Entrevistamos 8 bolsonaristas arrependidos. Veja o que pensam agora

Eleitores se decepcionaram por razões distintas: há desde quem acredite que o “mito” foi longe demais até os que creem que o capitão deveria ter sido ainda mais radical

O indicador de insatisfação com o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) vem crescendo consideravelmente nos últimos meses. O segmento dos que desaprovam o Executivo representa 49% dos brasileiros, segundo pesquisa Ipec divulgada no mês passado.

O Jornal Opção ouviu eleitores do presidente que se arrependeram da escolha e selecionou oito pessoas de perfis diferentes. Entre os entrevistados, há aqueles que se decepcionaram com o governo por razões distintas: desde os que acreditam que Bolsonaro foi longe demais até os que creem que o capitão deveria ter sido muito mais radical.

Entre os entrevistados, o antipetismo ou sentimento antiesquerda foi a principal razão para digitar 17 e confirmar na urna em 2018. A condução da pandemia tem sido, sem dúvida, uma das principais razões de insatisfação. A quebra das promessas de campanha e as concessões para o chamado “centrão” também são frequentes. Confira nesta matéria como pensam aqueles que um dia, mesmo que por entender que não havia opção melhor, se colocaram como bolsonaristas.

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Ângelo*, servidor público

“Qualquer pessoa com senso crítico não apoiaria mais”

Apoiadores de Bolsonaro se reúnem próximo a bandeira com a foto do presidente na manifestação de 15 de maio | Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

O que lhe atraiu em Bolsonaro durante as eleições?
Na verdade, foi um sentimento antiesquerda que senti naquele momento, pois estávamos há 14 anos com o segmento político que me desagradava e eu pensava que a alternância seria uma boa. Foi uma possibilidade de mudança. Eu não conhecia bem o político, mas votei nele para a variação no poder.

Qual foi seu grau de envolvimento com política? Você chegou a fazer campanha, brigou com familiares de correntes políticas opostas?
A maior parte dos meus familiares são de esquerda. Eu discordava do modelo político da esquerda, então tivemos discussões fervorosas. Usei minhas redes sociais em favor do Bolsonaro.

O que lhe fez mudar de ideia a respeito do presidente?
Todo o andar da carruagem, do primeiro dia até os dias de hoje, com a falta de propostas coerentes. A parte ambiental é deplorável. Houve aumento no desmatamento, incêndio no Pantanal, retirada de recursos e pessoal do Ibama e, obviamente, a pandemia. Na CPI, estamos vendo que ele menosprezou e riu das vítimas. Qualquer pessoa com o mínimo de senso crítico não poderia continuar apoiando. Podemos cometer um erro, mas insistir nisso é muito mais grave.

Ainda tem convivência com outras pessoas que votaram nele? 
Recebo vídeos e notícias de bolsonaristas todos os dias. Percebo que muitos – mais da metade – mudaram de ideia, mas também muitos continuam o apoiando. Hoje, eu deixo claro a minha opinião sobre ele. Tento não perder a amizade, mas às vezes é difícil, até porque tenho caso de morte na família por Covid-19. Acredito que pelo menos um terço das vidas teria sido salvo com uma política decente de vacinação e enfrentamento da pandemia. 

Qual sua avaliação do governo atualmente?
Só depois que Bolsonaro foi eleito eu comecei a conhecê-lo como político; fui pesquisar a razão de ele ter saído da ativa do Exército, o que ele fez na vida parlamentar e entendi quem ele realmente é. Ele se diz “o cara”, mas não consegue ter relação favorável com nenhum país estrangeiro: foi o último a cumprimentar Joe Biden pela eleição nos Estados Unidos; ataca a China desnecessariamente. Independente de eu concordar ou não com as razões dele para isso, o presidente tem a obrigação de fazer o melhor para o País. Não pode destratar nosso principal cliente e fornecedor de insumos. Creio que em breve estaremos isolados no mundo. Vamos acordar para a realidade só então? Temos de dar uma resposta, de forma pacífica, nas urnas.

