A que distância você se mantém de Eduardo Cunha quando está no trânsito?

A convivência nas ruas e praças é apenas um dos aspectos da vida em sociedade, mas pode ser usada como microcosmo para entender como se produzem os personagens que a compõem e que, em última instância, vão ocupar gabinetes e plenários

Fato recorrente na cena urbana de Goiânia: pedestre esperando uma pausa no tráfego para “correr” sobre a faixa

Fato recorrente na cena urbana de Goiânia: pedestre esperando uma pausa no tráfego para “correr” sobre a faixa

Elder Dias

É tempo de Natal, mas, nas últimas semanas, a maioria dos brasileiros encontrou seu judas para malhar em pleno mês de dezembro: Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o corrupto presidente da Câmara dos Deputados, sobre o qual pesam várias situações inadequadas a um homem público. Vamos a um breve e nada detalhado resumo, já que ele não é fim, mas meio, para a construção deste texto — e, no caso, os fins justificam os meios: 1) em março, Cunha mentiu para seus pares em um depoimento espontâneo a uma Comissão Parla­mentar de Inquérito; 2) uma investigação na Suíça descobriu dinheiro não declarado dele e de familiares seus; 3) entre as justificativas que deu para o caso, uma delas — a que este jornalista considera a mais esfarrapada — diz respeito à venda de carne enlatada para a África; 4) acuado, começou a atuar mais francamente contra o governo, seu arquirrival; 5) fez diversas manobras para evitar votações em favor da gestão da presidente Dilma Rousseff (PT) — pelo contrário, como presidente da Casa, colocou na ordem do dia as chamadas “pautas-bomba”, que oneraram os cofres públicos, em vez de cortar gastos, como seria o ideal; 6) como retaliação à Comissão de Ética dar aval para um processo por quebra de decoro (mentir em depoimento oficial causa esse tipo de problema), Cunha, no dia seguinte, acolheu um pedido de abertura de processo de impeachment; 7) por fim, desde então e em desesperada estratégia de sobrevida, o parlamentar tem feito uso de expedientes regimentais diversos para levar vantagem para si e espalhar desvantagem a seus oponentes.

Parodiando Vinícius de Moraes, é um típico caso para se dizer “tantas fez o rato que foi pra panela”. Cunha está com seus dias contados. Tornou-se a “Geni” do Brasil. Ainda não se pode falar formalmente — embora no primeiro parágrafo já tenha havido essa menção — que ele seja corrupto. Mas digamos que seria mais fácil Elvis Presley não ter mesmo morrido e estar octogenário em algum recanto do Oceano Índico, cercado por nativas bonitas e tocando violão vestido com roupas floridas à la Honolulu.

Entretanto, assim como estão os bodes para a ocasião da expiação, a projeção em Cunha de tudo o que há de ruim instiga uma certa reflexão: existe o oposto a Cunha, o anti-Cunha? Alguém que não tenha nada dos pontos de que o acusam — a mentira, a manobra questionável, o “levar vantagem”, o “primeiro o meu, depois o de vocês”? Ou, mais ainda, não tenha nada de mal algum? A resposta é óbvia e rápida: não, não há.

Se o brasileiro tem a representatividade expressa no atual Congresso é porque, ainda que seja custoso admitir, há muito de espelho nessa instituição. Todos os políticos foram escolhidos democraticamente, ainda que num sistema imperfeito. Eles saem da sociedade, mas, antes, a compõem. Nas casas, nos bancos, nas igrejas, nos shoppings. E no trânsito.

Esta reportagem escolheu este último recorte — as ruas e as vias da cidade — como uma forma de olhar esse fenômeno: como se dá a relação das pessoas com o trânsito? Como se portam diante de uma faixa de pedestres ou da falta de vaga para estacionar. Como o “Cunha” que há dentro de cada um age nesses momentos?

Fato Cunha nº 1 a notar: “primeiro o meu, depois o de vocês”. Isso tem tudo a ver com faixas de pedestres. Se há algum avanço de cidadania nesse ponto, ele tem ocorrido quase que de forma invisível a olho nu em Goiânia. Impera nessa questão, como de resto em todo o trânsito da capital, a lei do mais forte: os condutores de veículos têm se portado como donos da rua. Parar na faixa é opcional, quase uma caridade.

Na terça-feira, 15 — dia escolhido para o “trabalho de campo” da reportagem —, uma cena foi particularmente interessante. Na faixa de pedestres situada na Praça Universitária e que a liga à entrada da Reitoria da Pontifícia Uni­versidade Católica de Goiás (PUC-GO), uma mulher expressava a impotência do transeunte diante dos veículos motorizados. Após se aproximar da faixa — em fundo vermelho e muito bem sinalizada vertical e horizontalmente —, ela aguardou pacientemente para a travessia. Vários carros e várias motos depois, um veículo se permitiu parar. Ela, então, passou de um lado a outro trotando, como se não tivesse o direito do tempo para caminhar.

