Pré-candidatos se equilibram entre política e combate ao coronavírus em ano eleitoral

Em uma época que as atenções se voltam para o combate ao causador da Covid-19, políticos tentam promover discussões e alianças para as eleições municipais

Eleições serão realizadas em momento problemático, e políticos deverão ter jogo de cintura | Foto: Câmara dos Deputados

Após analisar uma ação protocolada pelo Partido Progressista (PP), o plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, na quinta-feira da última semana, manter o prazo já previsto no calendário eleitoral para o registro de candidatura, filiação partidária, mudança de domicílio eleitoral e desincompatibilização com cargo público. O PP havia solicitado à corte a suspensão do prazo por 30 dias, uma vez que a data limite era 4 de abril. Justificando o pedido, o partido político argumentou que as dificuldades causadas pela pandemia do coronavírus eram prejudiciais ao processo. Entretanto, os prazos foram mantidos e, ao que tudo indica até o presente momento, as eleições municipais previstas para outubro deste ano também.

A preocupação do impacto do coronavírus no pleito tem sido geral. Em março deste ano, por exemplo, o deputado federal Glaustin da Fokus, do PSC, chegou a encaminhar um ofício ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) solicitando a revisão do calendário eleitoral em razão da pandemia. Fokus alegou que a propagação do vírus que está levando milhares ao óbito prejudicou o processo por impedir articulações políticas nos municípios. Porém, a solicitação do deputado foi negada em votação unânime no plenário do tribunal.

O pensamento do STF parece continuar o mesmo. O argumento da relatora do processo do PP, ministra Rosa Weber, deixou claro que, até agora, o Sars-CoV-2, causador da Covid-19, não configura motivo suficiente para executar alterações tão significativas no calendário eleitoral. Para ela, “não foi demonstrado que a situação causada pela pandemia viola os princípios da soberania popular e da periodicidade das eleições, previstos na Constituição Federal”.

Em abril, o TSE, que também é presidido pela ministra Rosa Weber, chegou a publicar em suas redes sociais um informativo dando conta da atual situação, com os seguintes dizeres: “Atenção! Até o momento, não há adiamento das #Eleições2020. Mudanças no calendário ou em regras eleitorais dependem de alteração legislativa ou do texto constitucional. A Justiça Eleitoral deve cumprir os prazos previstos em lei.”

Diante da perspectiva do cumprimento do calendário eleitoral e da efetiva realização das eleições, os pré-candidatos às prefeituras dos municípios goianos e os candidatos a vereadores vêm tentando, em simultaneidade ao debate e soma de forças contra a Covid-19, articular seus nomes e discutir alianças visando a votação de outubro. E apesar das atenções e pensamentos estarem voltados para a prioridade do momento e objetivando as soluções e formas de combater a ameaça invisível que já levou ao óbito mais de 15 mil brasileiros, uma movimentação política tem ocorrido nos bastidores.

Goiânia e o “vai ou não vai” de Iris

Com o escrutínio à porta, a aura de mistério que paira em torno da candidatura à reeleição do atual prefeito de Goiânia, Iris Rezende, ainda é notável. Com 86 anos, o emedebista é figura carimbada em Goiás. Com dois mandatos de governador no currículo político (1983 e 1991), Iris está no quarto mandato como prefeito de Goiânia (1966, 2005, 2009 e 2017). Apesar da idade e da extensa carreira política, Iris parece ainda estar em plena forma, entretanto, se será candidato ou não, o octogenário parece ter deixado para revelar isso aos 45 do segundo tempo.

