“Quero poder olhar para ele e perguntar por que matou minha filha”, diz mãe de vítima de serial killer

Rosana Mesquita, mãe de Lilian Sissi Mesquita, assassinada por Tiago Henrique no dia 3 de fevereiro de 2014, afirma só esperar que os casos que ainda não foram concluídos sejam julgados o quanto antes: “A gente quer um pouco de paz”

Rosana Mesquita, mãe de Lilian Sissi, evita mostrar rosto em fotos para impedir que a dor atraia mais curiosos

Rosana Mesquita, mãe de Lilian Sissi, evita mostrar rosto em fotos para impedir que a dor atraia mais curiosos

Augusto Diniz

Na segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014, o telefone de Rosana Mesquita e Silva foi usado duas vezes para tentar falar com a filha mais velha, a jovem Lilian Sissi Mesquita e Silva, de 28 anos. Na primeira vez, pela manhã, a mãe ligou para Lilian por volta de 10h30 e ouviu a frase “ô mulher sumida” vinda do outro lado da ligação. Quando o marido de Rosana, Erinaldo Morais Souza Mesquita, chegou em casa, ela se despediu da filha pelo telefone.

As duas tiveram uma conversa rápida. Rosana, que trabalhava com confecção, falou para a filha que estava “em casa mexendo com umas roupas”. Naquele momento, Lilian perguntou “como que a senhora está?”, diálogo que continuou com a resposta “estou bem” da mãe. “Eu estou arrumando os meninos para levar para a escola”, contou a filha para Rosana ao telefone.

A ligação foi encerrada com um “então tá, mais tarde a gente se fala” da filha, que se despediu de Rosana. Antes da morte de Lilian, que aconteceria cerca de seis horas depois de as duas se falarem, mãe e filha se viram pela última vez na quarta-feira, 29 de janeiro de 2014.

Elas buscaram as crianças de Lilian na escola no final da tarde daquele dia, uma garota de 9 anos e um menino de 6. Os quatro fizeram o que a mãe diz ser um dos programas preferidos da filha, que era sair do colégio dos pequenos e ir à Feira dos Amigos, na Praça Abel Coimbra, no Setor Cidade Jardim, e lanchar às quartas-feiras.

Dia 3 de fevereiro

Os filhos Carlos Eduardo e Ana Carolina, que esperavam o pai, o mecânico Carlos Eduardo Valczak, hoje com 37 anos, ou a mãe buscá-los na escola, Clube dos Leões, naquela segunda-feira, acabaram indo embora com Lilian. Minutos antes, o pai havia dito à esposa que não poderia sair do trabalho naquele momento. A conversa por telefone aconteceu por cerca de 10 minutos antes do crime. Foram 11 anos de casamento até aquele final de tarde de 3 de fevereiro de 2014.

“Eu procuro nem tentar lembrar do dia. De manhã eu liguei para ela. Eu a tinha visto na quarta-feira…” A conversa na sala da casa de Rosana foi interrompida por cerca de 30 segundos. Enquanto conversava com o repórter do Jornal Opção, a mãe de Lilian até tentou, mas as lágrimas interromperam as lembranças do dia 3 de fevereiro de 2014. Mesmo assim, pouco depois, ela continuou. “Eu tenho as imagens. Na hora (do crime), ela estava mexendo no celular e me ligando”, lembra.

Na primeira vez em que tentaram se falar, pela manhã daquela segunda-feira, Rosana e Lilian conversaram rapidamente. Por volta de 16h45, quando a filha ligou para a mãe, que havia saído para buscar roupas no Setor Rio Formoso, o celular de Rosana ficou no porta-luvas do carro. “Nossa! A Lilian me ligou”, disse na hora em que viu o registro de chamada da filha. Mas como o sinal era muito ruim onde estava, Rosana deixou para retornar a ligação quando chegasse em casa, no Condomínio Santa Rita, a aproximadamente 7 quilômetros de distância de onde havia ido.

Ninguém atendia

Mas a filha não atendeu às ligações da mãe. “Quando eu cheguei aqui em casa e abri o portão, eu retornei e ela não atendia, nem o Carlos Eduardo.” Rosana ainda não sabia o que tinha acontecido. Ela pensava que Lilian tinha buscado os filhos na escola e ido com os dois passear no shopping ou em alguma praça. “Deve que ela passou em algum lugar”, imaginou.

Erinaldo, hoje com 37 anos, já sabia que Lilian tinha morrido. Foi quando a sogra da filha de Rosana, Elaine Aparecida dos Santos, chegou à casa no Conjunto Santa Rita e, muito abalada, contou que a filha de Rosana havia sido assassinada.

