Pesquisas revelam ineficiência do governo federal para lidar com Covid-19

Profissionais da saúde pública não receberam treinamento, testagem e EPIs suficientes; cerca de 18 milhões de pessoas estão de fora do auxílio e de programas do governo, apesar da baixa renda

A pandemia de Covid-19 é a emergência de saúde pública mais importante deste século. A situação crítica faz com que as responsabilidades do Estado pelo sistema de proteção social e pela capacitação dos profissionais de saúde pública sejam ainda mais sérias. Entretanto, pesquisas publicadas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) na última semana mostram que menos da metade dos médicos, enfermeiros e agentes comunitários receberam algum tipo de treinamento para atuar na linha de frente; e que a parcela de trabalhadores que estão fora de programas de transferência de renda do governo brasileiro é maior do que os 38 milhões, apesar da baixa renda.

Neste contexto de mais de sete meses de pandemia, e dado as recentes medidas de reabertura, a falta de investimentos em proteção social e em prevenção da disseminação da doença cobram seu preço. São mais de 5,7 milhões de casos de Covid-19 até o dia 11 de novembro e mais de 162 mil mortes que se combinam com as perdas de renda derivadas da pandemia. A ineficiência do Estado tem sido retratada em dados verificados por pesquisas científicas.

Profissionais da saúde sentem-se despreparados

Profissionais de saúde na luta para salvar paciente de Covid-19 | Foto: Reprodução / EBC

O Núcleo de Estudos da Burocracia (NEB FGV-EAESP) publicou nesta terça-feira, 10, a terceira fase de sua pesquisa “A pandemia de COVID-19 e os(as) profissionais de saúde pública no Brasil”. A investigação foi conduzida com 1.520 profissionais da saúde pública no Brasil entre os dias 15 de setembro e 15 de outubro de 2020. 

Entre os achados, chamam a atenção o fato de que, em média, 79% dos(as) profissionais de saúde sentem medo da Covid-19. Isso pode ser explicado pelo fato de que 94,5% dos respondentes afirmaram conhecer algum companheiro de trabalho com suspeita ou diagnosticado com a doença; bem como pelo fato de que 52,2% dos respondentes não receberam treinamento; e de que 36,1% não receberam Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) continuamente durante a crise. 

O questionário divide os profissionais de saúde entre profissionais de enfermagem, médicos, agentes comunitários de saúde e agentes de combate a endemias (ACS/ACE) e outros. Praticamente metade (49,3%) dos ACS/ACE não receberam EPIs continuamente e, em geral, têm de comprar seus próprios equipamentos de segurança, segundo Gabriela Lotta, doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora da pesquisa. Dentro deste grupo de profissionais, apenas 34,3% recebeu algum tipo de treinamento. 

O relatório produzido pelo NEB afirma: “Ao longo da pandemia do coronavírus, alguns estudos trouxeram evidências sobre a importância da testagem em massa como método efetivo de combate à disseminação do vírus. Porém, no Brasil, essa estratégia não foi priorizada, o que fica evidente nesta pesquisa, à medida que 27,3% dos(as) respondentes não receberam material de testagem em nenhum momento, 43,5% receberam uma ou poucas vezes e apenas 29,2% receberam de forma contínua durante a crise”.

Segundo as pesquisadoras responsáveis, Gabriela Lotta e Michelle Fernandez, a falta de EPIs, de testagem e de orientações para lidar com a doença é duplamente preocupante quando trata-se de profissionais da saúde pois, além de correr o risco de serem infectados, trabalhadores na linha de frente da Covid-19 podem transmitir a doença aos pacientes com quem têm contato. 

O levantamento também aferiu a opinião dos entrevistados quanto à qualidade da ação das três esferas de governo na proteção dos trabalhadores de saúde pública. As respostas indicaram que a percepção positiva sobre governos municipais (55,4%) é superior à de governos estaduais (51,9%) e, mais ainda, à do governo federal (34,2%). Entre todas as regiões do Brasil, o Centro-Oeste é onde o parecer sobre as três esferas foi mais negativo: 35,6% de avaliações positivas para o governo municipal, 37% para o governo estadual e 25,3% para o governo federal.

