Participantes do Miss Goiás denunciam “jogo marcado” e assédio no concurso

A competição para eleger a representante goiana no Miss Brasil teve desde mensagens com “resultado antecipado” até relatos de situações vexatórias

O universo dos concursos de beleza exerce fascínio e arranca suspiros tanto de mulheres quanto de homens desde as épocas mais antigas. Para se ter uma noção, a primeiríssima edição do famoso Miss Universo remonta a meados do século XX, precisamente no ano de 1952, quando a finlandesa Armi Kuusela foi eleita a primeira miss universal. Desde então, diversas ramificações da competição foram criadas para escolher a mulher considerada a mais bela e carismática de cada território.

O Estado de Goiás, assim como todos os outros Estados do país, elege anualmente a sua miss para a disputa na categoria nacional, o Miss Brasil, que teve a primeira edição realizada no ano de 1954, coroando a baiana Martha Rocha. Entretanto, por trás dos belos sorrisos e da graciosidade das concorrentes, das cintilantes coroas e das pomposas faixas que ornam as moças, as candidatas alegam existir um outro lado do concurso que se esconde nos bastidores e que, ao contrário das misses, não é nada bonito.

O concurso Miss Goiás coroou no dia 29 de novembro, em Goiânia, a Miss Goianápolis, Lorena Campos, de apenas 19 anos, como a representante do Estado apta a concorrer no Miss Brasil. Porém, o concurso, promovido pela empresária Fátima Abranches desde 2003, terminou com participantes relatando desde suspeitas de fraude até casos de assédio, situações de humilhação e exposição.

O Jornal Opção conversou com participantes do Miss Goiás, que trouxeram à tona o que aparenta ser o “submundo” dos concursos de beleza. Elas narram uma rotina de assédios que levaram algumas, inclusive, a procurar ajuda psicológica. Outras denunciam um suposto clima de parcialidade presenciado durante a competição.

É o caso da jornalista Sara Prado, de 23 anos, que representou o município de Caçu, no sudoeste do Estado. A miss, que veio a público recentemente nas redes sociais para falar sobre o concurso, contou que gastou cerca de R$ 10 mil para participar do evento – montante que inclui a inscrição de R$ 3 mil; passagens; compra de itens como coroa, faixa e preparativos no geral – e, assim como outras participantes ouvidas pela reportagem, saiu profundamente abalada dele.

Sara relata que desde o início ela, assim como outras participantes, começou a sentir pressão para fazer alterações em sua aparência, como perder peso para estar apta a participar. Em uma conversa pelo WhatsApp cedida por Sara, Fátima Abranches, organizadora e dona do concurso Miss Goiás, pergunta à coordenadora responsável por Sara – figura responsável pela intermediação entre as candidatas e a organização do concurso – se ela conseguiria perder peso, uma vez que ela estaria, segundo Fátima, “muito cheinha” e que “quanto mais magra, mais bonita” era a candidata na competição. A miss de Caçu diz que perdeu 11 quilos. Ela conta que teve que recorrer à ajuda de um psicólogo devido às crises de ansiedade sofridas geradas pela pressão.

Pelo WhatsApp, Fátima Abranches conversa sobre peso de um miss

“Mulher bonita tem que sofrer assédio mesmo”, teria dito especialista em concursos de Miss para participantes

O concurso Miss Goiás teve duração de dois dias, quinta-feira, 28, e sexta-feira, 29 de novembro, entre a preparação e confinamento das candidatas no hotel San Marino até a coroação, que ocorreu no espaço de eventos do Restaurante Árabe, em Goiânia.

Na noite de quinta, um jantar de confraternização foi oferecido pela organização do evento em uma residência no Setor Sul, de propriedade de um amigo da organizadora do concurso. A Miss Caçu, Sara Prado, expôs à reportagem o que teria sido uma situação que causou embaraço nas participantes que compareceram ao jantar.

Segundo a miss, em um dado momento do jantar, Fátima e os auxiliares de organização solicitaram às candidatas que deixassem seus aparelhos celulares em algum local e fossem para uma sala fechada, uma espécie de cabine de vidro. No local, conforme a miss, foram recebidas por Evandro Hazzy, especialista em concursos de beleza e apresentador ligado ao Miss Brasil.