A segunda ligação do dia entre Rosana e Lilian — que a mãe acabou não vendo no momento em que a filha ligou para ela — aconteceu momentos antes de um homem chegar em uma moto, apontar um revólver calibre 38 para o peito de Lilian e atirar. Segundo os policiais que estiveram no local do crime, a vítima morreu na hora.

A descrição de como o autor do homicídio teria agido seis meses depois no assassinato da adolescente Ana Lídia de Sousa Gomes, e estava em um ponto de ônibus no mesmo bairro que Lilian foi morta, a aproximadamente 800 metros de distância entre o local dos dois crimes, é bastante parecida. Um homem branco alto que desce tranquilamente de uma moto preta ou vermelha e atira contra o peito da vítima. Lilian não conseguiu buscar os filhos na escola naquela segunda-feira.

Mudança de rotina

Por motivos mais do que compreensíveis, Rosana não gosta muito de falar sobre a morte da filha, que aconteceu há 2 anos, 10 meses e 22 dias. Nos 1.056 dias depois da morte de Lilian, a mãe parou de mexer com aquela que era a sua atividade profissional e diz que tem evitado sair muito de casa. Na época da morte da filha, a casa em que mora passava por uma obra. Ela e o marido tinham se mudado para o imóvel havia dois ou três anos antes do assassinato de Lilian.

Rosana evita, inclusive, ser fotografada. “Eu trabalhava muito. Daí pra cá eu não mais dei conta de trabalhar tanto. Lugares que têm muitas pessoas eu não vou. Eu que ia às lojas, que olhava modelo de roupa. Eu parei de fazer isso.” A rotina da mãe de Lilian, que havia mudado completamente, ganhou um novo motivo de alegria com a sobrinha de 1 ano e 1 mês, a menina Ana Vitória, de quem ela passou a cuidar.

“Eu tenho a Ana Vitória hoje, que é minha filha, que eu cuidei desde os 20 dias de vida. É ela que me dá forças. Eu foco nela.” Rosana não esconde a alegria ao falar da sobrinha que fica com ela.

“Se o que ele espera é o perdão, eu o perdoo”

Carta escrita por Tiago Henrique para a mãe de Lilian Sissi mostra um réu confesso que pode ter se arrependido do assassinato

Carta escrita por Tiago Henrique para a mãe de Lilian Sissi mostra um réu confesso que pode ter se arrependido do assassinato

Os breves intervalos entre a fala de Rosana Mesquita e Silva, de 45 anos, mãe da jovem Lilian Sissi Mesquita e Silva, que tinha 28 anos quando foi assassinada, davam espaço a um silêncio na casa. Os intervalos para recuperar a voz e conseguir voltar a conversar sobre a filha eram perturbadores. Não só para Rosana, mas para todos que presenciavam o sofrimento de uma mãe que perde uma filha e ainda busca forças para contar a história quase três anos depois.
Ainda mais inacreditável é perceber que, apesar de todo o sofrimento causado pela morte da filha, ainda existe espaço para o perdão ao assassino. “Se o que ele espera é o perdão, eu o perdoo. Mas eu queria olhar para ele e ouvir dele por que ele matou minha filha.”

A vontade de Rosana de conversar frente a frente com Tiago Henrique não é novidade para o marido, Erinaldo Morais Souza Mesquita, de 37 anos, que acompanhou a busca pela solução do caso de Lilian até a prisão do assassino, hoje condenado a 25 anos de prisão por essa morte.

No dia 12 de agosto de 2016, Tiago confessou o crime, acontecido no final da tarde de 3 de fevereiro de 2014 na esquina das ruas Formosa e Buriti Alegre, no Setor Cidade Jardim. Enquanto dizia ao juiz Eduardo Pio Mascarenhas da Silva que ele era o assassino de Lilian Sissi, a revelação no Tribunal do Júri: “Tenho apenas dois desejos agora, que são amar ao Senhor sobre todas as coisas e ao próximo. Eu me submeto à Justiça”.

A declaração do réu confesso, que teve a pena pela morte de Lilian reduzida de 26 para 25 anos de prisão, por ter confessado espontaneamente a autoria do crime, revoltou Erinaldo, que se levantou e disse “você destruiu a família e agora vem se mostrar bonzinho”. “Peço desculpas, pois antes não consegui me expressar. Refleti muito e me arrependo. No momento do fato, eu estava sem controle, eu não sou tudo isso. Eu não sou esse monstro que a mídia criou”, declarou Tiago no tribunal.

