Para estruturar pequenos negócios, produtores goianos vão atrás de conhecimento

Da agricultura familiar à produção de leite, iniciativas passam por aperfeiçoamento e organização a partir de plataforma de incentivo à profissionalização do Sebrae Goiás

A Associação dos Agricultores Familiares de Bela Vista de Goiás (Afabev-GO) surgiu da profissionalização de um negócio que precisou se adaptar na pandemia | Foto: Divulgação/Casa da Bisa

A cidade de Bela Vista tem histórico de cooperativas de pequenos produtores, mas nem sempre a coisa deu certo. Mas a história da Associação dos Agricultores Familiares de Bela Vista de Goiás (Afabev-GO) é diferente. De oito produtores, a Afabev tem hoje 16 pequenos produtores na entidade. Enquanto faziam o curso Negócio Certo Rural, do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas em Goiás (Sebrae Goiás), agricultores familiares de Bela Vista receberam um incentivo de um dos professores: “Vocês são uma turma muito engajada, deveriam abrir uma associação”.

Presidente da Afabev-GO, Ihasminy Teixeira afirma que Bela Vista já teve dezenas de associações, mas em determinado momento as pessoas desanimavam e as iniciativas eram abandonadas. Antes de tomar a iniciativa de montar a associação, Ihasminy e outro produtores familiares de Bela Vista resolveram avaliar se valia a pena. “Primeiro nós precisamos saber se realmente temos perfil”, lembra Ihasminy.

Do curso Negócio Certo Rural, os produtores partiram para outro curso, de associativismo e cooperativismo do Sebrae, que apontou o caminho do que depois se tornaria a Afabev. Ao constatarem que tratava-se de um grupo forte de pequenos produtores que tinha tudo para dar certo. Mesmo um pouco perdido, como conta a presidente da associação, os agricultores familiares saíram do curso decididos a se unir para “valorizar o pequeno produtor”.

Humberto, do Sítio Pequeno Paraíso, cuida da horta para garantir a produção | Foto: Divulgação/Afabev-GO

Início de tudo

A história da Afabev começou com oito produtores familiares de Bela Vista de Goiás em 2018. Hoje são 16 famílias ligadas à associação, duas com selo de produção orgânica. “Uma das nossas lutas hoje é conseguir valorizar o produto da agricultura familiar, que é agroecológico, seja com selo de orgânico ou com trabalho de divulgação sobre a produção agroecológica”, explica Ihasminy.

De acordo com a presidente da Afabev, o trabalho de conscientização dos produtores sobre a importância que essas famílias têm no campo é uma atividade contínua. E a associação ajudou que todas as 16 produções familiares se mantivessem ativas, na busca por renda para o produto do campo.

Vender os produtos na feira em Bela Vista, para quem tem toda a produção orgânica, acaba por não ser tão vantajoso. A concorrência com feirantes que compram produtos da Ceasa [Centrais de Abastecimento de Goiás S/A] complica a vida do agricultor familiar. Com a pandemia da Covid-19, o processo de valorização do pequeno produtor foi acelerado.

Delivery na pandemia

Assim como todo o processo de produção é familiar na associação, as entregas do delivery também contam com a ajuda dos parentes, como é o caso de Sônia, cliente atendida pela produtora rural Elza | Foto: Divulgação/Afabev-GO

Ihasminy diz que a forma encontrada de ligar o agricultor familiar ao consumidor final foi iniciar a venda dos produtos dos associados da Afabev por delivery. A entrega é semanal em Bela Vista, Goiânia e Hidrolândia. “Comercializar é uma forma de valorizar o pequeno produtor.”

A Afabev divulga a lista de produtos que serão vendidos pelo WhatsApp até fechar as entregas, que são feitas uma vez por semana. O que é comercializado a cada semana é disponibilizado no perfil da associação no Instagram (clique aqui), no qual está o link para fazer os pedidos. O trabalho do delivery começa no primeiro dia útil da semana. Toda semana muda a lista de produtos disponíveis.