Após uma fala de boas-vindas para as candidatas do Miss Goiás, Hazzy teria abordado uma polêmica envolvendo a modelo Wilma Paulino, detentora dos títulos de Miss Pará e Miss Itaituba de 2019. No mês passado, a modelo denunciou a coordenação do evento Miss Pará sob a alegação de que o coordenador do concurso, Herculano Silva, teria tentado fazer dela uma “acompanhante de luxo”. Segundo a Miss Caçu, Hazzy teria condenado a atitude de Wilma Paulino e dito que misses deveriam estar acostumadas a cantadas e assédios, uma vez que apenas “mulher bonitas” sofrem com isso.

O relato foi corroborado por outras duas misses ouvidas pelo Jornal Opção. Segundo uma delas, que não quis se identificar, Evandro Hazzy teria dito que “mulher bonita tem que sofrer assédio mesmo”. O clima no ambiente com a fala de Hazzy, de acordo com a moça, foi de constrangimento e indignação.

Sara também contou que, durante o processo de preparação das meninas para o júri técnico, presenciou o momento em que um dos coordenadores teria se irritado com uma das misses, chamando-a de “burra” e “gorda”,

À reportagem, uma outra miss enviou áudios em que um dos coordenadores se refere a ela como “lesada”. Ela conta que a irritação do mesmo se devia a uma pergunta que ela havia feito sobre seu maquiador, e que teria sido mal interpretada pelo coordenador.

Júri técnico e jantar de confraternização foi feito em casa no Setor Sul

Segundo ela, era frequente os colaboradores do concurso se referirem às participantes em tom agressivo e com termos ofensivos como “sonsa” e “burra” quando elas faziam algum questionamento.

Mensagem enviada às candidatas antes da coroação dizia que vencedora seria Miss Goianápolis

Na quinta-feira, um dia antes da solenidade que coroaria a Miss Goiás 2020, uma mensagem partindo de um perfil no Instagram trazia em seu teor uma informação que deixou atordoadas as participantes do concurso que a receberam.

A concorrente Sara Prado foi uma das que receberam a mensagem. No texto enviado pelo perfil “jhonyjoy01”, uma pessoa dizia que torcia pela Miss Caçu, mas que infelizmente o concurso já estava comprado por uma candidata que teria apoio de um cantor goiano.

A mensagem, recebida por Sara às 8h43 da manhã de 28 de novembro, dizia o seguinte: “Torço por vc, te acho mt linda mais (sic) é uma pena já sabermos que esse concurso está compro (sic) por uma candidata que tem influência do XXXX, a miss Goianapolis”. De fato, a miss Goianápolis venceu. No dia da coroação, o cantor compareceu ao evento. Conforme relatado pelas misses, o artista teria comemorado a vitória da Miss Goianápolis quando ela foi anunciada.

Uma das misses ouvidas pela reportagem, que também não quis se identificar, contou que teve contato direto com a que levou a coroa. De acordo com ela, a miss de Goianápolis revelou que estava insatisfeita com o desenrolar do concurso, uma vez que estaria sendo negado a ela o direito de escolher quesitos básicos para avaliação do júri, como vestido e maquiagem.

Pelo Instagram, pessoa usando perfil fake contou quem ganharia concurso

Lorena, então, teria contado para a miss ouvida pelo Opção que tudo o que estava usando ao longo da competição era escolhido a dedo diretamente pelo organizadora Fátima Abranches. “Ela estava muito insatisfeita, chateada, porque ela disse que a Fátima estava escolhendo tudo pra ela, e ela não podia escolher nada. Ela chegou a chorar no dia porque não havia gostado da maquiagem que havia sido feita nela”, afirma a miss.

Fátima Abranches, organizadora do concurso Miss Goiás, diz que candidatas derrotadas “agem de má-fé”

À frente do Miss Goiás desde o ano de 2003, a empresária Fátima Abranches declarou que as afirmações feitas pelas participantes do concurso são absurdas e que elas agem de má-fé como uma forma de retaliação, uma vez que perderam a competição. Por e-mail, a empresária respondeu aos questionamentos enviados pela reportagem.

