“Permanência da JBS é mal necessário”, dizem pecuaristas

Representantes dos produtores goianos não acreditam em quebra, mas confirmam que a situação da empresa causa dificuldades para o mercado

José Magno Pato, do Sindicarne: “O problema maior foi a operação
Carne Fraca

Redução do abate de boi e prazo de 30 dias para pagamento aos produtores, quan­do antes pagava a vista. Essas medidas foram tomadas recentemente pela empresa JBS, envolvida em escândalos de corrupção, e têm causado transtornos ao mercado de carne. Elas batem direto na rentabilidade dos pecuaristas em todo o Brasil, e em Goiás, um dos maiores produtores do País, não tem sido diferente.

A cada dia a imprensa noticia fatos novos sobre a situação da empresa, e já se especula se ela não pode entrar em insolvência de alguma forma. São vários problemas, como a perda de reputação, desorganização e dificuldade na relação com credores. O grupo J&F, dono da JBS, é grande, tem várias empresas, mas também tem dívidas.

São R$ 50 bilhões de dívidas com bancos públicos — como Banco do Brasil e Caixa — e privados, principalmente Itaú e Bradesco. Sem falar nos R$ 10 bilhões que terá que pagar ao longo de 20 anos pelo acordo de delação que os irmãos Joesley e Wesley Batista firmaram com o Ministério Público Federal.

Por isso, se a situação da JBS continuar piorando, não é descabida a pergunta: ela pode quebrar?

José Magno Pato, presidente do Sin­dicato das Indústrias de Carnes e Derivados de Goiás (Sindicarne), também um pequeno produtor no município de Jataí, não acredita em quebra da JBS. “Não pensamos que um grupo dessa envergadura vá falir, não é possível. Eles têm uma estrutura muito forte, sinceramente, não acredito que venham a quebrar. Não existe no mundo uma estrutura como a deles no mercado. Mas não resta dúvida de que os produtores estão preocupados com a situação. E, por enquanto, não houve em Goiás nenhuma quebra de contrato, ou que o produtor tenha deixado de vender boi.”

Tasso José Jayme, presidente da Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura (SGPA), pecuarista no município de Vila Propício, constata a nitidez de um descompasso na situação da empresa, que passou a não comprar mais o boi a vista, o que ela fazia há muitos anos, e está comprando hoje com 30 dias de prazo para pagamento. “Isso mostra que há uma dificuldade no fluxo de caixa deles, gerando um temor muito grande no mercado, porque eles absorvem mais da metade dos abates no Estado.”

Mas o líder classista diz que quem se arriscar a dar um prognóstico do que vai acontecer estará dando “chute”. Ninguém, diz, tem condições de prever que a situação da JBS vai continuar ou piorar, que ela vai esticar ainda mais o prazo de pagamento. Ele lembra que pode vir mais coisas ruins nas delações dos irmãos Batista.

“Ninguém sabe que problemas poderão surgir na empresa. Mas acho que é um mal necessário que a JBS continue no mercado. Já estamos com dificuldades para vender nosso produto, com preço quase 30% abaixo do que foi praticado no ano passado. Então, temos de rezar para que o frigorífico JBS continue, sob pena de a situação piorar muito se ele sair do mercado”, afirma Jayme.

Ele conta que a redução de abate por parte da JBS vem causando filas nos outros abatedouros, com escalas muito grandes de animais, gerando excesso de carne no mercado e uma baixa considerável nos preços. “O outro grande frigorífico, o Minerva, e os pequenos abatedouros estão lotados.”

Segundo Tasso Jayme, o problema maior nesse momento é para o grande produtor. O pequeno pecuarista, diz, aquele que abate até 100 cabeças, não tem dificuldade de colocar nos pequenos frigoríficos. “Mas o médio e o grande produtor, que vendem aí por volta de mil cabeças, não têm estrutura física para matar esse gado. E acaba que eles têm de ficar mesmo nas mãos da JBS por falta de alternativa.”

A situação coloca o produtor num beco de duas saídas, ambas ruins. Tasso Jayme diz que por um lado os produtores goianos estão correndo da JBS por duas razões principais. Primeiro, porque são 30 dias para receber; segundo, com as notícias na imprensa de que a situação financeira da empresa é muito ruim, gerou um temor no mercado. A dificuldade é que os produtores médios e grandes ficam com poucas opções para vender seu gado.”