“Na segunda-feira, todos os produtores fazem uma lista dos produtos disponíveis na semana e nos enviam. Juntamos todos os produtos em uma lista única, montamos a planilha de valores e soltamos a lista única na terça-feira para Goiânia. Para Bela Vista, a lista é lançada na quarta-feira, porque combinamos de dar um desconto para os moradores de Bela Vista para valorizar as nossas raízes e a comunidade bela-vistense”, detalha Ihasminy.

Do produtor à casa do cliente

Com os pedidos feitos na terça e quarta-feira, a Afabev separa para os produtores a quantidade de cada produto que será vendido na quinta-feira. “Por exemplo, a Leila, que vende vários tipos de queijo, o Seu João, que vende as couves”, ficam sabendo na quinta qual é quantidade pedida no delivery naquela semana. Na sexta, os produtores levam para o centro de distribuição o que será entregue aos clientes. As entregas são feitas no sábado.

O trabalho de pequena empresa da associação inclui fazer a planilha de rota das entregas, separar os endereços de quem comprou para receber os produtos. “Na sexta-feira, passamos para os clientes qual é a previsão de chegada dos pedidos.”

A iniciativa do delivery tem cinco meses, justamente o período da pandemia em Goiás, que começou no Estado em 12 de março, quando os três primeiros casos da Covid-19 foram confirmados. De acordo com a presidente da Afabev, o próximo passo é profissionalizar o serviço de entrega, que começou de uma forma muito colaborativa.

Aguimaldo, um dos produtores da Afabev-GO, e Ihasminy, presidente da associação, comemoram o Dia do Agricultor Familiar, 25 de julho | Foto: Divulgação/Afabev-GO

Dia da montagem dos kits

“Antes, os próprios produtores faziam as entregas. Hoje somos eu, Thiago – um outro produtor -, meu marido, meu pai e minha mãe. Todos os produtores trazem os produtos e nós separamos tudo, quando montamos os pedidos na sexta-feira à noite.” Como a colheita das folhagens é feita no final da tarde, o trabalho de separação das entregas vai das 16 às 23 horas na sexta.

Ihasminy destaque que no delivery os produtos que são entregues já estão vendidos. Para a presidente da associação, a vantagem para o produtor entre a feira e a venda por entrega é que o produto do delivery já está vendido antes de sair da propriedade daquela família. “No delivery, só se produz e colhe aquilo que é vendido.” Nessa lógica, a Afabev diz que consegue trabalhar com itens frescos, produzidos na quinta ou colhidos na sexta-feira.

Desde 2018, o olhar do pequeno produtor mudou a partir da fundação da Afaveb em Bela Vista de Goiás. “Muita coisa que os pequenos agricultores achavam que era mato pode ser, por exemplo, uma planta medicinal que, não só ajuda o solo, mas também é vendável, como mastruz e mentrasto.”

Vantagens da associação

Outra vantagem da associação foi poder rever preços que eram vendidos muito abaixo daquilo que os produtos valiam. Ihasminy diz que a valorização do que vem da propriedade dos pequenos agricultores de Bela Vista é um processo conjunto de todas as famílias da Afabev.

Antônio Sinezio, o Seu Tizil, passou a ficar em casa na pandemia e não foi mais vender suas hortaliças e verduras na feira. O delivery garantiu o sustento da família | Foto: Divulgação/Afabev-GO

A inspiração de Ihasminy de quando se mudou de Goiânia para Bela Vista em novembro de 2017 se tornou o produtor Antônio Sinezio, o Seu Tizil, de 70 anos, que produz hortaliças e verduras. “Seu Tizil é do grupo de risco. Quando as feiras voltaram em Bela Vista, a mulher disse que o produtor não iria. Ela ficou muito preocupada. Seu Tizil não voltou para a feira. A renda que tinha na feira, hoje é toda do delivery. Teve essa opção de ficar em casa para se proteger porque tem o delivery para dar o suporte”, conta a presidente da Afabev.

Trabalho gratificante

Ihasminy diz que o mais gratificante do trabalho é ver a associação se fortalecer, com as produções familiares em crescimento, o que motiva os pequenos agricultores. “Tem sido incrível poder motivar as famílias, sabe? Mostrar para os produtores a importância que eles têm. Dar a visibilidade que merecem”, explica.