Caso bata o martelo e saia a campo para disputar mais uma vez a prefeitura – apesar das repetidas afirmações de que isso não está em seus planos -, o mandatário preparou bem o terreno para 2020. Em 2019, Iris investiu pesado em infraestrutura. A rede de drenagem e o projeto do Bus Rapid Transit, o BRT Norte-Sul, são algumas das maiores evidências disso. Este primeiro projeto conta com 2,6 quilômetros de extensão que vão da Praça Cívica, no Setor Central, até o Setor Norte Ferroviário. De acordo com a Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos, a Seinfra, a rede permitirá o lançamento das águas pluviais no Córrego Capim Puba, solucionando, teoricamente, o problema com enchentes e alagamento na região da Rua 44, Avenida Independência, Praça do Trabalhador, Avenida Goiás e adjacências, Praça do Bandeirante e Praça Cívica.

Candidatura de Iris ainda é incerta / Foto: Instagram

Entretanto, além de sua tendência de priorizar a infraestrutura e deixar “sua marca”, Iris é o que pode ser chamado de “homem do povo”, com carisma a ponto de segurar outros gigantes da política de sua própria legenda. O ex-governador de Goiás e ex-prefeito de Aparecida de Goiânia, Maguito Vilela, é um exemplo. Numa conversa rápida com o Jornal Opção (no momento da entrevista, Maguito revelou que estava em uma fazenda, e teve que subir ao pé de uma serra para ter sinal disponível de celular), foi evasivo ao comentar uma suposta candidatura própria, mas foi categórico. “O candidato é o Iris. Ele é que vai decidir se vai ser candidato ou não”.

Questionado se colocaria seu nome na disputa caso Iris retirasse o dele, Maguito preferiu não se manifestar. “Enquanto o Iris não decidir, prefiro não falar nada. Deixa ele, naturalmente [decidir se vai concorrer]. Se eu disser algo agora, vai dar a entender muitas coisas, então é o Iris que deve decidir”, disse.

Há cerca de uma semana, Maguito havia dito que não estava cogitando se candidatar. Entretanto, o ex-prefeito de Aparecida pode não estar tão estagnado politicamente quanto quer que se pense. Informações levantadas pelo Opção dão conta de que Maguito Vilela está atrás de uma composição ampla que inclua o PSD do senador Vanderlan Cardoso e do deputado federal Francisco Júnior. Em caso de Iris realmente pendurar as chuteiras na política, Maguito acredita que uma aliança com Cardoso pode lhe garantir uma vitória.

Do lado da oposição, a movimentação também tem sido notada. A deputada estadual Delegada Adriana Accorsi, do PT, pré-candidata confirmada à prefeitura, declarou que tem concentrado esforços na luta contra o coronavírus, mas que simultâneo a isso, tem feito reuniões e garantindo o diálogo. “Eu creio que no momento que a gente atravessa a prioridade é a questão do combate ao coronavírus, na medida de preservação das vidas, de proteção das pessoas. Eu tenho trabalhado muito nessa questão enquanto deputada”, entretanto, “ao mesmo tempo, tendo em vista que provavelmente as eleições acontecerão este ano, e que inclusive essa questão do coronavírus faz parte do debate, os debates estão acontecendo, nós estamos tendo várias reuniões do Partido dos Trabalhadores com a militância, com simpatizantes”, informou.

Luziânia terá disputa entre deputados pré-candidatos

O pleito no município de Luziânia, no Entorno do Distrito Federal, também deve ser acirrado. Dois deputados estaduais já disponibilizaram seus nomes para concorrer à prefeitura, e ambos possuem boas chances: Diego Sorgatto, que deixou o PSDB e migrou para o Democratas, e Wilde Cambão, do PSD.

Além deles, outros nomes têm mantidas suas pré-candidaturas e devem se destacar na corrida eleitoral, tais quais a atual prefeita em exercício, Edna Aparecida (Podemos), que assumiu no lugar o prefeito afastado Cristóvão Tormim, atualmente no PP, e o advogado Eládio Carneiro, suplente do senador que trocou o Democratas pelo PSL, antigo partido do presidente da República Jair Bolsonaro. Além deles, o PSOL também deve contar com candidatura própria.

