Pré-candidatos “pequenos” ganham projeção e pluralizam debate

Concorrentes ao governo de Goiás apresentam propostas que tratam de demandas da classe trabalhadora até questões ambientais

Kátia Maria (PT), Weslei Garcia (PSol) e Edson Braz (Rede) estão na lista de pré-candidatos ao governo estadual

Fernanda Garcia

A corrida pelo governo do Estado neste ano conta com a participação de figuras políticas que, se antes apresentavam performances tímidas nas pesquisas, agora, cada vez mais próximo das eleições, vão diversificando a disputa ao dividir espaço com rostos conhecidos. Professora Kátia Maria (PT), Weslei Garcia (PSol) e Edson Braz (Rede) estão na lista de pré-candidatos com nomes mais consolidados, como o de Ronaldo Caiado (DEM), José Eliton (PSDB) e Daniel Vilela (MDB). Com propostas que atendem desde os interesses da classe trabalhadora até demandas ambientais, os pré-candidatos buscam dinamizar a roupagem política.

Na primeira rodada da pesquisa Serpes/O Popular, divulgada em abril, Kátia Maria obteve 3% das intenções de voto, e Weslei Garcia, 0,9%. Foram entrevistados 801 eleitores de Goiás, entre os dias 30 de março e 5 de abril. O nome de Edson Braz ainda não aparecia, uma vez que sua pré-candidatura foi anunciada após reunião da Rede Sustentabilidade realizada somente no dia 9 de junho.

Mesmo sem ele, é possível constatar o crescimento de candidatos considerados “pequenos”, por meio do desempenho dos dois primeiros citados. Na segunda rodada da mesma pesquisa, publicada na última semana, a pré-candidata petista soma 4,6% das intenções, quase alcançando Daniel Vilela, que aparece com 5,6%. Wesley Garcia também apresentou um aumento, com 1,1% da preferência eleitoral. A mesma quantidade de eleitores da primeira rodada participou desta, cuja avaliação aconteceu entre 3 e 8 de junho.

Analisando os números, os pré-candidatos do PT e do PSol apresentaram, respectivamente, cerca de 53% e 22% de crescimento nas intenções. Além disso, seus nomes foram apresentados espontaneamente pelos entrevistados nas duas rodadas. A cada dia mais perto da disputa eleitoral, os concorrentes ao governo estadual Kátia Maria, Weslei Garcia e Edson Braz falam ao Jornal Opção sobre seus projetos de gestão, necessidades da população goiana e propagação de discursos conservadores.

Segurança, saúde e educação

Kátia Maria prioriza uma forma de gestão “integrada” das áreas de segurança, saúde e educação | Reprodução/Facebook

Temas caros à população e recorrentemente explorados na campanha da maioria dos candidatos, segurança, saúde e educação costumam aparecer no debate como corpos isolados. De acordo com Kátia Maria, que também é professora e presidente regional do PT em Goiás, essa área deve ser gerida de forma “integrada”. “O clamor da população por saúde e segurança é enorme e nós queremos trabalhar isso de forma descentralizada”, afirma. Segundo ela, esses três pilares sociais precisam ser planejados do ponto de vista global, ou seja, o funcionamento efetivo de um depende do bom desempenho do outro. “A maioria das lideranças enxerga cada área em um quadradinho”, diz.

De forma parecida, Weslei Garcia, também professor, pensa soluções para a segurança em Goiás. Para ele, a área está diretamente ligada ao desenvolvimento de políticas públicas. “A proposta é tratar a questão de forma diferenciada. Segurança não é apenas aumentar o contingente de policiais nas ruas, mas oferecer uma educação de qualidade e emancipadora e um serviço de saúde que acolha a população”, explica. Além disso, o pré-candidato propõe um modelo de educação com escolas politécnicas. “A grade curricular incluiria disciplinas de arte, dança, cultivação de hortas. Um programa educacional acolhedor a partir do investimento em cultura”, diz.

O trabalho integrado também norteia a visão de Edson Braz, que além de pré-candidato é professor e ex-procurador do Ministério Público do Trabalho. O pré-candidato da Rede conta que antes da pré-campanha uma pesquisa foi realizada para investigar as demandas mais urgentes da população. “Segurança aparece com mais emergência, já que é um problema que atinge a todos, pobres, ricos, velhos, jovens”, salienta. Depois, figurariam na lista saúde e educação. Todavia, ele ressalta que as três áreas são interdependentes e a educação a matriz para o bom desenvolvimento das outras.

