Papa Francisco, o Prêmio Nobel da Contramão

Enquanto a religião e o mundo parecem rumar cada vez mais para o fanatismo e a radicalização, o líder católico dá mostras (e esperança) de que há um outro caminho

Elder Dias

O riso franco do papa Francisco em um encontro com jovem brasileira: quebrando paradigmas do sisudo clero | Foto: Vaticano

O riso franco do papa Francisco em um encontro com jovem brasileira: quebrando paradigmas do sisudo clero | Foto: Vaticano

Estava na concessionária aguardando a revisão do carro. Laptop no colo. A ideia era aproveitar o tempo para adiantar o expediente da semana útil encurtada pelo ano novo. Após escrever boa parte do texto, um descanso para um café e informações sobre outros procedimentos com o veículo. A atendente faz uma pergunta social sobre o que fazia no computador durante aquela hora e meia ali na sala de espera. Ao saber que era uma matéria, novo esclarecimento. “É sobre o papa Francisco.”

Bastou isso para ver olhos brilhando e ouvir um corolário de bonitas palavras destinadas ao pontífice. Mesmo sendo evangélica, disse que teve vontade de ir ao Rio para vê-lo, em 2013. “Não é nada de idolatria, é para estar perto de alguém que fala tantas coisas boas”, ressaltou. E disse não acreditar em religião, mas que nem precisava de religião para ter certeza de que lá estava um homem que merecia ser ouvido e seguido.

No início dos tempos multimídia, João Paulo II foi tido como um líder religioso incomum: ganhou o mundo com suas viagens e conquistou corações com o gesto de beijar o solo que o recebia. Atuou em fronts políticos importantes e, como polonês afetado pelo regime da Cortina de Ferro, atacou duramente o comunismo, se constituindo em um dos principais artífices da queda do modelo no Leste Europeu. Karol Wojtyla teve um dos papados mais longos da Igreja – mais precisamente, o terceiro maior, atrás de São Pedro (o mais duradouro) e Pio IX – reinando por mais de 27 anos, de 1978 até sua morte, em 2005.

O argentino Jorge Mario Bergoglio completará apenas três anos de pontificado em fevereiro de 2016. Até agora, teve cerca de 10% do tempo de João Paulo II à frente da Igreja. Mas muitos vaticanistas já não têm dúvidas em afirmar que, em termos de intensidade, o papa Francisco já é até mais significativo.

No mundo atual sem barreiras para a comunicação, envolvido pelas redes sociais, a figura de Francisco desponta como um interessante contraponto vindo da esfera religiosa, mas que não cabe apenas nela. E isso desde o início. Eleito papa, viu a notícia causar euforia na Argentina. Afinal, ele era o primeiro bispo de Roma não europeu desde o sírio Gregório III, no século 8, e também o primeiro nascido nas Américas. Notando a repercussão, dispensou maiores honrarias dos patrícios: convenceu centenas de argentinos a não se deslocarem à Itália para celebrar sua nomeação no Vaticano; em vez disso, pediu-lhes, que utilizassem com os pobres aquilo que gastariam na viagem.

A visita ao Brasil, naquele julho de 2013, foi uma de suas primeiras como papa. Fez de suas atividades no Rio, durante a Jornada Mundial da Juventude, um show de simplicidade. Tirou fotos com homens do policiamento, bebeu chimarrão de uma pessoa que o saudava na rua e transitou, sempre que pôde, em carros populares. Nada de luxo. O oposto do que geralmente exigem as autoridades, políticos, artistas e outros tipos de famosos.