A presidente destaca a frase de uma das produtoras no grupo da associação: “Se o campo não planta, a cidade não janta”. “Nós não vamos comer soja. Não adianta a gente querer olhar só para o grande produtor e esquecer do pequeno, porque é o pequeno que produz o que a gente come no dia a dia. Os grandes produzem para exportação, não vem nada para a mesa”, pontua Ihasminy.

Aplicação do aprendizado na produção de leite dá resultado em Hidrolândia

Produção de leite em Hidrolândia, que começou com cinco vacas, hoje tem 15 animais e chega a 130 litros por dia | Foto: Arquivo pessoal/Welton Carlos Silva

O produtor de leite Welton Carlos Silva aperfeiçoou as técnicas de produção de leite na propriedade da família em Hidrolândia, a Chácara Santa Luzia. Em média, Welton conseguia 85 litros por dia. Depois do curso Qualidade Total Rural, ministrado em parceria do Sebrae Goiás com o Senar [Serviço Nacional de Aprendizagem Rural], a produção diária chegou a 130 litros de leite.

De acordo com Welton, o primeiro contato com o Sebrae foi no curso focado na gestão em pequena propriedade ministrado pelo consultor e instrutor Elmer Dihl Oliveira. “Trouxe uma visão diferente de negócio para dentro da minha pequena propriedade, que é focado na produção de leite a pasto.”

O consultor do Sebrae e do Senar explica que o programa Qualidade Total Rural é feito em duas fases durante seis meses. O trabalho realizado em Hidrolândia em 2019 ofereceu as duas etapas: De Olho na Qualidade Rural e Qualidade Total Rural Fase 2. Elmer Oliveira diz que a consultoria e a instrução do proprietário rural duram oito meses. Depois do trabalho teórico em sala de aula, o consultor vai ao local ajudar na implantação da metodologia.

Ciclo de planejamento

“Trabalhamos na primeira etapa a implantação do 5S: descarte, organização, limpeza, higiene e ordem mantida.” Elmer descreve que a organização da propriedade é a base do trabalho, que começa por arrumar a casa na preparação para uma melhoria na atividade. “Na fase dois do programa, fazemos um diagnóstico da propriedade, trabalhamos aspectos de mercado, implantamos o ciclo de planejamento PDCA (Plan-Do-Check-Act) e acompanhamos parte do planejamento.”

De acordo com o consultor do Sebrae e do Senar, Welton se destacou por ter conseguido implantar aquilo que foi planejado durante o curso. O produtor de leite afirma que passou a gerenciar melhor o próprio negócio. “Passei a anotar o que eu compro, quanto gasto de sal mineral, ração, alimento e energia, para ter noção de qual é a real liquidez do meu negócio, quanto eu lucro por litro produzido.”

Welton diz que tem uma margem até muito boa de lucro, mas ainda não tem escala de produção. Como a propriedade utilizada para produzir leite ainda é parte de um inventário que não foi concluído – são dez alqueires recebidos pela mãe de herança -, falta ao produtor a documentação da terra para buscar um financiamento, o que possibilitaria investir mais no negócio.

Projeto a longo prazo

“É um processo que será construído com o tempo. Tudo que fiz é dinheiro tirado da atividade, seja a colocação da cerca, construção de um mini poço, colocar energia e o barracão para não tirar leite na chuva.” Em 2019, Welton começou a mecanizar a produção de leite com uma ordenha balde ao pé, que não exige o esforço manual. “Preciso esperar minhas vacas produzirem, as bezerras virarem novilha e parir.”

É um processo que leva tempo, mas Welton define como seu projeto de vida. “Não pretendo tirar muito leite, mas quero produzir um leite de qualidade e de baixo custo, com utilização de pastagem no período das águas e silagem na seca.” Segundo os planos do produtor, um projeto de irrigação da área ficará para daqui dez água, porque será preciso armazenar chuva para criar um modelo sustentável de negócio.

Para Welton, o curso do Sebrae ajudou na hora da tomada de decisão. Foi quando começou a saber o custo do negócio, como e quando pode investir, de acordo com um plano de ação que seja possível de executar. O produtor lembra que começou sem qualquer estrutura, apenas com a área de pastagem que foi herdada. A propriedade não tem casa, não contava com água, energia. Nem mesmo gado havia na propriedade.

