indonésia, e Singapura. “Eu encontrei o homem da minha vida pelo Instagram pela hashtag #nerd, noivamos, nos casamos e hoje eu moro nos Emirados Árabes Unidos. Em um ano a minha vida mudou completamente.” O relato sobre essa reviravolta na rotina com o casamento iniciado a partir de um comentário em uma rede social está registrado no vídeo do YouTube “Como conheci meu marido no instagram e vim parar em Dubai”.

E o Facebook?

Angélica e Nilton começaram a conversar na publicação de uma amiga  no Facebook e hoje moram juntos em Pelotas, no Rio Grande do Sul

Angélica e Nilton começaram a conversar na publicação de uma amiga
no Facebook e hoje moram juntos em Pelotas, no Rio Grande do Sul

A servidora pública Angélica Teixeira da Silva Leitzke, de 25 anos, morava em Goiânia quando comentou uma publicação de uma amiga no Facebook, em março de 2012. Ela e Nilton Fernando Bilhalva Leiztke, de 31 anos, da Marinha, começaram a conversar nos comentários. O problema é que ele morava em Pelotas (RS).

“Eu queria ir a Pelotas conhecer uns amigos que só conhecia pela internet. No meio de todas as conversas, fiz amizade com a irmã dele também. Eles me chamaram para ficar na casa dos pais deles para passar as férias.” Angélica conta que só tinha visto os dois, Nilton e a irmã, pela webcam antes de passar 20 dias em Pelotas no mês de julho de 2012.

Os dois já se gostavam quando ela foi conhecê-lo pessoalmente no Rio Grande do Sul. No meio da viagem, eles foram a um show da banda Papas da Língua, quando aconteceu o primeiro beijo. “Voltamos para casa morrendo de medo de ficar estranho com a família dele. A família aceitou tranquilamente. Dois dias depois ele me apresentou aos vizinhos como namorada.”

Quando voltou a Goiânia, Angélica e Nilton ficaram sem saber o que fazer, já que a distância era de mais de 2.270 quilômetros. Servidora do IFG, ela decidiu que se mudaria para Pelotas e tentaria a transferência para uma unidade do Rio Grande do Sul. “Ele foi me ver em outubro. Mas em agosto já tínhamos decidido que iríamos nos casar”, lembra.

Como a redistribuição de cargo para outra cidade é um processo que costuma ser complicado, eles não sabiam se poderiam ficar juntos na mesma cidade. Com pouco mais de três meses de namoro veio o noivado. “Noivamos e, poucos dias depois, recebi um e-mail do diretor do IFRS de Rio Grande (RS). Um servidor do meu cargo havia pedido vacância e ele queria saber se eu ainda tinha interesse em redistribuir. Foi muito rápido. Foi mágico até!”.

Na Marinha, Nilton trabalhava em Capão do Leão (RS). Em dezembro de 2012 Angélica foi para o Rio Grande do Sul abrir o pedido de transferência para o Instituto Federal de lá. “Deu tudo certo e em 23 de março de 2013 nos casamos no civil em Goiânia, no nosso quarto encontro”, descreve. A redistribuição para o cargo de servidora pública ainda demoraria mais três meses para sair. “Antes do dia dos namorados de 2013, em junho, estávamos morando juntos.”

Porém, depois disso, eles precisaram morar longe por mais dez meses. Nilton passou no concurso público da Universidade Federal do Pampa (UFPampa) Campus Alegrete, a cerca de cinco horas e meia de carro de Pelotas. “Quatro meses depois surgiu uma vaga na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) para o cargo que ele ocupava, mas haviam outros pleiteando redistribuir. Ele concorreu e foi escolhido pela administração pública. Em dez meses estava de volta para casa.”

Para Angélica, a internet foi decisiva para o relacionamento ter dado certo. Ela considera que é preciso tomar alguns cuidados quando se conhece uma pessoa pela internet, como observar o comportamento da pessoa nas redes sociais. “Uma coisa que indico também é não depender da pessoa. Eu era independente financeiramente. Caso algo desse errado ou me incomodasse eu podia ir para um hotel e sair da casa dele. Após me mudar, podia ter vivido sozinha caso não tivesse dado certo.”

Os dois lados da moeda

Para o coordenador do curso de Psicologia da Universidade Federal de Goiás (UFG), Domenico Uhng Hur, o desenvolvimento da tecnologia facilita o encontro das pessoas por meio da internet. Mas é preciso tomar o cuidado que o condicionamento individualista e o distanciamento que a tela do computador causam nas pessoas.

“As pessoas acabam idealizando mais o outro. Com o desenvolvimento da tecnologia, a gente tende a ficar mais isolado, mais enclausurado. Hoje as pessoas, no geral, querem se relacionar com o que elas imaginam ser o ideal. Temos o risco de criarmos relações mais fugazes, porque você pode conhecer um monte de gente pela internet.”

Domenico lembra que é uma situação que gera duas possibilidades. Há sim o lado da facilidade de criar laços com outras pessoas pelas redes sociais e aplicativos pela internet, mas é preciso tomar cuidado com o sentimento de intolerância acentuado com as diferenças.

Ele compara a relação que a pessoa estabelece no trânsito ao utilizar seu veículo particular de forma egoísta com a ruptura dos laços sociais, quando o individualismo se exacerba por meio das redes sociais pelo fato de ser mais fácil ser agressivo atrás de um computador do que no contato pessoal.

“Na relação face a face, essa me­diação acontece mais. No isolamento, a cultura do eu acaba gerando esses microfascismos quando a pessoa não se relaciona com o outro, mas com a idealização do outro. E isso pode levar a uma frustração”, considera Do­menico.

O coordenador do curso de Psi­cologia da UFG destaca que as relações humanas são construídas a partir das diferenças dos indivíduos e como lidamos com elas. “Quando eu me relaciono com o meu eu, mas não com o que o outro oferece de diferente, eu me enclausuro, começo a me ensimesmar, o que potencializa o abismo das relações descartáveis, fugazes”, observa.

Seja nas relações pessoais ou virtuais, cada pessoa constrói as relações que costuma julgar interessantes para ela. E esse início de laços inclui a necessidade do contato até a finalidade daquele relacionamento. Nesse ponto, a busca pelo amor não está fora desse universo de encontrar alguém na rua, ver uma foto no Tinder ou começar uma conversa no Facebook. As histórias de Ma­riana e Pedro Henrique, Sindy e Ham­za ou Angélica e Nilton se­guem os versos da música “A His­tó­ria Mais Velha do Mundo”, da ban­da O Terno: “O que a gente quer é gostar de alguém/E quer que esse alguém goste da gente também”.

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