Para amar de verdade, é preciso ser muito homem. E então se tornar feminino

Com a revolução sexual, a mulher aprende a gozar e o homem passa a amar. Ocorre que o amor é um jogo que pode ser muito mal jogado — e no qual o ser masculino é apenas aprendiz

Cristiano Pimenta, psicanalista: “Quando o amor domina, o homem sacrifica seu gozo para não perder aquilo que se torna muito mais valioso — o objeto do amor” / Fernando Leite/Jornal Opção

Cristiano Pimenta, psicanalista: “Quando o amor domina, o homem sacrifica seu gozo para não perder aquilo que se torna muito mais valioso — o objeto do amor” / Fernando Leite/Jornal Opção

Elder Dias

“Só se ama verdadeiramente a partir de uma posição feminina. O amor feminiza. É por isso que o amor é sempre um pouco cômico em um homem. Porém, se ele se deixa intimidar pelo ridículo, é que na realidade ele não está seguro de sua virilidade.” A frase que abre os trabalhos destas páginas vem da boca do psicanalista Cristiano Pimenta, citando uma fala de Jacques-Alain Miller em uma entrevista. Miller é um respeitado psicanalista francês e com a curiosa informação de ser casado com Judith Lacan, a filha de Jacques Lacan, um dos ícones da psicanálise.

O amor — e principalmente a posição do homem diante do amor — foi tema de um artigo que ele, Cristiano, publicou no Jornal Opção (edição on-line). “Como amam os Homens” não é um texto curto, mas, apesar disso, foi um dos mais lidos do caderno Opção Cultural neste ano. Em suma, traz uma cara preocupação a esse “homem com H maiúsculo”: o que fazer diante da liberação do desejo feminino, reprimido desde o início da humanidade até décadas atrás, e que fez surgir uma nova mulher, com a qual esse machão erado pelos séculos precisa agora lidar?

O capitalismo e a ciência mudaram a posição dos papéis de homem e mulher, antes bem estabelecidos, atesta Cristiano. “O casal ‘mulher que ama’ e ‘homem que é amado’ ainda existe, mas não mais sua garantia ad infinitum, até que a morte o separe. O homem sabe que essa situação pode se alterar. E, se contar esse amor como garantido para sempre mas isso então mudar, o chão se abre sob seus pés”, diz.

Por outro lado, curiosamente não ocorre da mesma forma com a mulher. Ou seja, em uma separação, o lado que tende a ser mais afetado será invariavelmente o do homem. É que, de novo de acordo com a psicanálise, o homem sofre os efeitos da falta, que não atingem a mulher. Essa falta é algo difícil de lidar, mas que se pode tentar explicar de modo simplificado: o homem tem pênis (o “falo”); a mulher, não. Na psicanálise, o falo é um significante da falta. Apaixonado, seu objeto do amor (a mulher) passa a ser um falo simbólico. Então, um homem sem a mulher é um homem castrado, ao ver da psicanálise. A mulher não pode perder o que não tem (o falo) e, então, lida melhor com casos potencialmente traumáticos.

Da falta ao excesso. A revolução sexual trouxe a liberação do gozo, e não só para a mulher: todas as demandas se tornaram alcançáveis: filhos de pais rígidos puderam desafiá-los, homossexuais “saíram do armário”, surgiu o amor livre e formas antes restritas de interação sexual vieram à tona. Como efeito colateral, muita gente passou a não ter mais controle sobre os limites do próprio corpo e de seu gozo: apareceram os “exagerados”, como definiu (e viveu) Cazuza, os que queriam viver “dez anos a mil em vez de mil anos a dez”, como cantou Lobão. “Essa liberação passou a ser também algo mortífero”, diz o psicanalista.

Nesses meandros, o leito de águas tranquilas das figuras de homem e mulher se desestabilizou. “Temos hoje um mundo sortido”, como diz Cristiano. Na problemática do amor, no entanto, o homem se vê como um aprendiz. Com a nova ordem mundial, o homem que era amado é instado a amar, mas se perde por não ter prática. Passou séculos, milênios até, sendo apenas objeto e não sujeito do amor. Impossível não se ferir — e não se ferir muito. “Na experiência amorosa, o gozo sai sacrificado. É muito mais possível ter gozo quando não se tem amor. Quando o amor domina, o homem sacrifica seu gozo para não perder aquilo que se torna muito mais valioso, o objeto do amor. É a castração, a perda do gozo.”