No pastejo rotacionado, área de pastagem foi dividida em 18 piquetes e a espécie de capim foi trocada para melhorar a alimentação dos animais | Foto: Arquivo pessoal/Welton Carlos Silva

Primeiras vacas

“Tinha umas economias e comprei umas vacas. Comecei com cinco animais e produzia nove litros por dia.” Mas Welton destaca que não havia qualquer gestão, nada era anotado. O produtor fez o curso Qualidade Total Rural em 2019 e comprou mais seis vacas. Com 15 animais e o conhecimento adquirido, o produtor passou a ter controle dos números da produção e o custo da atividade.

Toda a produção é vendida para um laticínio em Aparecida de Goiânia. “Meu projeto é ter um número maior de vacas paridas em lactação no período das águas. Geralmente, os produtores gostam de produzir mais no período da seca porque o preço pago ao produtor na seca é maior. Só que o custo da alimentação também é muito maior porque a pastagem é escassa.”

Welton explica que a vantagem do período das águas é o volume grande de pastagem para alimentar o gado. “Meu custo é menor por reduzir o gasto com ração concentrada, não gasto com silagem de milho. No período chuvoso, recebo menos pelo valor do litro do leite. Mas, em contrapartida, meu custo de produção é menor”, destaca.

Período chuvoso

Por isso, o produtor de leite planeja ter 80% da produção no período chuvoso e ter as vacas secas, sem produção, no período da seca. “Com as vacas mesmo secas, gasto com alimentação, mas não gasto tanto, porque é uma alimentação só de manutenção. Não preciso dar uma alimentação rica em proteína, rica em energia, que são os concentrados.”

O projeto para sua produção, de piquete rotacionado, foi implantado em 2019 e, de acordo com Welton, funcionou muito bem. “Tive um custo de R$ 0,22 nas águas e entreguei o leite a R$ 1,08. Hoje, recebo R$ 1,95, mas o custo do leite produzido em julho estava a quase R$ 1,82. O custo de produção na seca sobe muito, porque a comida está muito cara. O preço da soja subindo, o milho escasso no mercado, a reação é muito cara. Hoje está mais de R$ 60 um saco de ração”, descreve.

A implantação do sistema de pastejo rotacionado veio durante o curso do Sebrae. “Foi quando passei a oferecer uma alimentação de qualidade no período das águas. Mas não só a qualidade, como também em quantidade. As vacas responderam muito bem a essa oferta de comida. A resposta veio em litros de leite no latão.”

Produtor de leite Welton Carlos Silva diz que a produção de leite é um sonho de vida | Foto: Arquivo pessoal/Welton Carlos Silva

Pastejo rotacionado

Mas o que é o sistema de pastejo rotacionado. “Você define uma área de pastagem, geralmente pequena, e intensifica. Corrige a terra com calcário e aduba bastante o capim.” Welton trocou a espécie de capim do pasto. Retirou o braquiária e plantou o panicum maximum, o campim BRS Quênia, desenvolvido pela Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária] e próprio para vaca de leite.

O produtor explica o por que da opção por esse tipo de capim: “[Capim BRS Quênia] Produz muito mais massa, em volume de capim, do que um sistema convencional. Você joga bastante adubo e a planta responde em produção de folha, que é o que a vaca consome. Essa quantidade maior de folha tem mais nutriente devido à adubação. Tem mais proteína, menos fibra. Porque a vaca vai sempre colher folha nova.”

A área intensificada é dividida em pequenas partes, que são os piquetes. “Minha área é de 1,8 hectare, o que dá 18 mil metros quadrados divididos em 18 piquetes de mil metros. Todo dia o animal entra em um piquete novo. A vaca consome uma parcela do campim. No outro dia pela manhã, retiro os animais da área que entraram no dia anterior e coloco em um novo piquete, uma área que ainda não foi pastejada.” Esse processo permite que a área em que as vacas estavam antes descanse por 17 dias.

Ciclo dos piquetes

“Com 17 dias, quando completa o ciclo do pastejo, comem em todos os 18 piquetes e os animais entrarão em uma área que ainda não foi pastejada, que tem a quantidade e a qualidade que precisam para produzir o leite.” O produtor explica que, assim, sempre consomem em uma área que foi descansada. De acordo com Welton, como o animal é bem seletivo, sempre consome forragem nova. “Quando é um pastejo extensivo, os animais ficam sempre naquele pasto, que não descansa.”

