Principais candidatos a presidente dão pouca importância às Forças Armadas

Os projetos políticos de Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (PSB) não contemplam de forma específica a Marinha, Exército e Aeronáutica. Área de Defesa continua sendo negligenciada politicamente, enquanto  setor vai movimentar cerca de R$ 115,8 bilhões nos próximos anos

Nenhum dos três principais presidenciáveis apresentaram propostas específicas para o Exército, Marinha e Aeronáutica

Nenhum dos três principais presidenciáveis apresentaram propostas específicas para o Exército, Marinha e Aeronáutica

Frederico Vitor

Propor políticas para as Forças Armadas é muito complexo para a maioria dos políticos brasileiros. Há uma parcela deles que acham vergonhoso discutir o assunto, pois temem ser comparados jocosamente ao falecido deputado federal Enéas Carneiro (antigo Prona), que tinha como bandeira política a construção da bomba atômica. Todo mundo sabe: submarinos navegam de­bai­xo d’água, caças não sobrevoam as cidades e os tanques ma­nobram em campos isolados, por­tanto os eleitores não os veem — exceto nos minguados des­files cívico-militares de 7 de se­tembro. Ou seja, a área de Defesa não rende votos, apesar de custar caro ao contribuinte.

Então, pela lógica desses homens públicos, não vale a pena perder tempo em propor políticas relacionadas às Forças Armadas. A consequência: o Brasil ganha importância no cenário mundial e, a cada dia, somos visados por dezenas de interesses estranhos ao nosso cotidiano. Despertamos cobiças de nações mais poderosas, como provado nos documentos vazados pelo ex-agente americano da Agência de Segurança Nacional (NSA), Edward Snowden: os órgãos de inteligência dos Esta­dos Unidos espionaram a Presidência da República e o alto escalão do governo brasileiro.

É inegável que o País tem outras prioridades. As demandas mais elementares parecem não ter fim, por exemplo, a eterna deficiência do Estado brasileiro em prover saneamento básico aos seus cidadãos, que pagam uma das mais altas taxas tributárias do mundo. Segundo o “Ranking do Saneamento 2014”, preparado pelo Instituto Trata Brasil, as duas cidades mais ricas do País tratam apenas a metade de seus esgotos (São Paulo, 52,15% e Rio, 50,2%). Fora isso, em pleno século 21, não conseguimos erradicar o analfabetismo; os hospitais públicos parecem mais acampamentos de guerra do que unidades de saúde; e a criminalidade, que explodiu nos grandes centros, avança para o interior. Desde 2012, as estatísticas apontam que mais de 50 mil brasileiros morrem todos os anos vítimas de homicídio.

Tais questões são colocadas à frente nas pautas de discussões político-eleitorais e nota-se que poucas ideias dos candidatos à Presidência são dedicadas às For­ças Armadas. Dos parcos espaços relacionados à área na plataforma de campanha, Aécio Neves (PSDB), da coligação Muda Brasil, foi o presidenciável que mais deu importância ao tema, ao reservar uma página inteira, dividida em sete tópicos, de seu plano de governo. O projeto do tucano, mesmo que genérico, ressalta que a Defesa nacional será reiterada como uma política de Estado e que as fronteiras — em especial a região amazônica, plataformas de produção e perfuração no mar territorial — terão atenção especial do Planalto em sua possível gestão.

Mesmo parecendo se preocupar com o tema, Aécio Neves, porém, se limitou a questões superficiais. Chamou à atenção a promessa de apoiar a modernização da base industrial de Defesa para permitir que as empresas do setor possam ampliar seus gastos em pesquisa e desenvolvimento, atualização tecnológica de instalações industriais, capacitação e formação de mão-de-obra. O candidato do PSDB se compromete em am­pliar a coordenação entre o Mi­nis­tério da Defesa, o Itamaraty e os órgãos de planejamento do governo federal, além de apoiar missões de paz em cumprimento a resoluções e iniciativas da Orga­­ni­zação das Nações Unidas (ONU).

Dilma não reservou nada ao tema em seu plano de governo l Marina quer Forças Armadas engajadas em questões ambientais l Aécio planeja área da Defesa reiterada como política de Estado

Dilma não reservou nada ao tema em seu plano de governo l Marina quer Forças Armadas engajadas em questões ambientais l Aécio planeja área da Defesa reiterada como política de Estado

Nenhuma linha

A candidata Marina Silva (PSB), da coligação Unida pelo Brasil, promete fortalecer e modernizar as Forças Armadas para o cumprimento de sua missão constitucional de defesa da pá­tria, de garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da manutenção da lei e da ordem. O documento do PSB reitera que, em sua missão de defender a pátria, as Forças Armadas devem incorporar a missão de proteção do meio ambiente — particularmente da biodiversidade contra a biopirataria — e do policiamento das fronteiras para o combate ao contrabando e ao tráfico de drogas, de armas e de pessoas.

