Primeira siamesa separada em Goiás quer seguir passos de seu cirurgião

20 anos depois de ser separada de Lorraine, Larissa Gonçalves quer estudar medicina. Ela acredita que se interessa pela área por influência de Zacharias Calil

Zacharias Calil e a família Gonçalves | Foto: Acervo Pessoal

Em 1999, foi feita a primeira cirurgia de separação de gêmeos siameses do Centro-Oeste brasileiro. O médico e cirurgião pediátrico Zacharias Calil Hamu separou com sucesso as gêmeas Larissa e Lorraine Gonçalves no Hospital Materno Infantil, em Goiânia. O caso atraiu a atenção do mundo, tendo sido noticiado pela mídia internacional e local na época e até 20 anos depois da separação. 

Além de ter dado início à história da separação de gêmeos em Goiás, o caso das irmãs Gonçalves também é o começo da especialização do doutor Zacharias Calil na área. Atualmente, o médico conta vinte separações de siameses em sua carreira, é frequentemente convidado por outros cirurgiões para assistir procedimentos do gênero, participa de congressos médicos sobre o tema e é considerado uma referência mundial no tratamento dessa condição rara.

“Não há muito que eu possa falar sobre os gêmeos siameses de forma geral, porque cada caso é muito diferente do outro”, afirma Zacharias Calil. “Mas a separação de Lorraine e Larissa foi emblemática para Goiás por ter sido a primeira. Na época, não tínhamos orientação da experiência e nem mesmo da literatura médica, que era escassa. Tivemos de estudar a fundo o caso específico, que era muito complexo.”

Unidas pelo abdômen e bacia, as gêmeas dividiam intestino, fígado e genitália. O desafio, conta Zacharias Calil, era reconstruir as partes anatômicas de cada uma. As crianças foram preparadas por oito meses e uma equipe de 58 pessoas atuou ao longo de todo processo. Apenas a cirurgia durou mais de dez horas e o pós-operatório incluiu uma estada de 17 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Com o fim de todo o procedimento operatório, Larissa e Lorraine retornaram à cidade da família, Santo Antônio de Goiás, na Região Metropolitana de Goiânia. Quem cuidou de ambas desde o nascimento, e continua cuidando, foi a mãe das garotas – Luciana Gonçalves. 

Em maio de 2007, Lorraine faleceu por conta de uma embolia pulmonar relacionada a seus problemas respiratórios. A jovem tinha paralisia cerebral. 

Jornal em papel ou jornal filmado?

“Encaro com naturalidade, isso de me ver no jornal, mas não mostro para as outras pessoas por timidez”, diz Larissa Gonçalves | Foto: Italo Wolff / Jornal Opção

A família Gonçalves nunca deixou de receber atenção da imprensa. Uma rápida busca revela a média de duas reportagens por ano publicadas sobre o caso. A própria história das siamesas se iniciou com uma matéria da TV Serra Dourada, apresentada pelo então repórter Jordevá Rosa. “Vi as meninas pela primeira vez naquela reportagem e a complexidade do caso me chamou muito a atenção”, lembra Zacharias Calil. “Elas estavam apenas pedindo ajuda para custear remédios, fralda, leite, mas achei que poderia ajudar mais.”

Pelo histórico de proximidade com o jornalismo, a reação da família ao receber meu primeiro contato me causou espanto. Larissa quis saber se a reportagem seria apresentada em forma de filmagem ou de texto. A garota, hoje com 22 anos, só aceitou após ser informada que não haveria câmeras de vídeo. 

“Me desacostumei a falar com repórteres”, afirmou Larissa Gonçalves quando perguntei sobre o assunto. “Sou muito tímida. Tem muita matéria sobre mim na internet, mas já fazem dois anos que não acontece. Encaro com naturalidade, isso de me ver no jornal, mas não mostro para as outras pessoas por timidez. Ela gosta mais do que eu”, diz Larissa, apontando para a tia Luciana – a quem chama de mãe.

“Eu não vejo problemas em receber jornalistas”, diz Luciana, no sofá da sala de sua casa. “Até porque foi através do jornal que conseguimos a cirurgia delas. Tivemos ajuda de muita gente na época que se sensibilizou ao nos ver nas matérias de jornal. Só temos de agradecer ao jornalismo, porque nos ajudou a superar muita coisa.”

“Só temos de agradecer ao jornalismo, porque nos ajudou a superar muita coisa”, diz Luciana Gonçalves | Foto: Italo Wolff / Jornal Opção

Hoje, Larissa leva uma vida normal. Em Santo Antônio de Goiás, município de 6,5 mil habitantes, é conhecida por todos. Tem muitos amigos, estuda, frequenta bares e restaurantes com amigos. Quando criança, dado seu bom desempenho escolar, com notas altas, foi adiantada do 5º para o 6º ano.

A jovem conta que nunca se viu como diferente. Ela conversava com os amigos a respeito de sua deficiência (cada uma das gêmeas deixou a cirurgia de separação com apenas uma perna) durante a infância, mas atualmente, o fato foi naturalizado de forma que ela raramente pensa sobre isso. “Levo uma vida normal. Todo mundo gosta de vir aqui em casa – não me sinto diferente.”  

“É diferente sim porque o povo da cidade deixou ela mal acostumada”, desmente Luciana, rindo. “Larissa não gosta de cadeira de rodas nem de muleta porque em todos os bares que vai, é carregada pelas pessoas. Todo mundo gosta dela, ela conhece mais gente aqui do que eu”.

