Por que o preço do etanol cai nas usinas mas demora a cair para o consumidor?

Nos postos, a leve redução ainda não apresenta conformidade com a queda dos valores nas usinas. A gasolina, por sua vez, está em ascensão

Foto: Reprodução.

Os motoristas em Goiânia estão sofrendo para abastecer na cidade. Os preços dos combustíveis estão altos e não refletem a queda dos valores das usinas. Entre 26 de abril e 3 de maio houve uma redução de R$ 0,20 no litro do etanol hidratado nas refinarias goianas. O preço caiu de R$ 1,5866 para R$ 1,3790 na última sexta-feira (3). No entanto, o aplicativo Olho na Bomba mostra um cenário diferente: o motorista ainda sente o peso do produto no bolso.

Na sexta-feira, 3, o litro do etanol hidratado nas bombas variava entre R$ 3,170 e R$ 3, 290 em Goiânia, enquanto o preço médio da gasolina flutuava entre R$ R$ 4,67 e R$ 4,870. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) relata que o etanol tem que ter um preço limite de 70% da gasolina nas bombas para ser considerado vantajoso. Portanto, os números mostram que o etanol, mesmo caro, ainda é a melhor escolha para o consumidor.

Valores observardos na última sexta-feira (3). Fonte: Aplicativo Olho na Bomba.

Os revendedores afirmam que os preços estão sendo repassados para os postos de combustível. Já o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo no Estado (Sindiposto), Márcio Andrade, alega que a redução dos preços ainda não foi repassada por todas as distribuidoras.

Os repasses, segundo ele, começaram a ser feitos a partir do feriado do Dia do Trabalhador (1), e os reflexos já podem ser vistos em alguns postos da capital.

A Associação Nacional das Distribuidoras de Combustíveis (Plural), por sua vez, reforça que não existe proporcionalidade direta entre aumento/redução na refinaria e o preço na bomba. “Os números do primeiro trimestre de 2019 mostram que, enquanto a gasolina teve aumento de 20,2% na refinaria, o reajuste na bomba foi de apenas 0,7%. O mesmo movimento foi observado nos preços do diesel, que teve 17,8% de aumento nas refinarias, ante 3,3% nas bombas”, compara.

Além disso, a Plural lembra “cada litro de gasolina, etanol ou diesel vendido no país” tem seu preço composto pelo preço de aquisição do produto, tributos, logística (fretes, armazenagem e manuseio), remuneração dos distribuidores e remuneração dos revendedores. O custo do produto e os tributos (como o ICMS), segundo a associação, são os dois fatores responsáveis por mais de 80% do preço final, ou seja, os demais fatores, entre eles a remuneração das distribuidoras, somam apenas 20% do montante.

Últimos valores do etanol nas usinas do Estado. Fonte: Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq).

A última safra acooleira da região Centro-Sul atingiu recorde de produção. O volume processado de etanol hidratado foi de 21,8 bilhões de litros. Dados da União da Indústria da Cana-de-açúcar (Unica) revelam que 65% da oferta da safra foi destinada à produção do biocombustível. Os 35% restantes foram atribuídas ao açúcar.  

A previsão para a nova safra 2019/2020 aponta uma perspectiva semelhante: a estratégia das usinas em Goiás é privilegiar a produção do etanol em detrimento ao açúcar. A safra 2019/2020 começou ainda mais alcooleira do que a anterior, com 76,45% da cana-de-açúcar processada na primeira metade de abril direcionada à produção de etanol. No ciclo anterior, este percentual foi de 68,65%.

Especialistas do setor apontam que o mercado deve continuar produzindo o máximo de etanol possível para atender à demanda interna do país, que segue aquecida e, portanto, competitiva frente à gasolina.

O presidente do Sindicato da Indústria de Fabricação de Etanol do Estado de Goiás (Sifaeg), André Luiz Rocha, afirma que não há dúvida quanto à privilegiação do etanol sobre o açúcar no estado goiano, embora ainda não tenha informações sobre o percentual de cada produto, que depende de fatores de mercado e da própria política do governo.

Retrospectiva

No início de abril, os valores altos do etanol foram explicados pelas fortes chuvas em Goiás, o que dificultou a colheita nas usinas e o início da moagem em algumas unidades. O Sindicato da Indústria de Fabricação de Etanol do Estado de Goiás (SIFAEG) registra que a previsão era de que 176 usinas estivessem em atividade até 15 de abril.

Até a data, no entanto, apenas 150 empresas efetivamente começaram safra no Centro-Sul, contra 174 em 2018. Assim, 64 reprogramaram o início de suas operações para a segunda metade do mês.