Magno Pato diz que todos os frigoríficos reduziram o abate, não só a JBS. Mas o problema maior é que a JBS passou a pagar com 30 dias de prazo. “Eles estavam com dificuldade de receber lá na frente. Aí, o elo mais fraco da corrente, que é o produtor, sofre mais.”

Pato dá menos importância à JBS nos problemas dos produtores. Ele diz que as dificuldades têm sido causadas mais pela situação de crise econômica que o país sofre. Afinal, com 14 milhões de desempregados, as pessoas diminuíram o consumo de carne, passaram a comprar menos. “E mesmo quem está empregado, diminui o consumo. Quem comprava dois quilos por semana, passa a compra um quilo, é normal.”

Ele diz que o problema veio mesmo com a operação Carne Fraca, que causou queda nas exportações, quando vários países suspenderam a compra da nossa carne. “O presidente Michel Temer foi agora à Rússia, para acudir um pouco a situação, porque eles estavam reduzindo a importação. A Rússia é um grande comprador de nossas carnes bovina, de frango e suína. Temer foi lá justamente para negociar, para que os russos não nos tirem do foco, senão aí sim, vai ter quebradeira, não por causa da JBS, mas por causa dos importadores.”

Com a queda das exportações casadas pela operação Carne Fraca, diz Magno Pato, está sobrando carne no mercado interno. Isso baixou o preço para o produtor, e se contabilizar a inflação, vê-se que não está fácil. “A arroba hoje está em torno de 118 reais, e estava a 140 reais em janeiro. Em março é que aconteceu a ‘pancada’ nos produtores. Teve empresa que fechou abril com R$ 300 milhões de prejuízo por falta de mercado. A dureza para nós foi a Carne Fraca, muito mais que o imbróglio da JBS.”

Cooperativa seria solução para Goiás?

Tasso Jayme,
da SGPA: “JBS praticamente virou um cartel”

No Mato Grosso, maior produtor de carne bovina do Brasil, na semana passada a imprensa noticiou que pecuaristas avaliam criar uma cooperativa de carne e reativar frigoríficos que hoje estão paralisados. A alternativa é vista como uma saída para a concentração de plantas frigoríficas nas mãos de poucas empresas. Somente a JBS detém cerca de 47% do parque industrial de carne bovina no Estado.

Tasso Jayme diz que é possibilidade a ser estudada em Goiás. Ele lembra que a JBS é o maior devedor da Pre­vidência no País e muitas plantas que ela comprou foram fechadas depois para diminuir a concorrência. Ele vê possibilidade do governo, para receber essa dívida previdenciária, confiscar algumas dessas unidades e passá-las para cooperativas.

“Mas é um mercado muito difícil, há muita oscilação, e não é qualquer grupo de empresários que, se receber uma planta dessa, saberá administrá-la com sucesso. Então, pode ser uma opção, mas não será uma solução para o nosso problema. A JBS vem mandando no mercado há muitos anos, praticamente virou um cartel de frigorífico no País. Ela saindo, não há como prever o que poderá acontecer no longo prazo”, diz o presidente da SGPA.

Magno Pato vai na mesma direção, lembrando que a JBS tem unidades penhoradas com alguns bancos, inclusive o BNDES. “Se a empresa fraquejar, o governo pode liberar alguns desses frigoríficos parados para outros grupos que poderão suprir a demanda represada.”

Alguém, diz Magno Pato, está torcendo para a JBS quebrar, porque aí vai ganhar dinheiro, uma vez que a concorrência é grande nesse mercado. Ele lembra que em Goiás, a JBS tem plantas funcionando em Mozarlândia, em Goiânia e em Senador Canedo; estão fechadas as de Anápolis, a de Inhumas, que eles compraram da Cotril, a de Cachoeira Alta e a de Goiás Velho. “Se tiver problemas com essas, algum grupo vai assumir. Ocorre que as três plantas em funcionamento, mais o Minerva, o Marfrig e 14 ou 15 unidades que têm inspeção federal em Goiás estão abatendo 80% da oferta de boi no Estado.”

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