Sebrae Goiás trabalha na orientação e suporte dos pequenos negócios, diz Derly Fialho

Superintendente do Sebrae Goiás, Derly Fialho

Diretor-superintendente do Sebrae Goiás, Derly Fialho diz que entidade tem se colocar à serviço do pequeno empreendedor para dar orientações e ajudar durante a pandemia | Foto: Edmar Wellington

Não só o trabalho das empresas, mas as atividades do Sebrae também precisaram se adaptar às limitações que a pandemia impõe. Como tem sido esse momento da entidade?
Como para todos que caíram de paraquedas nesse episódio, tem sido uma experiência nova até certo ponto, embora o Sebrae já venha com certa familiaridade a muitas coisas que fazíamos no ambiente digital. Já vínhamos orientando as empresas a usarem o digital como ferramenta de trabalho para promover seus negócios. Tínhamos treinamento de marketing digital, do uso do WhatsApp para se relacionar com o cliente. Era um trabalho que o Sebrae já fazia.

Vínhamos em um movimento que chamamos de transformação digital na organização. Estava no nosso radar o avanço muito forte do e-commerce e dos aplicativos de entrega. O que ocorreu com a pandemia foi acelerar todo esse processo. As orientações passaram a ser feitas a distâncias, aumentamos a realização de webinar, seminários virtuais, consultoria on-line. Passamos a fazer outras atividades que ainda não estavam em nossa rotina no digital.

Como tem ocorrido com todos aqueles que foram impelidos a entrar abruptamente no universo digital, algumas áreas precisam ser aprimoradas. Vemos hoje com as escolas, em que os professores têm uma dificuldade grande de repassar conteúdo e de organizar metodologia, ainda temos certa dificuldade com consultores. Nem todos tinham muita habilidade tecnológica. E metodologias que sempre foram pensadas para atendimento presencial, que tem passado por um processo de adaptação.

É um processo que tem ocorrido rapidamente. Temos sentido avanços importantes. Tivemos na quarta-feira, 19, o resultado do sistema NPS de satisfação e avaliação dos clientes. O Sebrae teve um bom desempenho nos meses de maio, junho e julho na comparação com os meses anteriores.

Quais foram as maiores dificuldades que o Sebrae detectou nas empresas, que foram obrigadas quase que imediatamente a mudar o foco de atuação pela situação que obrigava o comércio a fechar as portas?
Primeiro problema que as empresas e empresários enfrentaram no início da pandemia foi o pânico, principalmente nas primeiras três semanas, até entender tudo que acontecia. Foi aquela parada geral, todo mundo saiu das empresas correndo, se recolheu em suas casas e ficou pensando o que fazer no dia seguinte. Logo o Sebrae se prontificou para se colocar à disposição das empresas e mostrar que os empresários não estavam sós, queremos entender quais são as necessidades de vocês.

Todos nós já tínhamos alguma familiaridade com a tecnologia. Todos já estávamos a navegar no Instagram, no Facebook, no WhatsApp. O que ocorreu é que não estávamos acostumados a usar a tecnologia para fazer negócio. Mas operar a tecnologia, grande parte das pessoas tem alguma familiaridade. Chegou a hora de adaptar o WhatsApp, por exemplo, para o negócio. Como eu uso o WhatsApp que, ao invés de ser para falar de futebol com meus amigos, passo a utilizar o aplicativo para conversar com meus clientes. E dizer: “Estou com a porta fechada, mas posso lhe atender de outra forma”.

Nos prontificamos a dialogar com o mercado, nas redes sociais, nas TVs, rádios e jornais para dizer que o Sebrae estava ao lado de todos. Procure o Sebrae que queremos dar dicas a você para saber como seu negócio pode operar durante a pandemia. Essa foi uma ação que fizemos com bom resultado. Os números digitais do Sebrae Goiás cresceram bastante.

