Organizações buscam a verdade no tribunal das redes sociais

Diferentes versões competem por espaço no tribunal da opinião pública que são redes sociais, e nem sempre a narrativa verdadeira é a mais apelativa

Jair Bolsonaro em promessa de campanha durante propaganda eleitoral, no segundo turno das eleições de 2018 | Foto: Reprodução

A comunicação está no meio da maior reviravolta dos últimos seis séculos e, ainda acostumada à uma realidade em que as vozes eram poucas, tenta inventar maneiras de fiscalizar o conteúdo da miríade de canais que surgem. Isto é o que afirmam especialistas nas áreas de direito, comunicação e ciências políticas.  

Simone Tuzzo é pós-doutora em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e leciona no Curso de Relações Públicas da Universidade Federal de Goiás (UFG). A pesquisadora afirma que, antes da popularização internet, quando o papel de informar era exclusivo da imprensa, havia um mecanismo de verificação de fatos, já que um conglomerado de comunicação fiscalizava seus concorrentes. A credibilidade era a moeda corrente.

“A produção de conteúdo por muitas vozes fora desses conglomerados pulverizou a criação de discurso. O processo de exportar o direito de produzir conteúdo para a sociedade também exportou a ela o dever de investigar as notícias”, afirma Simone Tuzzo. Desta forma, a sociedade seria prisioneira da própria liberdade – livre para se pronunciar, mas refém das consequências incontroláveis do que diz e atada ao dever de investigar o que é verdadeiro ou não.

Simone Tuzzo afirma que, longe de ser um conceito subjetivo e relativo, o conceito de verdade na comunicação é concreto e verificável | Foto: Reprodução / Acervo Pessoal 

O professor e consultor político Marcos Marinho já advoga há tempos que o preço que a sociedade paga pela liberdade de expressão é a necessidade de se educar para saber separar o que é verdadeiro do que é falso. Cabe o adendo de Simone Tuzzo, que afirma que a falsidade em comunicação – longe de ser um conceito subjetivo e relativo – é concreto e bastante verificável. 

“Este binômio, “fake news”, merece reconsideração. A comunicação é sempre uma representação, mas parte-se do pressuposto que a notícia não é falsa; no processo comunicacional, a notícia busca ser uma representação da realidade. Logo, mentir, informar erroneamente, enganar para obter benefício próprio é objetivamente crime”,  afirma a professora de Relações Públicas. 

Frequentemente vemos o direito à liberdade de expressão ser invocado para justificar a autorização para mentir. Entretanto, segundo Simone Tuzzo, a liberdade de expressão se refe apenas a permissão de manifestar pontos de vista sobre algo que aceite opiniões, e não para representar erroneamente algo factual. “O direito do outro de não ser caluniado ou difamado vai esbarrar na sua liberdade de expressão, que não é ilimitada”, explica ela.

Segundo Simone Tuzzo, a sociedade ficou vulnerável às notícias falsas pois não foi preparada para o consumo midiático. A questão central, então, é definir a quem ficará a cargo de controlar a produção de desinformação. “Ao reportar à uma instituição o direito de fiscalizar por mim a autenticidade das mensagens, estou creditando suas bases de julgamentos – valores ideológicos, políticos, morais”.

A pesquisadora afirma que o que temos atualmente é a clareza de que conglomerados de informação não o fazem de forma desinteressada, pois estão sujeitos à pressões religiosas, financeiras, entre outras. Marcos Marinho é defensor da tese de que, apesar de a produção de fake news ser um crime, a investigação e punição não podem ficar apenas a cargo do governo: “Afinal, o discurso político também tem antagonismo. O papel do governo é garantir a pluralidade de vozes, evitando o monopólio da versão oficial, e também educar as pessoas para desconfiar do que chega até elas”

Professor e analista político Marcos Marinho | Foto: Reprodução / Acervo Pessoal

Segundo Rafael Maciel, advogado especialista em Direito Eletrônico pela Florida Christian University e presidente do Instituto Goiano de Direito Digital (IGDD), dispositivos legais não têm como impedir fake news. Existem mecanismos jurídicos que podem responsabilizar aqueles que desinformarem com objetivo de se beneficiar. O Marco Civil da Internet (Lei 12.965 de 2014) prevê a identificação de perfis falsos exigindo dados de seu operador.

