Por pouco, apoio do centrão a Alckmin não será reproduzido integralmente em Goiás

Alianças nacionais enfrentam dificuldades para se reproduzir em Goiás; PSDB aglutinou bloco DEM, PP, PR, PRB e SD para disputar presidência, mas pré-candidato a governador pelo democrata é adversário histórico de Marconi Perillo

Governador José Eliton (PSDB) poderá ficar em Goiás com PP, PR, PRB e SD daqueles do centrão nacional que se aliaram a Alckmin| Foto: Divulgação

Rafael Oliveira

A política nacional costumeiramente respinga nas atividades de políticos estaduais. A União destina recursos públicos aos Estados de diversas formas e, quando o recurso demora, os mandatários regionais precisam negociar com os chefes dos poderes nacionais. Mas essa relação muda de quatro em quatro anos. Os candidatos à Presidência da República habitualmente conseguem mesclar mais partidos políticos em uma coligação do que as campanhas estaduais para governadores. Nos Estados, existem lideranças políticas adversárias que não conseguem se coligar, diferente dos cenários políticos nacionais.

No final de julho, um bloco de cinco partidos do Congresso Nacional reuniu-se à base do pré-candidato ao Palácio do Planalto do PSDB, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin. Na negociação com o tucano, o centrão levou uma pauta de reivindicações como condição para fechar uma aliança, que passaria pela indicação do vice-presidente. Além de Josué Gomes (PR-SP), outros nomes cotados são o do deputado Mendonça Filho (DEM), a senadora Ana Amélia (PP) e o ex-ministro Aldo Rebelo (SD).

Dirigentes das siglas apoiadoras de Alckmin discutiram a possível formação de um governo com o candidato e afirmaram que apenas levarão a posição aos diretórios regionais dos partidos para resolver eventuais divergências nos palanques.

Este bloco é formado pelos partidos Progressistas (PP), Partido Republicano Brasileiro (PRB), Democratas (DEM), Partido da República (PR) e Solidariedade (SD). No Congresso, eles somam 164 deputados federais e 16 senadores.

Em Goiás, alguns partidos do bloco não conseguiram – um deles nem sequer poderia -, até o momento, ajustar apoio ao projeto de reeleição do PSDB. Os Democratas, integrantes do centrão nacional, têm candidato próprio e lideram as pesquisas de intenção de voto com o senador Ronaldo Caiado. Membros do PP continuam nas rodadas de conversas internas que levarão ao consenso do apoio a um dos postulantes. PR, Solidariedade e PRB sustentam o mandato tucano desde 2014. O SD, inclusive, ganhou a nova estrutura da Secretaria Estadual de Trabalho em maio deste ano após reclamar falta de atenção do governo.

Heuler Cruvinel (PP): “O centrão nacional já se resolveu e em Goiás ainda está se conversando”| Foto: Agência Câmara

Mas o centrão pode aderir à campanha de reeleição do governador José Eliton (PSDB). O deputado federal Heuler Cruvinel (PP) vê a possibilidade de reprodução integral da aliança nacional – sem a inclusão do DEM – na realidade da base governista. O PP também está ao lado de José Eliton desde o início do mandato de Marconi Perillo. “Não vejo nada de diferente que pode acontecer no nacional que não possa acontecer em Goiás. O centrão nacional já se resolveu e em Goiás ainda está se conversando. Mas é um caminho que pode se tomar para o bloco seguir unido. Estamos esperando o presidente da legenda e ministro das Cidades, Alexandre Baldy, voltar de viagem para retomar as conversas internas. Realmente o PP conversa com os partidos do centrão para definir como vai seguir essa unidade em Goiás”, avalia Cruvinel.

O PP enfrenta pressão do presidente da República, Michel Temer (MDB), para aderir às campanhas emedebistas em Estados nos quais têm candidatos majoritários, conforme avalia o líder do governo na Assembleia, Francisco Oliveira (PSDB). “O PP não está distante. Na hora certa eles anunciarão o apoio oficial ao governador José Eliton”, confirma Francisco. O presidente estadual do PP, deputado federal Alexandre Baldy, ocupa atualmente a cadeira de ministro das Cidades do governo Temer, o que pode colocar entraves na negociação com os tucanos em Goiás.