Sorgatto, hoje no DEM, é um dos principais pré-candidatos em Luziânia / Foto: Divulgação/Alego

Eládio concorreria pelo DEM contando com o apoio do governador Ronaldo Caiado. Entretanto, com a filiação de Diego Sorgatto a seu partido, Caiado também migrou seu apoio. Como opção, o advogado e pré-candidato decidiu ir para o PSL, onde se juntou ao grupo do deputado federal Delegado Waldir.

Já Sorgatto tem trabalhador forte em sua pré-candidatura, que conta com aval caiadista. Conforme o deputado estadual, resta claro que a prioridade no momento é o combate à pandemia do coronavírus, entretanto, a movimentação política segue a todo vapor.

“Tanto nós, quanto o governador, estamos empenhados em tentar elencar todos os esforços no sentido de coibir a disseminação do coronavírus e criar estrutura e ferramenta para tratar as pessoas que venham a ser infectadas. A questão política, obviamente, não está em primeiro plano mas também não esquecemos dela, então continua tudo normal. Nós não estamos fazendo as discussões de debates com a frequência e o mesmo volume com que faríamos se não tivesse a pandemia, mas estão acontecendo”, declarou.

Sorgatto garantiu que o grupo democrata tem crescido em Luziânia, e mencionou as recentes filiações de vereadores à legenda caiadista. “Nós filiamos, a meu convite, nove vereadores no Democratas de Luziânia. O município tem 21 vereadores. Dos 21, nove, incluindo o presidente da Câmara, filiaram ao Democratas a nosso convite”, finalizou.

Um boato de que o deputado Wilde Cambão poderia desistir de sua pré-candidatura para apoiar Eládio Carneiro chegou a circular. Entretanto, Cambão garante que a informação não passa disso: um boato. Segundo ele, sua pré-candidatura pelo PSD está firme, e o diálogo feito com Carneiro não reflete para nenhum dos dois o desejo de desistir do pleito. “Não tinha um acordo de que eu desistiria para apoiá-lo. A conversa era de que se tivesse que haver entendimento a gente estaria junto, não estaríamos em grupos políticos contrários. Ele é pré-candidato como eu também sou”, disse. 

O deputado mencionou ainda a pré-candidatura do empresário Geraldo Caixeta. Conforme Cambão, Caixeta está decidido a colocar seu nome na disputa, apesar de não ter anunciado oficialmente. “Publicamente ele ainda não colocou [a pré-candidatura], mas internamente ele tem a vontade”, informou.

“O PSDB está na minha mão hoje”, diz pré-candidato de 21 anos de Rio Verde

O pleito em Rio Verde, município com uma das maiores economias do Estado de Goiás, promete ser atípico este ano. Além de estar previsto para ocorrer durante a gravíssima crise provocada pelo Sars-CoV-2, a corrida eleitoral traz pré-candidatos que chamam a atenção, como o estudante de Odontologia Clailton Filho, de apenas 21 anos. Clailton, que garante ser o nome escolhido para representar o PSDB nas eleições municipais, enfatiza que a pouca idade não é um fator que o desqualifica para o escrutínio, e enfatiza: “Me cobram uma experiência que todos os candidatos que disputaram a eleição para prefeito de Rio Verde na história tinham, e nunca deu certo”.

Para Clailton, “falar de política nesse momento [de crise do coronavírus] é difícil, porém necessário”, pois, segundo ele, é devido a erros cometidos nas escolhas políticas que hoje nota-se os sistemas de saúde enfrentarem uma grave crise.

Apesar da pouca idade, Clailton garante que tem vivência o suficiente para gerir Rio Verde / Foto: arquivo pessoal

O jovem, que preside a Comissão Provisória psdebista em Rio Verde, afirma estar com a candidatura garantida pela sigla, e destaca o espaço conquistado junto aos tucanos. “O PSDB está na minha mão hoje. Eu estou assumindo a Comissão Provisória, posteriormente em junho a gente vai estar fazendo diretório. Circulou uma fake news aqui em Rio Verde de que o Dr. Juraci foi em Goiânia e fechou acordo com o ex-governador Marconi Perillo. Isso não é verdade. […] Já está bem definido com o ex-governador Marconi Perillo e o presidente estadual Jânio Darrot essa questão da gente estar lançando candidatura própria na cidade de Rio Verde. O martelo já está batido”, revelou.

