O segredo da cidade goiana que, na crise, cresceu mais do que a China

Com políticas de incentivo fiscal e investimentos em infraestrutura, Aparecida de Goiânia atraiu empresas que geraram empregos e fomentaram o consumo no município

Polo empresarial de Aparecida de Goiânia: política com foco na atração de empresas e geração de emprego | Foto: Divulgação

Goiás cresceu mais do que a média nacional na última década, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) do país cresceu a uma taxa média de 0,48% ao ano, o Estado teve um desempenho anual de 1,4%. O resultado colocou Goiás em nono lugar na lista das unidades federativas com maiores economias, contribuindo com R$ 189 bilhões ao PIB nacional.

De acordo com publicação do Instituto Mauro Borges de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (IMB), parte da explicação pela boa atuação goiana vem da diversificação do setor industrial goiano – alguns dos pontos fortes da indústria goiana são as áreas sucroalcooleira, agroquímica, alimentação, automobilística, medicamentos e de beneficiamento de minérios. Durante a crise, mesmo que uma área vá mal, outras sustentam a economia até que haja recuperação.

A mesma lógica pode explicar o fenômeno do município de Aparecida de Goiânia. De 2010 a 2017, o PIB da cidade cresceu 122% em uma média de 7,4% ao ano; bastante acima da média das outras cidades. “Outro dia me perguntaram se Aparecida tinha crescimento chinês, eu disse que não, porque a China cresce menos”, afirma André Luis Rosa, secretário municipal da Fazenda de Aparecida de Goiânia.

Tendo adotado uma política de incentivo a empresas por meio da cessão de áreas desde 2001, a cidade passou por uma explosão no número de empresas: de 5 mil CNPJs ativos em 2008, o número foi para 50 mil em 2019. Entre distritos agroindustriais e cidades empresariais, o município possui quatro polos públicos para abrigar indústrias e atualmente estuda a criação de mais dois. Segundo o secretário municipal da Fazenda, mais de 240 empresas estudam e negociam se estabelecer na cidade – são quatro milhões de metros quadrados de áreas solicitadas.

Secretário municipal da Fazenda, André Luis Rosa, afirma que investimentos na qualidade de vida alavancam industrialização | Foto: Reprodução/Prefeitura de Aparecida de Goiânia

Entretanto, André Luis Rosa esclarece que a política tem seu custo: “Reduzir taxas para empresários é renunciar à receita da prefeitura. Mas temos de pensar pela ótica deles, se você tem seu negócio estabelecido no eixo Rio-São Paulo, por que enfrentaria uma série de dificuldades – como pior infraestrutura e ausência de sistema para formação da mão de obra qualificada – por que assumiria essas adversidades se não houvesse incentivos?”

O próprio secretário reconhece que, embora exitosa, a política de receber indústrias criou desafios. Em 1989, a cidade tinha 100 mil habitantes; hoje, tem 600 mil. “As empresas se instalam e seus funcionários vêm viver no município. Também temos de garantir qualidade de vida para atrair indústrias. A partir do momento que empresas começam a funcionar, há geração de empregos, renda, consumo. O salário que sai da fábrica é gasto no comércio do município. Perdemos com arrecadação por um lado, mas ganhamos por outro.”

Empresário começou com seis funcionários e hoje tem 460

O empresário e vice-presidente da Associação Comercial e Industrial de Aparecida de Goiânia (Aciag) João Mendes foi um dos que apostaram no modelo aparecidense. O diretor da empresa Flexibase Mobiliários Corporativos, que comercializa móveis para escritórios públicos e privados, chegou ao Polo Empresarial de Goiás em 2002. “Temos muito a agradecer porque, na época, a administração do prefeito Ademir Menezes (PSD) confiou em dois rapazes, doando 600 metros quadrados de área construída a eles. Tínhamos seis funcionários. Hoje, depois de 18 anos, estamos com quase sete mil metros de área construída e 460 funcionários”, afirma o empresário.

João Mendes conta que os incentivos foram fundamentais para o sucesso da empresa: “Precisamos dos benefícios porque o custo do transporte daqui para o Ceará é o dobro do custo do transporte de São Paulo até o Ceará. Tudo está lá, transportadoras, fornecedores. Quando chegamos, não havia formação de mão de obra qualificada. Nós, em parceria com o Sesi e Senai, através do sindicato da indústria moveleira, montamos um curso para formar marceneiros”.

Diretor da Flexibase Mobiliários Corporativos diz que incentivos foram fundamentais para a empresa | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

O prefeito da cidade de Aparecida de Goiânia, Gustavo Mendanha (MDB), afirma que Goiás tem o atrativo natural da localização geográfica, mas além deste fator e de incentivos fiscais, é importante investir em serviços públicos. “Uma coisa importante é a mão de obra qualificada. Minha cidade tem se vocacionado nisso. Ela é uma cidade universitária, tem ofertado cursos profissionalizantes. O industrial, quando vai se instalar, faz conta de tudo: educação, saúde, mobilidade”.

