Por que uma aliança entre PMDB, PT e DEM em Goiânia não é possível

Lideranças petistas bradam aos quatro ventos que, onde o senador Ronaldo Caiado estiver eles não estarão juntos. O mesmo é dito pelo líder do Democratas. Peemedebistas precisam decidir qual será o aliado preferencial  

Se candidato a prefeito, Iris Rezende precisará escolher entre o DEM de Ronaldo Caiado e o PT de Paulo Garcia | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Se candidato a prefeito, Iris Rezende precisará escolher entre o DEM de Ronaldo Caiado e o PT de Paulo Garcia | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Frederico Vitor

Não seria a primeira vez que, na política, num passe de mágica, ad­ver­sários de ontem transformam-se em aliados de hoje. O caso recente mais emblemático de casamento eleitoral de conveniência que deu certo foi entre o PMDB de Iris Rezende e o PT do prefeito de Goiânia, Paulo Garcia.

Agora, os peemedebistas que, outrora, não aceitavam em hipótese alguma aliar-se ao DEM do senador Ronaldo Caiado, atualmente enxergam no líder do Democratas um precioso aliado, um trunfo na manga. Mas o contexto para o ano que vem é mais complexo e exigirá da cúpula peemedebista uma definição de qual aliado preferirá caminhar junto, uma vez que, onde Caiado estiver, o PT não poderá estar.

O que tende a impedir a concretização de uma aliança que agregaria PMDB, PT e DEM na mesma chapa à Prefeitura de Goiânia não é a diferença entre programas ou o medo de que o eleitor repudie uma aproximação antinatural. O que evitaria a celebração de tal aliança política é o plano nacional. Além de ser uma das vozes mais tenazes da oposição à presidente Dilma Rousseff (PT) no Congresso Nacional, Caiado surfa na onda anti-PT que tomou conta do País. O senador encarna a vontade de um setor da sociedade que quer a todo custo o impeachment da chefe do Executivo federal, algo que PT de Goiás não pode admitir e muito menos ser complacente.

Numa situação hipotética, isto é, se o PT goiano — em especial o goianiense — admitir subir ao palanque na companhia de Caiado, muito provavelmente haveria uma intervenção federal nos diretórios estadual e municipal do partido, o que resultaria em desgaste. Como já dito, PT e DEM é como água e óleo, não se misturam. Mas nos bastidores é comum ouvir que políticos são políticos e não se detêm diante de nada quando farejam um bom caminho para chegar ao poder ou para se manter nele. Mas no caso de uma aproximação entre petistas e democratas em Goiânia, tal máxima não seria válida.

Primeiro porque o caso de Goiânia é atípico dos demais municípios goianos. Em Anápolis, por exemplo, o DEM faz parte da administração municipal do prefeito petista João Gomes, mas o contexto anapolino é outro. O PT goianiense é uma máquina eleitoral acostumada a vencer eleições, seja numa empreitada solo ou por meio de aliança, como a que sacramentou eleitoralmente Paulo Garcia a prefeito em 2012. A militância petista da capital é ativa e tem vida própria. Além dos movimentos sociais e das lideranças de bairros, o partido em Goiânia tem como base a comunidade universitária e um forte apelo eleitoral numa parcela da classe média que é politizada e crítica.

Se estes mesmos setores apresentaram fissuras quando o PT selou aliança com o PMDB de Iris Rezende em 2008, é possível deduzir que o desconforto a ser gerado numa hipotética aproximação com Caiado seria insuportável demais para ser perdoado pela militância petista. Assim, no balcão do pragmatismo, os dois lados não teriam muitos dividendos a colher. Pelo contrário, colecionariam desgastes. Até porque os eleitores de Caiado e simpatizantes do DEM — em sua maioria eleitores de linha conservadora — repudiariam qualquer possibilidade de aproximação com o PT.