A sensação que fica: o respeito à faixa é um favor, e o pedestre já assimilou isso dessa forma. Triste para a cidadania. Mas há esperança: no mesmo local, poucos minutos depois, uma senhora com uniforme de trabalhadora da limpeza urbana desabafou para si mesma, após uma pequena espera para atravessar: “Será que não estão vendo que aqui é uma faixa, não?!”.

Perto da UFG, uma placa de “proibido estacionar” ignorada o dia inteiro: ônibus têm área construída exclusivamente para paradas, mas motoristas preferem o mais prático, atrapalhando o trânsito

Perto da UFG, uma placa de “proibido estacionar” ignorada o dia inteiro: ônibus têm área construída exclusivamente para paradas, mas motoristas preferem o mais prático, atrapalhando o trânsito

Segunda questão do caso Cunha: levar vantagem. Embora pareça estar (e está) envolvido também nos outros “pecados”, isso é constitutivo. É quase uma regra não escrita e quem não a observa corre o sério risco de passar como trouxa. Vejamos: Goiânia é uma cidade quente do Cerrado, e suas altas temperaturas acabam favorecendo uma nova modalidade de mordomia autoconcedida: a espera do sinal verde debaixo da sombra da árvore frondosa da ilha da avenida. Não importa o quão distante esteja a sombra do semáforo.

É o que acontece na Avenida Pedro Paulo de Souza, no Setor Goiânia 2. Na faixa oposta da mesma pista da via, que deveria servir para quem deseja acessar a Perimetral Norte, um automóvel para e inicia uma terceira fila informal para seguir reto, travando o fluxo de quem precisa fazer a conversão. Isso porque as duas filas convencionais estavam mais extensas. Ou seja: o sujeito não pode se atrasar, perder alguns segundos a mais, e dá seu “jeitinho”. Em suma, acha que seu tempo vale mais do que o dos que são obrigados a esperar o sinal abrir para então virar à direita.

Terceira questão: a manobra questionável. Um exemplo para esse caso também foi encontrado de forma incisiva perto da Praça Universitária. Na 1ª Avenida, próximo à faixa de pedestres da Faculdade de Arquitetura da PUC, um táxi resolve parar em fila dupla. Fica ali por cerca de três minutos, sem que desça alguém do veículo ou que recolha algum passageiro. Logo quando sai, o motorista de outro carro que estava atrás, também parado, avança um pouco mais, liga o pisca-alerta – salvo-conduto para qualquer conduta lamentável – e se estabelece no mesmo espaço. Porém, com um agravante: o condutor abre o porta-malas da Parati e começa a desmontar a banquinha de produtos da calçada. Era um vendedor ambulante se preparando para ir embora, às 11h30 da manhã.

O carro fica por mais de dez minutos sendo carregado. Ele então fecha o compartimento e ainda fica mais dois minutos conversando com outra ambulante e, bonachão, cumprimenta um aluno que se dirige à faculdade. Até que vai embora. A conduta em nada difere de caminhões de distribuidoras de bebida que entopem as ruas e esquinas do Centro de Goiânia.

Outro exemplo da mesma série e que pode ser observado a qualquer hora do dia: na Rua R-20, no acesso que liga o Conjunto Itatiaia à Universidade Federal de Goiás, ônibus desobedecem peremptoriamente à placa de “proibido estacionar” instalada pela Secretaria Municipal de Trânsito (SMT). O local, que já não tem solução adequada para o fluxo que recebe, se torna ainda mais caótico. Detalhe: anos atrás, um espaço ao lado foi pavimentado justamente para abrigar os coletivos que aguardassem início de viagem. Poucos, porém, fazem a coisa certa. Preferem arriscar um risco improvável: sabem que a multa não virá.

Um jeitinho brasileiro bem típico: para fugir do sol, parar longe do semáforo, mas debaixo da sombra

Um jeitinho brasileiro bem típico: para fugir do sol, parar longe do semáforo, mas debaixo da sombra

Por fim, a quarta desqualificação: a mentira. Na verdade, no trânsito ela aparece de forma abrandada. A mais comum é o “são só dois minutinhos”. Isso vale principalmente para quem estaciona em esquina ou, pior, nas vagas reservadas a idosos ou portadores de necessidades especiais. Ou reduzem substancialmente a quantidade declarada de álcool ingerido ao caírem em uma blitz, obrigados a soprar o bafômetro. Ou, ainda, inventam uma desculpa para não estarem com a CNH em dia ou mesmo não ter sua posse.

O trânsito é apenas um dos aspectos da vida em sociedade, mas pode ser usado como microcosmo para entender melhor como se produzem e se desenvolvem os personagens que a compõem e que, em última instância, ocuparão gabinetes e plenários em Câmaras e Assembleias. Mais que nossos representantes, são nossas representações.

A resposta final é perturbadora: não existe quem não tenha um pouco de Cunha. Político não nasce em árvore. Político é cidadão, é eleitor, é brasileiro. E o brasileiro precisa se aperfeiçoar nessa arte de viver coletivamente. Quando, enfim, o trânsito for mais humano, quando a fluidez das ruas e das praças servirem ao bem coletivo e não como plataforma para atalhos e manobras de uso pessoal, será um bom sintoma: haverá, naturalmente e da mesma forma, uma redução dos Cunhas na política.

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