Papa Francisco é muito mais do que um bom ladrão

Em meio a um Vaticano banhado em ouro e sua cúpula acostumada a viver como que em uma ilha, o pontífice paga o preço por trilhar muito de perto os passos de Jesus

Papa é aplaudido pelos presentes, na audiência com o clero de Roma em que confessou ter ficado com o crucifixo de seu confessor, padre José Aristi: mais do que polêmica, uma aula de misericórdia | Foto: Vaticano

Papa é aplaudido pelos presentes, na audiência com o clero de Roma em que confessou ter ficado com o crucifixo de seu confessor, padre José Aristi: mais do que polêmica, uma aula de misericórdia | Foto: Vaticano

Elder Dias

Ele faz o exercício semanal de abraçar e conversar com doentes e criancas, mesmo com chuva ou frio; preferiu rejeitar a residência oficial destinada aos papas no Vaticano; chamou mendigos para cear consigo e nomeou um bispo para cuidar exclusivamente da assistência aos pobres; abriu mão de assessores para carregar sua própria mala e de confortos maiores reservados a autoridades de seu nível. Mas, para certo público, todos esses exemplos dados pelo papa Francisco, indicando as atitudes de Jesus Cristo nos Evangelhos, se tornaram pequenos demais diante de uma revelação feita pelo pontífice há algumas semanas.

A grande discussão em torno do pontífice tem sido a respeito de um crucifixo. É que, em uma reunião ordinária com o clero de Roma no dia 6 de março, ele compartilhou um fato ocorrido há décadas, por ocasião da morte do padre José Aristi, um religioso da ordem sacramentina — confessor de todo o clero de Buenos Aires e também do então vigário-geral Jorge Bergoglio, futuro papa Francisco. Ele chegou à sala do velório praticamente vazia e percebeu que não havia flores no caixão. Resolveu providenciar a pequena homenagem. E relatou à audiência, então:

“Subi e fui a uma floricultura – porque em Buenos Aires nos cruzamentos temos floriculturas, nas ruas, nos lugares onde tem muita gente – e comprei flores, rosas. Voltei e comecei a preparar o caixão, com flores. Olhei para o terço que tinha na mão… e logo me veio em mente – aquele ladrão que todos temos dentro de nós, não? –, e enquanto arrumava as flores peguei a cruz do terço, com um pouco de força a arranquei. E naquele momento olhei para ele e disse: ‘Dá-me a metade da tua misericórdia’. Senti uma coisa forte que me deu a coragem de fazer isso e de fazer essa oração! E depois, aquela cruz a coloquei aqui, no bolso. As vestes do Papa não têm bolsos, mas sempre tenho comigo um pequeno invólucro de tecido, e daquele momento até hoje, aquela cruz está comigo. E quando me vem em mente um pensamento ruim contra alguma pessoa, levo a mão a essa cruz. E sinto a graça! Sinto que me faz bem. Como faz bem o exemplo de um padre misericordioso, de um padre que se aproxima das feridas!”

Para a imprensa, obviamente, o trecho que ficou, de todo o sermão, começa com “Olhei o terço que tinha na mão” e termina em “com um pouco de força a arranquei”, com destaque para a expressão “aquele ladrão que todos temos dentro de nós, não?”. Era essa a notícia: o papa roubou, o papa se confessa um ladrão! E para um determinado público a notícia virou fato — embora se saiba (ou devesse se saber) que sempre há certa distância, maior ou menor, entre este e aquela —, o Santo Padre era nada mais que um ladrão.

Foi esquecida a verdadeira lição que Francisco queria passar a seus pares — afinal, confessar algo assim simplesmente para se “incriminar” seria inócuo — e que está no trecho restante da declaração. Ocorre que o tema da sessão era misericórdia e era a partir disso que se inseria, no contexto, a lembrança da figura do padre Aristi e do crucifixo “roubado” — essas aspas serão explicadas adiante.

Para a imprensa, o público em geral e os católicos mais beatos, foi um escândalo de proporções grandiosas. Afinal, era para eles um papa, enquanto tal, assumindo-se um ladrão. Trata-se, no entanto, de uma visão parcial, estreita, tacanha e perigosa. E como a ignorância geralmente é vizinha da maldade, não demorou a aparecer detratores do papa. Nas redes sociais, a reação ao fato teve o tempero do cinismo instantâneo. Do Twitter, foram pinçados alguns microcomentários como “gente, até o papa está bancando o marginalzinho!”; “hora de amarrá-lo num poste”; “sorte que não tinha nenhum justiceiro por perto”; “papa vida loka”; “nunca me enganou”. A internet não poupa ninguém.