O que fizemos na sequência? Quando começaram os movimentos de reabertura, lançamos a campanha “A Força dos Pequenos Está no Cuidado”. Antes da campanha, o Sebrae preparou um conjunto de cartilhas digitais orientadoras do passo a passo das medidas de segurança para 37 setores, principalmente aqueles que logo passariam a ter a oportunidade de ter contato direto com os clientes, para exigir que tenham disciplina no cuidado com as práticas sanitárias. É preciso respeitar todo o regramento da Organização Mundial da Saúde (OMS), as determinações estaduais e municipais. Foi um trabalho que fizemos no começo de julho.

Com relação às cartilhas destinadas aos cuidados necessários a serem adotados em empresas de 37 setores, como as empresas se viram nesse momento de reabertura? Onde o Sebrae conseguiu atuar para que o local de recebimento presencial dos clientes nas empresas se tornasse um lugar seguro?
A primeira ação que tomamos foi realizar uma campanha nacional para anunciar a todos que o Sebrae estava disponível a todos que precisassem. Surgiu uma grande demanda no nosso 0800, por meio da nossa plataforma digital, para encontrar a cartilha e utilizá-la. É uma cartilha muitos simples, daquelas coisas que são básicas, mas que estão estruturadas. Distanciamento, álcool em gel e todo o cuidado que é necessário ser mantido.

Enquanto vivermos nesse período de exceção, mesmo que todos voltem a certa normalidade, a prática de higiene tem de perdurar. Não podemos nos descuidar e afrouxar nos cuidados enquanto não tivermos a segurança de uma imunização coletiva. Enquanto não estivermos lá, temos de manter os cuidados de medir a temperatura da pessoa quando entra no estabelecimento, oferecer álcool em gel para higienização das mãos, exigir o uso de máscara, o distanciamento, evitar a manipulação de dinheiro ao máximo e estimular o uso de cartão. Coisas muito simples, mas que são o dia a dia que nos faz ficar distante do contágio.

Ao mesmo tempo, o Sebrae criou a plataforma DataSebrae focada na Covid-19 (clique aqui), que além de incluir dados atualizados da pandemia no Brasil, oferece uma série de documentos de referências para auxiliar as empresas neste momento difícil. Como essa ideia surgiu e como tem sido usada em Goiás?
Tem uma equipe técnica no Sebrae nacional que olha para tudo que acontecem à nossa volta, em outros Estados e em outros países, para adaptar à nossa realidade, estudar todos os procedimentos, as orientações. Tem usado a Anvisa como fonte de discussão e todos os órgãos governamentais. É preciso estar ligado com todos para poder traduzir o conteúdo para uma linguagem e para o uso da pequena empresa brasileira.

Há uma equipe que cuida disso para produzir soluções, orientação e distribuir para todos os Estados brasileiros. É sempre importante reforçar que as fontes de acesso ao Sebrae são o telefone 0800-570-0800 e as redes sociais @sebraego. Qualquer pessoa que tiver qualquer necessidade, entre nas páginas do Sebrae que encontrará um conteúdo para baixar ou alguém que possa dar orientação.

Na volta da maioria das atividades econômicas depois de meses de fechamento, qual é a importância de se buscar um conhecimento especializado para encontrar a melhor forma de organizar a empresa na reabertura?
Nos colocamos à disposição das empesas desde o início da pandemia. Temos uma equipe de consultores parceiros que fazem consultoria on-line. Entendemos que agora precisamos avançar um pouco. Vamos lançar entre o final de agosto e o início de setembro uma campanha que incentive o incremento nas empresas por meio da oferta de um bônus ou desconto especial. Para que as empresas, com um valor muito pequeno, possam contratar a melhor consultoria possível. Porque está na hora de reinventar, de repaginar o negócio. Não dá mais para ser como sempre foi.

Está na hora de reposicionar o negócio. Se você ainda tem pendências a renegociar para replanejar, que você tenha a orientação necessária pronta ou assistida por um consultor para ajudar as empresas a encontrar solução para os problemas que ainda ficaram. Que as empresas possam utilizar dos créditos que ainda são ofertados pelo sistema financeiro, que continua interessado em salvar as pequenas empresas. Tem muita coisa que foi feita. Mas sabemos que nem todos sabem como isso pode funcionar.

Faremos uma grande campanha que disponibilizará um grupo de consultores do Sebrae para voltar com uma agenda de reorganização das empresas.