De acordo com ela, em nenhum momento “a coordenadora se dirigiu a qualquer uma das candidata com desrespeito”. A empresária disse que “se algum prestador de serviço contratado pela Organização Miss Goiás tivesse se comportado de maneira inadequada e tal comportamento tivesse chegado ao conhecimento da coordenação, o mesmo teria sido veementemente repreendido”.

Ainda conforme Fátima, a informação de que o resultado do concurso estava definido já no dia anterior à coroação é “falsa e caluniosa” e faz parte dos concursos de beleza. A empresária diz que “não houve, em hipótese alguma, interferência externa” no resultado do evento e que o artista mencionado pelo perfil que enviou a mensagem para as candidatas “não tem qualquer relação, pessoal ou profissional, com a coordenação do evento”.

Fátima esclareceu que o método de escolha da Miss Goiás é composto por um júri técnico integrado por “pessoas com ótimo conceito na sociedade, sem qualquer vínculo entre si”, e um júri final, onde um novo corpo de jurados “tem a responsabilidade de escolher, dentre as cinco finalistas, a nova Miss Goiás”. Ela afirma que o resultado do concurso Miss Goiás 2020 “foi apurado junto a representantes de uma empresa de auditoria e o documento que comprova esta decisão será encaminhado a todas as candidatas, chancelado por esta empresa”.

Candidatas do Miss Goiás 2020

Sobre a informação de que Fátima teria escolhido pessoalmente as roupas e a maquiagem da miss vencedora, ela nega e diz que a coordenação do evento “não participou da escolha dos figurinos das candidatas”, uma vez que “esta decisão coube às candidatas e seus familiares ou coordenadores e assessores”.

Segundo ela, a coordenação esteve aberta a todas as candidatas para orientar e instruir quanto à mecânica do concurso, “mas se absteve de tomar decisão de escolha da produção de beleza para a candidata vencedora ou qualquer outra miss”.

Fátima também respondeu aos relatos das misses sobre a fala de Evandro Hazzy, que teria afirmado que “mulheres bonitas deveriam sofrer assédio”. Conforme a organizadora do Miss Goiás, durante o jantar oferecido na casa localizada no Setor Sul, em Goiânia, devido à música que era tocada para a descontração do ambiente, foi solicitado às participantes do concurso que fossem até uma sala de vidro que contava com isolamento acústico, onde teriam o primeiro contato com Hazzy.

No primeiro contato com a reportagem, por telefone, Fátima negou que tivesse feito qualquer pedido para que as candidatas deixassem os celulares fora da sala. Entretanto, nos esclarecimentos enviados por e-mail, a empresária admitiu que “o uso do celular foi restrito” e explicou que a decisão foi tomada “para que as candidatas pudessem focar suas atenções ao momento, considerando a troca de conhecimento com um expert em misses e recordista na eleição de Misses Brasil”, se referindo ao encontro com Evandro Hazzy.

Sobre as supostas declarações feitas pelo especialista em concursos de beleza, “o contexto do que foi mencionado por algumas candidatas está absolutamente distorcido”. Conforme Fátima Abranches, o que foi orientado é que “candidatas, por serem mulheres com beleza em destaque, são notoriamente vítimas de cantadas e precisam, enquanto pessoas públicas, saber se posicionar e se desenvolver em momentos que podem incitar constrangimento ou assédio”. Ela finaliza dizendo que a coordenação do Miss Goiás “não endossa situações de assédio físico ou moral”.

A reportagem também entrou em contato com Evandro Hazzy sobre as supostas declarações atribuídas a ele pelas misses. Hazzy declarou que como especialista em Misses, profissional com mais de 30 anos no segmento, “repudia qualquer calúnia e inverdade” envolvendo sua participação no Miss Goiás. Conforme ele os questionamentos enviados pela reportagem, no qual “algumas candidatas derrotadas expõem suas opiniões, são mentirosas e caluniosas”.

O concurso, afirma ele, teve um corpo de jurados “idôneo e um auditoria credenciada para acompanhar a apuração”. “A vencedora venceu todas etapas com méritos em todos quesitos”, e “qualquer acusação precisa estar munida de prova concreta, sob pena judicial de quem o fez”, finaliza.

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