“Vê-se uma maior emergência na segurança pública porque o crime hoje não teme a força do Estado”, explica Edson Braz. Por causa disso, ações imediatas são necessárias. “Precisaríamos aparelhar a polícia e os órgãos de segurança nesse enfrentamento. Só que nós acreditamos que isso não é o suficiente porque estaríamos atacando o resultado da violência e não a sua causa.” Em médio e longo prazo, o pré-candidato fala de um trabalho de “prevenção” à violência, centrado na educação, provocando efeitos positivos, inclusive, na área da saúde.

Recentemente, após os desdobramentos da Comissão Especial de Inquérito (CEI) que investigou irregularidades na Saúde de Goiânia – o relatório final foi aprovado em maio –, o setor tem sido uma das principais preocupações nas pautas políticas. Weslei Garcia apresenta em seu plano de governo um sistema de saúde que de fato ampare o cidadão. “Não queremos apenas construir ou reformar hospitais. Queremos que o atendimento seja dado do início ao fim”, esclarece. Ele sugere uma medida de atendimento domiciliar baseado no Saúde em Casa, modelo já em desenvolvimento em outros Estados, como Minas Gerais. “Equipe médica e técnica qualificada para oferecer assistência em domicílios e realizar um acompanhamento preventivo”, pontua.

A pré-candidata do PT aposta na “sinergia”, ou seja, na conexão entre as ações propostas. “Queremos, em todas as políticas, partir da premissa de descentralização, promovendo a qualidade de vida da população de Goiás”, argumenta. De acordo com ela, não se deve pensar a saúde de “forma estreita”, sendo necessária a reestruturação do Sistema Único de Saúde (SUS). “É preciso oferecer atendimento em todas as regiões. Hoje a população é penalizada por conta do grande deslocamento, tendo que sair do interior para áreas centrais do Estado em busca de tratamento”. Igualmente, Edson Braz declara que é preciso regionalizar. “Os hospitais do interior são, na verdade, ambulâncias para Goiânia”, diz.

Privatização

Uma das propostas de Weslei Garcia que ganham destaque é a intenção de reverter a privatização da Celg. O projeto prevê uma revogação do contrato de venda da companhia para a distribuidora de energia elétrica italiana Enel. Outra preocupação é manter a Companhia de Saneamento de Goiás (Saneago) como uma estatal em meio à “onda de privatizações”.

O candidato do PSol acredita que a terceirização “é um processo que precariza os serviços públicos e viabiliza movimentos de corrupção”. Segundo o professor, é a partir da privatização que empresas financiam campanhas políticas, sustentando um “esquema corrupto muito eloquente no Brasil”. Ele defende que é necessário combater esse arranjo fortalecido no discurso do “Estado mínimo” e traçar caminhos para o fortalecimento do que é público.

Sustentabilidade

A atenção ao meio ambiente é uma questão apreciada por aqui. A professora Kátia Maria conta que seu plano de governo é pautado na distribuição de renda, emancipação das pessoas e consciência ambiental. Um dos suportes do programa de gestão é a sustentabilidade. A petista exemplifica voltando para o tópico da saúde. “Com a grande necessidade de deslocamento de pacientes por atendimento, que está concentrado na região metropolitana, são mais carros nas estradas e consequentemente, mais poluição”, explica. Segundo a pré-candidata, é fundamental adaptar o sistema de desenvolvimento econômico pensando em modelos sustentáveis.

Dentre as considerações elementares da Rede, segundo Edson Braz, está a valorização da sustentabilidade ambiental nesse processo de desenvolvimento. “O crescimento econômico não é incompatível com os interesses do meio ambiente”, reflete o pré-candidato. Para ele, é importante refutar o mito de que é impossível produzir sem poluir. “A produção de riqueza pode ser realizada de maneira sustentável. Proteger o planeta não prejudica o desenvolvimento dos negócios.” Ligeiramente profético, ele afirma: “Se acabar o planeta, acaba também o mercado, acaba quem produz, acaba quem compra”.

Popularidade

Pressupor certa apreensão por parte de Kátia Maria quanto a sua candidatura é questionável. A sigla partidária da concorrente ao governo passou por momentos conflituosos, o último culminando na condenação e prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A pré-candidata conjectura que a impopularidade do partido não influenciará em sua participação na disputa eleitoral.

Kátia Maria ressalta que as pesquisas de intenções de voto, quando avaliam cenários em que Lula aparece entre os candidatos, a preferência do eleitorado é majoritariamente pelo petista. “As pessoas estão com saudades do PT, a vida era melhor”, pontua.

Ideologia

“Nem direita, nem de esquerda”, disse Marina Silva no lançamento da Rede Sustentabilidade, em 2013. Em primeira análise, a fala de Marina pode assumir certa ausência ideológica. Mas não é bem assim, segundo Edson Braz. O candidato faz uma alusão a questões referentes ao direito trabalhista. “Temos o direito privado e o público. E o direito do trabalho, onde se encaixa? Na verdade, ele abrange noções e regras dos dois, por isso é unitarista.” As propostas da Rede seguiriam a mesma lógica. “Ela é unitarista porque trabalha com noções que são próprias de uma direita ou de uma esquerda, prezando o interesse público.” Ele complementa, “a gente tem um conceito unitário de política, focado no bem coletivo”.