Entretanto, os projetos de lei em tramitação no congresso com objetivo controlar as fake news revelam que parlamentares não compreendem a dimensão do problema. “Os projetos de lei existentes apenas repassam obrigações à uma entidade ou outra”, afirma Rafael Maciel. “Obrigar empresas privadas como Facebook, Instagram ou Twitter a controlar fake news, como se eles fossem os únicos responsáveis pela sua coibição, é uma má ideia. Você pode ter certeza de que, na dúvidas, eles removerão conteúdos e impedirão a liberdade de expressão para não ser responsabilizados. Isso contraria nosso Marco Civil, que foi elogiado no mundo inteiro”. 

Rafael Maciel tem sua própria sugestão para o problema: “Acredito que a solução mais eficiente sejam as agências de fact checking. Com mais de uma fonte de verificadores de fatos para cada notícia, e a pessoa poderia decidir se compartilharia algo ou não, e poderia saber quem assegura a veracidade daquela informação, sem que ninguém fosse obrigado a remover conteúdo ou restringir liberdade alguma”.

Rafael Maciel defende que grupos independentes façam a checagem de informação| Foto: Reprodução

O tribunal da opinião pública

Uma possível solução parece ter surgido recentemente com o perfil de Twitter Sleeping Giants Brasil. Sua estratégia é alertar publicamente as marcas anunciantes para o tipo de conteúdo que há nos sites em que suas publicidades acabam aparecendo e pressionar as empresas a retirar sua propaganda de páginas que publicam desinformação. 

“Eu vejo como uma iniciativa válida – o hacktivismo, já é um termo comum na comunicação digital que define situações em que um grupo percebe que pode incomodar e mudar o contexto político social através de ativismo online. A dinâmica é pressionar marcas que financiam diretamente desinformação atingindo-as onde mais dói: o bolso”, diz Marcos Marinho.

Marcos Marinho explica que canais podem se sustentar publicando desinformação, já que notícias absurdas chamam a atenção e geram tráfego e cliques, pois o Google Ads (plataforma de publicidade on-line desenvolvida pelo Google, onde os anunciantes pagam para exibir breves anúncios na rede de anúncios do Google) privilegia canais com grande fluxo e despeja remuneração por publicidade exibida. O professor afirma:

“As grandes empresas gastam fortuna em publicidade nesta plataforma e, por preguiça ou incompetência, não segmentam corretamente a campanha. Quer dizer, grande parte destas empresas não sabem que estão alimentando quem vive de desinformação. Quando um grupo se mobiliza para atacar onde mais dói, o bolso, considero uma estratégia bastante contemporânea e inteligente”.

Quando perguntado se um grupo político não poderia fazer o mesmo para tirar o financiamento de jornais legítimos de que não gostam, Marcos Marinho afirma que a chantagem já foi tentada, mas não logrou muitos frutos. Tentou-se boicotar empresas que veiculavam casais homoafetivos em sua publicidade. “Pressionar marcas é uma ação de dois gumes, mas há dificuldade em tentar desmonetizar um jornal legítimo apenas com base em ideologia. Para além de qualquer ideologia, o Sleeping Giants tem uma crítica concreta, pois as fake news são reconhecidamente nocivas e são identificadas por critérios objetivos”.

Empresas ideológicas

Segundo Simone Tuzzo, do ponto de vista das empresas e da comunicação organizacional, uma marca precisa ter lucidez quando se envolve em questões ideológicas. “É necessário que a empresa saiba claramente com qual público está conversando e em prol de qual grupo está falando. Se toma posição político partidária, jamais vai agradar a todos os públicos distintos. O ideal é não se posicionar ideologicamente porque você vai vender para todo mundo, inclusive pelo princípio da não discriminação”.

Desta forma, para uma marca que produz bens não relacionados à política, se associar a um jornal que reconhecidamente faz desinformação para o benefício de uma corrente ideológica, “se não é ilegal, é imoral”, nas palavras de Simone Tuzzo. “Se uma empresa tem concessão para trabalhar no país e produzir um bem, ela tem de cumprir a função social a que se dispõe: vou produzir pneus para os cidadãos, por exemplo. Fatiar o público em função de política beira a discriminação. Isto é, se você pensa como eu compre meus pneus, caso contrário é melhor ficar sem. É assim que funciona? Agora existe pneu de esquerda e pneu de direita?”