É um dado menos importante, mas ocorre que falar em “roubo” ou mesmo “furto” para o caso da cruz do padre Aristi é, antes de tudo, tecnicamente falso. O papa não furtou nem roubou nada, o que pode se assegurar pelo simples fato de que o objeto não pertencia a ninguém. Não pelo fato de o seu suposto dono estar então morto, mas porque, mesmo em vida, as regras das ordens religiosas são claras: quem se submete a elas se compromete a não ter posse alguma. Então, se o dito popular lembra a todos que “da vida nada se leva”, isso vale muito mais para os religiosos.

Muito além do “roubo”

O padre e jornalista goiano Rafael Vieira Silva está em Roma desde o segundo semestre do ano passado, como diretor de Comunicação do Governo Geral de sua ordem, a dos redentoristas. Vivendo mais de perto os movimentos de Fran­cis­co, ele se mostra totalmente re­fratário à visão de que o papa te­nha confessado um roubo. “Pelo contrário, se tomarmos todo o trecho da revelação que faz o papa, vemos que há um contexto absolutamente redentor”, afirma.

Rafael Vieira explica. “Veja as expressões que ele cita: ‘olhei para o terço’ — para quem tem fé, reza, esse é um gesto lindo, desafiador, comovente, inspirador de coisas boas; ‘aquele ladrão que todos temos’ pode se referir à nossa habilidade de realizar coisas com rapidez, sem sermos notados, ‘como fazem os ladrões’, embora com outro intento; e ele diz ‘arranquei o crucifixo’ para guardá-lo e lembrar-se sempre da misericórdia daquele grande confessor, motivo pelo qual o mantém consigo até hoje.” E, por fim, questiona o padre: “Quem vê roubo no sentido que conhecemos — e muito bem — nessa cena, quem? Acho que o problema é de outra ordem.”

O fato é que a declaração do papa atingiu seu intento com seu público direto: reforçar para os padres a importância de internalizar e praticar a misericórdia, uma virtude essencial do cristianismo e, por consequência, da Igreja Católica, da qual é o líder. Levar consigo a cruz de um padre, além de uma bela homenagem à memória de alguém a quem admirava pelo dom da misericórdia — e do qual clamou para obter pelo menos a metade — é uma imagem muito mais rica do que a fotografia do relato de um furto aparente — e nada mais do que aparente.

“Relativismo” do pontífice é nada mais do que uma falácia
Pintura do século 14, de artista alemão desconhecido, retrata Jesus e o jumento que mandou seus discípulos pegarem

Pintura do século 14, de artista alemão desconhecido, retrata Jesus e o jumento que mandou seus discípulos pegarem

Os rumos da Igreja estão mu­dan­do com Francisco. Tem uma li­nha de ação bem diferente das que ti­veram seus antecessores. João Paulo II, em seu pontificado de mais de 26 anos, se mostrou evangelizador como nenhum outro: usufruindo de seu carisma natural, fez o que nunca um papa tinha realizado, viajando tanto e por tantos países. Seu sucessor, Bento XVI, é reconhecido pelo seu alto conhecimento de filosofia e teologia, e foi por esse caminho que conduziu seu pontificado.

Por sua vez, Francisco tem se mos­trado um papa missionário. Ele mesmo já declarou, reiteradas vezes, que é preciso que os padres saiam de sua zona de conforto e busquem o contato com a “face de Cristo”, que não está nos palácios ou nos poderosos, mas principalmente nos rincões, nos pobres. Talvez por ser uma visão que se aproxime à que têm os adeptos da Teologia da Li­ber­tação, como o ex-frei Leonardo Boff, isso vem causando incômodo às alas conservadoras do clero. Mais ainda a quem não mais pertence a ele, como dom Bernard Fellay, superior da ultraconservadora Fra­ter­nidade de São Pio X, que comentou que Francisco é um “verdadeiro modernista” e que está piorando “dez mil vezes” a situação da Igreja, que já é desastrosa, segundo ele. A entidade que preside foi fundada pelo arcebispo Marcel Lefebvre — que não aceitava as mudanças do Concílio Vaticano II — e não está em comunhão com a Santa Sé.

É uma situação curiosa: os ditos sacerdotes progressistas recusavam a linha pastoral de João Paulo II e Bento XVI, considerados por eles reacionários. Iam de encontro ao dogma da infalibilidade papal, segundo seus contrários. Estes, agora, não se conformam com a forma de conduzir a Igreja que Francisco adota. Ou seja, acabam por desobedecerem ao mesmo dogma. Afinal, há uma linha pastoral “certa”? Seria como dizer que um governo liberal ou conservador estariam errados somente por ser o que são, independentemente do conteúdo que aplicassem, das medidas que tomassem e dos resultados que obtivessem.