Se o homem passa a amar, a mulher aprende a gozar. Ela se libera a seus desejos. “A mulher pode dizer hoje, tranquilamente e na frente do namorado, que beijaria o (ator) Brad Pitt”, exemplifica. “A questão passa a ser outra para o homem — e para a própria mulher: será que, para amar, ela está disposta hoje a abrir mão do gozo que conquistou?”, provoca Cristiano Pimenta. E, voilà, abre-se um flanco para uma conclusão importante: “A mulher não sabe mais o que quer. Esse é o ponto. Então, ela acaba sem sustentar uma relação amorosa e, ao mesmo tempo, descontente por ficar só no campo do gozo. É muito comum esse traço feminino hoje em dia.”

50 Tons de Cinza e o homem no divã  

O plano inicial para a conversa de duas horas com o psicanalista Cristiano Pimenta se centrava nos perfis dos personagens principais de “50 Tons de Cinza”, o best-seller que virou blockbuster e lotou os cinemas do Brasil em fevereiro. Christian Grey é um bem-sucedido homem de negócios, jovem, rico, bonito, poderoso, inteligente e com um gosto particular:

praticar sadomasoquismo, como dominador. Anastasia Steele é uma universitária que está se formando e se encanta pelo bilionário. Ele se interessa por ela, mas a aborda já impondo limites: diz que nunca amou ninguém e que não se mistura a suas parceiras; deixa claro a Ana que dorme sozinho em sua cama, não faz programas de casal e não a apresentará à família.
Mas o estranho sr. Grey vê seu caso com a bela universitária ir derrubando um a um seus “dogmas” autoimpostos. Quem vê o filme, se colocar à parte o apelo sexual, verá um príncipe Grey totalmente submetido à cinderela Ana. “Ela, quando coloca barreiras e protela firmar um contrato, parece investigar a falta que há naquele homem, se há algum amor emanando dele. E, de fato, por seus atos, parece que há.”

Dizem que o sr. Grey deveria procurar se tratar. É um homem doente, tomado pelo sadismo. Mas talvez a experiência com Ana mostre que esse gosto sexual peculiar é só sintoma, e que ele precisaria procurar o divã por uma questão maior: “Ele não sabe amar e, quando o amor aparece, não sabe lidar. É algo comum hoje. O amor é um jogo, e que pode ser muito mal jogado.” E sobre maus jogadores, Cristiano diz não ter a ver apenas com a metade masculina. “O amor não é fácil nem para o homem nem para a mulher. É difícil fazer dar certo.”

O que o fracasso do sr. Grey ensina aos homens 
Christian Grey e Anastasia Steele, de “50 Tons de Cinza”:  ele quer dominá-la, mas a coisa foge de seu controle / Universal Pictures

Christian Grey e Anastasia Steele, de “50 Tons de Cinza”: ele quer dominá-la, mas a coisa foge de seu controle / Universal Pictures

Não, “50 Tons de Cinza” não é um filme de sadomasoquismo. Longe de ser pornográfico, não pode nem mesmo ser considerado um filme altamente erótico — basta dizer que sua classificação etária é de 16 anos. No fim das contas, se for para rotular, é o que poderia se chamar de drama romântico.

Não, “50 Tons de Cinza” também não é um filme que seria alvo de muita polêmica, não fosse o fato de o livro em que foi baseado ter sido um fenômeno de vendas, apesar de ser clara subliteratura. Nada mais, para as adolescentes que viveram os anos 80, do que uma “Sabrina” ou uma “Bianca” (livretos com histórias de romances água com açúcar) com um pouco mais de condimentos picantes.

E não, “50 Tons de Cinza” não é um filme que deva ser analisado tendo como referências outras obras cinematográficas de apelo sexual, causadoras de escândalos e reações passionais do público, como “Ninfomaníaca” (2013, de Lars von Trier), ou “A Bela da Tarde” (1967, de Luis Buñuel). Fazer isso é cometer uma análise enviesada e simplista sobre um filme comercial, com uma grife destinada a vender e ser tão blockbuster como foi best-seller. É comparar vinho a suco com polpa de uva.

A todos esses senões, um “contrassenão”: se causa assim tanto burburinho, “50 Tons de Cinza” também não pode ser ignorado, porque afeta algum aspecto de um modo que outras obras do mesmo (sub)nível não conseguem alcançar. Seria o mesmo que dizer que a prevalência do funk carioca, com suas letras e coreografias chulas, com incitação ao crime e ao sexo total, deva ser vetada de qualquer análise. O consumo fácil e amplo de subprodutos e lixos culturais, se existe de tal forma, não só merece como exige reflexões profundas.

