Plano de vacinação apresentado por governo federal é vago e rudimentar

Membros do grupo técnico que assessorou a elaboração do plano de vacinação enumeram defeitos: faltam datas, detalhes logísticos e insumos

Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19 foi entregue ao Presidente Jair Bolsonaro | Foto: Isac Nóbrega/PR

O Plano Nacional de Operacionalização da Vacina contra a Covid-19 foi lançado nesta quarta-feira, 16, em cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília. O plano prevê quatro grupos prioritários que somam 50 milhões de pessoas, que receberão duas doses em um intervalo de 14 dias entre a primeira e a segunda injeção. Serão necessárias 108,3 milhões de doses de vacina, já incluindo 5% de perdas.

A prioridade será para trabalhadores da saúde, idosos, pessoas com doenças crônicas (hipertensão de difícil controle, diabetes mellitus, doença pulmonar obstrutiva crônica, doença renal, entre outras), professores, forças de segurança e salvamento e funcionários do sistema prisional.

Segundo o plano, o governo federal já garantiu 300 milhões de doses de vacinas contra a covid-19 por meio de acordos. Até agora, nenhum imunizante está registrado e licenciado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), etapa prévia obrigatória para que a vacinação possa ser realizada.

Uma versão prévia do documento foi apresentada pelo governo ao Supremo Tribunal Federal (STF) no sábado passado, 12. Essa primeira edição do plano sofreu críticas – por excluir populações vulneráveis da lista de grupos prioritários para a vacinação – e controvérsias. Talvez a mais séria delas tenha sido a revelada por Ethel Maciel, doutora em Saúde Coletiva e Epidemiologia, e professora na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

Ethel Maciel afirma que algumas sugestões do grupo assessor foram acatadas na segunda edição do plano de vacinação | Foto: Reprodução / Abrasco

A cientista integrou o grupo técnico assessor, composto por 159 especialistas que auxiliaram com sugestões o Ministério da Saúde (MS) a compor o plano. Entretanto, em suas redes sociais e em diversos veículos jornalísticos, Ethel Maciel afirma sobre o documento entregue ao STF no sábado, 12: “Nós, pesquisadores que estamos assessorando o governo no Plano Nacional de Vacinação da Covid-19, acabamos de saber pela imprensa que o governo enviou um plano, no qual constam nossos nomes e nós não vimos o documento. Algo que nos meus 25 anos de pesquisadora nunca tinha vivido!”

Em entrevista ao Jornal Opção, Ethel Maciel relatou suas impressões a respeito da versão finalizada e apresentada na quarta-feira. A pesquisadora ressalta que o grupo técnico assessor também não teve acesso prévio ao documento lançado no dia 16 e que os cientistas que aconselharam o Ministério da Saúde tiveram seus nomes removidos do plano. 

Entretanto, a Secretaria de Vigilância em Saúde, que coordenou o projeto, acatou algumas das alterações sugeridas. Foram incorporadas populações vulneráveis (população quilombola, ribeirinha, privada de liberdade, em situação de rua, portadora de deficiência, além de todos os trabalhadores da educação) nos grupos prioritários para a vacinação. O grupo técnico assessor sugeriu que fossem incluídos na lista os trabalhadores de serviços essenciais, mas estes não entraram na categoria dos primeiros a serem vacinados.

Ethel Maciel diz que, em sua opinião, o principal problema do plano é se basear exclusivamente na vacina da AstraZeneca (também chamada de ‘vacina de Oxford’), que ainda não tem data para receber aprovação da Anvisa, ou mesmo de concluir a análise de seus testes clínicos. O Plano Nacional de Operacionalização da Vacina contra a Covid-19 não considera a distribuição de doses da vacina da Pfizer/BioNTech, que já foi aprovada pelo FDA (análoga americana da Anvisa) e poderia ser distribuída no Brasil em caráter emergencial.

