Por que a inovação é importante para o desenvolvimento da economia

Há muitos anos que o mundo percebeu: só cresce quem se inova. Porém, só inova quem investe e esse é o ponto chave não apenas para Goiás, como para o Brasil atualmente

Para crescer no mercado, é necessário se inovar. Na foto, é possível ver parte de uma linha de produção automatizada | Fotos: Renan Accioly

Para crescer no mercado, é necessário se inovar. Na foto, é possível ver parte de uma linha de produção automatizada | Fotos: Renan Accioly

Marcos Nunes Carreiro

“Os empresários podem e de­vem inovar: com ferramentas de tecnologia para melhorar os processos, os resultados e os produtos; tornar o atendimento mais rápido; e reduzir tempo de entrega. Tudo isso são ações que vão aumentar a competitividade das empresas”.

A fala é da empresária Helenir Queiroz e escolhemos começar esta reportagem com ela por um motivo: em tempos de crise, tornar-se competitivo é o que todos querem; porém, isso só é possível, para quem consegue se renovar.

E tal renovação passa por uma série de fatores, que será discutida nesta reportagem por economistas e empresários, todos inteirados tanto da situação do País e do Estado de Goiás quanto da necessidade cada vez maior dos empresários em inovarem suas atuações no mercado.

Inovar é fundamental? Na visão do economista Everaldo Leite, numa economia que se desenvolve, sim. A questão, segundo ele, é que se pode inovar em vários quesitos, como em processos, em produtos e serviços, ou em marketing, entre outros. Contudo, quem mais necessita inovar é também quem mais tem dificuldades em fazê-lo: os micro e pequenos empresários.

Everaldo explica: “Os pequenos têm dificuldade por questões de nível técnico. Eles podem melhorar processos operacionais, administrativos ou de produção fazendo pequenas mudanças ou alguns investimentos, mas não o fazem por desconhecer tais técnicas e/ou tecnologias. Além disso, não possuem recursos disponíveis para tal empreendimento”.

De fato, a melhoria de produtos e serviços se dá realmente através de mudanças conceituais, que micro, pequenos e ate médios empresários, via regra, pouco entendem. “Talvez, alguns conseguem assimilar inovações, quando são franqueados, pois as franquias costumam disseminar melhor as inovações, já que exigem padrões de seus franqueados”, diz o economista.

Economistas Everaldo Leite e Marcel Grillo: inovação é fundamental e carece de auxílio do poder público

Economistas Everaldo Leite e Marcel Grillo: inovação é fundamental e carece de auxílio do poder público

Deveria, então, haver um maior incentivo à inovação, por parte do Estado, e que fosse voltado para os pequenos e médios empreendedores? Para Everaldo, sim, já que os grandes possuem outras fontes de recursos para realizarem pesquisa e desenvolvimento. “A questão é que os investimentos das grandes costumam ser realizados fora do país, em suas matrizes. As nacionais quando muito copiam as suas concorrentes. O investimento em inovação, no geral, é muito pequeno em relação ao PIB: pouco mais de 1%, se muito”.

Já para Marcel Grillo, economista do setor de economia aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas, lembra que o investimento em ciência, tecnologia e pesquisa é essencial, pois está ligado com o desenvolvimento da economia, mas lembra: “Isso é algo que ainda tem pouco espaço no Brasil”.

Para ele, investir em tecnologia tem um custo relativamente alto, mas depende de cada empresário. É preciso avaliar. As grandes empresas investem, assim como o poder público, principalmente as universidades federais. “Por isso, é importante que o poder público dê esse incentivo porque o empresário não tem condições de fazer tais investimentos”.

Agora, os dois concordam em um ponto: inovação soluciona problemas econômicos, mas o faz no longo prazo. Vejamos o exemplo da Use Móveis Corporativos, empresa com fábrica instalada em Goianira, cidade a quase 30 quilômetros de Goiânia, e que fechou recentemente um contrato de fornecimento com uma empresa de serviços estadunidense e que está negociando parceria com uma universidade francesa.

No caso dessa última ação, o interesse estrangeiro é em relação a investimentos na área de sustentabilidade feitos há mais de sete anos. Isto é, “inovação requer paciência”, como bem descreve o empresário Rodrigo Alves, empresário responsável pela Use. “Acho que o primeiro passo para inovar é reduzir os custos. O segundo ponto é trabalhar a inovação para que ela mude o sistema de gestão para melhor”, relata.

Mas inovar é caro? Depende do nível de inovação proposto. A automação industrial, como a que conta a Use, por exemplo, requer investimentos maiores. Porém, há investimentos bem menores e que podem ser feitos no dia a dia. “É possível inovar com muito e também com pouco. Há empresas que acham que inovar demanda investimentos demais e deixam de investir nas pequenas coisas que podem gerar grandes resultados”, diz Rodrigo.

“Tenho casos dos próprios colaboradores que propuseram inovações que têm gerado bons resultados no chão de fábrica. Pequenas mudanças no processo. Um problema que corrói as empresas é o comodismo. Quebrar a resistência às mudanças é muito interessante. Feito isso, é preciso deixar as pessoas motivadas a mudar e trabalhar a questão constantemente”, relata.

