O que há de bom no Brasil de hoje?

Pode ser difícil de encontrar um ponto positivo, mas nem tudo está ruim no País. E, olhando com cuidado, dá para perceber aspectos animadores

Apesar dos transtornos, a força da democracia é um valor positivo do Brasil dos tempos atuais

Apesar dos transtornos, a força da democracia é um valor positivo do Brasil dos tempos atuais

Elder Dias

Cenário político: uma presidente recém-reeleita vive uma crise grave no governo, com um escândalo de proporções ainda incertas, mas já gigantesco a ponto de envolver o maior montante desviado da história do País. Depois de vencer um pleito disputado até a hora da apuração, ela encara agora as consequências de ter tomado medidas impopulares — aumentos do preço de combustíveis, cortes em direitos trabalhistas, redução de subsídios, juros mais altos etc. —, diametralmente opostas ao que prometera em campanha.

Cenário econômico: a inflação está mostrando novamente as garras. Em janeiro, o índice foi o maior alcançado em um mês desde fevereiro de 2003, há 12 anos. Não há sinais de retomada do crescimento, pelo contrário: indústrias apontam para menor produção este ano e agricultores preveem uma quebra considerável na safra. Da infraestrutura deficitária, a ameaça de apagão energético é a cereja do bolo para desencorajar os mais empreendedores.
Cenário ambiental: a maior cidade do Hemisfério Sul e o coração financeiro do Brasil está condicionada aos desígnios de São Pedro para que se viabilize. Sem chuva, sem São Paulo. É uma questão climatológico-matemática imposta a uma área metropolitana que comporta um em cada oito brasileiros de um país de tamanho continental. A crise hídrica, causada pela imprudência humana diante de aspectos de previdência e de providência, é uma realidade. E o caos no coração financeiro do Brasil, uma amedrontadora possibilidade.

Cenário social: a cada ranking internacional divulgado, o Brasil repete posições críticas em relação a educação, violência, saneamento e outros temas. Escolas, hospitais, rede de tratamento de água e esgoto, novos presídios e novas leis criminais, tudo é postergado depois que as eleições passam. Campanha após campanha, esse País ideal é protelado para o futuro.
Cenário esportivo: o efeito “Copa das Copas” passou rápido e ficaram estádios subutilizados e já em estado de abandono; os Jogos Olímpicos no Rio estão batendo à porta e não há ainda mobilização alguma em torno do evento; o futebol brasileiro mergulha em uma de suas maiores crises e perde seus atuais melhores jogadores para mercados como a China, a Ucrânia e o Catar.

Carlos Augusto Silva, Cássia Fernandes, Everaldo Leite, Fernando Cupertino e Valdirene Oliveira: democracia, iniciativa e qualificação como pontos positivos

Rombo na Petrobrás, recessão à vista, crise hídrica, ameaça de apagão, caos na segurança, saúde na UTI e educação com nota vermelha. Achar um motivo de otimismo seria o “gol de honra”. Afinal, como soubemos amargamente, um 7 a 1 ainda é menos ruim do que um 7 a 0.
Mas a questão é mais ampla: há algo de bom no Brasil de hoje? O Jornal Opção fez essa pergunta a meia dúzia de goianos de várias áreas, em busca de uma luz-alento. Não foi fácil enxergar o copo meio cheio — ou pelo menos com alguma quantidade de líquido interessante dentro dele. O professor e crítico literário Carlos Augusto, por exemplo, não resistiu à ironia: “Se me pedisse um tratado ligando Heidegger à produção de tomates em Goianápolis seria mais fácil”, brincou.

A seguir, com sobriedade, o intelectual hoje radicado em São Paulo ponderou sobre um valor que considera positivo no Brasil atual: “A democracia. Temos instituições, que, bem ou mal, ainda fazem seu papel, investigam, julgam, colhem depoimentos. Isso é o que nos restou, que não é pouco, e o sumo por meio do qual podemos virar o jogo”. A diversidade é outro fator que segura sua esperança no País. “Ela nos torna um povo extremamente adaptável. Vejo o Brasil e o povo brasileiro como algo que pode a qualquer momento fazer um gol em prol de seu processo civilizatório”, diz, prosseguindo a metáfora futebolística.