Apesar dos esforços e do resultado observável no PIB, o gestor diz que a cidade não está a salvo da crise e do momento político. “Existe um clamor geral para que não se corte os incentivos. Já começamos a ver uma movimentação, principalmente do setor imobiliário. A esperança é de que o ano que vem seja bem melhor. Todos têm essa expectativa”, diz Gustavo Mendanha.

A sinalização ao corte de incentivos se tornou concreta com aprovação de lei que enrijece das regras para concessão de incentivos fiscais pelo Estado, aprovada em outubro, e que condiciona empréstimos à geração de empregos e ao recolhimento de carga tributária. Além da nova legislação, houve a aprovação neste 18 de dezembro da extensão da contribuição de 15% aos programas Protege por empresas enquadradas no Fomentar e Produzir. A condição passa a valer a partir de abril do ano que vem e gerou polêmica, pois empresários sentiram-se traídos, no início do ano, o percentual havia sido estabelecido de maneira provisória e esperavam sua não continuidade.

André Luis Rosa, secretário municipal da Fazenda de Aparecida de Goiânia, afirma que o principal problema não é o corte de incentivos em si, mas a insegurança causada em empresários que incluíram benefícios em seus cálculos. “Se o incentivo trouxe uma empresa para a região, acho que não é correto mudar a regra, prejudicando aquela empresa”, diz o empresário.

Concorda com o secretário o vice-presidente da Aciag, João Mendes. “Sem benefícios fiscais, muitas empresas vão fechar. Muitas indústrias grandes estão deixando de vir para Goiás por medo de mudarem as regras durante o jogo. Falta comunicação governamental mais clara: terá incentivos ou não?”.

Associação comercial vê diálogo com o governo começar a avançar

Rubens Fileti diz que Estado e empresários começam a dialogar em busca de consenso | Foto: Reprodução/Acieg

O presidente da Associação Comercial, Industrial e de Serviços do estado de Goiás (Acieg), Rubens Fileti, afirma que o diálogo entre empresários e Governo começa a deslanchar. “Tivemos uma reunião ontem com secretária de Economia, Cristiane Schmidt, que destravou pautas”, afirma o representante dos empresários. “Vimos que todos estão abaixando a guarda e começando a dialogar. Nossa classe começa a ouvir proposições de forma positiva”.

Rubens Fileti explica que o principal causador de desacordo no meio dos empresários, a prorrogação da contribuição das empresas ao fundo Pro­tege a taxa de 15%, é na realidade um estímulo para que empresários adotem o novo programa de incentivos do Governo Estadual, Pro­Goiás. Além de exigir contrapartidas menores das empresas, o ProGoiás também desburocratiza processos travados. “Na balança, isso é extremamente positivo e grande impulsionador da indústria”, afirma Rubens Fileti.

Para além da questões dos benefícios fiscais, o presidente da Acieg afirma que houve um aumento no número de abertura de empresas devido à confiança na retomada da economia. “Além disso, Goiás tem se tornado um polo de tecnologia, o que leva à expansão de alguns setores, como o impulsionamento de startups. Empreendedores que estavam no mundo informal começam a ter ideias e as efetivam como microempreendedores individuais”, afirma o representante da classe.

Medidas tomadas em âmbito federal também auxiliam a retomada da economia e apontam para um 2020 mais promissor. Rubens Fileti exemplifica: “Estamos em momento de estabilização de novas regras, empresários observam isso como ponto positivo. Por exemplo: a taxa Selic que vem caindo; existe injeção de dinheiro no mercado via liberação do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS); muitos indicadores mostram uma luz no fim do túnel para empresários.”

Na opinião de Rubens Fileti, ainda há dois grandes desafios a serem superados pelo Estado. O primeiro é a questão do fornecimento de energia elétrica à indústria. Entre disputas judiciais e políticas, a empresa italiana de distribuição elétrica prejudica empresas e cidadãos com serviços inconstantes. A ampliação de negócios ou estabelecimento de novas indústrias é um dos fatores mais prejudicados pela situação. João Mendes, diretor da Flexibase, é um dos empresários que tiveram de tomar iniciativa para contornar a situação: “O fornecimento de energia elétrica é muito ruim e caro. Estou negociando implantação de células fotovoltaica. Em 2020, pretendo depender totalmente da energia solar.”

Em segundo lugar, outro entrave para o desenvolvimento industrial é a qualificação da mão de obra. “Nossa missão como entidade de classe é formar profissionais para atuar na indústria”, afirma o presidente da Acieg. “Temos muitas vagas de emprego que não são preenchidas por falta de qualificação. Nossa associação toma frente em projetos de preparação. Nosso grande mote para 2020 é treinar três mil profissionais, pessoas entre empresários e funcionários”, conclui Rubens Fileti.

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