A captação de recursos

A Decisão Sistemas é uma empresa localizada em Aparecida de Goiânia e que é especializada no desenvolvimento de softwares para Factoring, Cobrança Extra­judicial, FIDC e Securitizadoras. E, sendo uma empresa que trabalha com tecnologia, inovar é um ponto fundamental.

É o que afirma o empresário Almir Firmino. Para ele, sem inovação, a empresa não tem oxigênio, fica estagnada. E a tendência, assim, passa a ser que ela pereça, pois a cada dia chegam novos competidores, que, para se estabelecer no mercado, precisam criar novas maneiras a fim de superar as empresas já estabelecidas. “E estas, para não perder mercado e se tornarem mais competitivas, precisam se modificar. Inovar seus produtos, seus clientes, seus processos etc.”, relata.

Almir diz que não existe uma inovação específica a ser feita na empresa; trata-se antes de um conjunto. “É preciso trabalhar: a inovação do marketing, isto é, a procura por novas mensagens e formas de se chegar ao cliente; processos, para ser mais eficiente e econômico, pois a empresa só conseguirá se destacar sobre seu concorrente, se fizer um produto melhor com custo menor. E isso só será feito com estudo e pesquisa, para que seja possível fazer mais com menos”, diz.

Agora, um ponto chave na visão do empresário é no que diz respeito à inovação tecnológica. Para que isso seja feito, segundo Almir, é preciso que haja uma captação de recursos externos, pois ela é mais cara e, às vezes, não há uma produção de conhecimento sobre a área pretendida naquela localidade, sendo necessário buscar auxílio em outros países.

O papel do poder público na renovação empresarial
Almir Firmino, da Decisão Sistemas: “Inovações robustas custam caro e só podem ser realizadas se o empresário tiver a ajuda do poder público”

Almir Firmino, da Decisão Sistemas: “Inovações robustas custam caro e só podem ser realizadas se o empresário tiver a ajuda do poder público”

No livro “O Estado empreendedor”, a italiana Mariana Mazzucato alerta para os riscos do pensamento de que o Estado, poder público constituído, é um inimigo do setor privado. Tal linha de raciocínio segue a ideia de que o governo deveria se ater ao básico, como o financiamento da educação, e deixar a “revolução” econômica para a iniciativa privada.

O objetivo do livro da italiana é mostrar que, embora esse pensamento já tenha ganhado certo status de mantra, a realidade demonstra que dificilmente os empresários fazem uma “revolução” na economia. E isso ocorre porque a iniciativa privada nem sempre está disposta a correr os riscos que um passo incerto pode trazer — por melhores que sejam as expectativas.

Dessa forma, quase que inevitavelmente cabe ao Estado “assumir as áreas de maior risco e incerteza”. Por quê? A economista responde:

“O capital de risco público, por exemplo, é muito diferente do capital de risco privado. Ele se dispõe a investir em áreas com risco muito mais alto, ao mesmo tempo em que de­mons­tra muito mais paciência e menos expectativas em relação aos retornos futuros. Esta é por definição uma situação bem mais difícil. Mas os retornos do capital de risco público e privado são comparados sem que se leve essa diferença em consideração”.

Rodrigo Alves, da Use Móveis: “A maior lição que estou tendo nessa crise é essa: inovar a estrutura e deixá-la mais eficiente para que, na próxima, eu sofra menos” | Fotos: Renan Accioly

Rodrigo Alves, da Use Móveis: “A maior lição que estou tendo nessa crise é essa: inovar a estrutura e deixá-la mais eficiente para que, na próxima, eu sofra menos” | Fotos: Renan Accioly

Ela cita dois exemplos de inovação que provavelmente não existiriam sem a influência direta do governo: Google e Apple, beneficiadas tanto por financiamentos públicos quanto pelos incentivos dados à pesquisa e à inovação. Mariana, que é professora da Universidade de Sussex, na Inglaterra, faz questão de ressaltar que o financiamento inicial da Apple veio do Programa de Inovação e Pesquisa para Pequenas Empresas, que pertence ao governo dos Estados Unidos.

Ou seja, o caro leitor que nos lê em seu iPhone neste momento provavelmente não o faria se o investimento público não tivesse existido. Ou mesmo você, que simplesmente fez uma pesquisa no Google e achou esta matéria. O mérito é dos empresários Sergey Brin e Larry Page (Google) e do louvado Steve Jobs (Apple)? Claro! Mas é preciso reconhecer também o papel estatal, que tem recursos e mecanismos para se recuperar, caso um investimento dê errado — nos casos de Google e Apple, não poderia ter dado mais certo.

E no Brasil? Dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação mostram que em 2012 o País investia 1,24% de seu PIB em pesquisa e desenvolvimento. Em 2013, último dado disponível, eram 1,3%. Ou seja, um investimento baixo para a área, sobretudo se comparado a países como a Coreia do Sul, um dos países que mais se desenvolveu nos últimos anos e que dedicava, até 2012, 4,36% de seu PIB no setor.

