Projeto inédito pretende repovoar Bacia do Paranaíba com peixes nativos

UEG, UFJ, Enel e Idesa vão unir genética, geografia, conservação e política para revitalizar a bacia hidrográfica com espécies locais

Coordenador do projeto, Ary Soares segura um exemplar de piracanjuba | Foto: Divulgação

O rio Paranaíba e seus afluentes correspondem a uma das bacias hidrográficas com maior interferência humana no Brasil. O portal Atlas das Águas contabiliza 1.796 outorgas nos 34 mil quilômetros quadrados de área do sistema hídrico. Há barramentos de usinas hidrelétricas, captação da água por fazendas, usinas e fábricas adjacentes, uso do solo do leito do rio para irrigação de lavouras, despejo de esgoto, fertilizantes e agrotóxicos. Por conta da intensa atividade antrópica, a biodiversidade e ecologia do Paranaíba foi impactada de forma que o peixe piracanjuba (Brycon orbgynianus), símbolo da região, está praticamente extinta de seu habitat natural.

Para melhor diagnosticar e solucionar o problema, o “Projeto Piracanjuba Livre – Paranaíba Vivo” irá monitorar e criar um banco genético das espécies de peixes ameaçadas, planejar medidas para melhorar a qualidade da água, criar corredores de biodiversidade e, caso as intervenções dêem os resultados esperados, repovoar o paranaíba com peixes piracanjuba novamente. A iniciativa é integralmente financiada pela Enel Green Power, coordenada pelo diretor do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Socioambiental (Idesa), Ary Soares, com parceria da Universidade Estadual de Goiás (UEG) e Universidade Federal de Jataí (UFJ).

O projeto, com duração de dois anos, está em fase inicial. Segundo os responsáveis, o programa é inédito em seu esforço amplo. A maioria das propostas prevê apenas uma frente de ação, como a soltura de peixes. Mas o Projeto Piracanjuba Livre – Paranaíba Vivo pretende criar uma rede colaborativa entre instituições, alunos de graduação e pós-graduação, e até mesmo pescadores, comunidades ribeirinhas e proprietários de terras adjacentes ao rio. 

Ary Soares, ex-superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), explica no que o grupo se concentra atualmente: “Nessa primeiro momento, estamos capturando peixes piracanjuba (existem pouquíssimos exemplares na bacia do Paranaíba) para coletar pequenas amostras de suas nadadeiras. Essas amostras vão para análise genética no Labfish da UFJ, onde poderemos entender se os peixes têm boa saúde e variabilidade genética, ou se foram hibridizados, se foram criados em piscicultura, se são descendentes de reprodução endogâmica”.

Além de estudar os peixes, a equipe estuda a qualidade das águas no Rio Piracanjuba, afluente do Paranaíba. São 14 pontos diferentes do rio monitorados quatro vezes por ano. A intenção é comparar a qualidade das águas antes e depois de intervenções como o reflorestamento de matas ciliares. “A UEG fará a parte de mapeamento por georreferenciamento da cobertura vegetal para sabermos onde há mau uso do solo adjacente ao rio. Esse trabalho possibilitará compreender todos os impactos e pressões que as ocupações humanas estão causando ao ambiente e, consequentemente, aos habitats e a toda a ictiofauna da região.”

Após o diagnóstico, a equipe pretende formar corredores de biodiversidade ao longo do rio, propondo a criação de Unidades de Conservação (UCs) que conectem diversas áreas de preservação que já existem na bacia do Paranaíba, além de subsidiar a criação de áreas na categoria Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). Isso é, quando o proprietário privado declara parte da terra uma área de proteção perpétua, criando uma reserva legal. 

“Ajudaremos a formalizar o processo de proteção de áreas particulares junto à Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad). As pessoas têm uma visão romântica da preservação ambiental, mas ela também pode trazer benefícios econômicos para os proprietários, como isenção do ITR, a exploração do ecoturismo, coleta de frutos e raízes nativas, entre outros”, comenta Ary Soares.

