Quem é e o que pensa a esquerda em Goiás

Em tempos de polarização, goianos que se posicionam no espectro político identificado como esquerda dizem o que pensam sobre o Brasil

Adriana Accorsi, Marcelo Lira, Manu Jacó e Elias Vaz: representantes da esquerda goiana

O filósofo francês Gilles Deleuze diz que não há governo de esquerda, embora haja alguns suscetíveis ou favoráveis às exigências de esquerda. Isso quer dizer que ser de esquerda parte de uma percepção em relação ao mundo. Algo que parte do coletivo e atinge a alma do sujeito. “[Uma pessoa de esquerda] primeiro vê o horizonte e sabe que não pode durar, que milhares de pessoas morram de fome”, diz.

O segundo ponto levantado por Deleuze para a definição de alguém de esquerda é o que ele chama de “devir minoria”. Para ele, a esquerda nunca é maioria por uma razão muito simples: a maioria é algo que se supõe, até quando se vota, a existência de um padrão. O padrão no Ocidente de qualquer maioria, segundo aponta o filósofo, é: homem, adulto, heterossexual, cidadão. Mas é um padrão vazio, já que a maioria nunca é ninguém.

Assim, continua o filósofo francês, as mulheres, as crianças, os negros, os homossexuais não são um padrão. Mas têm um devir  — no sentido da permanência de vir-a-ser (o oposto do padrão). “Todos os devires são minoritários”, diz Deleuze. “A esquerda é o conjunto de processos de devir minoritário. A maioria é ninguém e a minoria é todo mundo. Ser de esquerda é isso: saber que a minoria é todo mundo”, define.

Esses dois temas, a percepção em relação à questão material e subjetiva do ser humano, parecem dominar o discurso e a ação das figuras de esquerda em Goiás. Em maior ou menor intensidade, dependendo do espectro em que se posicionam, mas estão lá e norteiam a forma como abordam as necessidades de intervenção política na realidade imediata ou institucional.

Professor Marcelo Lira, militante do PCB | Foto: Arquivo Pessoal

O professor Marcelo Lira vê o termo “esquerda” como uma designação genérica, para localizar politicamente, em relação às demais forças políticas, determinada posição e pauta vinculadas à defesa da democratização das instituições e da sociedade. Para ele, a questão material é dominante. Mesmo quando estão em pauta os direitos civis, políticos e sociais.

A classe trabalhadora, para Lira, que é militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), está na centralidade das demandas. Já que, para ele, as forças políticas e socioculturais das classes dominantes visam sempre restringir e limitar os direitos civis, políticos e sociais a uma parcela cada vez mais diminuta da sociedade. 

“Ou seja, a definição de esquerda depende da luta de classes e correlação de forças, em determinada conjuntura. Nós, do PCB, preferimos a designação comunista  mais precisa e objetiva  visto que todo comunista é de esquerda, mas nem toda esquerda é comunista”, aponta.

Segundo o professor, no entanto, após a abertura política e o fim da ditadura militar brasileira, o Partido dos Trabalhadores (PT) passou a hegemonizar a concepção de esquerda, de tal forma que quando se fala em esquerda, automaticamente, pensa-se no PT.  Para ele, o processo de consolidação petista e sua forma de governar se deslocaram dos interesses das classes trabalhadoras e se aproximaram dos interesses das classes dominantes. 

A política de conciliação de classes petista desorganizou e desarticulou as principais organizações autônomas das classes trabalhadoras, como sindicatos e movimentos sociais e populares. “Assim, resgatar a confiança, no campo da esquerda, significa superar a desastrosa cultura política petista; e, ao mesmo tempo, avançar na mobilização e organização de base, a partir de uma política anti-imperialista, anticapitalista e fundamentada no poder popular”, avalia.

Minorias

Pesquisa realizada pela Revista de Ciência Política da Universidade Católica do Chile (em parceria com o colega Oswaldo Amaral, da Unicamp) mostra que há sub-representação de minorias nos partidos políticos brasileiros. As mulheres somam um terço dos filiados, mas menos de um quarto dos militantes mais ativos, que dedicam ao menos 10 horas por mês ao partido. 

Um filiado homem, aponta a pesquisa realizada em 19 cidades, tem 54% a mais de chances de se tornar um militante mais engajado se comparado a uma afiliada mulher. Elas apontam que  enfrentam além da jornada casa-trabalho, a jornada partido. O que forma uma tripla jornada. Pretos e pardos representam cerca de um quarto dos filiados, estando também sub-representados em relação à proporção encontrada na população.

Manu Jacob, pré-candidata do PSOL à prefeitura de Goiânia | Foto: Arquivo Pessoal

Para Manu Jacob, pré-candidata a prefeitura de Goiânia pelo PSOL, a luta da esquerda deve estar intimamente ligada às lutas do povo que vive do trabalho, seja formal ou informal. Mas também de mãos dadas com a luta daqueles que sofrem com a opressão e o preconceito cotidiano, como as mulheres, negros, LGBTQI+. 

Ela diz que os trabalhadores estão perdendo direitos e a violência cresce contra os oprimidos. E que isso se reflete na cidade de Goiânia. As mulheres negras pobres são as maiores vítimas de violência da cidade. Apesar de mais da metade da população ser de mulheres, e também dos eleitores, e de terem maior escolaridade, a representatividade na política ainda é muito pequena. 

O Brasil é um dos países mais desiguais na América Latina e no mundo em participação de mulheres na política. O país ocupa o 152° lugar em participação das mulheres em cargos eletivos federais. Na esfera municipal, apenas 13,5% dos vereadores e 12% dos prefeitos são mulheres. Em 2018, foram eleitas 77 deputadas federais, subindo de 11% a 15% a participação no Congresso. No entanto, na Assembleia Legislativa de Goiás, há somente duas deputadas mulheres, o que mostra o abismo de representatividade.