A pesquisa aponta que 79% dos respondentes sentiram que sua saúde mental foi afetada negativamente pela pandemia. Por outro lado, apenas 28,4% dos respondentes afirmaram ter recebido algum tipo de apoio para cuidar da saúde mental. As principais emoções que os profissionais da saúde pública têm sentido durante o trabalho na pandemia são negativas: ansiedade (77%), medo (65%) e cansaço (64%). 

Por fim, devido ao atual questionamento de consensos científicos, o NEB sentiu necessidade de medir o grau de concordância dos profissionais de saúde pública com temas da ciência. Foi verificado que mais de 90% dos profissionais discordam total ou parcialmente que o presidente possa prescrever remédios para a população, mais de 97% concordam total ou parcialmente com a necessidade de ficar em casa e utilizar medidas de higiene e proteção e, por fim, mais de 94% concordam com a importância da ciência nos cuidados de sua saúde. A maioria dos profissionais é a favor da reabertura de apenas serviços essenciais e com uso de máscara de proteção.

Gabriela Lotta e Michelle Fernandez ressaltam que, na atual circunstância de reabertura e de fim do isolamento social, governos deveriam estar mais bem preparados. Com a paralisação de atendimentos eletivos durante a pandemia, criou-se uma grande demanda reprimida que deverá ser encarada em breve. “A atenção básica à saúde foi a mais penalizada, pois foi a que menos recebeu treinamento para lidar com a Covid-19. Estes trabalhadores estão voltando à ativa em meio a um cenário de pandemia avançada. Precisamos pensar em como iremos realizar a retomada do funcionamento da saúde básica ou teremos um contágio ainda maior”, afirma Michelle Fernandez.

18 milhões estão de fora do auxílio

Entregador | Foto: Jornal Opção

Os pesquisadores da FGV Lauro Gonzalez e Bruno Barreira publicaram na última semana pesquisa que descreve características de trabalhadores que não receberam auxílio emergencial e que não estão em programas de transferência de renda do governo, apesar de renda baixa. 

São 38 milhões de pessoas que recebem o auxílio emergencial, mas não constam no Cadastro Único do governo federal, além de mais de 18 milhões que não receberam nenhum tipo de transferência de renda – sem auxílio emergencial, nem são beneficiários do Bolsa Família, nem do Benefício de Prestação Continuada, apesar de terem baixa renda. 

Dentro da população que não recebe o auxílio emergencial, 38% possuem uma renda máxima de um salário mínimo e 94% não recebem Bolsa Família ou Benefício de Prestação Continuada. Isso significa que o número de 40 milhões de invisíveis, mencionado pelo ministro da Economia Paulo Guedes como pessoas descobertas através do pagamento do auxílio emergencial, pode estar subestimado.

Este segmento que não recebe transferência de renda é chamado de “os invisíveis” pelos pesquisadores, pois se encontram fora do radar do CadÚnico. Dentre os mais pobres (até um salário mínimo) que não receberam o auxílio emergencial, há um predomínio de mulheres (58%) e pessoas que se autodeclaram pretos e pardos (56%).

Em parte, os pesquisadores explicam, a invisibilidade se deve à renda variável de trabalhadores informais, que fazem parte do fenômeno da uberização do trabalho: “Em termos práticos, isso significa que a renda do trabalho tende a tornar-se variável e menos protegida por redes de segurança típicas de vínculos formais (tradicionais) de emprego, acarretando aumento de insegurança financeira”.

O relatório “Pobres sem auxílio emergencial e retratos da informalidade em tempos de pandemia”, publicado pelo Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira (EAESP) da FGV, revela: “Há evidências de que o chamado grupo dos invisíveis pode ser ainda maior do que os 38 milhões que receberam o AE mas não constavam no CadÚnico. Sendo uma base de dados fundamental para execução de políticas públicas, o CadÚnico precisa ser aprimorado de forma a incluir a acompanhar de maneira dinâmica a realidade das famílias de menor renda”. 

Com o fim do auxílio emergencial, a necessidade de estabelecer fontes de financiamento permanentes para programas de transferência de renda torna-se ainda mais urgente. Os pesquisadores pontuam ainda a escassez de políticas públicas de crédito com foco nos informais que gerasse mais incentivo para procura de crédito. 

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