Pandemia tem impactos graves na saúde mental

Profissionais relatam interrupção de tratamentos, prejuízos do isolamento prolongado e fechamento dos Centros de Atenção Psicossocial

Períodos prolongados de isolamento social estão associados ao comprometimento cognitivo, redução da imunidade e aumento do risco de doenças cardiovasculares | Foto: Reprodução/EBC

Segundo a compilação dos dados de secretarias estaduais de saúde, o Brasil hoje apresenta média móvel de sete dias de 53,7 mil novos casos de Covid-19 a cada 24 horas. Este é o maior número de registros desde o começo da pandemia. Na semana de 2 de novembro a quantidade de novos casos chegou a ser três vezes menor do que a que temos hoje. Além das consequências diretas para a saúde pública (atualmente já colapsada em diversas regiões), existem os impactos que ainda levarão tempo para se mostrar.

Com a suspensão de atendimentos eletivos, a saúde mental será uma das principais áreas prejudicadas. Pacientes crônicos com tratamentos interrompidos, isolamento prolongado e ausência de protocolos para funcionamento dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) causam prejuízos aos pacientes, enquanto a exposição dos psicólogos e psiquiatras ao coronavírus (Sars-CoV-2) já tem consequências visíveis para os próprios profissionais da saúde. Grupos vulneráveis, como crianças e adolescentes, são uma preocupação à parte. 

Murilo Ferreira Caetano, psiquiatra chefe da Unidade de Atenção Psicossocial do Hospital das Clínicas de Goiânia, lembra que a solidão tem consequências na saúde física comparáveis ao sobrepeso, tabagismo e outros agravantes. O psiquiatra cita estudos que associam períodos prolongados de isolamento social ao comprometimento cognitivo, redução da imunidade, aumento do risco de doenças cardiovasculares e, em última instância, aumento da mortalidade. 

A dimensão do dano

Rosana Teresa Onocko Campos é médica doutorada em Saúde Coletiva e professora com livre-docência pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde coordena o grupo de pesquisa Saúde Coletiva e saúde mental. A pesquisadora afirma que, como não existe um guia ou orientação técnica a respeito de como deveria funcionar um Centros de Atenção Psicossocial (Caps) durante a pandemia, há  heterogeneidade no atendimento à saúde mental entre as cidades.

“Alguns profissionais conseguiram se organizar para continuar atendendo à distância pela internet, sei de alguns que se encontram com seus pacientes mantendo distanciamento e usando máscara nos parques e praças. Mas, de forma geral, muitos Caps fecharam e os pacientes pioraram. São pessoas que já tinham dificuldades para lidar com as dificuldades da vida e as agruras da existência, e de repente perderam seu ponto de contato terapêutico e sua rede social significativa. A gravidade da falta de comando do Ministério da Saúde precisa ficar clara, bem como a abnegação que os trabalhadores tiveram para estudar e resolver por conta própria”, afirma Rosana Teresa Onocko Campos. 

Rosana Teresa Onocko Campos explica que o negacionismo aumenta o sofrimento das pessoas em luto | Foto: Reprodução / YouTube

A especialista em Saúde Coletiva e Mental aponta ainda outro complicador: o luto. Se temos mais de 250 mil mortos no país, não é exagerado estimar que temos mais de um milhão de pessoas enlutadas. “Essas pessoas têm reportado muita dificuldade de realizar o processo do luto por dois fatores. Primeiro, pelas restrições sanitárias e limitação do número de pessoas em rituais de enterro e sepultamento. Em segundo lugar, o negacionismo aumenta muito o sofrimento das pessoas em luto, que sentem que ninguém valoriza sua perda, que o público minimiza a seriedade de sua dor”, diz Rosana Teresa Onocko Campos. 

Por último, a médica ressalta preocupação com a transformação de todo o sofrimento causado pela pandemia em transtorno. Nem todo mal estar gerado pelo isolamento social é de ordem psiquiátrica, diz a médica. “Não se pode pensar que todos terão de ser medicados. Há indicações muito precisas para quando uma pessoa precisa de intervenção da medicação psiquiátrica. Frequentemente vemos na mídia alegações de que ‘a quarta onda será a das doenças mentais’ e de que ‘todos precisarão de psiquiatras’. Isso não é verdade! O que precisa existir é o acesso a espaços de tratamento”, conclui a professora da Unicamp.