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Edson Garcia, engenheiro eletricista

“Minha impressão é de que ele sabota a si mesmo”

20ª edição da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, em junho de 2016, na Avenida Paulista |  Foto: Paulo Pinto / Fotos Públicas

O que lhe atraiu no Bolsonaro durante as eleições?
O discurso de que seria diferente. Acredito que precisamos de mais ordem social. Nos últimos anos, o Brasil importou essas ideologias que são estranhas ao nosso povo e que não resolvem nossos problemas. Na política, no Congresso, gastamos muito tempo e energia discutindo gênero, sexualidade, minorias que tentam empurrar suas agendas em busca de poder, sem que isso se converta em benefícios concretos para a população. 

Não é que eu odeie os LGBTs ou as feministas, como me acusam quando eu digo isso. Eu só acho que o governo não tem de dar espaço público para essas pessoas apenas em função da ideologia delas ser supostamente a correta. Se querem espaço, que se candidatem e sejam eleitas por voto popular, aí tudo bem. Mas eu queria um presidente que não financiasse essa gente que usa bandeiras para conseguir subir ao poder sem precisar de votos e sem precisar dar contrapartida à sociedade. A mesma coisa para artistas.

Qual foi seu grau de envolvimento com política? Você chegou a fazer campanha, brigou com familiares de correntes políticas opostas?
Na minha família tenho primos homossexuais que acham que eu penso tudo o que o Bolsonaro fala, como “não quero ter um filho gay”, essas coisas. Eu mesmo sabia que Bolsonaro não ia fazer alguma coisa para acabar com os gays, até porque é impossível. Nós brigamos muito quando eu falei que ia votar 17, porque eles ficaram com medo de perder direitos, de ser perseguidos, mas eu sabia que não ia acontecer nada com eles. O próprio Bolsonaro dizia que a aversão dele aos homossexuais não ia virar perseguição.

O que lhe fez mudar de ideia a respeito do presidente?
Foi que ele não combateu a “mamata” dessas pessoas, apenas trocou os “mamateiros”. Ele continua usando o poder para beneficiar grupos, mas são os grupos dele: militares, familiares, milicianos, evangélicos, policiais etc.

Ainda tem convivência com outras pessoas que votaram nele? 
Tenho. 

Percebe arrependimento ou decepção entre eles? Em muitos ou em poucos?
Alguns. Quem concorda com ele ficou mais radical ainda, para poder continuar concordando, porque quem discorda de uma coisinha que seja, está expulso. Foi isso que me afastou: qualquer sinal de pensamento próprio transforma a pessoa numa traidora. Me chamaram até de comunista. Quer dizer, você tem que idolatrar o Bolsonaro como um ídolo, quase como um Deus que é incapaz de errar. Todo mundo erra às vezes, menos o Bolsonaro, que é tudo para eles. 

Qual sua avaliação atual?
É um governo muito atrapalhado. Eu ainda não tenho certeza do projeto do governo. Imagine: se o governo não tivesse oposição, se não existisse pandemia, se não houvesse esses mal-entendidos a que Bolsonaro atribui todas as crises (já que nada nunca é culpa dele), se não tivesse nenhum empecilho, o que ele queria fazer? Minha impressão é de que ele sabota a si mesmo porque precisa sempre ficar em eterna guerra com alguém e mobilizar a base na internet, e é só isso mesmo. É uma eterna campanha eleitoral, sem nunca governar de fato. O que ele faz? Só inaugura ponte, trecho de rodovia, ponto de wifi. Parece um vereador federal. Se ele fizesse algo de fato, eu poderia até avaliar, mas pelo que vejo, ele nunca consegue fazer nada porque sempre está sendo atrapalhado pelos inimigos que são sempre os outros.