Uma das graves advertências que fez Bento XVI, em meio ao que produziu de documentos para a Igreja, refere-se ao relativismo, “que entra no santuário da família, se infiltra no campo da educação e em outros ambientes da sociedade e os contamina, manipulando as consciências, especialmente a dos jovens”. Como forma de contestar o “governo” de Francisco, setores conservadores citam casos como o da recente revelação do “roubo” do crucifixo e o de sua declaração sobre católicos gays (“se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”). Seriam evidentes portas abertas ao relativismo, avisam.

Mas seria o papa Francisco um relativista? Ou ao menos estaria ele cooperando com o relativismo, corrente condenada pela Igreja? Primeiro é bom determinar o que é esse referido relativismo: discute-se, no caso, o relativismo moral, um afrouxamento das regras para se estabelecer o que é certo ou errado.

Colocando como pauta a polêmica sobre o crucifixo e supondo que tenha havido furto da peça pelo papa — embora, é bom repetir, o contexto de sua fala ressalte algo que vai muito além disso —, duas correntes filosóficas principais no campo da moral se digladiariam: os deontologistas e os teleologistas. A deontologia — do grego “deontos” (dever, obrigação) e “logos” (ciência, estudo) —, da qual um dos ex­poentes é Kant, se baseia estritamente na norma — as ações são cer­tas ou erradas independentemente da finalidade para a qual concorrem. Regras valem por si mesmas. A teleologia — do grego “teleo” (finalidade) e “logos” (estudo) —, pelo con­trário, vê o que é certo ou errado incluindo a consequência da ação.

Um exemplo banal: um homem furta dois pacotes de biscoitos no supermercado. Para os teleologistas, saber se tal homem teve uma conduta errônea ou correta se baseará no que fará ao fim: assim, se trocar os biscoitos por droga será algo moralmente errado; se os pacotes servirem para matar a própria fome ou a de seus filhos, isso pode ser moralmente aceito. Para os deontologistas, a conduta tem vício de origem, não importa como se concretize.

As espigas e o crucifixo

Muitas passagens dos Evan­gelhos podem jogar luz sobre a questão do relativismo e dos pontos de vista deontológico e teleológico. Algumas delas: 1) Jesus inocentou seus discípulos, que estavam com fome e colheram espigas de milho em um sábado, algo proibido pela lei dos judeus, sendo então acusados pelos fariseus; 2) o mesmo Jesus ordenou seus discípulos a pegarem um determinado jumento para lhe servir de montaria na entrada em Jerusalém; e 3) novamente é Jesus quem absolve o cobrador de impostos arrependido no templo, enquanto ignora o fariseu que lá estava se exaltando por ser cumpridor de leis.

É possível arriscar que as atitudes de Jesus se assemelhem mais ao que está posto pela visão teleológica do que a deontológica. Mas, então, Jesus era relativista? Obviamente que não, e suas leis talvez sejam mais rigorosas do que as dos judeus, por serem assentadas na prática e não nos ritos, simplesmente. Em vez de não trabalhar aos sábados, que se trabalhasse, caso fosse necessário; mas sempre perdoar, sempre dar a outra face. Não há nada a ser ponderado nisso.

Em meio a um Vaticano banhado em ouro e sua cúpula acostumada a viver como que em uma ilha, Francisco é o papa que mais tem buscado seguir esses passos de Jesus. A cruz que tomou de um padre era a “espiga de milho” necessária naquele momento. Carregá-la consigo é ter sempre em mãos, mais do que um objeto, um símbolo da misericórdia. Mas, se optar por fazer o enfoque do “ladrão que há em cada um”, também há um motivo mais do que razoável: ao se flagrar pensando mal de alguém, ao apontar o “cisco” tapando a visão de outra pessoa, o papa se lembra de sua própria “trave-no-olho-portátil”: o crucifixo do padre Aristi.

O “roubo” dessa cruz e a suposta conduta relativista do papa Francisco não são mais do que falsos escândalos. Se não é algo farisaico, denota um pensamento infantil. Afinal, se alguém acha que todo mundo seria induzido a roubar porque “até o papa” já o fez — e obtendo o crucifixo de um padre morto —, seria natural que pensasse que o mesmo papa também teria o poder de fazer seus seguidores comecem a deixar seus luxos, a renunciar ao carro zero-quilômetro, a cuidar dos doentes e a jantar com os mendigos. Para o bem ou para o mal, é necessário o próprio arbítrio. O resto é desculpa para justificar as próprias intenções.

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