Ciência

Por fim, após as intervenções para melhoramento da preservação no Rio Piracanjuba (uma espécie de projeto piloto que depois poderá ser reproduzido em toda a bacia do Rio Paranaíba), será hora de reproduzir os peixes piracanjuba ex-situ (fora do ambiente natural, em pisciculturas da UFJ), criar um banco genético dessa espécie, etiquetar indivíduos com tags para monitoramento, verificar a qualidade da água e repovoar o rio com o Brycon orbgynianus. Ary Soares afirma que a vantagem de se trabalhar com essa espécie é, que se o problema do piracanjuba for resolvido, os desafios de outras espécies de peixe ao redor também estarão solucionados. Depois de concluído, outras cinco espécies também ameaçadas serão contempladas pela ação. 

Mônica Rodrigues Ferreira Machado coordena o laboratório Labfish-UFJ | Foto: Reprodução/UFJ

Mônica Rodrigues Ferreira Machado é doutora em Ciência Animal, coordenadora do LabFish da UFJ, e está diretamente envolvida no projeto. A pesquisadora explica como seu laboratório pretende verificar a qualidade da água. Água coletada dos afluentes do Paranaíba será usada para criar uma espécie de peixe de água doce, que mede cerca de cinco centímetros quando adulto, chamada zebrafish (Danio rerio). Os tecidos do zebrafish são transparentes e sua embriologia é conhecida, de forma que é possível analizar os impactos da qualidade da água no desenvolvimento dos órgãos e tecidos. 

“Assim, conseguimos correlacionar amostras da água com pontos demarcados por GPS no rio. Sabendo se o solo nas adjacências do rio está preservado ou se está sendo usado por empresas, fábricas, plantações, poderemos identificar os problemas associados ao uso do solo na ictiofauna”, afirma Mônica Machado.

Após os dois anos de projeto, com reforço das matas ciliares por meio de reflorestamento e envolvimento das prefeituras na área da bacia, o LabFish pretende encontrar água de melhor qualidade, apta a receber novamente a população do peixe piracanjuba que será reproduzido ex-situ. Antes disso, para catalogar e proteger amostras genéticas do animal, as gônadas de alguns exemplares serão preservadas em nitrogênio líquido (congelado a -196 ºC). 

Entretanto, Mônica Machado ressalta que é necessária autorização do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) para introduzir no rio peixes criados em pisciculturas. Esse protocolo impede que bactérias, parasitas e doenças encontradas no criadouro se espalhem pelo ambiente natural. 

“Não adianta apenas soltar os animais”, diz Mônica Machado. “Precisamos sempre monitorá-los. Para isso, os peixes vão ser etiquetados com dois tipos diferentes de tags. Uma tag lança um sinal de rádio que é captado por centrais físicas na margem dos rios. Assim conheceremos seu deslocamento. Além disso, outro tipo de tag irá conter instruções e o WhatsApp de contato do laboratório, para que pescadores que capturarem os animais possam nos informar anonimamente o tamanho, a saúde e demais as características do piracanjuba que foi pescado”.

Ary Soares reforça outros benefícios da participação popular no projeto: “Se apenas 1% dos pescadores entrarem em contato conosco para nos ajudar a monitorar, serão pelo menos 50 fontes de dados, em diversos pontos do rio. Além disso, é uma forma de estimular a ciência cidadã – feita por pessoas comuns. É uma forma de trazê-las para dentro do processo de produção do conhecimento científico, e as pessoas vão poder sentir que estão de fato ajudando a preservar a biodiversidade.

3 respostas para “Projeto inédito pretende repovoar Bacia do Paranaíba com peixes nativos”

  1. Avatar Ary Soares disse:

    Ao Jornal Opção nossos agradecimentos por dar publicidade a este ambicioso projeto. A matéria reforça nosso compromisso com a “ciência cidadã” tão bem descrita pelo jornalista que abordou o tema.

  2. Avatar Mauricio Jeronimo disse:

    Projeto importantissimo, Goiás precisa fiscalizar seus rios e atuar contra os predadores que devastam a natureza com redes, aniquilando as espécies e matando filhotes. A piracanjuba é um peixe belissimo e muito bom para a pesca esportiva peque e solte. É muito triste que os rios de Goiás estejam a própria sorte.

  3. Achei maravilhoso esse projeto. Sua importância implica diretamente na continuidade da vida sadia. Esse despertar, que o projeto proporciona na comunidade, pode ser só o começo, pra todos e todas se aliem, criando um corpo gigante, pra salvar essa espécie maravilhosa, e assim expandir pra tantas outras, também ameaçadas. Parabéns amigo Ary e todas e todos envolvidos.

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