Atualmente, o principal foco na vida de Larissa – e a maior preocupação de Luciana – são os estudos. Com 22 anos, Larissa foi aprovada para os cursos de direito, fisioterapia, e até conseguiu uma bolsa integral em faculdade particular de medicina em Minas Gerais, mas não quis ir. “Não sei porque”, comenta Larissa. “Tive medo de ficar longe dos parentes, só com desconhecidos”. Ela espera conseguir uma vaga no curso de medicina em Goiânia. 

O objetivo da garota de estudar medicina foi reportado pela revista americana Vice em novembro de 2020, em uma reportagem cujo título traduzido significa algo como “Ela foi separada de sua irmã gêmea. Agora ela está em uma missão para separar os outros”. Larissa estuda para a seleção via cursinho online, e diz que se interessa pela medicina desde que consegue se lembrar. 

O primeiro contato de Larissa com sua área de interesse aconteceu por meio dos brinquedos que ganhou do médico Zacharias Calil: bonecas médicas, corpos humanos que se desmontam, livrinhos infantis sobre os órgãos. Os presentes de aniversário e natal que ganhou do cirurgião revelam um aspecto do trabalho que raramente ganha espaço nos jornais. Zacharias Calil mantém contato com quase todos seus antigos pacientes. 

Família da antiga paciente criou um vínculo pessoal com o cirurgião | Foto: Italo Wolff / Jornal Opção

“Eles sempre me enviam mensagens na data de aniversário da separação, compartilham a evolução das crianças, querem mostrar quando vão bem na escola”, diz Zacharias Calil. “Nós criamos um vínculo pessoal”. Larissa conta que já foi à casa do cirurgião, que eventualmente conversam por WhatsApp, e que o Dr. Calil é uma referência que a inspira. 

Início difícil

A família de Luciana foi viver em Santo Antônio em função do emprego de seu pai na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que se localiza a menos de 5 quilômetros do município. O marido de Luciana, falecido há 5 anos, também era funcionário da empresa. 

Desde o nascimento das irmãs siamesas, foi Luciana (irmã da mãe biológica das gêmeas) quem assumiu a responsabilidade pelas garotas. “A mãe biológica entrou em depressão após o nascimento de Lorraine e Larissa e não quis cuidar das meninas”, diz Luciana. “Fui ao hospital visitar as recém-nascidas e o médico me falou que alguém da família tinha de cuidar delas, pois seriam transferidas da UTI. Quando fui falar isso para a mãe delas, ela já me disse que não tinha estrutura para cuidar delas, que não iria cuidar. Aí eu fui. A gente vai pegando amor. Com um mês e oito dias, trouxe elas para a minha casa”, diz Luciana Gonçalves.

Os primeiros momentos com as garotas em casa foram dificílimos, conta Luciana. Com três filhos de quatro a seis anos de idade, o casal ainda tinha de se revezar para cuidar das gêmeas durante a noite e madrugada. Eram frequentes os desmaios por exaustão, diz Luciana. Os funcionários da Embrapa, colegas do marido de Luciana, fizeram uma vaquinha para contratar uma cuidadora que pudesse lhes auxiliar. Foram também os amigos que sugeriram buscar ajuda em um programa de televisão.

“Não gostei da ideia a princípio”, conta Luciana. “Mas acabaram me convencendo. Rapidamente, depois da matéria ir ao ar, recebemos ajuda financeira para leite eremédios, e dois médicos se prontificaram a nos ajudar com a cirurgia de separação. O que eu mais queria era separá-las, e dois médicos logo se prontificaram”. 

Gêmeas nasceram unidas pelo abdômen | Foto: Acervo Pessoal

Luciana diz que escolheu a ajuda do Dr. Zacharias Calil porque sentiu nele maior segurança e domínio do assunto, mas também porque sentiu maior acolhimento e compreensão. “Tínhamos medo demais porque tudo era desconhecido. Foram oito meses de preparação com expansores de pele, fisioterapia, e – eu me lembro como se fosse hoje – às 07h da manhã do dia da cirurgia, eu disse ao Dr. Zacharias que queria desistir. Ele disse que não tinha como voltar atrás, e me tranquilizou.”

Luciana passou as dez horas de cirurgia na sala de espera, conversando com psicólogos do hospital, com o marido e com parentes. A operação foi bem sucedida. Após 17 dias de UTI que seguiram o procedimento, o casal retornou com as crianças a Santo Antônio de Goiás. “Durante o período de internação na UTI, nós íamos visitá-las todos os dias, e continuamos em contato com a equipe do hospital para acompanhamento depois disso.”

Os médicos eram céticos quanto à perspectiva de vida de Larissa, mais fraca e menor do que a irmã. Entretanto, a garota se adaptou rapidamente à nova rotina. Entrou para a escola com quatro anos de idade, aprendeu a andar de bicicleta e a nadar cedo. Lorraine, apesar de mais robusta, tinha 80% afetado pela paralisia cerebral – não enxergava ou se comunicava.

“A Larissa fazia da Lorraine sua boneca”, lembra Luciana sorrindo. “Pintava seu rosto com maquiagem, fazia penteados, trocava a roupa dela. Nós tínhamos de adivinhar o que Lorraine queria, mas a Larissa tinha essa conexão com ela”. Larissa afirma que tem muitas memórias da irmã, e que sua morte a impactou profundamente. Ela afirma que após o falecimento de Lorraine, largou a mamadeira, a chupeta, e amadureceu subitamente. 

Larissa ainda mantém viva parte de Lorraine – não apenas figurativamente, mas literalmente, já que parte de seu abdômen foi reconstruída com órgãos da irmã. “A Lorraine era uma parte dela”, diz Luciana. “Ainda é. E ainda mantemos viva a memória de como tudo aconteceu”.

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