Manu lembra, no entanto, que não basta as candidaturas de mulheres se elas representam interesses exclusivamente masculinos e não se interessam em mudanças no status quo para uma sociedade com mais igualdade de gênero. “Assim, precisamos de mulheres feministas ocupando espaços de poder nas três esferas do poder e que compreendam o feminismo de forma interseccional, considerando as questões raciais, étnicas, de gênero e de classe”, avalia.

Militância

O acesso a posições de destaque para minorias deve fazer parte da vivência nas lutas cotidianas, por isso perpassam os partidos políticos. É importante que as demandas estejam em consonância com as necessidades específicas e isso se dá através da representatividade, ou seja, do acesso das mulheres, dos negros, das LBTQI+ aos espaços de debates públicos e à democracia.

Conforme aponta a procuradora da república Alessandra Minadakis, além de políticas públicas que favoreçam campanhas é importante que tenham direitos garantidos para conseguirem minimizar ou diminuir as muitas tarefas atribuídas primordialmente às mulheres em uma sociedade machista, por exemplo. 

“Ou se reconhece que não há igualdade, e por isso as regras precisam também ser diferenciadas, ou esperaremos 70, 80 anos para chegarmos numa situação de equidade dentro dos espaços políticos”, diz. “Por fim, volto a falar da informação, ou melhor, da desinformação intencional acerca do feminismo, que é colocado para as pessoas como se fosse o contrário de machismo, quando é simplesmente um movimento que luta por igualdade de gênero”, aponta.

A esquerda no poder

José Dirceu e Lula e Palocci

Quando Gilles Deleuze diz que não há um governo de esquerda, mas que há governos propensos a demandas de esquerda, soa como um diversionismo quando lembramos da experiência do Partido dos Trabalhadores (PT) no poder. No entanto, parte da crítica da própria esquerda à experiência petista parte da renúncia às pautas caras deste espectro político. Ou seja, um partido de esquerda continua de esquerda quando assume o poder?

Em Valsa Brasileira, a economista Laura Carvalho aponta que, diferente da crítica à direita da gestão petista, o partido acertou na condução da economia brasileira de 2006 a 2010, ao unir crescimento de consumo com melhoria da distribuição de renda e no papel do Estado enquanto motor para reativação dos investimentos privados. Por outro lado, aponta que o erro foi ter substituído aquele modelo por uma política fiscal com desonerações tributárias a grandes empresas, que não retribuíram o investimento em forma de crescimento.

A resposta de Laura Carvalho parece discordar de Deleuze ao defender a tese de o que levou à derrocada econômica, portanto do pacto entre classes promovida pelo PT, foi sua caminhada para a direita em termos econômicos. No entanto, não é um ponto pacífico entre as diferentes matizes da esquerda goiana.

Deputada Adriana Accorsi | Foto: Foto Y. Maeda / Alego

A deputada estadual Adriana Accorsi (PT) diz que a derrocada do partido teve início com uma sabotagem dentro do Congresso Nacional, com as pautas bombas do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, para implantação de pautas do que chama de “força econômicas poderosas”. Essas mesmas forças estariam fazendo o que hoje é considerado equivocado mesmo em países assumidamente neoliberais, como a retiradas de investimento públicos e diminuição do acesso à rede de proteção social.

Para ela, o Partido dos Trabalhadores deixou um bom legado como o Bolsa Família e a diminuição da desigualdade social. “Além disso, em Goiânia, a população se lembra das boas gestões de Darcy Accorsi e do professor Pedro Wilson. O serviço prestado em Goiânia foi muito bom. Tanto que fui a deputada mais bem votada na cidade. A população está vendo o que está acontecendo e está discutindo. Tenho esperanças”, avalia.

Outro modelo

Elias Vaz | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

O deputado federal Elias Vaz (PSB) diz que há certa confusão entre esquerda e a gestão do PT. Ele diz que se alinha mais ao Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e afasta a Venezuela enquanto modelo a ser seguido. Ainda que é preciso saber localizar o papel da esquerda na atual conjuntura. 

O papel fundamental da esquerda, para o parlamentar, é a manutenção dos direitos. Sobretudo o direito dos trabalhadores. É um momento para resistências diante do avanço da ultradireita sobre as conquistas sociais. Por isso, o caminho mais sensato, no momento, é o da mediação e tende para a centro-esquerda. 

No entanto, Elias Vaz pondera que há pontos que não podem ser negociados. Entre eles estão a luta contra homofobia, machismo, racismo, violência contra a mulher, contra a desigualdade social. “Há muita gente que é contra tudo isso, mas não se posiciona à esquerda. Por isso, é hora de estabelecer diálogo. Não podemos ter uma visão pura de esquerda essencialista do passo. A história já mostrou que sem diálogo abre espaço para surgimento do nazismo e fascismo”, aponta.

Centro

Essa tendência ao centro é também o espaço ocupado pela Rede-Sustentabilidade. A arquiteta e urbanista Maria Ester, que é pré-candidata a prefeitura de Goiânia pelo partido, diz que se situa ao centro porque acredita na livre-iniciativa econômica e social das pessoas, dos grupos sociais e dos empreendedores. 

Ou seja, o dinamismo da sociedade é que produz qualquer desenvolvimento minimamente sustentável por longos períodos. Mas que está à esquerda tendo em vista que as profundas desigualdades econômicas e sociais existentes no Brasil e na cidade de Goiânia exigem a presença constante e forte do Estado na mediação dos processos econômicos/sociais e na prestação de serviços em educação, saúde, transporte e assistência social.

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