Reformas

A reforma trabalhista, proposta pelo governo de Michel Temer e aprovada no ano passado, colaborou para a desumanização das relações de trabalho, de acordo com Weslei Garcia. O professor pensa que as mudanças, que refletiram, entre outros, sobre as férias e jornada de trabalho, prejudicaram a classe trabalhadora. De maneira similar, Edson Braz acredita que a reforma acabou mostrando-se um “monstrengo”. “Não tem um sistema que realmente tire os excessos que prejudicam o patronato e tampouco gerou alguma proteção para o trabalhador”, afirma.

Quanto à questão previdenciária, Kátia Maria compreende que ações reformistas são necessárias. No entanto, tem sido feita de maneira arbitrária. “Não precisa ser da forma como está sendo apresentada, porque não atende à classe trabalhadora, pelo contrário, prejudica e retira direitos”, diz. Ela também questiona as justificativas para a aplicação da reforma. “Alegam um déficit, mas já disseram que esse déficit não existe. É preciso cuidar, então, da saúde financeira do sistema previdenciário sem penalizar o trabalhador.”

O pré-candidato da Rede também entende que o assunto pede revisões: “Muita conversa e pouca verdade”. Ele declara que é necessário investigar se existe mesmo esse déficit e alterar critérios da proposta. “É injusto ter como central a idade das pessoas. A tônica deveria ser o tempo de contribuição. Uma pessoa pobre, geralmente, começa trabalhar aos 14 anos, enquanto o rico só depois de uma pós-graduação, por exemplo. A pessoa que está na roça, em condições inadequadas de trabalho, chega a uma certa idade destruído, já o rico tem uma realidade diferente. Não se pode comparar essas duas pessoas quando chegam na mesma idade. A idade não deve ser um parâmetro”, explica.

O conservadorismo e a “culpa da esquerda”

A reforma trabalhista prejudicou a classe trabalhadora, segundo Weslei Garcia (à dir. ao lado do presidenciável do PSol, Guilherme Boulos)

A onda conservadora brasileira não é novidade e pode ser constatada em pesquisas, nos discursos de políticos e nos próprios anseios de grande parte do eleitorado do País. O pensamento conservador defende os formatos tradicionais de instituições sociais, como família e religião. Segundo pesquisa do Ibope Inteligência, que avaliou o grau de conservadorismo do brasileiro nos últimos oito anos, a maioria da população tem posições tradicionais em relação a pautas como redução da maioridade penal, casamento de pessoas do mesmo sexo e legalização do aborto. A taxa de alto grau de conservadorismo passou de 49%, em 2010, para 55%, em 2018.

Ainda de acordo com o estudo, a região Centro-Oeste foi onde o conservadorismo deu seu maior salto nos últimos anos. “Nós vivemos em um Estado extremamente conservador, com foco apenas no agronegócio”, afirma Weslei Garcia. Ele argumenta que Goiás abriga nomes da política ligados ao trabalho escravo e defensores da pena de morte. “O que se vê nos debates é intolerância religiosa, racial e social”, considera.

“O crescimento econômico não é incompatível com os interesses do meio ambiente”, afirma Edson Braz (ao lado da presidenciável Marina Silva)

Para Edson Braz, a esquerda tem sua parcela de culpa. “Essa onda conservadora está no mundo e a gente atribui isso a uma irresponsabilidade da esquerda”, diz. “A esquerda pecou muito, então o pessoal acha que um caminho completamente inverso é a solução”, complementa. O pré-candidato afirma que a solução não é nem conservadora ou revolucionária. “A solução é conserto social”, diz.

Diálogo

“Precisamos de muita maturidade para fazer o debate político. As pessoas ainda não entenderam a gravidade disso”, reflete a pré-candidata do PT sobre o crescente conservadorismo. Pensando em soluções, Kátia Maria afirma que “é um processo de conscientização das pessoas. Na medida em que estamos dialogando com a população, vamos criando linhas ideológicas”.

O concorrente do Psol também pensa caminhos semelhantes. Para ele, é fundamental recuperar a tolerância e efetivar a inclusão das minorias. “Isso deve acontecer por meio do debate com a população. Precisamos resolver problemas não pela força, mas pela mobilização da classe trabalhadora”, propõe.

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Francisco Barbosa

Excelente reportagem. ´Principalmente porque dá voz e vez aos “pequenos” da política goiana.