A jornalista e escritora Cássia Fernandes segue em linha semelhante: “O que resta de bom no Brasil é que a esperança ainda não morreu. Ela ainda está por aí, dispersa, desarticulada, e não em grandes movimentos tipo “o gigante acordou”, que saem às ruas e logo adormecem”, destaca, referindo-se aos protestos de 2013, grandiosos, mas que logo se arrefeceram. Dizendo estar em busca de um “modo pequeno de ajudar a construir um País melhor”, ela cita um caso particular. “Conheço um cara que tem uma ONG que sai pelo Nordeste fazendo poços artesianos para comunidades carentes. Não ganha nada com isso, é trabalho voluntário, não rende dividendos políticos, nada. E assim há muitas outras pequenas iniciativas dos que acreditam talvez não mais em uma utopia política, mas na ideia de bem coletivo.”

O melhor do Brasil ainda é o brasileiro, afirma o médico e músico Fernando Cupertino, citando Câmara Cascudo. Não há salvação que passe ao largo do indivíduo — e esse é o ponto que ele considera que deva ser atacado. “A crise política do País é o retrato de uma concepção de Estado voltada para si mesmo, esquecendo-se de que o centro das atenções é o cidadão. Em lugar disso, vê-se uma sociedade cada vez mais onerada em tributos e um Estado perdulário, sem capacidade de planejamento e de visão estratégica, interessado apenas na acumulação de poder e de vantagens para poucos”, diz. “O nosso principal trunfo é ainda vivemos num ambiente democrático, mesmo com todas as mazelas que ele apresenta”, conclui, em tese concordando com Carlos Augusto.

O economista Everaldo Leite vê um aspecto mais palpável para definir o que considera positivo na cena atual do País. “No campo econômico estrutural, um dos gargalos evidentes é o da escassez de mão-de-obra qualificada. Acredito que o Brasil tem melhorado substancialmente neste quesito. A expansão dos ensinos de capacitação e dos próprios cursos superiores, num médio prazo, ajudarão a minorar esse déficit. Também, a inclusão de jovens em projetos do tipo Pronatec, FIES e as bolsas para estudar no exterior contribuem muito nesse sentido”, prevê. Segundo ele, a ideia é de que, em uma conjuntura mais positiva, com melhor educação, se poderá aumentar a taxa de produtividade do trabalhador brasileiro, que hoje ainda é “baixíssima”.

Para a professora universitária e pedagoga Valdirene Oliveira, é exatamente a contradição da História que pode pontuar uma possibilidade interessante para fazer do Brasil um país melhor. “No Brasil e no mundo, para construir, para democratizar, para alimentar, para ter acesso às tecnologias, nunca houve conjuntura tão positiva como agora”, considera, ressaltando o grave momento em questões básicas, como a água, que surgem como “desafios para a humanidade”.

Contra a corrente, padre enumera fatos positivos e diz: “O Brasil é o que mais cresce em justiça social”

Pe. Paulo Cezar: “Temos o melhor tratamento para portadores de HIV”

Pe. Paulo Cezar: “Temos o melhor tratamento para portadores de HIV”

O padre redentorista Paulo Cezar Nunes de Oliveira é o que se poderia considerar “do contra”, no que diz aspecto à corrente de indecisos ou desconhecedores de algo de bom que ocorra no Brasil de hoje. Para ele, há muito de positivo. Também filósofo e comunicador — é diretor-geral da Rádio Difusora de Goiânia —, Paulo Cezar fez questão de enumerar uma série de fatores que deixariam os mais céticos apenas como mal informados.