Circunstâncias podem inclinar Iris a optar pelo PT

Se o PMDB decidir lançar Iris Rezende à Prefeitura de Goiânia nas eleições municipais de 2016, as circunstâncias empurrariam os peemedebistas a optar pelo PT como aliado preferencial. Apesar das dificuldades, o prefeito Paulo Garcia está em processo de recuperação, já que o volume de obras em execução na capital é considerável e lhe proporcionará em breve uma extensa folha de serviços. Como é sabido, na política ter uma agenda positiva é sinônimo de votos e prestígio.

Além disto, é válido lembrar que Paulo Garcia é uma “criação política” de Iris. O criador não abandonaria a criatura assim tão facilmente, mesmo numa situação difícil. Uma nova candidatura do decano peemedebista ao Executivo da capital seria um sinal de que ele não quer dar como encerrada sua trajetória política com uma derrota para seu maior adversário: o governador Marconi Perillo (PSDB), seu e algoz em três pleitos ao governo (1998, 2010 e 2014). Vencer o tucano-chefe no principal município goiano será uma questão de honra ao veterano líder peemedebista.

Mas por que Iris preteriria o DEM em função do PT? Primei­ramente, é válido lembrar que Caiado, e sua legenda, diferentemente do Partido dos Trabalha­dores, não tem um forte apelo eleitoral em Goiânia. Apesar da importância das emendas parlamentares do líder do DEM alocadas para capital, ainda não há uma marca na cidade deixada por Caiado que esteja no imaginário do eleitor goianiense. E isso é levado em consideração, ou seja, Caiado não é um político que se identifica com Goiânia e nem a capital é identificada com o senador.

Não ter Caiado a seu lado em Goiânia em 2016 não significa que o PMDB desataria o nó que o liga ao DEM. O senador teria carta branca para ser o maior cabo eleitoral das candidaturas peemedebistas às prefeituras do interior, com vistas em 2018. Isso porque, paralelamente a seu plano nacional de se candidatar a presidente ou a vice de um tucano, Caiado também trabalha em âmbito estadual com o objetivo de disputar o governo com o apoio de Iris e do PMDB. Portanto, fora dos limites de Goiânia, Caiado teria o poder de trazer o PMDB para o DEM em detrimento do PT.

Se PMDB preferir o DEM, chegará ao pleito enfraquecido

Se os ventos da política soprarem numa direção em que o PMDB venha a optar pelo DEM ao invés do PT, certamente esta seria uma aliança enfraquecida. Não por causa da fragilidade do DEM em Goiânia, mas muito pelo simples fato dos adversários ganharem força. Iris e Caiado formariam um palanque pesado demais. E sem a companhia do PMDB, o PT seria obrigado a lançar candidatura própria que, provavelmente, escalaria a deputada estadual e delegada de polícia Adriana Accorsi para a missão de manter a hegemonia política no Paço Municipal. A parlamentar, que é filha do ex-prefeito Darci Accorsi, tem a seu favor um recall político com quase nenhum desgaste. Certa­mente, pelo seu perfil e apelo na segurança pública, Adriana tomaria preciosos votos de Iris.

Do outro lado da trincheira, ou seja, as candidaturas da base aliada do governador Marconi também ganhariam força. O empresário e ex-prefeito de Senador Canedo, Vanderlan Cardoso (PSB), é um quadro que tomaria proveito da fragilidade de Iris e Caiado na capital, com possibilidade de tirá-los ou enfrentá-los no segundo turno. O discurso de renovação aliada a estampa de político “novo” pode solapar Iris em seu maior reduto eleitoral no Estado.

Em linhas gerais, há muito tempo para que haja definições concretas. Ainda existem várias questões pendentes a ser debatidas até o início do período eleitoral. Seja lá qual for a resolução, uma coisa é certa: com o PT ou com o DEM, o PMDB ainda é o fiel da balança eleitoral em Goiânia. Apesar das sucessivas derrotas no plano estadual, Iris Rezende ainda é a maior força política da capital e o principal quadro político de seu partido.

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