Afonso Lopes
Afonso Lopes

“Puxadores de voto” estão superados para a eleição mais incerta em décadas?

O humor do eleitorado não se mantém de maneira constante. Quando tudo está bem, alguns deputados recebem votação expressiva. Como será este ano?

Foto: Nelson Jr./ ASICS/TSE

Diz a lenda político-eleitoral que cada eleição conta uma história totalmente particular. Não é bem assim, mas é claro que o humor do eleitorado não é constante. Em algumas eleições, a animação é grande, e isso tende a se refletir em votações bastante expressivas de alguns candidatos. São os chamados “puxadores de voto”. Quando o eleitor está desanimado, esses votos em massa são diluídos, inclusive por serem fortemente abalados pela chamada alienação eleitoral — que é a soma de eleitores que não vão votar, votam branco ou anulam seus votos. Para a eleição deste ano, o comportamento do eleitor é uma incógnita absoluta. Que o mau humor domina o cenário geral é incontestável, mas como o eleitor vai reagir a esse estado emocional é que ninguém pode responder com alguma segurança e certeza.

Histórico
A tal alienação eleitoral sempre se manteve na faixa central de 25% do total de eleitores. Um pouco mais, um pouco menos a cada eleição. Isso era praticamente uma média equivalente para todos os cargos, de presidente da República a governadores e senadores, chegando aos deputados federais e estaduais. Nas duas últimas eleições, em 2010 e 2014, esse porcentual se descolou da margem histórica, se aproximando definitivamente dos 30% do eleitorado, chegando a 40% nas eleições proporcionais. Se o número de eleitores que não votam, teclam branco ou digitam números inexistentes e confirmam voto nulo crescer muito, dificilmente os tais “puxadores de voto” vão conseguir escapar da degola geral.

Alguns analistas, fracamente pessimistas ou extremamente realistas — vai se saber somente após a eleição —, a alienação eleitoral este ano pode chegar a 60% no caso das eleições proporcionais — leia-se deputados federais e estaduais. Pior ainda: para eles, no caso de presidente e governadores a faixa de 40% não seria completamente uma surpresa. Queiram ou não, com boas ou não tão consistentes motivações, a realidade é que porcentuais assim são extraordinariamente altos levando-se em conta a obrigatoriedade do voto.

Esse clima geral de incerteza cria um ambiente bastante hostil para qualquer previsão otimista em relação às eleições estaduais e federais. Tanto poderá facilitar ainda mais a reeleição maciça dos atuais detentores de mandato como desencadear uma onda inédita de renovação fartamente majoritária nas Assembleias Legislativas e no Congresso. As disputas para os governos estaduais e para presidente da República, por maior e mais expressiva que possa vir a ser a alienação eleitoral, a lógica da eleição obedece outro mecanismo. Essas eleições chamam mais a atenção do eleitor do que o Legislativo, incluindo senadores.

É muito cedo, portanto, e dificilmente será o momento adequado antes da apuração dos votos, se as figuras dos “puxadores de voto” vão desaparecer do mapa este ano ou ainda vão se manter. Não há como apontar esta ou aquela tendência. Os candidatos que vão passar pelo crivo das urnas e sobreviver depois delas têm uma tarefa que não é refresco gelado em tarde ensolarada: eles precisam necessariamente convencer o eleitor a ir às urnas. Além disso, o que aparentemente já não será fácil, terá um segundo convencimento a conseguir: o voto. Diante do inegável mau humor geral da população após tanto esculacho coletivo da política e dos políticos de maneira geral, é uma dupla jornada bastante complicada.

Para complicar ainda mais, e ampliar o quadro geral de imponderabilidade absoluta da eleição deste ano, há o financiamento da campanha. A operação Lava Jato pode não ter conseguido — ainda — acabar ou provocar uma grande diminuição nos casos de corrupção nas máquinas públicas do País, mas certamente provocará um temor generalizado, mais até do que em 2016, em relação ao dinheiro não declarado à Justiça Eleitoral, o tal “caixa 2”, que sempre foi financiado pelos propinodutos e pela cumplicidade de empresários e políticos corruptos. Essa atividade marginal das eleições se tornou, no mínimo, de altíssimo risco.

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