Por que acidentes com aviões pequenos são maioria?

No Brasil, o número de acidentes envolvendo os pequenos aviões particulares é 16 vezes maior do que entre os grandes aviões comerciais

Grandes aviões têm 1,27 acidente por milhão de decolagens. Táxis-aéreos registraram 19,95 acidentes por milhão de decolagens | Foto: Reprodução

O trágico acidente aéreo que vitimou a cantora sertaneja Marília Mendonça no dia 5 levantou a discussão sobre a segurança das aeronaves usadas para táxi-aéreo. No Brasil, o número de acidentes envolvendo os pequenos aviões particulares é 16 vezes maior do que entre os grandes aviões comerciais. Uma das razões é que existem 33 vezes mais aeronaves pequenas do que grandes. Mas especialistas afirmam que a rotina de manutenções também é um fator a ser considerado. 

Em média, são 121 acidentes aéreos no Brasil por ano. De acordo com o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), 46% dos acidentes envolveram aviões do segmento particular; 20% com aeronaves agrícolas; 14,7% com aviões de instrução. A aviação regular ou comercial, com aeronaves de grande porte para centenas de passageiros, foi responsável por apenas 1% dos acidentes. 

Segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), aviões comerciais grandes têm 1,27 acidente por milhão de decolagens. Táxis-aéreos registraram 19,95 acidentes por milhão de decolagens. O pior índice de todos é o dos aviões agrícolas, com 131,46 acidentes por milhão de decolagens.

Entre as causas dos acidentes envolvendo aeronaves particulares, 44,3% do total ocorreram por “falha do motor em voo”, “perda de controle em voo” e “perda do controle em solo.” Outras causas apontadas pelo Cenipa são “colisão com obstáculos durante pouso ou decolagem (6,25%) e pane seca (5%). Segundo o Cenipa, 53% das pessoas que estavam em aviões acidentados (entre passageiros, tripulantes e terceiros) saíram ilesas. Outras 17% morreram e 16% tiveram ferimentos leves. Já 8% se feriram gravemente.

Segundo Gilberto Ferraz, piloto com trinta anos de carreira e instrutor em aeroclubes, esses dados não significam que aviões pequenos sejam necessariamente mais perigosos, pois os fatores que levam ao acidente estão principalmente no sistema que rege a segurança nesse mercado. O serviço de transporte de passageiros e carga tem protocolos rígidos de manutenção e procedimentos de segurança. “Os padrões são rigorosos e as grandes companhias estão sob forte fiscalização”, afirma Gilberto Ferraz sobre a aviação civil com grande número de passageiros.

“Entretanto, nos voos particulares quem fica responsável pela manutenção é frequentemente a mesma pessoa interessada em economia”, comenta o piloto. “É claro que existem autoridades que exigem o cumprimento de protocolos de segurança, como a comprovação de que todas as manutenções foram feitas. Mas as camadas de segurança são menores. Imagine se pequenas pistas de pouso fossem obrigadas a ter a fiscalização e o auxílio à navegação que exigimos para as grandes linhas de milhares de passageiros. Isso inviabilizaria os voos individuais”.

Outro fator que pode explicar a maior frequência de acidentes nos pequenos aviões é o ambiente em que cada tipo de avião funciona. Para grandes aviões, grandes pistas de pousos em aeródromos com torres de controle são necessárias. Os pequenos aviões frequentemente utilizam pistas simples em más condições. 

Proporcionalmente, há risco ainda maior entre as aeronaves utilizadas para dispersar agrotóxicos e cumprir outras funções em propriedades rurais particulares – aviação agrícola. Segundo os dados da Anac, em 2021, a categoria registrou 24 acidentes até novembro, com duas mortes no ano. A principal causa de acidentes no período nesse segmento foi falha no motor ou perda de controle em voo, ocasionando as quedas. As razões são as mesmas: menos exigências e fiscalização para segurança, mais pistas degradadas próximas a obstáculos como fiação elétrica. 

“A comparação que geralmente fazemos é a da viagem longa por rodovias. Se você for de ônibus, por uma companhia legítima, significa que o motorista é habilitado e o automóvel está com a manutenção em dia. Se você utilizar o seu carro pessoal, o motorista pode estar cansado ou não, a manutenção pode estar em dia ou não; você é o responsável. Ainda que o Detran exija a manutenção veicular de tempos em tempos, é possível que o carro apresente um defeito antes da data da manutenção e só quem sabe se está em condições seguras é o próprio dono do veículo”, conclui Gilberto Ferraz. 

Antônio José, funcionário aposentado do Departamento de Controle do Espaço Aéreo, explica a divisão por categorias: “A classificação é feita em função da quantidade de passageiros e do peso que a aeronave pode carregar”, diz o antigo Supervisor e Instrutor de órgãos de controle de tráfego aéreo. “Acima de 19 assentos, o avião é considerado comercial. Quanto mais pessoas, mais exigências a Anac impõe para que se possa decolar”. 

Diferentes operações exigem diferentes níveis de preparo e experiência do piloto, de acordo Antônio José. Ele explica que é necessário que o piloto tenha mais especializações e uma quantidade de horas de voo muito maior para ser habilitado a pilotar aviões comerciais, com centenas de passageiros.

“Aeronaves agrícolas, por exemplo, exigem relativamente pouco treinamento e experiência no ar, quando comparamos com os pilotos de táxi aéreo, pois essa categoria tem mais responsabilidades por transportar pessoas. A tripulação do Boeing 747-8 e os funcionários do controle de tráfego aéreo são responsáveis pelas vidas de quase 500 pessoas; é o maior atualmente na aviação comercial.

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