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Ana Clara Almeida, biomédica

“Lutam o tempo contra fantasmas imaginários”

Em passeata contra Dilma e o governo, faixa pela volta dos militares | Foto: Reprodução

O que lhe atraiu em Bolsonaro durante as eleições?
O discurso de campanha de que o presidente não tem que saber de tudo, que iria convidar técnicos para serem ministros. Acho que se a estrutura do governo depender de várias pessoas é melhor do que depender de uma só, porque assim é necessário mais etapas para cometer um erro. 

Qual foi seu grau de envolvimento com política? Você chegou a fazer campanha, brigou com familiares de correntes políticas opostas?
Não fiz campanha. Votei no Bolsonaro em segredo, porque as pessoas próximas de mim eram contra ele e eu não tenho paciência para ficar brigando por política.

O que lhe fez mudar de ideia a respeito do presidente?
O fato de que os ministérios dele não foram nem um pouco técnicos. Foram ideológicos com membros delirantes da seita olavista. As atuações de Abraham Weintraub e Ernesto Araújo principalmente não tinham a menor conexão com a realidade brasileira. Eles passaram todo o tempo lutando contra fantasmas imaginários, como a ameaça comunista e a conspiração globalista, enquanto ignoraram nossos problemas, que são muito mais concretos e precisam de soluções objetivas. Eles tiveram espaço para aprovar o que quisessem, mas não fizeram plano nenhum, só discurso. 

Ainda tem convivência com outras pessoas que votaram nele? 
Não sei. Eu tento não discutir política com as pessoas porque isso só gera conflito e ninguém nunca muda de ideia com conversa, precisa ver os fatos. Em discussão política ninguém quer ver nada, só converter os outros.

Qual sua avaliação atual?
Só degringolou. O Ricardo Salles [ex-ministro do Meio Ambiente] para mim era o pior ministro. Ele não é olavista, mas é um cara que servia para encarnar a visão do Bolsonaro antiambiente. Ao contrário de Weintraub e Ernesto Araújo, ele fez coisas de fato, infelizmente. Eu votei no Bolsonaro achando que ele colocaria um técnico ambientalista nesse cargo, não alguém para desmontar o ministério.

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Victor Klein*, estudante de engenharia

“Continuo o mesmo, quem mudou foi Bolsonaro”

Bolsonaristas na porta do Palácio da Alvorada, em Brasília | Foto: Folha de S. Paulo

O que lhe atraiu no Bolsonaro durante as eleições?
O discurso de que seria diferente. Eu gostava e ainda participo de alguns grupos de direita no Telegram e Twitter e vi que os opositores eram todos lixo.  

Qual foi seu grau de envolvimento com política? Você chegou a fazer campanha, brigou com familiares de correntes políticas opostas?
Meu envolvimento foi total. Não fiz e não faço questão de manter amigos esquerdistas. Cortei logo de cara quem votou Haddad e não me arrependo.

O que lhe fez mudar de ideia a respeito do presidente?
Minha ideia continua a mesma, quem mudou foi o Bolsonaro. Eu ainda acredito nas coisas que o Bolsonaro pregava antes da campanha. 

Como acha que ele mudou?
Conchavo com o centrão; concessões à velha política; colocar um petista (Augusto Aras) na Procuradoria-Geral da República (PGR); muitas outras coisas. Tolerou desmandos do Supremo Tribunal Federal.  

Muita gente diz que essas coisas o fizeram permanecer no poder, ser mais moderado…
Se isso significa ser mais moderado, eu preferiria que ele fosse mais radical.

Você é do grupo de pessoas que acredita que o STF deveria ser fechado?
Com certeza. Só não entende isso quem não quer ver que o sistema continua corrupto porque foi montado pelos anos de PT e velha política.

Muita gente que acha isso segue com Bolsonaro. Por que você deixou esse barco?
Como eu disse, abandonei ao ver que ele traiu os apoiadores dele. Ele ter abandonado o Daniel Silveira (deputado federal pelo PSL-RJ) na prisão; abandonar o Oswaldo Eustáquio na prisão; deixar os ministros recomendados pelo professor Olavo caírem… tudo isso eu vejo como traição às pessoas que colocaram ele lá. 