O Sistema S como um todo atua também na articulação com os governos para que as medidas sejam facilitadas às empresas. Como se dá essa atuação?
Um das atuações foi a ampliação do Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas (Fampe) em um convênio com a Caixa Econômica Federal, que é a operadora. Todo contratante de crédito pode demandar o Fundo de Aval. Branco do Brasil também é operador do Fundo de Aval, assim como algumas cooperativas de crédito.

Em Goiás, temos um convênio grande com a Goiás Fomento que permite a liberação de um volume importante de recursos para empréstimo, que tem como auxílio o Fundo de Aval, que avaliza até 80% do financiamento contratado. Se o empresário tiver 20% de garantia, o Fundo de Aval garante os outros 80%. É um benefício muito grande.

O sistema financeiro flexibilizou muito o uso de bens pessoais como garantia. Há um esforço grande para que protejamos a pequena empresa brasileira. Tem uma coisa que é muto importante que entendamos. A grande empresa turbina o PIB e a pequena empresa turbina o emprego. Antes da pandemia 55% do emprego formal já estava na pequena empresa.

A recuperação e a proteção à pequena empresa é um cuidado que todos temos de ter. Porque precisamos retomar as atividades com recontratação de pessoas. E quem vai fazer muito isso serão as pequenas empresas. É o restaurante que vai precisar de mais um garçom e mais um cozinheiro. É a loja que vai precisar de mais um vendedor. O grande universo de empresas são as pequenas empresas brasileiras.

O Sebrae, assim como outras entidades, têm incentivado bastante durante a pandemia que as pessoas comprem do pequeno comércio local. Por que dessa importância?
Participei da Campus Party com o diretor-superintendente do Sebrae Pernambuco, Francisco Saboya, e o nosso painel tratou do assunto. Na nossa visão, o novo normal é o local. Precisamos parar de imaginar que comprar o produto importado que é legal. O local é que está ali.

Há algumas dicas muito importantes para o pequeno negócio. A primeira delas é: procure dominar o digital. É uma ferramenta poderosíssima para fazer negócio. Isso está claro para todo mundo. Os avanços de grandes empresas como Magazine Luiza, que aumentou exponencialmente os negócios na pandemia graças à plataforma Magalu.

O pequeno tem de cuidar dos seus clientes, cuidar dos seus colaboradores, cuidar dos seus fornecedores, melhorar a relação. Trabalhar com margem mínima de segurança para poder enfrentar períodos de crise. Tem um conceito que é importante que as pessoas lembrem: seja pequeno na grandeza. Seja um pequeno altivo, um pequeno capaz.

Atue no local pensando global, no que acontece no mundo, como as empresas estão fazendo. Mas cuide do local. Importe-se com a sua comunidade, seja sustentável. Promova seu negócio no seu bairro, na sua rua, no seu condomínio, entre seus familiares. É o nosso conforto. Cada um de nós sabe quem está pertinho de nós: a pequena empresa. É a farmácia da esquina, a mercearia do meio da quadra, o açougue da outra quadra, o cabeleireiro do bairro. Todos os serviços que resolvem o nosso dia a dia são invariavelmente prestados e atendidos pelas pequenas empresas.

Quando pensamos em quem fica aberto em horário estendido, é a pizzaria que está aberta às 22 horas. Você liga, entra em contato pelo WhatsApp, usa um aplicativo de entrega e recebe no conforto da sua casa aquela encomenda que você fez. Nós, como consumidores, temos de nos atentar para isso. Mas é o empresário que tem de se apresentar para a sua comunidade, tem de ter familiaridade. Tem de conhecer os clientes do seu bairro, tem de ter isso catalogado, tem de ter diálogo com o cliente, mandar oferta daquilo que tem no armazém, no açougue ou outro comércio.

Não descuidemos do cuidado. Não vamos afrouxar para o cuidado. Quanto mais formos caprichosos na sanidade, mais rápido saímos desse problema. Enquanto não temos um domínio científico por vacina, quanto mais formos cautelosos e cuidadosos, mais confiança, segurança passamos para os nossos clientes. E nossos clientes passam a perder um pouco o receito de frequentar os nossos espaços, nossas lojas, nossos bares, nossos restaurantes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.