“O Irã é um país pacífico”

Embaixador da nação persa fala sobre as relações com os Estados Unidos, Arábia Saudita e Israel e diz acreditar que os iranianos estão longe de qualquer guerra

O embaixador Seyed Ali Saghaeyan se encontrou com o governador de Goiás, José Eliton. O Irã é um dos principais países de destino das exportações goianas | Foto: Wildes Barbosa

Em visita oficial ao Estado de Goiás, o embaixador do Irã no Brasil, Seyed Ali Saghaeyan, concedeu uma entrevista exclusiva ao Jornal Opção após o cumprimento da agenda na quarta-feira, 16.

O diplomata conheceu as instalações do Porto Seco Centro-Oeste, em Anápolis, de onde seguiu para Goiânia. Na capital, fez questão de visitar um centro islâmico, localizado na Vila Santa Isabel, antes de se encontrar com o governador José Eliton (PSDB) e, posteriormente, com o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), Pedro Alves de Oliveira.

O Irã é um grande parceiro de Goiás. Em 2017, ocupou a quinta posição no ranking dos países de destino de exportações goianas — os principais produtos exportados são carnes, milho, complexo soja, gelatinas e seus derivados.

Seyed Ali Saghaeyan demonstrou interesse em utilizar o Porto Seco Centro-Oeste como entrada das exportações iranianas não só no Brasil, mas também em toda a América do Sul. Assim, com o recente anúncio de novas sanções econômicas dos Estados Unidos ao Irã, Goiás pode desempenhar um papel importante na economia do país persa.

Nesta entrevista, que foi concedida em inglês, o embaixador discorreu sobre as relações com os EUA, Arábia Saudita e Israel. O diplomata afirma que o Irã está longe de uma guerra com qualquer país. Além disso, Saghaeyan argumenta que o novo príncipe herdeiro da coroa saudita, Mohammad bin Salman, é inexperiente e considera a retirada do governo estadunidense do acordo nuclear iraniano um grande erro da administração Donald Trump.

Seyed Ali Saghaeyan é licenciado em Ciências Educativas pela Universidade de Alame Tabatabai, em Teerã. Já foi embaixador do Irã na Tanzânia e na Armênia, cônsul-geral em Karachi, no Paquistão, e encarregado de negócios em Buenos Aires, na Argentina.

Como o sr. avalia a sua visita a Goiás?
Há uma relação de amizade entre Irã e Brasil. Goiás é um dos Estados vizinhos de Brasília e aceitei o convite do governador e demais autoridades. Tivemos uma visita muito boa e vimos um enorme potencial de cooperação, que desejamos fortalecer.

Irã é um grande parceiro de Goiás. Com as novas sanções anunciadas pelo governo dos Estados Unidos, esta relação vai ser afetada de alguma maneira?
Acredito que não. Nossa relação política e nas áreas de ciência e negócios podem se expandir no futuro. Um único país não é capaz de parar outros, especialmente o Irã. Nunca desistimos durante o período de sanções.

Recentemente, os Estados Unidos se retiraram do acordo nuclear iraniano. O sr. pensa que este acordo acabou ou ainda há alguma perspectiva de continuidade, já que os países europeus se opuseram à medida do governo estadunidense?
Um único país não pode se retirar e cancelar esta cooperação tão importante entre outros cinco países. Este foi um grande erro do presidente Donald Trump. O mundo não é pequeno o suficiente para os americanos fazerem com que um país grande como o Irã se renda.

O Irã está disposto a negociar um novo acordo com os Estados Unidos?
Nós já o fizemos com o ex-presidente Barack Obama e mais cinco países. Esta negociação foi finalizada e apoiada pelo Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas). Não há necessidade de negociar um novo acordo. Já está finalizado.

O sr. acredita que Israel desempenhou um papel importante nesta decisão dos Estados Unidos?
É o que parece. Os Estados Unidos são um país soberano e não estão nas mãos do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, mas pode ter havido lobby e um erro foi cometido. Não é importante para nós se Israel está feliz.

Qual deve ser a postura do governo iraniano na guerra da Síria a partir de agora com os confrontos entre Israel e Irã?
Segundo o exército sírio, não houve confrontos entre Israel e Irã. Israel entende perfeitamente a postura do Irã e eles nunca cometeram erros conosco, mas apoiam o Daesh (acrônimo para Estado Islâmico). Eles apoiam o terrorismo. Há muitas evidências disso. E agora estão sendo noticiadas as mortes de mais de 60 inocentes cometidas pelo exército de Israel na Faixa de Gaza. É uma vergonha para os israelenses e para o mundo.

O sr. acredita que o Irã está próximo de uma guerra com Israel?
De forma alguma. O Irã é um país pacífico que quer conversar com todos os países vizinhos. Estamos prontos para negociar com eles.

Muitas pessoas no Ocidente enxergam o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammad bin Salman, como uma esperança. Outros, como uma ameaça. Como o sr. o enxerga?
Já propusemos muitas coisas à Arábia Saudita, mas Salman é novo no cargo e não tem experiência o suficiente. Agora, ele está no Iêmen, gastando dinheiro e matando pessoas inocentes. Ele tem que sair de lá. O Irã é amigo do Iêmen e nós já propusemos negociações de paz.

Não somos ameaça. Não há nenhuma evidência de que o Irã atacou algum país vizinho nos últimos 200 anos. Mesmo quando Saddam Hussein (ex-presidente do Iraque) nos atacou, apenas nos defendemos. Infelizmente, àquela época, alguns países da região apoiaram e deram assistência a Saddam.

Com este cenário internacional, a relação entre Irã e China deve ser intensificada? A China vai ser uma aliada importante do governo iraniano?
Sim. Sempre tivemos uma relação fantástica com a China. Na política e na cooperação em diversas outras áreas. Na última semana, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Javad Zarif, visitou o seu correspondente chinês em Pequim. Nossa relação foi renovada e eles nos apoiam.

Uma nova rota de trem entre a China e o Irã foi inaugurada. Faz parte da Nova Rota da Seda, cujos países participantes desfrutam de muitos negócios. Este é um bom exemplo para a paz.

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Carlos Spindula

O Ira foi um dos paises, junto com a China e a Russia, que reconheceram a “re-eleicao” de Maduro na Venezuela, ai voce tire as conclusoes que quiser sobre quem eles defendem e em quem acreditar.

pietroangelo

O Irã ainda apedreja mulheres e queima o rosto delas com ácido?