Crianças e adolescentes

Estudo recente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) mostrou como o isolamento e a falta de interação social afetaram as crianças: 88% dos pediatras que participaram do estudo relataram alterações comportamentais, incluindo oscilação de humor, citada por 75% deles, seguida de fala e comportamento desorganizados, abordada por 5% dos especialistas. 

Ao contrário dos adultos, a preocupação maior em relação a esse grupo está na saúde mental. Do total de pessoas acometidas pela covid-19, os casos diagnosticados em crianças e adolescentes ficam apenas entre 1% e 5%. “No entanto, os mais jovens fazem parte de um grupo mais vulnerável emocionalmente. Assistir ao estresse dos familiares, às pessoas doentes e ainda lidar com o afastamento dos amigos são aspectos mais difíceis de serem assimilados por indivíduos em pleno desenvolvimento neuropsicomotor, podendo gerar danos irreversíveis”, diz a psiquiatra Danielle Admoni.

“Jovens fazem parte de um grupo mais vulnerável emocionalmente”, diz Danielle Admoni| Foto: Divulgação

Filhos de profissionais da saúde (que vivem com a ameaça do vírus), crianças afastadas dos pais infectados ou as que se enquadram no grupo de risco são as mais afetadas psicologicamente. Há ainda jovens com fragilidades prévias, como aqueles que já apresentam algum tipo de transtorno, deficiências ou outros problemas de saúde. 

“A criança pode dar os primeiros sinais de estresse com atitudes que antes não eram comuns. Ficam mais chorosas, não dormem bem, alteram o apetite, regridem no desenvolvimento (uma criança que já havia realizado o desfralde volta a fazer xixi na cama) e evoluem para quadros mais intensos de hiperatividade, agressividade, personalidade introspectiva, sentimento de incompetência e déficit de atenção. No estresse mais intenso, há alterações persistentes ou graves, como isolamento, falta de interesse em conversar com as pessoas ou de realizar atividades que antes eram prazerosas. Também demonstram medo de sair de casa e pensamentos repetitivos sobre sua morte ou a de familiares”, explica Danielle.

 De acordo com a psiquiatra, quando a criança é exposta ao estresse, toda a sua estrutura cerebral é afetada, provocando disfunção no sistema neurológico e endocrinológico. “Essas alterações se refletem na vida adulta, com o desencadeamento de doenças crônicas, como hipertensão arterial sistêmica, diabetes melitos, doenças pulmonares, distúrbios neuropsiquiátricos e comportamentais (como depressão ou transtorno de ansiedade generalizada) e maior risco à dependência química”. 

Em relação aos adolescentes, vale lembrar que eles estão na fase de descobertas, formação de identidade e de novas experiências sociais. Com a pandemia, esse processo natural é rompido, podendo ser fator de risco à saúde mental do jovem. “Ainda há o agravante de que, diferente das crianças, os adolescentes são muito mais independentes. Ou seja, é frequente estarem fora do controle direto dos pais. Daí a importância de ficar atento aos sinais que sugerem comportamentos atípicos. Alterações bruscas de humor, agressividade constante, isolamento maior do que o normal e, principalmente, uso excessivo e recorrente de álcool indicam a necessidade de uma abordagem profissional”, alerta Danielle Admoni.

Segundo a Dra. Cristiane Romano, mestre e doutora em Ciências e Expressividade pela USP, em meio a todas essas situações atuais, fica evidente a importância do suporte familiar, do acolhimento, do incentivo às atividades de lazer, do estabelecimento de uma rotina saudável (alimentação, sono e exercícios) e, se necessário, de um tratamento multidisciplinar com psicoterapia.

“A fragilidade da condição humana se aflorou diante da pandemia”, diz Dra. Cristiane Romano | Foto: Divulgação

De acordo com ela, os pais devem reconhecer os sinais de estresse dos filhos, validar esse estresse e retransmitir a eles respostas que possam gerar segurança. Todo esse amparo, somado a sua maturidade, ao seu estágio de desenvolvimento e sua habilidade intrínseca, serão determinantes para que uma nova onda de covid não cause consequências piores à saúde mental de crianças e adolescentes.

“A fragilidade da condição humana se aflorou diante da pandemia, nos fazendo lembrar que não temos controle de tudo. Tivemos um grande aumento de pessoas em busca de equilíbrio emocional, psicológico e estratégico para preservar seu bem-estar físico e mental. Esse equilíbrio é fundamental no ganho de maturidade para lidar com os imprevistos da vida. Estes, sairão mais fortalecidos de tudo que ainda estamos vivenciando”, finaliza Cristiane Romano.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.