No alto, o papa com sua já conhecida maleta; acima, Francisco de Assis diante do papa Inocêncio III

No alto, o papa com sua já conhecida maleta; acima, Francisco de Assis diante do papa Inocêncio III

Seu rumo é o oposto. Sem que jamais pareça ação planejada, Francisco consegue a atenção com gestos simples em que demonstra que o poder não deve transformar nem distorcer a rotina de quem o detém. Assim, o papa se porta em Roma como o religioso que foi na Argentina: já fez ceia com mendigos, já parou o carro papal na estrada para cumprimentar senhoras camponesas que acenavam para ele, já foi sozinho a uma loja da cidade dar manutenção em seus óculos e é sempre visto carregando a própria maleta de ofício. É um monarca humano, nada absolutista: Francisco, quando ri, verte uma gargalhada sem economia. Ainda mais para um homem vestido de papa.

Há coerência: cada vez mais, ele mais parece Francisco vestido de papa. O nome que Bergoglio escolheu para ser seu não foi por causa de São Francisco Xavier, o fundador de sua ordem, a dos jesuítas. Veio de Francisco de Assis. E ele mesmo disse o porquê, em uma entrevista coletiva um mês após sua escolha: “Foi por causa dos pobres que pensei em Francisco. Depois, enquanto o escrutínio prosseguia, pensei nas guerras, e assim surgiu o homem da paz, o homem que ama e protege a criação, com o qual hoje temos uma relação que não é tão boa.”

Curioso notar que São Francisco de Assis também teve seu nome real alterado — originariamente chamava-se Giovanni (“João”, em italiano) e se tornou “Francesco” (“francês”, também em italiano) após uma visita à França, terra de origem de sua mãe. Mais do que isso, o papa é curiosamente o primeiro a adotar o nome do santo mais conhecido da Igreja Católica. Santo que, acompanhado de seus primeiros companheiros de pobreza e missão, entrou vestido em trapos nas luxuosas instalações da Basílica de São João de Latrão, para uma audiência com Inocêncio III.

Vivia-se o século 13 e o clero era a instituição mais poderosa do mundo ocidental. Francisco e seu grupo queriam autorização oficial para fundação da ordem franciscana. Obtiveram-na após um pesadelo papal: Inocêncio teria visto aquela basílica prestes a desabar, sendo sustentada apenas por um religioso bastante pobre. O pontífice interpretou que era da derrocada da instituição que seu sonho falava – e também do homem em andrajos que o incomodava por aqueles dias.

Uma livre interpretação pode levar a crer que Bento XVI tenha sido o Inocêncio da atualidade. A Igreja Católica, em seu compasso milenar, perde espaço no mundo de ritmo tão louco. O papa alemão, discreto e mais atrelado à tradição, renunciou para dar lugar a algo novo. Francisco é uma tentativa de revigorar?

Não apenas. Francisco fala não só para sua Igreja. Encara o mundo, dialoga para fora do templo, sai às ruas, conversa com gays, negros, pobres, velhos, doentes, sejam eles católicos, protestantes, muçulmanos, judeus, hindus, budistas ou ateus. É um papa a serviço e em serviço, como fora Francisco, que, por sua vez, tentava imitar ao máximo a figura evangélica de Jesus Cristo. Não dá para dissociar a imagem da Igreja primitiva da forma com que o papa atual trata sua missão.

Em meio a um mundo em que a saga de tantos é a busca pela fama e pelo poder, Francisco reforça em si a ideia de ser — ou querer ser — uma pessoa comum. Em meio à suntuosidade do Vaticano e de um cristianismo de negócios, no qual pastores pedem o “trízimo” e se atentam a versículos escolhidos cirurgicamente para saquear gente humilde, Francisco exclama: “Ah, como eu queria uma Igreja pobre e para os pobres!”. Em meio ao terror espalhado pelos jihadistas do Estado Islâmico contra os “infiéis” ocidentes, ele revela buscar o “homem da paz”.

Uma frase famosa, creditada a São Francisco de Assis, diz que “as palavras atraem, os exemplos arrastam”. Como um rei mago frustrado, que faz seu retorno do Ocidente para o Oriente após encontrar vazia a manjedoura onde deveria estar um menino especial, Francisco é aquele homem vindo na contramão do mundo que consegue, com seu exemplo, fazer com que alguns do fluxo contrário e hegemônico façam a conversão e passem a segui-lo.