Ainda tem convivência com outras pessoas que votaram nele? 
Sim, muitos amigos. Não declarei que desisti do Bolsonaro porque eu sei como funciona essa máquina. Quem cai fora eles destroem. Até por isso pedi para você não usar meu nome real.

Percebe arrependimento ou decepção entre eles? Em muitos ou em poucos?
Não existe isso. Quem pensa diferente é destruído, chamam de petista e tudo mais. 

Qual sua avaliação atual?
O que está acontecendo é uma tragédia dupla. Primeiro porque Bolsonaro teve a chance de mudar o que está aí há muitos anos, mas quis permanecer no poder por via de conchavo. Depois, fortalecer o Exército é chavismo puro. Ele tem muita reputação com grupos armados, Exército, polícia. Essas pessoas foram quem forçaram o Bolsonaro a se curvar, a tirar ministros próximos do professor Olavo de Carvalho etc. E agora esses grupos armados estão no poder, cheios de cargos, de orçamento público, cheios de liberdades. Bolsonaro não vai aceitar sair. Esse pessoal suga o sangue do Bolsonaro e o presidente exige que eles façam algo em troca. Tenho muitas razões para acreditar que em 2022 nós vamos ter praticamente uma guerra civil.

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Gisele Aziz, assistente administrativa

“Não dá para negar o fiasco do Brasil na pandemia”

Jair Bolsonaro e Sergio Moro | Foto: Adriano Machado/Reuters

O que lhe atraiu em Bolsonaro durante as eleições?
Foram algumas promessas de campanha. Algumas ele cumpriu, como colocar o Sérgio Moro no Ministério da Justiça, mas depois começou a esvaziar e fritar ele.

Qual foi seu grau de envolvimento com política? Você chegou a fazer campanha, brigou com familiares de correntes políticas opostas?
Sim, fiz muita campanha, participei de caravanas e tudo mais. Até o ano passado, eu fazia parte dos grupos de apoio ao presidente e íamos às passeatas e ao encontro dele, quando vinha a Goiás. Briguei com muitos parentes e amigos que preferiram o [Fernando] Haddad. Com quase todos cortei relações, até hoje não converso. 

O que lhe fez mudar de ideia a respeito do presidente?
Uma série de coisas. Primeiro o que ele fez com o Moro e a postura dele contra a Lava Jato, que eu considero um patrimônio do nosso País que colocou políticos bandidos pela primeira vez na cadeia. Depois, veio a condução dele na pandemia. Eu não sou esquerdista: tomei cloroquina quando tive Covid-19, acho que a economia não pode parar. Mas não dá para negar que o Brasil foi um fiasco na pandemia. Temos meio milhão de mortos! Alguma coisa errada ele fez ou deixou de fazer. Sei que ele culpa governadores e prefeitos, mas o presidente afinal é ele, não adianta se fazer de vítima. 

Ainda tem convivência com outras pessoas que votaram nele? 
Algumas. Briguei com muitas que continuaram apoiando – na verdade, elas brigaram comigo. Eu me arrependo desse processo todo, porque no final não importa quem tem razão. Brigar por política é bobagem: político é tudo egoísta e não faz nada para você. Antigamente, antes dessa politização de tudo, eu me encontrava na casa de um dos meus parentes todo domingo para almoçar, aquela confraternização de família. Hoje, a maioria dos finais de semana é só eu e meu marido, porque brigamos primeiro com os petistas e depois com os que continuaram com Bolsonaro. É triste que ninguém respeite a postura diferente do outro; todo mundo acha que sabe o que é melhor e quer mandar no que os outros acreditam.