“Ainda há muitas lacunas”, diz Ethel Maciel. “O plano menciona de forma genérica o acordo com o Instituto Butantan, mas não informa quantas doses da Coronavac serão compradas ou quando”. O documento que se propõe a organizar a logística da imunização não leva em consideração a distribuição de uma vacina de RNA, que necessita ser armazenada e transportada à temperaturas de até -72ºC.

“Nós efetivamente não temos um plano que possibilite a distribuição da vacina da Pfizer naquele documento”, diz a cientista. Nas páginas 34 e 35 do documento, o Ministério da Saúde informa que “o Centro de Distribuição Logístico (CDL) da empresa que acompanha e fiscaliza in loco toda a operação” possui freezers capazes de atingir apenas -35º C. “O documento não informa se novos freezers serão comprados, para onde vão, se algum lugar no Brasil já tem estes equipamentos. É muito vago”, afirma Ethel Maciel. 

Lígia Kerr é médica com pós-doutorado nas áreas de Saúde Coletiva e Epidemiologia, além de professora na Universidade Federal do Ceará (UFC) e integrante do grupo técnico assessor. A cientista afirma que o grupo de pesquisadores se reuniu com membros do Ministério da Saúde às 8 horas, pouco antes do lançamento do plano, na quarta-feira, 16. 

“Nós achamos que o Brasil não pode ficar escolhendo vacinas; toda vacina aprovada por agências reguladoras deveria ser usada no país”, diz Lígia Kerr | Foto: Reprodução / Abrasco

“Fomos convidados a nos reunir com o MS para resolver a crise criada. Eles reconheceram que erraram ao entregar ao STF um documento que não tínhamos visto e que continha nossos nomes. Reconheceram que precisam da assessoria da academia e de técnicos. Reconheceram também que erraram ao deixar populações vulneráveis de fora da lista de grupos prioritários. Nós, por nossa vez, reconhecemos a qualificação dos técnicos e coordenadores envolvidos no projeto e que deveríamos mesmo colaborar com a elaboração do plano”, relata Lígia Kerr.

Na opinião da epidemiologista, o plano lançado na quarta-feira mostra um grande avanço em relação ao plano anterior que foi apresentado ao STF. “Nós achamos que o Brasil não pode ficar escolhendo vacinas; toda vacina aprovada por agências reguladoras deveria ser usada no país. Demos um passo muito importante no novo plano, que se compromete a usar qualquer vacina que seja considerada eficaz e segura por agências reconhecidas no Brasil ou pela própria Anvisa”.

Apesar de reconhecer a possibilidade de aplicar outros imunizantes aprovados em testes clínicos, além daquele produzido pela AstraZeneca, não há detalhes operacionais de como essa distribuição seria feita, lembra Lígia Kerr. “Questões logísticas não estão claras. Não há datas. Não sabemos de onde virão os insumos, como agulha, seringas, algodão, e não sabemos como ou de quem vão comprar isso tudo.”

Insumos

Em webinar promovido pelo Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde, uma iniciativa do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês), Priscila Miguel, professora e coordenadora de Mestrado Profissional com ênfase em Supply Chain da Fundação Getúlio Vargas, analisou a cadeia de produção desses insumos no Brasil:

“O Brasil tem grandes representantes com produção instalada no país que até agora teve capacidade de suprir nossas demandas. Mas a questão envolve ter os insumos, entregá-los no ponto de aplicação da vacina e verificar o que está sobrando nos diversos locais. Hoje, não temos clareza dos estoques. Além disso, ainda não sabemos quais seringas e ampolas serão utilizadas. Por último, existe uma demanda mundial pela matéria prima (plástico, aço) usada para produzir esses insumos. Até agora, não fizemos o planejamento adequado e esta é uma tarefa que leva tempo.”

Priscila Miguel comenta que, na ausência de um planejamento, pode-se fazer como os Estados Unidos: o país investiu em redundância do estoque, realizando grandes compras de insumos, em um número maior do que a própria população a ser vacinada. “Mas nós já sabemos há um bom tempo que teremos de fazer essa compra. Falta planejamento e coordenação.”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.