Pessoas contam como é a luta contra a pandemia em diferentes continentes

Países afetados pelo coronavírus adotaram diferentes estratégias para combatê-lo. Veja como Austrália, Coreia do Sul e África do Sul estão lidando com a Covid-19

Oficiais desinfectam aeroporto em Gyeongsang, Coréia do Sul | Foto: Reprodução / EBC

Até o fechamento desta edição, 13 de junho, o novo coronavírus (Sars-CoV-2) havia infectado 7,4 milhões de pessoas e matado 418 mil ao redor do mundo. Estima-se que cerca de cerca de 4 bilhões de pessoas convivem com as medidas para combate à pandemia – cerca de metade da população mundial está em regiões que adotam lockdown total ou parcial. 

O Brasil ocupa um trágico segundo lugar nesta corrida, tanto em número total de casos quanto de mortes, perdendo apenas para os Estados Unidos. Tendo realizado uma quarentena eficiente precocemente, o Brasil levou 43 dias para ir de mil a 100 mil casos da Covid-19 – em comparação, a Itália e o Reino Unido levaram quase 30 dias e os Estados Unidos levaram apenas 15. Isto significa que o país “comprou tempo” precioso para construir hospitais e adquirir testes.

Entretanto, o país não fez seu dever de casa. O Brasil foi um dos países que menos realizou testes para Covid-19 – foram 63 testes por cada 100 mil habitantes, menos do que os vizinhos latino-americanos: Cuba (265 para cada 100 mil habitantes), Chile (643), Paraguai (83), Peru (444), Argentina (76), Equador (115). A testagem é entendida por epidemiologistas como medida fundamental para isolar os doentes, monitorar o avanço do Sars-CoV-2 e criar políticas públicas de enrijecimento ou relaxamento da quarentena.

Sem saber quais segmentos da população deveriam ser isolados, o tempo que país leva para ganhar novos 100 mil casos foi de um intervalo de 11 dias (100 mil a 200 mil infectados do dia 3 a 14 de maio), para apenas três (o brasil pulou de 700 mil para 800 mil infectados do dia 8 para o dia 11 de junho). Esta progressão geométrica não precisa ser a realidade em todo o mundo. Veja como alguns países em outros continentes enfrentaram a pandemia. 

Coreia do Sul

A Coreia do Sul foi tomada como modelo no combate ao coronavírus desde que a doença ainda não tinha nome. Devido a política de testagem em massa, o governo coreano pôde monitorar aqueles que sofriam da Covid-19 e impedi-los de transmitir o vírus ao longo de uma cadeia de pessoas. Como resultado, o país que foi um dos primeiros a registrar o primeiro caso (20 de janeiro) teve apenas 12 mil infectados – feito ainda mais impressionante quando se considera que Seul tem metade dos 51 milhões de habitantes da Coreia do Sul.

“Aqui em Seul o governo não impedia as pessoas de ir trabalhar”, afirmou Eliza  (nome ocidental de Park Seo-yun, coreana que já residiu no Brasil). “Nós ficamos muito assustados no começo, mas o governo testou quase toda a população e ordenou isolamento das pessoas infectadas”, diz a bióloga sul coreana, “então vimos que não teríamos um cenário parecido com a Espanha ou Itália”. A Coreia do Sul chegou a produzir cem mil testes por dia – suficiente para ultrapassar em uma semana o total de testes feitos por todo o Brasil, que tem população quatro vezes maior.

Estratégia sul coreana para lidar com pandemia não envolve necessariamente o isolamento social | Foto: Reprodução / EBC

Eliza explica como o governo age quando detecta uma pessoa com Covid-19: “Recebemos um alerta no celular quando o teste de alguém em nossa área resulta positivo. Eles podem rastrear o infectado pelos cadastros e compras que ele fez e dizer para a loja que recebeu o infectado pelo coronavírus: ‘fiquem isolados por duas semanas.’ Também podemos ver em um mapa as regiões com mais doentes.” Propagandas relembram a importância do distanciamento e do uso de máscaras, “mas o coreano já faz isso normalmente, não é como no Brasil”, afirma Eliza.