Já o programa de governo da candidata à reeleição Dilma Rousseff (PT), da coligação Mais Mudança Mais Futuro, estranhamente não dedica sequer uma linha ao tema. A candidatura do partido que vai completar 12 anos no poder não deu importância aos projetos bilionários em curso na pasta de Defesa, iniciados ainda no primeiro governo do ex-presidente Lula.

Força Aérea vai fechar negócio orçado em R$ 21,2 bilhões pela compra de 36 caças suecos Marinha vai construir um submarino nuclear e quatro convencionais por R$ 31,1 bilhões

Força Aérea vai fechar negócio orçado em R$ 21,2 bilhões pela compra de 36 caças suecos
Marinha vai construir um submarino nuclear e quatro convencionais por R$ 31,1 bilhões

Projetos bilionários em curso na pasta da Defesa

A pergunta que se faz é: como uma área tão importante, que vai consumir R$ 115,8 bilhões dos cofres públicos nos próximos anos, pode ser tão desprezada pelos candidatos, ao ponto da presidenciável que lidera as pesquisas de intenção de votos não incluir o assunto em seu programa de governo? Será que o Brasil está tão a salvo de guerras e conflitos? Nossas soberania e fronteiras estão tão asseguradas e garantidas? Seriam invisíveis e inexpressivos aos olhos dos governantes os 50 mil militares que integram as fileiras da Marinha, os 210 mil do Exército e os 60 mil da Aeronáutica? E a indústria nacional de Defesa? Ela não agregaria tecnologia e divisas ao País aos moldes dos complexos mi­litares de vanguarda de países como Estado Unidos, Rússia, China, Reino Unido, Japão e França?

Com a palavra, o caro eleitor. Primeiramente, é necessário traçar um panorama sobre a geopolítica, no qual o Brasil está inserido, e sobre o quadro em que se encontra nossas Forças Armadas. Come­cemos pela mais antiga das três Forças, a Marinha, que veio pronta para o Brasil juntamente com a Corte portuguesa em 1808. Atual­mente, a armada brasileira toca um dos projetos militares mais ambiciosos e dispendiosos de todas as marinhas de guerra do Hemisfério Sul. Trata-se do Programa de Desenvol­vimento de Submarinos (Prosub), o qual, até 2023, irá lançar ao mar uma frota de submarinos de propulsão nuclear de tecnologia francesa, e outros quatro submergíveis convencionais (motorização diesel-elétricos), ao preço total de R$ 72 bilhões.

Para os próximos 15 ou 20 anos, o almirantado brasileiro tem planos de tornar a Marinha do Brasil a nona mais poderosa do globo — depois de Estados Unidos, China, Rússia, França, Inglaterra, Índia, Coreia do Sul e Japão. Para chegar neste patamar, nos próximos 10 ou 12 anos, investimentos superiores a 30 bilhões de dólares deverão ser feitos. Entre os projetos considerados estratégicos, como o Prosub, existe o plano de construção no Brasil de pelo menos 20 navios patrulhas de 500 toneladas. Esse programa pode gerar cerca de 15 mil empregos diretos e indiretos. A armada brasileira também pretende adquirir cinco fragatas — ao preço de R$ 310 milhões cada — e um navio de apoio logístico com capacidade de carga de 12 mil toneladas que custará R$ 310 milhões.

Modernização do Exército

Exército desenvolveu um míssel de cruzeiro com alcance de 300 km

Exército desenvolveu um míssel de cruzeiro com alcance de 300 km

O Exército, apesar das constrangedoras notícias de que alguns quartéis estariam operando em meio período por falta de comida para a tropa, tem passado por um amplo processo de modernização. Os militares da farda verde-oliva competentemente desenvolveram, juntamente com a montadora italiana Iveco, uma família de blindados sobre rodas, os Veículos Blinda­dos de Transporte Pessoal (VBTP) Guarani (tração 6×6). A expectativa é de que a força receba uma frota de pelo menos 3 mil unidades desses carros de combate, que vão equipar os regimentos e esquadrões de cavalaria e os batalhões de infantaria mecanizado da força terrestre pelos próximos 30 anos.

A empresa estatal Imbel, sediada em Itajubá-MG, desenvolveu um novo fuzil para o Exército, o elogiado IA2. As no­vas armas serão empunhadas pelas tropas nos próximos anos nas versões 5.56 milímetros (padrão Organização do Tratado do Atlântico Norte — Otan) e 7,62 milímetros. O Exército também desenvolveu um radar (Saber M60) de busca e vigilância em três dimensões, desenvolvido para defesa antiaérea de baixa altura.

