Reflexos da pandemia exige mais das políticas públicas

A palavra fome voltou a assombrar os brasileiros mais pobres, que se tornaram ainda mais dependentes de programas sociais

Mãe de quatro filhos, um deles ainda na barriga, Adelicia Rocha, de 39 anos, perdeu o emprego de auxiliar de cozinha há cerca de seis meses e passou a viver com doações. “Na ocupação onde moro quase todas as mulheres são iguais a mim. São mães solteiras que estão se virando para conseguir viver e alimentar os filhos”, conta ela, que mora na cidade de Aparecida de Goiânia, em uma região conhecida como Alto da Boa Vista. 

A fome nunca passou para milhões de brasileiros, mas nos últimos anos a situação piorou visivelmente. Mais brasileiros não têm o que comer ou precisam racionar comida, diminuir o número de refeições ou comprar alimentos mais baratos e menos saudáveis – situação agravada com a crise provocada pela pandemia. A situação de Adelicia é o exemplo de outras milhões de mães brasileiras que passaram a viver em situação de miséria e de total insegurança alimentar.

É preciso entender que a fome não é quando o prato  está vazio. Pode ser um prato menos cheio e a incerteza se irá comer no dia seguinte. É desse cenário que especialistas passaram a usar o conceito de insegurança alimentar. É uma escala sobre a certeza da próxima refeição e o cardápio.

Em 2018, dez milhões de brasileiros estavam em níveis graves de insegurança alimentar segundo o IBGE. É quase a população da cidade de São Paulo. Outros 74 milhões têm o que comer, mas calculam bem e restringem a comida. Segundo estudo organizado pelo Grupo de Pesquisa Alimento para Justiça, com sede na Universidade Livre de Berlim, 59,3% dos brasileiros não comeram em quantidade ideal desde o início da pandemia, ou seja, seriam mais de 125,6 milhões de pessoas em insegurança alimentar.

Para além das ajudas que chegam por meio das comunidades religiosas, cozinhas comunitárias e doações de cestas básicas, é preciso contar com a presença do poder público. Mais do que nunca os programas de distribuição de renda se fazem necessários. 

Alícia conta que recebe doações do básico para se alimentar, mas na maioria das vezes ela não há itens como frutas ou carne. Ela também precisa batalhar por botijão de gás, água potável e artigos de higiene. “Para quem não tem renda, é difícil conseguir algumas coisas básicas, que vão além do arros e feijão”, diz. 

O relato de Alícia nos revela a importância de programas de transferência de renda. São ações necessárias em momentos em que há a precarização do trabalho, crises econômicas  e dificuldades financeiras.

São os programas de transferência de renda que atendem, de forma urgente, o enfrentamento do desemprego e da pobreza. Adelicia conta que se inscreveu no Cadastro Único do Governo Federal (CadÚnico), com intuito de ter algum auxílio financeiro e que pudesse garantir a sua segurança alimentar, higiene e mobilidade. Ela é uma das cerca de 100 mil beneficiarias do programa Mães de Goiás, que é destinado para mães em situação de vulnerabilidade social com filhos de 0 a 6 anos de idade. O cartão dá a ela o valor de R$ 250, creditado mensalmente. Segundo o governo do Estado, quando o programa atingir sua capacidade plena, serão R$ 25 milhões investidos todos os meses para beneficiárias dos 246 municípios goianos.

Desde o início da pandemia de Covid-19, com a criação do Auxílio Emergencial e o debate que se seguiu sobre a necessidade de aprimorar a rede de proteção social brasileira, surgiram várias propostas com o objetivo de reformular a estrutura de benefícios sociais em vigor no país. Em Goiás, o governo optou por beneficiar as mães, como forma de que o recurso seja garantir de segurança alimentar e também a permanência das crianças nas escolas. 

Proteção social para as mães

Adinamélia Queiroz é diarista. Tem 28 anos e uma filha, a pequena vitória, de 4 anos. Ela se inscreveu e foi selecionada pelo programa Mães de Goiás. O benefício, segundo ela é para ajudar no básico da alimentação, dela e da criança. “Hoje a gente faz um bico ou outro. Mas tendo criança pequena é mais difícil. A pandemia também afastou alguns clientes onde eu fazia faxina. Então, toda ajuda que chega é bom. Eu tenho o vale-gás, e agora tenho o cartão com R$250, que faz uma diferença grande para gente”, relata. 

Assim como é exposto por Adinamélia, a pandemia agravou a crise econômica e social no Brasil, evidenciando a insuficiência do sistema de proteção social existente. Isso ocorreu, principalmente, em virtude da exclusão de setores da população – trabalhadores informais e autônomos, chamados de “invisíveis”. Para amparar essa parcela as políticas públicas precisaram ser mais que distribuir renda, mas também ter foco na proteção social e visar combater a desigualdade no Brasil.

“Esse dinheiro deve ser usado para comprar alimento e medicamento, ou seja, é uma ajuda do governo para que as mães possam cuidar de seus filhos. Desta forma, protegemos a primeira infância e as famílias goianas”, explicou a primeira-dama Gracinha Caiado durante evento na cidade de Abadia de Goiás, em 130 cartões do Mães de Goiás foram entregues. “É também importante ressaltar que essa renda deverá ser usada nos comércios aqui da cidade cadastrados pelo Governo de Goiás, assim também apoiamos e incentivamos a economia local e os pequenos comerciantes”, completou.

Os programas de transferências diretas de renda vêm ocupando espaço cada vez maior dentro do orçamento da assistência social. A mudança ganhou força com a pandemia e tende a se manter ao menos durante este ano. O programa Mães de Goiás, garante a transferência do benefício por 12 meses para as selecionadas. 

Uma resposta para “Reflexos da pandemia exige mais das políticas públicas”

  1. Avatar Gunther Heinz disse:

    Ora, melhor morrer de fome de que morrer de COVID? Não era essa a política genial da “ciência”? Tá lembrado? Fica em casa, fica em casa!

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