Companheiro da tese de Francisco Oliveira, o deputado estadual Jean Carlo (PSDB), figura próxima à cúpula tucana estadual, enxerga a indecisão dos pepistas como parte do jogo político. “Nessa época de pré-campanha, é normal os partidos começarem a conversar sobre apoiar candidato a ou b. Acredito que o PP está próximo de chegar a uma decisão e confio que eles estarão conosco na campanha para o governo.”

Para o presidente do PSDB em Goiás, deputado federal Giuseppe Vecci, o único partido do centrão que não deve integrar a chapa de Eliton é o Democrtas. “Naturalmente o DEM não estará conosco porque tem candidato próprio. As coligações regionais precisam se adaptar às peculiaridades da política estadual. Tem certas alianças que não conseguem se verticalizar fielmente. Mas essa aliança nacional já vinha sendo construída há algum tempo e se canalizou para quem tem mais condições de chegar à Presidência da República”, analisa Vecci.

O centrão no Estado possui 11 parlamentares divididos em cinco siglas na Assembleia e seis na Câmara dos Deputados. O DEM tem três deputados estaduais no Legislativo goiano, PRB tem dois parlamentares estaduais e um deputado federal e PP tem presença apenas na Câmara dos Deputados com três parlamentares. PR e Solidariedade estão na Câmara com um deputado cada. Progressistas é o partido que guarda uma carta coringa: o ministro das Cidades.

Cientista político e presidente da Associação Brasileira de Cientistas Políticos no Distrito Federal (Abcop-DF), Alexandre Bandeira explica a relação das coligações por duas visões: os interesses políticos estaduais e a proximidade dos diretórios regionais, através dos seus políticos, com os eleitores. As coligações nacionais e estaduais obedecem a rito próprio, explica Bandeira.

“Existe claramente uma questão de conflito de interesses. Na perspectiva nacional, que gira em torno da eleição presidencial, existem interesses partidários em níveis diferentes, como espaço nos órgãos da União, vide loteamento de Ministérios, e força política no Congresso Nacional. Quando descemos para uma localidade, seja qual for, entra a regionalização dos interesses políticos e a proximidade das figuras regionais com o eleitor.”

Ainda segundo Bandeira, as executivas estaduais conseguem se aliar em chapas majoritárias mesmo distantes umas das outras na disputa nacional. “Os Estados têm as características dos políticos locais ligadas ao seu eleitor e os partidos têm seus candidatos a nível nacional que adentram o eleitorado estadual independente de partido. Como exemplo, um eleitor pode votar em um candidato do PSDB à Presidência da República e votar em um governador do PDT. As lideranças nacionais respeitam muito essas individualidades dos Estados.”

O cientista político lembra tempos passados quando os partidos e a legislação eleitoral previam a verticalização obrigatória de coligações, mas “não deu certo, porque o eleitor tende a votar no candidato e não no partido”.

Coligações nacionais e estaduais obedecem a rito próprio, explica cientista político Alexandre Bandeira

Capítulo à parte

Presidente estadual do PDT, George Morais antecipa que não seguirá com o bloco na próxima eleição. Fora a adesão ao centrão, Morais espera decisão da executiva nacional para recuperar os diálogos com o governador. “O centrão tinha uma conversa bem afiada com o PDT nacional para apoiar Ciro Gomes, nosso candidato. Mas quando anunciaram o apoio ao Alckmin, afastou as nossas conversas de integrar o bloco”, lamenta o pedetista.

Nas conversas entre os partidos para formar blocos e ganhar mais densidade eleitoral, o PSD goiano flertou com o PP, PRB e PDT. Mas o diálogo foi infrutífero, segundo o presidente da legenda em Goiás, o ex-deputado Vilmar Rocha. “Não conseguimos chegar a nenhuma conclusão em aglutinar mais partidos com a gente. Mas queremos chegar à convenção estadual em agosto com uma decisão tomada”, garante Rocha.

O tucano Giuseppe Vecci admite esforços para manter o PSD na base estadual e puxar a executiva nacional da legenda para a campanha de Geraldo Alckmin. “A nível nacional, o PSD deve caminhar com Ciro Gomes, pelo menos é o que está se desenhando no momento, mas temos trabalhado para que isso não ocorra”, revela Vecci.

