O que é IPO e por que a Jalles Machado estuda realizar o processo

Enquanto o valor do real sofre corrosão, o mercado, inflado e ávido, procura novos ativos seguros

Usina Jalles Machado, localizada em Goianésia. Empresa gera mais de 4 mil empregos diretos no Estado de Goiás | Foto: Reprodução/Jalles Machado

Após a divulgação feita pela Valor Econômico de que a empresa Jalles Machado estaria preparando sua estreia na bolsa de valores brasileira, Otávio Lage de Siqueira Filho, presidente da companhia, retificou a informação ao Jornal Opção ao afirmar que as alternativas ainda estão a ser estudadas – e que pode realmente haver a abertura de capital pela Oferta Inicial de Ações (IPO, na sigla em inglês), pela venda de dívidas por meio de debêntures incentivadas ou ainda por outro meio.

Segundo a apuração do Valor, a companhia teria contratado quatro bancos para possibilitar sua oferta pública inicial de ações: XP, BTG, Santander e Citi, que coordenariam a operação para levantar R$ 1 bilhão. Entretanto, a Jalles Machado divulgou um comunicado à imprensa com a seguinte informação: “Não há, no momento, decisão definitiva sobre a entrada da empresa no processo de Oferta Pública Inicial de Ações para levantar recursos para novos investimentos”.

Otávio Lage de Siqueira Filho. afirmou que a decisão depende principalmente da análise de mercado, da averiguação da disposição dos investidores e do estudo das taxas. “Vai depender também se o mercado de açúcar e álcool continuará em expansão. Até o final do ano teremos uma posição mais definida”, disse o presidente da empresa.

Presidente da Jalles Machado, Otávio Lage de Siqueira Filho | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Histórico

A companhia foi fundada pelo ex-governador de Goiás, Otávio Lage de Siqueira, em 1980. Na época, para enfrentar a crise do petróleo, o governo federal, por meio do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), investiu na produção e incentivou o consumo do combustível de cana. Hoje, a Jalles Machado gera mais de 4 mil empregos diretos e tem capacidade de moer 5,2 milhões de toneladas de cana de açúcar, que garantem 240 mil metros cúbicos de álcool e 5,65 milhões de sacos de 50 quilos de açúcar.

Atualmente, a empresa é a maior exportadora de açúcar orgânico do mundo – vende seu produto a 21 países, como Japão, Estados Unidos, Canadá, China, as comunidades judaica e muçulmana. Além de possuir diversos prêmios e certificações ambientais, a companhia foi a primeira do setor sucroenergético a efetivar a venda de créditos de carbono.

Recentemente, a IFC, membro do Grupo Banco Mundial, concedeu um empréstimo de longo prazo de US$ 27,5 milhões (R$ 153 milhões) para a Jalles Machado. A intenção é garantir liquidez para minimizar impactos financeiros da pandemia, bem como aumentar a capacidade de produção de produtos sanitizantes e garantir o fornecimento contínuo desses itens essenciais para o enfrentamento da pandemia.

Por que investir no IPO

Greice Guerra, economista e analista de mercado especialista em bolsa de valores, afirma: “Da perspectiva do Estado, será muito bom se realmente a empresa conseguir iniciar suas atividades na bolsa como está planejando porque isso irá projetar Goiás mais ainda a nível nacional. Isso fortalecerá bastante o PIB do Estado e atrairá investimentos em um momento tão delicado para o País”.

Economista Greice Guerra diz que “será muito bom se realmente a empresa conseguir iniciar suas atividades na bolsa como está planejado” | Foto: Reprodução

Do ponto de vista do investidor, a vantagem dos IPOs, segundo Greice Guerra, é a possibilidade de se comprar ações antes que seu preço de mercado se forme. “Depois de formado, o preço fica sujeito às oscilações do mercado interno, externo, da governança corporativa da empresa, de balanços trimestrais, do preço do dólar e de incontáveis fatores. Ao comprar no IPO, o investidor pode se beneficiar antes que o preço se estabeleça no mercado”, afirma Greice.

