O que a pandemia deixará de legado?

Fortalecimento da ciência, ampliação do número do acesso à Saúde e colaboração internacional são alguns aspectos positivos que podem ser destacados

Hospital de Campanha em fase de finalização | Foto: Ascom

Com 4,14 milhões de mortos em todo o mundo, a pandemia de Covid-19 já pode ser classificada como o maior desastre global desta geração. Entretanto, a resposta da sociedade à ameaça poderá sobreviver ao coronavírus e ficar como legado para a posteridade. Fortalecimento da ciência, ampliação do número de leitos de UTI e colaboração internacional são alguns aspectos positivos que podem ser destacados.

Um exemplo concreto é o número de respiradores disponíveis pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Atendendo ao Decreto nº 8777/16, o Ministério da Saúde forneceu dados a respeito de respiradores distribuídos a estados e municípios. Segundo o órgão, foram 1.314 aparelhos no total dedicados ao território goiano em toda a pandemia. Em reportagem do dia 19 de abril de 2020, o Jornal Opção publicou que o número de respiradores disponíveis na cidade de Goiânia era de 638; desde então, o número mais que dobrou com a chegada de 759 novos aparelhos apenas na rede municipal.

O Governo de Goiás respondeu ao pedido de informações feito pelo Ministério Público Federal (MPF) sobre os hospitais de campanha (HCamps) do Estado. No documento, a gestão estadual esclareceu que, de um total de nove estruturas abertas no território goiano, somente uma, que era federal, foi fechada por decisão do Ministério da Saúde, em Águas Lindas de Goiás.

Além das oito unidades que seguem em pleno funcionamento, o governo informou que realizou investimento para a extensão do quantitativo de leitos, por meio de convênios com municípios e ampliação da rede própria, com foco na regionalização da saúde. O governo ainda informou que os oito HCamps foram feitos de alvenaria que, posteriormente à pandemia, terão caráter duradouro. Com a medida, o intuito do governo estadual é de que todo o dinheiro investido tenha lastro e deixe legado como estruturação, fortalecimento, regionalização e interiorização do sistema de saúde em Goiás.

Das oito estruturas, quatro foram estadualizadas logo no início da pandemia: em Formosa, Jataí, Luziânia e São Luís de Montes Belos. As demais, localizadas em Itumbiara, Goiânia, Porangatu e Uruaçu, tiveram outros processos de estruturação. Com esse trabalho de regionalização da saúde e ampliação da rede, o Estado mantém leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em 21 municípios goianos.

Para o titular da SES, Ismael Alexandrino, todo esse processo impacta positivamente na saúde dos goianos. “Buscamos otimizar cada recurso, transformando-o em atendimento à população”, ressaltou. O quantitativo atual de 1.250 leitos dedicados à Covid-19, sendo 451 leitos críticos, supera em muito o total de estruturas do período anterior à pandemia.

Todos os hospitais de campanha (Hcamps) abertos pelo Governo de Goiás seguem em atividade e ficarão de legado após a pandemia, atendendo, de forma regionalizada, outras situações clínicas. As unidades dedicadas aos casos de coronavírus estão Goiânia, Luziânia, Formosa, Itumbiara, São Luís de Montes Belos, Jataí, Uruaçu e em Porangatu (parceria com a prefeitura). O Hospital de Campanha de Águas Lindas foi fechado no dia 22 de outubro de 2020, a pedido do governo federal, via Ministério da Saúde. O local contava com 200 específicos para tratamento de pacientes da Covid-19.

Opinião de pensadores

Yuval Harari, autor de “Sapiens” e “Homo Deus” escreveu um livro de notas sobre a pandemia | Foto: Reprodução

Três pensadores de renome mundial compartilharam suas opiniões sobre os desafios e oportunidades que resultarão desta pandemia. Em suas redes sociais e à britânica BBC, os autores enumeraram suas impressões.

Yuval Noah Harari: O historiador e filósofo israelense, autor de Sapiens: Uma Breve História da Humanidade”, que vendeu mais de 27 milhões de cópias, aborda o dilema da tecnologia que foi desenvolvida para combater a covid-19 e como isso poderia levar ao “melhor sistema de saúde da história”, mas também abrir as portas para uma nova era de vigilância invasiva e opressora.