Trecho de campanha d’O Boticário que retrata casal LGBT com naturalidade | Foto: Reprodução/YouTube

Entretanto, isso não significa que qualquer tipo de opinião será melhor suprimida. Quando perguntado se a possibilidade de boicotes não intimidaria marcas como O Boticário, que faz diversas campanhas publicitárias engajadas em tópicos como a valorização da diversidade, Simone Tuzzo e Marcos Marinho concordam que este não é o caso. 

“Se engajar com causas que a empresa julga benéficas para a sociedade é positivo. A marca contribui com o combate ao preconceito de raça, orientação, gênero – todos concordávamos que isso é desejável”. A pesquisadora admite que este não é mais o caso para algumas correntes político ideológicas, mas o antídoto para isso é justamente o conflito: “Quando a marca for agredida por outras falas, ela deve ter muito claramente quem é o público que foi favorecido. Agradar todo mundo é impossível, mas tendo clareza de com quem se conversa, a empresa terá sustentação”.

Marcos Marinho afirma: “Hoje, você cria conteúdos específicos para grupos segmentados. Isso sinaliza para as marcas que é preciso se engajar ainda mais. Se existe uma grande empresa que faz comunicação genérica, mas um pequeno comerciante se conecta comigo, eu compro do pequeno. É momento das marcas quebrarem a publicação, tentar se adaptar e avançar nos públicos bem identificados”.

O Tribunal do Juri

Youtuber PC Siqueira | Foto: Reprodução

Imagine a seguinte situação: você é vítima de um furto e tem certeza de quem é o culpado – talvez algum conhecido “de vista” ou amigo de redes sociais. Você tem a opção de registrar um boletim de ocorrência que pode resultar em investigação e seguir como processo em juizado especial, a depender do valor do item furtado, por tempo indeterminado, talvez anos. Mas existe outra alternativa: você pode expor o criminoso em suas redes sociais. Postar fotos e provas; atingi-lo na honra e ensinar-lhe uma lição. Melhor ainda se o fizer de forma anônima, sem que possa ser confrontado; afinal, você é a vítima. 

A forma de denúncia pública tem sido usada cada vez mais frequentemente, principalmente quando envolve crimes sexuais. A mais recente hashtag “Exposed” (semelhantes a #MeuPrimeiroAssédio e #MeuAmigoSecreto) acumula milhares de relatos de mulheres no twitter, algumas contra homens famosos. Espécie de desdobramento do desdobramento americano MeToo, que resultou na prisão do produtor hollywoodiano Harvey Weinstein e afastamento de diversos atores e comediantes, o movimento parece ser resultado da terceira onda feminista e sinal de mudança nos tempos.

As conversas entre uma adolescente de 16 anos e o músico Japinha, ex-baterista da banda CPM 22, foram vazadas. Mais recentemente, o youtuber PC Siqueira teve uma conversa divulgada em que admitia ter recebido material de pedofilia. A dificuldade de realizar queixas contra homens poderosos e o estigma de ser vítima de um crime sexual desaparecem com a possibilidade do anonimato. 

Entretanto, denúncias anônimas, sem o devido processo legal, em que é dado o direito da defesa à parte acusada, pode macular para sempre a honra de inocentes. Segundo o advogado Rafael Maciel, é impossível reverter o dano à imagem da pessoa, mesmo que ela seja inocentada. 

“Antigamente se pedia direito de resposta a todas as pessoas que publicaram uma denúncia caluniosa, mas se mostrou inócuo porque os algoritmos do Google e redes sociais geralmente não privilegiam a retratação”. Rafael Maciel diz que, como os mecanismos que enviam conteúdos para leitores mudam rapidamente, e às vezes de forma arcana e enigmática, um pedido de desculpas gera menos engajamento e é menos visto do que uma acusação barulhenta.

“O que fazemos hoje nestes casos é um gerenciamento de crise – tentamos minimizar a exposição via desindexação por mecanismo de busca em notícias falsas. Mas infelizmente a imagem da pessoa estará maculada para sempre por aquela injustiça”, afirma presidente do Instituto Goiano de Direito Digital (IGDD).

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