Outro projeto ambicioso da força terrestre, e que se encontra em desenvolvimento, é o sistema de artilharia Astros 2020. Trata-se de uma plataforma de lançamento múltiplo de foguetes que serão baseados no Forte de Santa Bár­ba­ra, no município goiano de For­mosa. Mais: este novo sistema vai in­tegrar, pela primeira vez na A­mérica Latina, um míssil de cruzeiro que é desenvolvido pela em­presa brasileira Avibras. O vetor terá um alcance de 300 quilômetros, ou seja, se disparado do litoral brasileiro, poderá abater com precisão qualquer alvo dentro dos limites do mar territorial brasileiro, isto é, na zona do pré-sal.

Novos caças

Depois de 16 longos anos de es­pera, a Aeronáutica vai ter um novo caça. Em novembro do ano passado o governo anunciou que a oferta da empresa sueca Saab foi a vencedora da concorrência FX-2 para o fornecimento de 36 caças supersônicos, mais a transferência da tecnologia destes aviões. A aeronave Gripen derrotou, no certame brasileiro, as propostas americana (Boeing F-18 Super Hornet) e francesa (Dassault Rafale). A aquisição dos aviões sue­cos está orçada em R$ 21,2 bi­lhões, sendo que o de­sem­bolso orçamentário mais ro­busto só deve acontecer a partir de 2016.

Outro programa vultoso em execução é o desenvolvimento do cargueiro tático KC-390, projeto da Embraer, em parceria com a Aeronáutica. O programa que consumirá inicialmente R$ 7,2 bilhões será revolucionário à indústria aeronáutica brasileira, sendo que cinco países — Argentina, Chile, Co­lômbia, Portugal e Re­pública Tcheca — já manifestaram interesse em adquirir o cargueiro, que será capaz de transportar 23 toneladas de carga ou 80 soldados.

 

Fortalecimento do País no cenário internacional exige modernização das Forças Armadas

Romualdo Pessoa Campos: “Descaso com a Defesa brasileira é preocupante”

Romualdo Pessoa Campos: “Descaso com a Defesa brasileira é preocupante”

A Defesa não pode ser considerada um assunto tão secundário. O Brasil cresceu nos últimos anos no cenário internacional e, juntamente com a Rússia, China, Índia e África do Sul, forma um bloco de países emergentes que tem desequilibrado a geopolítica mundial. Os BRICs tornaram o mundo cada vez mais multipolarizado e, na medida em que a importância do Brasil cresce no cenário mundial, mais responsabilidades sobre sua soberania são exigidas.

Um país de mais de 200 mi­lhões de habitantes, com recursos naturais quase inesgotáveis (floresta Amazô­nica, o rico mar territorial onde se encontra o pré-sal, o aquífero Guarani e as colossais jazidas de ferro, aço e nióbio), com 15.735 quilômetros de fronteiras terrestres e 7.367 marítimas, além de uma economia que pontua entre as dez maiores do mundo (7ª maior do mundo), ne­ces­sita ter uma clara política nacional de Defesa e uma consciência pú­­blica de soberania e independência.

O Brasil gasta, em média, 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) com sua defesa, o que representa, aproximadamente, R$ 72 bilhões. Cerca de 70% desse valor é consumido com pagamento de pessoal. São 320 mil homens das três Forças — Marinha, Exército e Aeronáutica —, incluindo militares da ativa, reservas e pensionistas — e manutenção das estruturas militares já existentes. O ideal, segundo os comandantes militares, seria investimentos em torno dos 2% do PIB — R$ 96 bilhões.

Mesmo assim, o Brasil estaria abaixo da média do que os BRICs gastam com segurança e defesa. Russos, chineses gastam bem acima da média dos outros países do bloco, como Índia e África do Sul que destinam cerca de 2,4% de seus PIBs com suas respectivas forças armadas. Ou seja, bem acima dos 1,5% investidos pelo Brasil.

De acordo com o professor de Geopolítica do Instituto de Estu­dos Sócio-Ambientais (IESA) da Uni­versidade Federal de Goiás (UFG), Romualdo Pessoa Cam­pos, a pouca importância dos candidatos a presidente em relação à área de Defesa de fato preocupa. Ele argumenta que o Brasil é um dos poucos países do mundo que tem o dever de guarnecer gigantescas fronteiras, tanto terrestre quanto marítima, em especial a complexa região limítrofe territorial brasileira na imensidão da selva amazônica. “Provavelmente, esse descaso dos candidatos pode estar relacionado ao trauma do período do governo militar. É algo lamentável, pois estamos falando de uma estrutura presidencialista e o presidente é o comandante supremo das Forças Armadas”.

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