PMDB, um partido em transe

Divisão entre adeptos de Iris Rezende e de Júnior Friboi já assume contornos dramáticos e a primeira grande consequência deve ser a perda do aliado PT no primeiro turno

Ex-prefeito Iris Rezende e empresário Júnior Friboi: o líder histórico e o líder adventício racham o partido numa divisão que pode diminuir sua força na disputa pelo Palácio das Esmeraldas | Foto: Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Ex-prefeito Iris Rezende e empresário Júnior Friboi: o líder histórico e o líder adventício racham o partido numa divisão que pode diminuir sua força na disputa pelo Palácio das Esmeraldas | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Cezar Santos

Iris Rezende e Júnior Friboi vão se reunir e acertar um entendimento bom para o partido, isso vai acontecer logo, no momento certo. A aposta é do ex-deputado federal Marcelo Melo, que na eleição passada foi vice de Iris na eleição estadual.

A aposta de Marcelo Melo se dá na contracorrente do que está acontecendo no mento no partido, em que a divisão está definitivamente instalada entre os adeptos de Iris e de Friboi, cada um defendendo que o seu nome preferido tem melhores condições na disputa de outubro. Essa divisão, segundo Melo, é provocada por pessoas que estão na órbita dos dois líderes e ficam “insuflando” a discórdia.

O cuidado do ex-deputado é claro, mas o fato é que ele é um dos “linhas de frente” de Júnior Friboi, articulando na região do Entorno de Brasília, considerada estratégica pela alta densidade populacional de alguns municípios. Marcelo Melo contabiliza cerca de 180 municípios que Friboi já percorreu no Estado. “É um caminho sem volta a candidatura dele.”

Melo diz que a recepção ao nome do empresário tem sido total no Entorno. “Em todas as reuniões que realizamos, prefeitos, vereadores e outras lideranças municipais comparecem em peso. Isso é sinal de aceitação, de que o nome do Júnior empolga.”

E quem tem uma posição delicada no processo é o presidente regional do PMDB, deputado estadual Samuel Belchior. Sabe-se que ele é adepto da candidatura de Iris, mas pela função que ocupa, não pode se manifestar nesse sentido. Mas ele também acredita que o partido tem de se definir logo. “Está na hora do partido tomar uma decisão”, disse na semana passada. Para que isso aconteça, no entanto, ele lembrou que Júnior do Friboi teria se posicionar sobre o assunto.

Ao ser questionado sobre a possibilidade de Iris e Friboi integrarem a mesma chapa, Belchior respondeu que esta sempre foi sua vontade. No entanto, sabe-se que o empresário já externou, mais de uma vez, que não concorrerá a outro cargo, que não o de governador. Samuel amenizou: “Era cedo para ele dizer isso. A política é muito dinâmica, e as coisas mudam muito.”

A verdade é que pela liderança inequívoca, pela história que escreveu no PMDB, a divisão entre iristas e briboizistas tem criado situações inusitadas. Poucos dos adeptos de Friboi lançam carga de for­ma direta contra Iris. Normal­mente, ficam “cheios de dedos” na sugestão da não candidatura do líder maior e defesa da candidatura do novo líder.

Marcelo Melo: “Iris e Friboi vão se acertar logo” | Samuel Belchior: “Não podemos demorar na definição” | Daniel Vilela: “Estamos perdendo um tempo precioso”

Marcelo Melo: “Iris e Friboi vão se acertar logo” | Samuel Belchior: “Não podemos demorar na definição” | Daniel Vilela: “Estamos perdendo um tempo precioso”

Exemplo foi o deputado estadual Daniel Vilela, que na semana que passou disse que o PMDB tem os mesmos candidatos ao governo há 24 anos — Iris e o pai do deputado, o prefeito de Aparecida de Goiânia, Maguito Vilela. Por isso, segundo Daniel, teria chegado a hora da renovação. A renovação, claro, é com Júnior Friboi, embora o deputado não tenha dito isso com todos os efes e erres.

Daniel — um dos maiores entusiastas de Júnior Friboi, juntamente com o pai e o primo deputado federal Leandro Vilela — admitiu que o partido vive um momento de instabilidade, resultado da indefinição de Iris Rezende, que não revela se vai ou não disputar o Palácio das Esmeraldas. O jovem deputado externou sua opinião de que o PMDB está perdendo um tempo precioso com a disputa entre o bilionário empresário das carnes e Iris.

Para ele, a decisão deveria ser tomada logo no sentido do que o povo goiano espera, qual seja, escolher Friboi como candidato, já que o empresário supostamente tem o perfil que a população deseja e que está prospectado nas pesquisas.