Foto: Reprodução

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Frases de Francisco

  •  “Se uma pessoa é gay e busca a Deus, quem sou eu para julgá-la?”
  •  “Não há esforço de pacificação duradouro com uma sociedade que abandona parte de si mesma.”
  •  “A verdadeira riqueza não está nas coisas, mas no coração.”
  •  “A violência só pode ser vencida a partir da mudança do coração humano.”
  •  “Eu quero agito nas dioceses, que vocês saiam às ruas. Eu quero que a Igreja vá para as ruas, eu quero que nós nos defendamos de toda acomodação, imobilidade, clericalismo. Se a Igreja não sai às ruas, se converte em uma ONG. A igreja não pode ser uma ONG.”
  •  “Os jovens têm que sair e se fazer valer, sair a lutar pelos seus valores.”
  •  “Vocês já tem um Deus brasileiro, querem um papa brasileiro também?”
  •  “O futuro exige hoje reabilitar a política, uma das formas mais altas de caridade.”
  •  “Entre a indiferença egoísta e o protesto violento, há uma opção sempre possível: o diálogo.”
  •  “Não há lugar para o idoso, nem para o filho indesejado; não há tempo para se deter com o pobre caído à margem da estrada. Às vezes parece que, para alguns, as relações humanas sejam regidas por dois dogmas modernos: eficiência e pragmatismo.”
  •  “Todas as pessoas e também nossos jovens experimentam o fascínio de tantos ídolos que se colocam no lugar de Deus e parecem das esperança: dinheiro, poder, sucesso e prazer.”
  •  “Podemos caminhar o quanto quisermos, podemos edificar um monte de coisas, mas se não confessarmos Jesus Cristo, está errado.”
  •  “Queria bater em cada porta, dizer bom dia, pedir um copo de água, beber um cafezinho, mas não um copo de cachaça.”
  •  “Não esqueçamos desta verdade: Deus nunca Se cansa de nos perdoar, nunca!”
  •  “Não devemos marginalizar homossexuais. É preciso integrá-los à sociedade.”
  •  “A igreja sabe ainda ser lenta no tempo para ouvir, na paciência para costurar novamente e reconstruir? Ou a própria igreja já se deixa arrastar pelo frenesi da eficiência?”

Uma resposta para “Papa Francisco, o Prêmio Nobel da Contramão”

  1. Epaminondas disse:

    Papa Francisco operou apenas um milagre: Salva a imagem desgastada da ICAR —que no texto, sugere que o problema é o mundo moderno, não a entidade medieval, corrupta, mesquinha, misógina e anticientífica (Insira aqui como a ciência deve muito à ICAR pela criação das primeiras faculdades. Criou faculdades mas é contra planejamento familiar. Sinceramente, tem gente que aceita um pelo outro).

    Segundo o dogma, o Conclave é manifestação da vontade de Deus em escolher seu representante na Terra. Deus estava com o dedo ruim no dia que escolheu Bento XVI: Um papa severo, pouco interessado em passar a imagem de integração, já com 80 anos e de quebra, tendo que levar adiante a exaustiva investigação do malversação dos recursos do banco do Vaticano.

    Francisco vem então como um milagroso golpe de marketing, um sujeito bonachão, um alívio cômico na sisuda Cúria. E claro, não mudou uma vírgula nos preceitos da ICAR. Do escândalo do Banco do Vaticano, não ouvimos nada. Ordenação de mulheres? Nem é discutido. Acolhida aos homossexuais? Ficou nas palavras do começo do pontificado. Escândalos sexuais? Ignorados como nóduas históricas como Cruzadas ou Inquisição. Aceitar planejamento familiar com métodos eficazes e ajudar a combater a miséria? Ah, é só rezar que passa a vontade.

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