Ao mencionar a referida fake news, Clailton traz à tona a polarização com o pré-candidato pelo PSD que cogitou-se ter o apoio do PSDB, o médico e ex-prefeito de Rio Verde Juraci Martins. Juraci é um dos nomes fortes do município, e já garantiu o apoio massivo dos emedebistas da região. Segundo o vice-presidente do MDB, Manuel Cearense, o partido garantiu ao ex-prefeito que se ele quisesse concorrer teria a candidatura apoiada, convite este que foi aceito.

Manuel destacou que a cláusula para o apoio a Juraci foi a indicação do vice por parte do MDB. O vice-presidente disse que ainda não foi definido um nome, mas apenas um dentro do partido vem trabalhando para ser indicado. “Nós estamos trabalhando na pré-candidatura do doutor Juraci, e existe a palavra de que o Juraci sendo candidato, o vice é do MDB”.

“O nome [do vice] ainda não foi definido, mas a única pessoa que hoje vem trabalhando, que manifestou vontade é o doutor Osvaldo Júnior. Ele é o único dentro do partido que manifestou vontade”, informou Manuel. Osvaldo, assim como Juraci, também é médico, e dirige o Hospital Presbiteriano Dr. Gordon, em Rio Verde.

Crise do coronavírus reacendeu Vinicius, diz ex-prefeito de Jataí

Outro grande polo político e econômico, Jataí terá um cenário polarizado nas eleições municipais. A crise gerada pela Covid-19, doença provocada pelo Sars-CoV-2, pesou, mas segundo alguns, fez com que o atual prefeito Vinicius Luz, do PP, recuperasse o vigor à frente da gestão.

Segundo o jornalista e ex-prefeito de Jataí, Fernando da Folha, o atual mandatário estava sendo visto como “morto” politicamente. Porém, a energia demandada no combate ao coronavírus, aparentemente, renovou suas forças. “O prefeito Vinicius está se saindo muito bem nesse momento, com uma atuação destacada, séria. Até pouco tempo atrás a gente acha que ele estava “morto”. Sou ex-prefeito e ele foi meu secretário. Só que a reviravolta está sendo tão grande em função dessa pandemia, que o homem está crescendo”, avaliou Fernando.

Vinicius ainda não definiu o nome para vice, mas cogita-se que a escolhida pode ser a atual presidente da Câmara Municipal de Jataí, a vereadora Kátia Carvalho, que já demonstrou interesse em disputar a eleição ao lado do atual prefeito.

Para Fernando, a saúde demonstrou uma melhora significativa na região, devido às medidas adotadas por Vinicius, e hoje o prefeito tem grandes chances de se reeleger. Por outro lado, polarizando com Vinicius, há o ex-prefeito de Jataí, Humberto Machado.

Machado já dirigiu Jataí por quatro vezes, e tem força junto à população jataiense. O emedebista tem demonstrado interesse em volta a ocupar a cadeira de prefeito desde o ano passado. Ele apareceu bem em pesquisas internas de 2019 como favorito para ser o principal rival de Vinícius Luz na disputa pela Prefeitura de Jataí. Nos últimos anos, Martins só não disputou pleitos quando estava impedido.

Além de Vinicius Luz e Humberto Martins, também devem estar na disputa o empresário Rogério Rassi; Leozinho do Sindicato, que é presidente do Sindicato dos Servidores Públicos de Jataí; Luciano Lima e Morais da Lanchonete Santa Fé. Uma fonte ouvida pelo Opção afirmou que desses, Luciano Lima, Morais e Leozinho não abrem mão da pré-candidatura.

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