O mais recente relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) já havia informado que grandes usinas brasileiras atrasariam sua produção em pelo menos duas semanas, graças ao desenvolvimento tardio das plantações e ao alto estoque de etanol.

Foto: Divulgação.

Em Goiás, mesmo ante as boas condições de chuvas e investimentos realizados na safra passada, o rendimento médio da produtividade apresentou uma diminuição de 1,5% em relação à safra passada. As altas temperaturas e a baixa umidade do início da safra aceleraram a maturação das lavouras, diminuindo as expectativas da produtividade.

A informação disponibilizada pela Sifaeg é que as vendas do etanol, nas unidades do Centro-Sul, somaram 1,18 bilhão de litros nos primeiros 15 dias de abril. Deste total, 6,92 milhões de litros foram destinados à exportação e 1,17 bilhão de litros ao mercado interno.

No mercado doméstico, o volume de etanol hidratado alcançou 863,17 milhões de litros, ante 852,35 milhões de litros apurados na última quinzena de março de 2019. Os números representam uma alta de 43,95%, advinda da necessidade de repor os estoques dos distribuidores.

Produção

A situação nas próprias usinas também revela o panorama geral do mercado alcooleiro. Dados da RPA Consultoria, especializada no setor sucroenergético, expôs que cerca de 18% das 444 usinas em atividade no território nacional permaneceram fechadas no início da última safra.

O aumento foi de 17,6% na quantidade de usinas que entraram em recuperação judicial entre abril de 2018 e de 2019. Em relação às usinas falidas, o acréscimo foi de 8%. Das 444 usinas brasileiras, 79 estão em recuperação judicial, 12 a mais que em 2018. Destas, 49 permanecem operando enquanto outras 31 estão paradas.

Entre as 27 usinas falidas, quatro ainda seguem operando enquanto outras 23 estão paradas. Ainda deste total, 343 usinas (77%) devem operar em 2019 e 101 unidades estarão paradas, quatro a mais que no ano anterior.


Web Map EPE (Empresa de Pesquisa Energética), vinculada ao Ministério de Minas e Energia. O mapa mostra as usinas de etanol em Goiás.

Na Nova Cana, o maior veículo de comunicação do setor sucroenergético do mundo, a informação é que 39 usinas de açúcar e álcool estão operando em Goiás. André Luiz Rocha assegura que não houve redução na produção em relação ao ano passado e que as usinas mantém o ritmo normal, apesar do atraso causado pelas chuvas.

“Tivemos uma menor oferta momentânea, mas em termos de venda foi o mesmo ritmo dos anos anteriores. O que ocorreu, talvez, foi uma estratégia das distribuidoras, que esperaram o preço cair para comprar. Como o estoque estava baixo, tiveram dificuldades. Depois disso vieram as chuvas, que atrapalharam o transporte. Então elas ficaram desabastecidas, o que levou a essa correria. Mas produto tinha [nas usinas], tanto é que se vendeu bem nos primeiros 15 dias de abril. O preço recuou, só falta chegar ao consumidor”.

Os preços

De volta a incongruência dos preços do etanol das usinas, passando pelas distribuidoras, até os postos de combustível, Rocha aponta o quanto a diferença nos preços é ruim para a cadeia. “Todo mundo quer preço justo. Quando o preço cai na usina e continua caro [nas bombas dos postos], o consumidor acaba comprando menos. Não é uma situação adequada”.

O presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo no Estado (Sindiposto), Márcio Andrade, alega que a redução dos preços ainda não foi repassada por todas as distribuidoras. Os repasses, segundo ele, começaram a ser feitos a partir do feriado do dia 1º de maio, e os reflexos já podem ser vistos em alguns postos da capital.

Foto: Divulgação.

Além disso, Andrade explica que os valores das usinas não é o único fator de impacto para o preço do produto final. O presidente do sindicato lembra que o reajuste do ICMS do etanol também refletiu no valor do combustível nas bombas. “Houve redução nas usinas, mas reajustaram o imposto em R$ 0,09”, argumenta.

Sobre supostas estratégias de precificação, Márcio Andrade afirma que o sindicato não influencia no preço do empresariado, que é livre para definir os valores praticados nos postos de combustível.

“Cada um define seu preço, que fica exposto para o consumidor. Mas isso é normal, no mundo inteiro é assim. Os valores acabam parecidos e acompanham a concorrência. Na Europa é assim, nos Estados Unidos é assim”.

A Plural também corrobora por meio de nota, dizendo “que o preço final do combustível é definido pelo livre mercado e engloba muitos outros fatores, além do valor de venda determinado pelas refinarias”.

Também em nota, o Ministério Público Federal em Goiás afirmou que não há nenhuma investigação em andamento sobre estratégias de precificação nos postos de gasolina de Goiânia.

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