PDT tenta espaço para Ciro em Goiás

Apesar de o DEM apoiar o tucano Geraldo Alckmin na campanha presidencial, o senador Ronaldo Caiado (DEM) promete não dar palanque ao ex-governador de São Paulo para pedir votos em Goiás. Caiado optou por agradar sua principal base política no momento, o Podemos, e dará espaço ao pré-candidato do Podemos, o senador Álvaro Dias. Sobra para Alckmin o palanque do próprio ninho com José Eliton e Marconi Perillo.

O dirigente estadual do PDT vai conversar com os tucanos para encontrar uma zona simpática a Ciro Gomes em seu palanque. George quer resgatar possibilidades antigas, caso não esteja com José Eliton, que aconteceram com Marconi Perillo. “Lembro-me de conversas com Marconi à época em que ele abriria palanque para a Marina Silva (Rede) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por movimentos como esses que dificultam algumas alianças. Vamos tentar espaço para o Ciro no Estado.”

Repercussão nas redes sociais de Alckmin e centrão

A repercussão negativa do apoio do centrão a Geraldo Alckmin deu origem a um estudo produzido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), por meio da Diretoria de Análise de Políticas Públicas (DAPP). De acordo com a DAPP, que monitorou postagens no Twitter, o anúncio de apoio do centrão ao tucano gerou mais de 36 mil menções entre as 17 horas da última quinta-feira, 19, e as 17 horas de sexta, 20.

Houve aumento de 715% de tuítes quando os novos registros são comparados com as 24 horas anteriores. Foram aproximadamente 4,4 mil referências. Segundo a DAPP, dois picos de menção foram registrados no período analisado. E foi justamente quando o exame passou do mero registro do volume de menções à natureza delas que se pôde constatar o caráter negativo da repercussão.

No primeiro pico de referências em postagens, instantes depois de publicadas as primeiras notícias sobre a aliança, percebeu-se que o viés das mensagens era essencialmente negativo. “Ainda que as notícias mais compartilhadas apontassem a conquista de maior espaço para Alckmin no horário eleitoral, o que fortaleceria sua campanha, o presidenciável foi criticado por ter cedido a demandas, como a que envolve a busca de uma saída para o problema do financiamento dos sindicatos, devido ao fim da cobrança obrigatória do imposto sindical. Tal compromisso atenderia a demanda do deputado federal Paulinho da Força (SD). A exigência, no entanto, foi percebida como uma aproximação de Alckmin a uma pauta mais à esquerda – argumento potencializado pelas notícias de um possível estreitamento de laços com o MST”, diz trecho da análise.

Outra conclusão é a de que o apoio do bloco partidário foi visto como uma sinalização de que Alckmin é um candidato que, caso seja eleito, manterá as estruturas de poder. “Tal abordagem permanece entre as referências registradas no segundo pico de menções, ainda que com menor intensidade. Também são recorrentes as críticas ao tucano por se associar a um grupo político que é visto por alguns usuários como base de sustentação de escândalos de corrupção em governos anteriores”, completa o material. Há inclusive referência ao fato de que o centrão, em sua versão eleitoral formado por DEM, PP, PR, PRB e SD, ter diversos membros investigados na Lava Jato e outras investigações.

Mesa quadrada

O mapa de interações foi estruturado com base em 10.214 retuítes sobre a aliança entre Alckmin e centrão. Quatro principais grupos protagonizaram as discussões. O mais numeroso, que representa 40% das contas, é formado por perfis da chamada direita e vocaliza discurso de apoio a outro presidenciável, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL).

O grupo direitista também critica o eventual casamento entre Alckmin e o centrão – que sofreu um abalo com a recusa de Josué Gomes (PR) em compor chapa com o tucano. Tais críticas têm como pilar a temática da corrupção, num contexto em que os defensores de Bolsonaro dizem que o pré-candidato do PSL jamais fecharia acordo com o bloco. Mas é bom lembrar que Bolsonaro queria o apoio do PR, inclusive com a oferta da vice-presidência na chapa, até o momento em que a sigla migrou para o lado do tucano.

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