Por dois meses, a Coreia do Sul registrou menos de 30 novos casos diários – até o dia 28 de maio. Em 24 horas, foram detectados 78 novos casos, o que acendeu um alerta para o país. Em Seul, onde 67 destes casos ocorreram, parques e museus estão atualmente fechados e empresas são encorajadas a adotar horários de trabalho alternativos para parte de seus funcionários na intenção de evitar aglomerações. Restaurantes, bares e templos não foram fechados, mas o governo encoraja medidas sanitárias e de distanciamento.

Austrália

No total, a Austrália teve 102 mortes e 7.302 casos confirmados. A pandemia é considerada estável no país, que há um mês não registra mais do que 30 novos casos por dia. 

O primeiro ministro australiano Scott Morrison anunciou no dia 8 de maio um plano em três fases para sair da rígida quarentena em que o país se encontrava. Desde então, os habitantes vêm lentamente retornado à vida normal, conforme explica Wesley Magalhães, o analista de sistemas goiano que reside em Sydney há cinco anos. Não há uma regra geral para todo o país, ele afirma, pois cada território pode deliberar sobre como manejar a crise.

“Aqui no estado de New South Wales, apenas cinco pessoas de famílias diferentes podiam se encontrar em uma casa ao mesmo tempo. A partir de hoje (13 de junho), o total de visitantes passou a ser de 20 pessoas, mais os residentes. As pessoas querem voltar a fazer confraternizações”, afirma Wesley Magalhães.

Em locais como cafés e restaurantes, o máximo tolerado são de 50 pessoas, mantendo distância física entre as mesas. “Bares e cassinos estão abrindo suas áreas de refeição, mas você não pode se sentar ao balcão ou ficar bebendo como antes; eles só vendem álcool se você consumir comida ou se comprar uma garrafa levar para casa”, diz Wesley Magalhães. 

Wesley Magalhães | Foto: Acervo Pessoal

O analista de sistemas explica que templos, escolas e museus retomaram as atividades, mantendo a regra do máximo de 50 pessoas em uma área comum e do distanciamento físico. “Aqui, os policiais te dão uma bronca se você violar a regra do distanciamento. Se você insistir, eles te aplicam uma multa. Mas, em geral, não precisam chegar a este ponto; tudo funciona bem e as pessoas são muito colaborativas. Acho que todos querem voltar ao normal o mais rápido possível”, conclui Wesley Magalhães.

África do Sul

A África do Sul tem aproximadamente 62 mil casos e 1,4 mil mortes. Com uma realidade social  cuja desigualdade lembra o Brasil, há dificuldades de estender as medidas de isolamento e o acesso à saúde para regiões pobres do país. Em comunidades como a de Khayelitsha, a densidade demográfica é alta e falta de saneamento dificulta a higienização das mãos, enquanto regiões rurais possuem pouca estrutura de saúde pública. O estado impôs precocemente uma rígida quarentena em todo o país.

Gráfico de novos casos na África do Sul em função do tempo | Imagem: Reprodução / Worldometers

No dia primeiro de junho, as medidas de isolamento social foram afrouxadas pelo governo de Cyril Ramaphosa. A segunda-feira foi marcada pelo retorno ao trabalho de milhões de pessoas após dois meses de lockdown nacional. A quarentena sul africana, provocou uma queda no número de casos ativos da Covid-19 – de 23.700 em 8 de junho para 22.700 em 10 de junho. Entretanto, um novo aumento no número de novos casos forçou o governo a endurecer outra vez as regras de isolamento. 

“O lockdown na África do Sul tem sido muito controverso”, afirma William Dlamini, sul africano que trabalha em uma companhia de mineração. “Neste momento, a mídia está cobrindo casos em que a polícia usou de força excessiva para impor o isolamento. No princípio, o país adotou um lockdown muito restritivo – até o comércio de alguns tipos de comida, cigarros e roupas foram proibidos – o que propiciou o surgimento de comércio ilegal, reprimido com dureza”. 

William Dlamini também diz estar preocupado com seu trabalho, pois o país que é um dos principais produtores mundiais de ouro, diamantes, platina, cromo e outros, teve sua produção de minérios severamente atingida. Segundo ele, a produção de minérios da África do Sul caiu mais de 50% nos meses de lockdown.

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