Os personagens Christian Grey e Anastasia Steele, vividos no cinema por Jamie Dornan e Dakota Johnson, despertaram curiosidade, notadamente no universo feminino. Buscar explicação para isso na questão da pretensão de escandalizar com o apelo sexual é muito pouco e muito pobre. O livro e o filme talvez encantem tanto as mulheres por despertar algo que lhes preenche o vazio no mundo tão cheio de praticidade em que elas se viram envolvidas. A “mulher moderna” não espera mais por um príncipe que a sustente: vai à luta, trabalha, produz e conquista o poder. Existem no mundo hoje mulheres poderosas e ricas a partir de seu próprio desempenho e não à custa da herança de um pai ou marido, ou qualquer laço familiar. Da mesma forma, ela não precisa mais ser protegida por um macho, sabe pisar com segurança no caminho que trilha. “I do it my way”: tangenciando a voz de Sinatra para as palavras de Paul Anka, ela faz o que ela quer e do jeito que quer, obtendo ela mesma suas próprias benesses e fracassos. O príncipe é quase um zero à esquerda. Quase.

Essa figura do príncipe não supre apenas o lado prático: existe uma dimensão afetiva que não se alcança com a independência feminina. Esse vazio pode ser abafado, talvez, mas existe e insiste em vir à tona quando não preenchido.

Voltando ao filme, Anastasia, ou Ana, é “apenas” uma estudante concluinte de uma graduação em Letras. Trabalha em uma loja de ferramentas. Um rascunho de Cinderela. De repente, num encontro quase casual — rascunho de roteiro de conto de fadas —, se depara com o sr. Grey, bilionário, um rascunho de ideal de perfeição masculina.

Ela quer amar; ele quer dominar. São os papéis tradicionais e assim poderiam continuar. Tudo muda porque o sádico Grey acaba por descobrir que pode amar. Pode e tem medo. Tem medo, mas cede. Quando a inexperiente Ana — que, para completar o ranço ideal, é virgem — percebe o flanco aberto, passa de mais uma a ser submetida por Grey ao papel de controladora da situação: marca reunião, revê o contrato, exclui itens do acerto, concede outros com ressalvas. Joga bem e vence o jogo, transformando o todo-poderoso Christian Grey em um tigrão de papel.

Ela paga para ver se o ricaço cedeu de vez a seus encantos. As chicotadas que recebe ao fim – e que determinarão o fim da relação – só mostram que Grey não sabe mais o que fazer, dividido entre seu prazer de agredir (que não exerce mais plenamente, por causa do amor) e o medo de amar (que o leva a cometer, ainda que reticente, a meia dúzia de golpes no dorso de Ana). O que a separa dele, ao fim, é menos a dor e a agressão sofridas do que perceber que aquele homem com capa de poderoso é, no fundo, um claudicante. Um fraco que se evoca dublê de feitor.

E a situação faz voltar à frase de Jacques-Alain Miller: no mundo de hoje, em que a mulher pode escolher se fica ou se vai, o que é realmente um homem forte, viril? É aquele que se mantém firme e protegido, porque salvo de qualquer sentimento mais profundo em sua carapaça? Ou seria o que se abre ao campo minado do amor, mesmo ciente de suas fraquezas e de que pode sair ferido da história?

Para quem carrega na própria ancestralidade o peso de nunca ter experimentado tal posição vulnerável, se entregar a um amor é um atirar-se no escuro. Fazer o quê, então, se fugir disso também não é “coisa de homem”? Nosso entrevistado dá uma dica interessante: “Não se sabe nunca onde isso vai dar. Nem no passado de estabilidade era possível garantir sucesso em uma relação. O que é vital é que o homem de hoje esteja advertido do que pode encontrar. Agindo como quem está advertido, ele saberá balizar o justo espaço diante dessa nova mulher. Mesmo que haja uma ruptura terá como não sucumbir. Sobreviverá e seguirá adiante.”

Observando dessa forma, veja só, o sr. Christian Grey pode a ensinar aos homens o que não se deve fazer quando um amor bate à porta. E o limitado “50 Tons de Cinza” passa a se mostrar como um filme que, de sua forma, também pode dar um feedback útil ao público masculino.

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