Muitas pessoas mudaram de ideia como você?
Eu fui uma das primeiras a desistir desse governo, então as pessoas vinham até mim quando achavam que o Bolsonaro tinha cometido algum deslize. Porque, entre os bolsonaristas, você não pode criticar as atitudes do presidente. Tudo que ele faz está certo e questionar dá muito medo perder essa rede de apoio – afinal, essas pessoas acabam virando nossas amigas e a gente não quer ser excluída por falar alguma coisa errada. 

Então muitas amigas minhas vieram falar comigo que estavam decepcionadas com alguma coisa. Tenho uma amiga que tomava cloroquina toda semana e teve problema de fígado, o marido morreu de Covid-19 mesmo tomando os remédios. A minha tristeza é que as pessoas anti-Bolsonaro pensam “bem feito pra ela, que colocou a gente nessa situação”, mas é uma coisa muito triste. Essa divisão toda é uma coisa muito triste. Eu me preocupo se algum dia vamos ser unidos novamente, sabe?

Qual sua avaliação atual do governo?
Estou muito desapontada. Acredito que ele começou a errar para proteger o Flávio [Bolsonaro, filho do presidente e senador pelo Patriota-RJ] e isso foi enrolando tudo. Primeiro tendo que intervir no Coaf [Conselho de Controle de Atividades Financeiras] e, para isso, teve de desmoralizar Sérgio Moro e precisou do apoio do centrão. Assim, cada vez mais, acredito que foi ficando enrolado e hoje está completamente na mão de outros políticos.

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Paulo Júnior**, servidor público

“Já tinha medo, mas não pensava que seria tão ruim”

Manifestação a favor de Sérgio Moro, antes das eleições de 2018 | Foto: Divulgação

O que lhe atraiu no Bolsonaro durante as eleições?
Nada me atraía no Bolsonaro. Votei nele por eu ser anti-PT. 

Qual foi seu grau de envolvimento com política? Você chegou a fazer campanha, brigou com familiares de correntes políticas opostas?
No primeiro turno cheguei a pedir voto, mas no segundo turno, não. Não briguei. 

O que lhe fez mudar de ideia a respeito do presidente?
Fiquei muito frustrado com o desempenho do Bolsonaro. Eu já tinha medo do que podia ser o governo, mas não pensava que seria tão ruim. As alianças com o centrão fizeram piorar minha avaliação do mandato e, na hora da dificuldade, vemos quem é a pessoa. Então, na gestão da pandemia, eu fiquei realmente impressionado com a incompetência dele. 

Ainda tem convivência com outras pessoas que votaram nele?
Só tenho contato com uma pessoa que continua a apoiá-lo. 

Percebe arrependimento ou decepção entre outros que votaram em Bolsonaro? 
Minha família toda votou nele no primeiro e no segundo turno. Todos se arrependem a ponto de pedir voto para o PT se o segundo turno de 2022 for entre Lula e Bolsonaro. 

Qual sua avaliação do governo atualmente?
A minha opinião é que o governo é péssimo. Não só o governo politicamente, mas também da perspectiva humanitária, a gestão da pandemia mostra um desprezo à vida. Ele mostra os piores tipos de características que o ser humano pode ter. Além disso, há rachadinha, corrupção, favorecimento de familiares, autoritarismo, entre outros. 

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João Lúcio**, advogado

“Bolsonaro conseguiu errar em absolutamente tudo”

Bolsonaro discute com jornalistas em evento em Sorocaba (SP) | Foto: Reprodução

O que lhe atraiu no Bolsonaro durante as eleições?
Paulo Guedes e a promessa que teríamos uma economia realmente liberal, impessoal, voltada para resultados como as que funcionaram em tantos países desenvolvidos.

Qual foi seu grau de envolvimento com política? Você chegou a fazer campanha, brigou com familiares de correntes políticas opostas?
Não fiz campanha, porque não acredito ser possível mudar a cabeça das pessoas em uma época tão irritada quanto a eleitoral. Só disse para quem me perguntava. Dizia que acreditava ser possível ter um governo que reconhecesse a ciência econômica como aceitamos as outras ciências.