Deus

Evangélica da Igreja Assembleia de Deus Fogo Santo, Rosana lembra que surtou quando ouviu Tiago falar de Deus. Hoje, quando vê alguma notícia na TV sobre uma nova condenação do responsável pela morte da filha, revela que prefere desligar o aparelho e nem ver. “Isso aí para mim não tem significado nenhum. Quantos anos ele já levou? Vai ficar nessa até quando? Deveria pôr um ponto final nessa história logo.” A vontade da mãe de Lilian é que os casos que ainda não foram concluídos sejam julgados o quanto antes.

“Para quem é das famílias e passou na pele por isso é muito doloroso. Eu estou na sala e aparece o Tiago, eu tinha que tirar meus netos da sala. Para que trazer tanto sofrimento para as famílias o tempo todo? A gente quer um pouco de paz”, reclama Rosana. A mãe de Lilia e Erinaldo precisaram, com ajuda de agentes das delegacias envolvidas na força-tarefa, ir atrás de imagens de câmeras de segurança para tentar encontrar pistas que ajudassem a solucionar o caso da filha.

O marido de Rosana conta que tiveram dificuldades em algumas lojas, nas quais os comerciantes se negaram a liberar as imagens de vídeo do sistema de segurança. “Às vezes as pessoas julgam mal pela aparência. Muitas vezes meu esposo ia de bermuda, camiseta. Até o Tiago mesmo, é um rapaz bonito, com uma pele boa. Você não falaria que ele é um criminoso”, analisa a mãe de Lilian.

Para Rosana, Tiago tinha o perfil de uma pessoa que poderia ir a um lugar 50 vezes, ir e voltar, que não levantaria suspeita em ninguém de que ele poderia ser capaz ou já teria cometido dezenas de assassinatos e outros crimes.

Bilhete

Durante o julgamento de Tiago pela morte de Lilian, o condenado entregou um bilhete ao marido de Rosana que trazia uma mensagem para a mãe da vítima. Em um papel branco escrito com tinta azul, o responsável pelo assassinato da filha dela escreveu a seguinte mensagem: “Estou intercedendo por todos e Cristo está vindo. Peço perdão. Tiago”.

Rosana lembra da beleza e alegria da filha. “Ela morreu muito cedo.” O filho mais novo falava para Lilian que ele era o homem da vida dela. E era. Como lembra a avó de Carlos Eduardo, a filha de Rosana era quem cuidava do garoto, que faz tratamento de reposição de hormônio e sofre com problemas de saúde desde o nascimento prematuro de oito meses de gestação. A filha de Lilian, Ana Carolina, também teve um início complicado. Com peso de 1,3 quilo ao nascer, a menina ficou internada quase três meses e passava por transfusões de sangue.
Nunca passou a vontade de um dia olhar para o responsável pela morte da filha e perguntar a ele o que aconteceu para levar Tiago a matar Lilian. “Eu me arrependo de não ter ido à DEIC (Delegacia Estadual de Investigações Criminais) no dia que ele foi preso.”

Netos

Depois da morte da filha, os netos ficaram com Rosana alguns meses. Mas após um tempo, eles voltaram a morar com o pai. A mãe de Lilian diz que sofre com a distância dos dois meninos da filha.

Rosana e Erinaldo dizem que muita coisa mudou quando a força-tarefa foi iniciada em agosto de 2014. Os delegados Douglas Pedrosa, Deusny Aparecido Filho, Silvana Nunes Ferreira e Eduardo Prado são nomes citados pelo casal como pessoas na Polícia Civil, além de alguns agentes, que sempre se colocaram à disposição da família para solucionar o caso da morte de Lilian.

Contato recente

Um sonho recente da filha mais nova de Rosana pode ser encarado com um caso curioso e interessante. “Essa semana a minha filha teve um sonho muito visível com ela (Lilian). Ela falou que foi muito real. Disse que deitou para dormir e de repente viu a Lilian em uma loja e ela disse ‘oi, Caca, você aqui’. ‘Nossa, Lilian, eu estava com saudade demais de você.’ A minha filha, a Camila, abraçou-a e pegou no braço dela e pediu para a Lilian não ir embora. Ela disse que tinha que ir. Quando ela acordou, disse que viu um clarão, um clarão que atravessou a minha porta do quarto e a parede. E ela acordou com o braço dormente de tanto puxar porque ela falava para a Lilian não ir e ela falava que tinha que ir.”

Cristã, Rosana acredita que a prisão de Tiago no dia 14 de agosto de 2014 pode ter sido de fato uma revelação divina à equipe que investigou os casos de mortes de mulheres naquele ano em Goiânia. Sobre a dor de tocar novamente no assunto do assassinato da Lilian, ela diz que a dor sempre vai e volta. “Eu nunca imaginei que a minha filha morreria antes de mim”, lamenta.

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