Peemedebistas vão sem o PT no 1º turno
Prefeito de Anápolis, Antônio Gomide: candidatura estimulada por Lula para minar Marconi em Anápolis? | Foto: Renan Accioly/Jornal Opção

Prefeito de Anápolis, Antônio Gomide: candidatura estimulada por Lula para minar Marconi em Anápolis? | Foto: Renan Accioly/Jornal Opção

Mas os últimos acontecimentos deixaram algo muito claro no PMDB: o partido vai caminhar sem o aliado PT no primeiro turno da eleição estadual, porque os petistas não vão recuar na indicação do prefeito Antônio Gomide como candidato. Essa posição é majoritária entre os líderes do PMDB, tanto os adeptos de Iris Rezende quanto os de Júnior Friboi. Pelo menos nessa avaliação os dois grupos concordam.

E quem disse que o PT não vai recuar da candidatura de Gomide foi uma das mais representativas figuras do PMDB: o vice-presidente da República e presidente de honra do partido, Michel Temer. Pela função, naturalmente que Temer está em contato direto com os marechais petistas em Brasília, notadamente Lula da Silva e Dilma Rousseff.

O que se comenta nos bastidores é que a candidatura de Gomide tem o aval do próprio Lula, que quer o prefeito na sucessão para tirar votos de Marconi Perillo em Anápolis, onde o tucano sempre sai com uma baciada de votos. Por essa tese, para Lula pouca importa se Gomide vai ser derrotado, mas se causar um “estrago” na votação de Marconi já terá compensado a aventura.

O fato é que a política não aceita vácuo, e o PT sentiu no impasse peemedebista entre seus dois nomes a oportunidade de lançar um nome próprio, “experimentando” a aceitação de Gomide nestes dois meses e pouco. E se não tiver ocorrido um “ciclone” ontem, sábado, 29, Gomide terá sido mesmo aclamado pela maioria (ou totalidade) dos cerca de 350 delegados petistas como pré-candidato do PT ao governo.

Falta, agora, a desincompatibilização na Prefeitura de Anápolis, isto é, Antônio Gomide renunciar ao mandato de prefeito. Após isso, não poderá recuar mais. Portanto, ainda toda uma semana de negaças, de firulas e de leguleios por parte de petistas e peemedebistas…

Mas voltando ao PMDB, está claro que o partido vive uma crise desde há algumas semanas. É uma situação delicada, mas nem chega a ser tão grave, já que a divisão faz parte do DNA peemedebista e causou a saída de vários líderes do partido, como Mauro Borges e Nion Albernaz, entre outros. Só para recordar, Júnior Friboi se filiou à legenda em maio do ano passado.

O empresário mudou-se de mala e cuia do PSB para o PMDB com pompa e circunstância. Ele chegava com o claro intuito de ser candidato ao governo, embora sem dizê-lo claramente de público no primeiro momento. Escorava-se no que dizia ter sido a negativa de Iris Rezende em ser candidato.

Ocorre que no decorrer dos dias, com as pesquisas sempre mostrando bom posicionamento de Iris, o líder maior peemedebista levou a situação em banho-maria, esperando que Friboi visse a realidade dos números e pedisse para sair. Mas Friboi mostrou que não estava para brincadeira, e sua candidatura, apoiada pela maioria absoluta dos detentores de voto no partido, cresceu. Consta que nada menos que 50 dos 56 prefeitos do partido estão com ele.

Nos últimos dias, a partir de um encontro que teve com Temer, em Brasília, Iris Rezende admitiu ser candidato. De maneira meio tímida inicialmente, ultimamente o cacique já vem “abrindo a caixa de ferramenta”, ou seja, adotando um tom mais duro e direto.

O ex-prefeito Iris Rezende foi incisivo em relação ao processo de escolha de Friboi como pré-candidato, em entrevista a uma rádio na semana passada. O cacique peemedebista disse que não foi ouvido “para esse negócio antecipado”. Disse mais: “A decisão de oficializar a pré-candidatura de quem quer contrariou inclusive até o estatuto, mas eu respeito”. E não se furtou a dizer o nome do adversário interno: “Se a candidatura do Júnior Friboi não pegar, nem ele mesmo vai querer ser candidato”.

O ex-prefeito lembrou ainda que não compareceu à filiação de Júnior Friboi, em maio do ano passado. A lembrança pode soar claramente como um recado de que ele, Iris, não endossou a entrada de Friboi no partido.

Definitivamente, o clima de guerra entre iristas e friboizistas impera no PMDB goiano.

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