O que lhe fez mudar de ideia a respeito do presidente?
Foi logo no começo, quando percebi que Paulo Guedes não tem autonomia nem autoridade nenhuma. Ele é desrespeitado, desautorizado, ridicularizado em público e não consegue escolher a própria equipe ou tomar suas atitudes. Quando digo que sou liberal, as pessoas acham que é palavrão, que quero desigualdade.

Mas é exatamente o contrário, é onde vejo mais evidências científicas, modelagens matemáticas, e mais recursos tecnicamente reconhecidos para acabar com a desigualdade social. Entretanto, logo vi que Bolsonaro não entendia a filosofia do liberalismo de mercado como eu. Na verdade, aquela conversa de campanha de “Posto Ipiranga” e pouca interferência na economia era só conversa de campanha mesmo. 

Ainda tem convivência com outras pessoas que votaram nele? 
Sim. 

Percebe arrependimento ou decepção entre eles? Em muitos ou em poucos?
Percebo decepção em muitos que esperavam o mesmo que eu. Hoje são críticos do governo como eu. 

Qual sua avaliação atual?
É uma catástrofe econômica, política e social. O pior governo que consigo me lembrar. Se o governo fosse exatamente como é, mas meus ideais liberais tivessem sido satisfeitos, ainda assim eu não acho que valeria a pena, porque ele desrespeita minorias, jornalistas, cientistas e todos os que pensam diferente. Mas nem o liberalismo foi adotado, é um governo nacionalista. É difícil, mas acho que Bolsonaro conseguiu errar em absolutamente tudo.

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Rodrigo Bezerra, pesquisador e doutorando

“Governo chamou de balbúrdia o que fazemos”

Sara Winter: a bolsonarista que ameaçou um ministro do Supremo Tribunal Federal | Foto: Reprodução

O que lhe atraiu no Bolsonaro durante as eleições?
O discurso de que ele seria diferente dos outros presidentes. Acho que tivemos muito personalismo no passado, muito favorecimento às pessoas próximas. O discurso de que Bolsonaro discordava disso me fez querer ver se ele faria diferente mesmo.

Qual foi seu grau de envolvimento com política? Você chegou a fazer campanha, brigou com familiares de correntes políticas opostas?
Fiz alguma campanha nas minhas redes sociais e briguei muito com colegas na universidade. 

O que lhe fez mudar de ideia a respeito do presidente?
O tratamento que ele deu ao conhecimento científico. Cortou verbas de projetos importantes, de órgãos de fomento à pesquisa. Péssimas propostas para a universidade pública, como o Future-se, e um desrespeito aos pesquisadores em geral. Chamou de balbúrdia o que fazemos aqui, que é nossa profissão que encaramos muito seriamente. Não desrespeitou apenas os pesquisadores ruins, mas generalizou e disse que nenhum prestava, a não ser que concordasse com ele.

Ainda tem convivência com outras pessoas que votaram nele? 
Sim, alguns amigos. 

Percebe arrependimento ou decepção entre eles? Em muitos ou em poucos?
A maioria, por ser cientista, também se arrependeu. Alguns poucos radicalizaram suas posições para não dar o braço a torcer: é muito difícil admitir que está errado, principalmente após tanto investimento pessoal. Eu briguei com muitos colegas na faculdade por conta do Bolsonaro. Admitir que eles estavam certos após ouvir insultos deles é difícil. Mas não posso estar certo sempre, embora eu tenha tentado acertar.

Qual sua avaliação atual?
Péssimo. Pior impossível. Eu já havia abandonado o barco do bolsonarismo em maio de 2019, quando percebi que Weintraub não tinha projeto para educação e usou a frase famosa da balbúrdia. Mas com a pandemia eu percebi que, realmente, ele e os ministros não fazem a menor ideia do que estão fazendo. 

* Nome alterado a pedido do entrevistado
** Sobrenome omitido

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