“Em primeiro lugar, não vejo que as questões gerais por que passa o Brasil como exclusivas ou só de nossa democracia. Tenho acompanhado a crise na Grécia, na Espanha, na Itália e, por último, na Polônia. Até mesmo a Alemanha está vivendo uma crise de representatividade — muitos serviços públicos estão sendo investigados por ligações indevidas com partidos. A diferença é que, nesses países, não é considerado crime muito do que se pratica na política do Brasil, como o lobby, por exemplo.

A economia brasileira não vai bem — mas isso também não é exclusividade nossa. Veja o crescimento mundial. Quem cresceu além da média dos últimos três anos? E mais: nossa economia continua sendo a mais inclusiva. Não adianta crescimento econômico sem distribuição de renda. Nesse sentido, o Brasil ainda é o país mais justo.

Outro fator que precisa ser lembrado é que somos um dos poucos países em desenvolvimento que está investindo em saúde pública e gratuita e democratizando o acesso à educação de terceiro grau. Tem gente que parabeniza o crescimento da China, por exemplo, ou compara o crescimento econômico do Brasil ao do Peru. Pura bobagem. São analogias completamente descabidas. A China ainda não tem um sistema público de saúde e 70% da população não tem previdência. São poucos os que estão enriquecendo. No Peru, a saúde pública está começando a se organizar agora, as universidades são poucas e o investimento público em ensino ainda é precário.

O Brasil possui ainda um dos sistemas de produção de alimentos mais diversificados do planeta e que se torna cada vez mais eficiente. O acesso à alimentação no Brasil tem se tornado melhor. Mas falta racionalidade no uso dos alimentos, é óbvio.

O acesso a internet é outra ferramenta que não podemos esquecer. Somos um dos países mais livres do mundo. Tem gente que diz que aqui tem censura. Como assim? Você tem o direito de publicar em sua página pessoal nas redes sociais tudo o que quiser. Experimente fazer isso em alguns países europeus. Experimente fazer o mesmo nos Estados Unidos, na China, na Rússia, ou mesmo na Coreia do Sul — considerada por muitos mal informados ‘superdemocrática’.

Há outro valor de nossa gente que não se encontra em quase nenhum outro país: a solidariedade. Estamos tão acostumados a ver tanta desgraça na TV que nos esquecemos das enormes redes de solidariedade que existem e que tem feito a diferença na história desse país, como foi a Pastoral da Criança. Nosso índice de mortalidade infantil é um dos menores do mundo. Também temos o melhor tratamento do planeta para portadores de HIV.

Por fim, quero dizer algo com muito orgulho: nós brasileiros podemos sorrir e beijar na boca sem nojo. Somos, de longe, o país com o melhor sistema de tratamento dentário-ortopédico do mundo. Nossos jovens — mesmo os de classe baixa, estão arrumando a boca, para poder sorrir, sem vergonha de mostrar os dentes. Olhe para os países europeus, para a China, para a Índia, a Rússia e até mesmo para nossos vizinhos argentinos! Isso sem falar que temos também o melhor sistema de tratamento de visão do mundo e de baixo custo, comparado aos serviços de muitos países. Goiânia, a propósito, é referência mundial em tratamento oftalmológico.

Ainda podemos contar que, na área de saúde, nenhum país em desenvolvimento tem metade da rede de tratamento de câncer que temos. O Brasil é o país que mais cresce em justiça social e o que hoje mais tem permitido acesso aos bens de consumo, inclusive de saúde.”

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Bianca Kactus

Paulo Cezar Nunes de Oliveira o eterno PC,quando o conheci era um rapaz de bermuda, camiseta simples e chinelos, super barbudo e calado e logo pensei:”que cara esquisito” – alguns minutos de conversa e me interessei muito por sua forma de ver o mundo e falar dele e alguns dias de convivência e passei a admira-lo…Paulo Cezar veio ao mundo mas sua estrela ficou no céu brilhando e iluminando ele sempre. Um menino da roça que deu certo na roça, deu certo na cidade do seu país e deu certo fora dele na Itália.É o tipo de pessoa que podemos… Leia mais