Nesse sentido, o governo do Estado lançou, na semana passada, o Inova Goiás. Trata-se de um conjunto de ações que busca aumentar, por meio da inovação tecnológica, a competitividade das empresas instaladas em território goiano. Para isso, será feito um investimento de aproximadamente R$ 1,5 bilhão até 2018, além de uma interação entre governo, universidades e demais instituições de ciência e tecnologia.

E o que os empresários goianos acham da iniciativa?

Almir Firmino, da Decisão Sistemas, ressalta que inovar é caro. “Chega a ser tão caro que não é possível, às vezes, fazer uma inovação mais robusta”. Dessa forma, para ele, sem um incentivo público, as empresas não podem investir, pois não têm capacidade financeira ou conhecimento suficiente para tanto. “Inovações mais robustas precisam de participação do poder público e das universidades”, afirma.

Segundo ele, há também o fato risco: “Às vezes, sua perspectiva acaba não gerando nada. Apenas a pesquisa pode dizer. Pensando nisso, o empresário acaba preferindo dedicar tempo correndo atrás do desenvolvimento da empresa dentro das atividades que ela já exerce. Para o País avançar, é necessário que haja investimento público. Se isso não acontecer, as empresas se concentrarão nas inovações pequenas, que não geram grande impacto na sociedade”.

O fator motivação

Obviamente, apenas incentivo do poder público não adianta. É necessária uma boa carga de vontade de se reinventar por parte dos empresários. É para esse sentido que Rodrigo Alves, da Use Móveis Corporativos, se revela defensor. Para ele, ainda há muita resistência por parte dos empresários goianos no que diz respeito à inovação. “Por isso, acredito que a grande contribuição do poder público, além do incentivo financeiro, precisa ser um trabalho para mudar a cultura do empresariado goiano para que ele não tenha resistência à inovação”, relata.

Rodrigo, que é diretor da Use Móveis Corporativos, ressalta que um conceito importante a ser incorporado pelos goianos é o do conhecimento. “A Use tem como parceira a Fundação Dom Cabral. Em Goiás, somente 30 empresas estão associadas à Fundação, que trabalha justamente a inovação de processos, pessoas e estratégias. Então, é algo inovador. So­mos parceiros há quase quatro anos e, sem ela, não vivemos mais”.

E essa fala nos leva ao próximo ponto.

“É preciso unir pesquisa e mercado produtivo” 
Helenir Queiroz, do Grupo Multidata: “Há muito conhecimento perdido nos computadores pessoais de estudantes”

Helenir Queiroz, do Grupo Multidata: “Há muito conhecimento perdido nos computadores pessoais de estudantes”

Em relação ao Inova Goiás, Helenir Queiroz, do Grupo Mul­tidata, é bastante assertiva: “É vital, principalmente no momento pelo qual passa o País. Muitas pessoas pensam em inovação como algo fora do comum, bem longe da nossa realidade. O que precisamos fazer é trazer o conceito de inovação para a nossa realidade, o que requer, por sua vez, investimentos”.

Porém, o ponto considerado por ela como sendo realmente importante no programa estadual é a aproximação proposta entre o setor produtivo e as instituições de ensino e pesquisa. Para ela, é necessário haver um casamento das instituições de pesquisa com a iniciativa privada. “Mas um casamento real”, ressalta. E como isso pode ser feito?

“Imagine todos os trabalhos de conclusão de curso, mestrado ou de doutorado sendo de acesso público. Seria possível que as empresas pesquisassem. Hoje, há muito conhecimento perdido nos computadores pessoais de estudantes, que pesquisam sob os custos da sociedade”, diz. Como resolver isso? Publicando esses trabalhos e mais: “Ao selecionar um pesquisador, as universidades deveriam levar em consideração o ponto de vista do benefício para o setor produtivo”, argumenta.

Helenir tem razão em seu levantamento. Tanto é que, nos últimos anos, há um movimento crescente, sobretudo nas universidades públicas, para que seus alunos de graduação e pós-graduação pensem cada vez mais na aplicabilidade de seus trabalhos e que eles sejam divulgados. Algo assim já é visto, por exemplo, na Universi­dade Federal de Goiás (UFG).

E esse fator é tão importante que, em recente em estudo, o MIT (sigla em inglês para Instituto de Tecnologia de Massachusetts) afirma que a atual ausência de laboratórios corporativos nos Estados Unidos, caso do parc da Xerox — que produziu a tecnologia da interface gráfica que levou aos sistemas operacionais da Apple e do Windows —, por exemplo, já pode ser considerado um dos fatores que levaram à crescente queda do desempenho de inovação dos Estados Unidos nos últimos anos.

“Existem empresários, por exemplo, que promovem sozinhos um redesenho de suas empresas. Imagine fazer isso com o apoio das universidades, de pesquisadores e com recursos. Isso é dar suporte à inovação, principalmente, das micro e pequenas empresas, que têm a maior carência”, diz Helenir.

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