“A crise da covid-19 pode ser um marco, uma virada significativa na história da vigilância, porque a vigilância está sendo revolucionada. Está se transformando de uma vigilância da pele em uma vigilância subcutânea. Essas observações podem dizer a eles se estamos doentes ou não, mas também pode dizer a eles como nos sentimos. Porque os sentimentos, como as doenças, são fenômenos biológicos. A vigilância subcutânea pode criar o melhor sistema de saúde do mundo, um sistema que detecta uma doença antes que você saiba que a tem. Mas também pode dar lugar ao pior regime totalitário que já existiu, um regime que sabe mais sobre nós do que nós mesmos. Uma pulseira biométrica que monitora você 24 horas por dia pode facilmente distinguir se você é gay ou hétero e se você gosta ou não do governo”, reflete Yuval Harari.

Rebeca Grynspan: A economista e ex-vice-presidente da Costa Rica argumenta que, embora todos os países enfrentem dificuldades financeiras, os chamados de “renda média” sofrerão o pior impacto. Ele exorta as nações ao redor do mundo a se unirem, “abandonando seus interesses políticos e econômicos” para proteger e apoiar as nações mais vulneráveis e os 5 bilhões de pessoas que vivem nelas.

“Alguns dizem que o coronavírus não discrimina, que afeta a todos nós igualmente. Mas isso é apenas parcialmente verdade. Países de renda média representam um terço do produto bruto do planeta, 75% da população mundial e 62% dos pobres. Este é talvez o momento mais crítico que as instituições internacionais enfrentaram desde a 2ª Guerra Mundial. Não podemos deixar passar mais um minuto”, escreveu a economista.

Jared Diamond: O antropólogo e historiador americano, mais conhecido por seu livro vencedor do Prêmio Pulitzer Guns, Germs and Steel (Armas, Germes e Aço), prevê o surgimento de uma cultura de cooperação internacional, fomentada pela resposta global à crise. “Desde antes do coronavírus, o mundo enfrenta (e principalmente ignora) outros problemas globais como as mudanças climáticas e o esgotamento dos recursos naturais. A covid-19 é uma ameaça clara e iminente. Ela mata rapidamente. Portanto, prevejo que a covid-19 nos forçará a adotar uma campanha global como a que já teve sucesso com a eliminação da varíola em 1980”, escreveu ele.

Maior acesso à saúde

O Estado de Goiás lidera o ranking nacional de pessoas que procuraram e conseguiram atendimento médico. Em comparação aos demais Estados e ao Distrito Federal, a população goiana foi a que mais conseguiu ser atendida no ano passado. O dado faz parte da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

De acordo com o estudo, cerca de 1,1 milhão de goianos procuraram atendimento de saúde nas duas últimas semanas anteriores à data da pesquisa. Desses, 90,1% conseguiram atendimento. O número está acima da média nacional, de 86,1%. Ao lado de Goiás está Mato Grosso do Sul, que também registrou o mesmo índice, ao atender 415 mil pessoas no período avaliado pela pesquisa.

Foram garantidos investimentos de 12,01% da receita corrente líquida do Estado em ações e serviços públicos de saúde, totalizando o pagamento efetivo de R$ 2,28 bilhões no ano passado. A legislação estabelece que o Estado tem a obrigação de aplicar, no mínimo, 12% dos recursos arrecadados em despesas com saúde. Há oito anos, esse teto da vinculação constitucional não era efetivamente pago em Goiás.

De acordo com a pesquisa, dos que buscaram assistência médica em Goiás, 77,3% (o que equivale a 919 mil pessoas) foram atendidos logo na primeira procura. Nesse quesito, Goiás é o quinto Estado com melhor desempenho no País, ficando acima das médias nacional e do Centro-Oeste, que são de 73,6% e 75%, respectivamente.

Goiás também se destacou na proporção de pessoas que ficaram internadas em hospitais por 24 horas ou mais nos 12 meses anteriores à data da entrevista. O porcentual foi de 8,6% (604 mil) de pessoas, superando a média do Brasil, que foi de 6,6% (13,7 milhões) e do Centro-Oeste, de 7,8% (1,2 milhão). Desse total, 60,9% foi por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), ou seja, de pessoas atendidas em unidades públicas ou conveniadas.

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