Análise de mercado

O economista e ex-secretário da Fazenda, José Paulo Loureiro, relata que “o mercado está ávido”. Isso significa que há aumento de preço – principalmente das ações de empresas exportadoras, como a Jalles Machado, que lucram com a alta do dólar – enquanto a procura também está alta. A demanda continua alta a despeito dos preços por conta do cenário político e da pandemia, que faz com que pessoas percam a confiança no dinheiro e prefiram investir em ativos que valorizem mais.

Ex-secretário da Fazenda e economista, José Paulo Loureiro avalia que “o mercado está ávido” | Foto: Reprodução

“Estamos com a inflação real em torno de 40% e nossa taxa de juros Selic, que deveria por ofício acompanhar este índice, está muito abaixo (atualmente em 2%). Agora, até quem tem dinheiro guardado sofre com a corrosão da moeda. Geralmente, o mercado tem uma uniformidade: a inflação aumenta e as taxas de juros acompanham. Mas este não é o caso atualmente. Por isso, o IPO é uma grande oportunidade”, declara Loreiro.

Segundo o ex-secretário da Fazenda, os fatores que levam a instabilidade são as indefinições diante dos processos de reforma tributária, administrativa, teto de gastos e a disparada do dólar. Apesar destes fatores, a demanda dos produtos comercializados pela Jalles Machado – em especial a do álcool sanitizante – não reduziu. Até aumentou.

“Como é empresa familiar, vão se capitalizar. A partir do momento em que abrirem o capital na bolsa, haverá vários acionistas. Em compensação, haverá mais compliance, controle, fiscalização, e a empresa cresce mais. Neste processo, ainda não sabemos quanto do capital ficará com acionistas e quanto ficará para a empresa. E não sabemos ainda o que eles pretendem fazer com este aporte. É uma informação vital para o mercado, que está atrás de soluções, mesmo com toda insegurança atual. Estamos vendo entrada de dinheiro mesmo com o risco do atual cenário”, afirma Loureiro.

O que é um IPO

Em 2020, mesmo ao passar por uma das maiores crises da história causada pela pandemia da Covid-19, 13 empresas passaram a ser listadas na Bolsa de Valores de São Paulo e o número de ofertas primárias de ações protocoladas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) chegou a 44. Só no mês de agosto, cerca de 20 companhias protocolaram o pedido de IPO. Mas o que é o IPO e o que leva uma empresa realizar esse processo?

Pollyanna Rodrigues Gondin, economista e professora da Escola de Negócios do Centro Universi­tário Internacional Uninter, explica que a Oferta Inicial de Ações (IPO, na sigla em inglês) é um processo que possibilita abrir o capital e tornar-se, assim, uma companhia com ações negociadas na Bolsa de Valores. “Após esse processo, qualquer pessoa pode se tornar sócia ou dona de uma parte dessa empresa. Os investidores interessados podem comprar as ações através de uma corretora de valores”, comenta.

Por que as empresas abrem capital?

A Oferta Inicial é uma forma de a empresa captar recursos, já que na prática está a vender pequenos pedaços da instituição. “Mesmo tendo um alto custo, o processo pode valer mais a pena do que um empréstimo bancário, por exemplo. Esse dinheiro levantado, que veio por meio dos investidores, pode ser utilizado para financiar novos projetos e expansão da empresa”, afirma Pollyanna.

Mais pessoas na Bolsa de Valores

Com o baixo retorno da renda fixa e a alta volatilidade da bolsa, muitas pessoas passaram a investir em renda variável. Essa migração pode ser notada com o aumento no número de investidores pessoa física na Bolsa de Valores de São Paulo, que chegou a 76% em oito meses. As pessoas físicas que investem pulou de 1,68 milhão ao final de 2019 para 2,96 milhões, em agosto.

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