O assassino de Glauco e a crônica de um latrocínio anunciado

O sistema jurídico-penal brasileiro – com a cumplicidade da psiquiatria e da psicologia – insiste em transformar o cidadão comum em cobaia de criminosos tido como loucos, que deviam ser afastados definitivamente do convívio social

José Maria e Silva

Glauco Villas-Boas, cartunista: brutalmente assassinado, seu algoz foi solto para praticar mais crimes / Reprodução/Estadao

Glauco Villas-Boas, cartunista: brutalmente assassinado, seu algoz foi solto para praticar mais crimes / Reprodução/Estadao

“A medicina não cu­­ra drogado: ela cria bombas hu­­manas, ao transformar o viciado num duplo dependente químico – das drogas e das medicações, misturadas indiscriminadamente no seu organismo.” Essa minha afirmação, que consta de um artigo sobre menores assassinos publicado em 21 de abril de 2013, revelou-se premonitória. Na semana passada, uma dessas bombas humanas – criadas por uma legislação criminosa e uma ciência cínica – voltou a fazer mais duas vítimas: o estudante Mateus Pi­nheiro de Morais, de 21 anos, cruelmente assassinado no domingo, 31, em Goiânia, quando deixava a namorada em casa no Setor Bueno, e o agente prisional Marcos Vi­ní­cius Lemes D’Abadia, que sofreu uma tentativa de latrocínio na quinta-feira, 28.

O suspeito do latrocínio e da tentativa de latrocínio é Carlos Eduardo Sundfel Nunes, conhecido como Cadu, hoje com 29 anos. Não se trata de seu primeiro crime e, se depender da hedionda Justiça brasileira, não será o último. Em 12 de março de 2010, Carlos Eduardo assassinou o cartunista Glauco Villas-Boas e seu filho Raoni, na cidade de Osasco, na Grande São Paulo. Antes de abatê-los com vários tiros, torturou o cartunista e sua esposa. A despeito de tamanha violência, praticamente não ficou preso, uma vez que foi considerado louco pela Justiça. Aliás, um estranho modo de ser louco, pois a loucura é uma forma de solidão, mas, tanto naquele crime quanto no de agora, Carlos Eduardo não agiu sozinho e contou com a ajuda de um comparsa.

Em nenhum país decente um assassino com esse grau de periculosidade seria posto na rua. Um crime dessa natureza só é possível no Brasil, onde diploma de curso superior é sinônimo de salvo-conduto e os especialistas, responsáveis pelo funcionamento do aparato estatal, não têm satisfações a dar à sociedade: se os fatos contrariam suas teses de que todo criminoso tem recuperação, danem-se os fatos – e as vítimas continuarão sendo imoladas. Carlos Eduardo não matou sozinho: apertaram o gatilho com ele todos os operadores do direito e profissionais de saúde que, por ação ou omissão, arrogância ou covardia, acatam ou promovem a abjeta legislação penal brasileira, responsável direta pelos mais de 60 mil homicídios anuais no País, conforme estudo técnico do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Juristas viciados em Michel Foucault

O assassino de Glauco, quando mata, sempre foge – si­nal de que sabe que fez coisa er­rada. A Justiça é que perdeu o juízo ao achar que ele é completamente louco a ponto de não ter noção dos crimes que comete. Segundo noticiou a imprensa, a juíza Telma Aparecida Al­ves Marques, da 1.ª Vara de E­xe­cução Penal de Goiânia, diz que não se arrepende de ter posto fim à internação psiquiátrica do assassino, permitindo que ele voltasse às ruas em agosto do ano passado. Em en­trevista à repórter Marília As­sun­ção, correspondente do “Es­tadão”, a juíza afirmou ter sido cuidadosa e tomado sua de­cisão com base em laudos psiquiátricos que comprovaram a esquizofrenia de Cadu. Desde sua soltura, diz, ele vinha sendo acompanhado por um psiquiatra e um psicólogo que elaboravam relatórios mensais sobre seu estado mental.

“Ele é inimputável. Com tratamento, deve voltar às ruas em um prazo de três anos”, afirmou a juíza, segundo o “Estadão”. Questionada pela repórter sobre a possibilidade de Cadu matar outra vez, caso seja solto novamente, a juíza respondeu que “quem deve responder são os deputados que fazem a legislação”. E acrescentou: “O Poder Judiciário toma atitudes conforme as leis, que não são feitas por nós, juízes”. Ocorre que um juiz, como operador de alto nível do direito, ainda por cima, muito bem remunerado, pode e deve ter opinião sobre as leis, pois a sua ex­periência, uma vez explicitada, enriquece o debate público. Inclu­sive, é para isso que servem, ou deveriam servir, as conferências jurídicas, geralmente custeadas pelo contribuinte, de forma direta ou indireta.

A juíza Telma Marques foi injusta com o Legislativo. Se dependesse apenas da maioria do Congresso Nacional, as leis penais seriam muito mais duras, inclusive incorporando a proposta de redução da maioridade penal, um antigo anseio da quase totalidade da população brasileira, que já não suporta mais a impunidade dos criminosos mirins. Mas são justamente os operadores do direito, viciados em Michel Foucault, que transformam o criminoso em vítima da sociedade e não permitem que isso aconteça. Toda proposta de endurecimento das leis penais é bombardeada por dezenas de juízes, promotores e representantes da OAB, com o apoio da imprensa e das universidades. Com isso, os membros das mesas diretoras do Congresso e os líderes das bancadas, temendo o poder difamatório desses formadores de opinião, acabam obstruindo tecnicamente, ainda nas comissões legislativas, quaisquer propostas de moralização do Código Penal, impedindo que sejam votadas em plenário, onde, sem dúvida, seriam aprovadas por grande maioria, se os congressistas pudessem votar com liberdade, sem pressões do Planalto e de poderosas ONGs.

Lei antimanicomial causa danos à sociedade

A imprensa costuma ser dura com os políticos, mas comporta-se com extrema passividade diante dos operadores do direito, sejam eles juízes, promotores, defensores públicos ou conselheiros da OAB. Isso faz com que as contradições do Judiciário muitas vezes passem despercebidas. A juíza Telma Mar­ques, pelo tom de sua entrevista à Rá­dio Bandeirantes, de São Paulo, parece favorável à lei que instituiu a política antimanicomial, inclusive para doentes mentais que cometeram crime. Nas entrevistas que concedeu à imprensa, ela não criticou diretamente a Lei 10.216, de 6 de abril de 2001, que oficializou, na prá­tica, a ideológica luta antimanicomial. Essa lei tem causado sérios danos à sociedade e aos verdadeiros doentes mentais, hoje colocados em segundo plano devido à prioridade absoluta que é dada aos viciados em drogas.

A juíza Telma Marques afirmou a respeito de Cadu: “Estava indo perfeitamente (em outro trabalho), com nada que desabonasse a conduta. Às 23 horas, no máximo, estava em casa. Temos relatório da família, informando isto. Ele não ficava na rua e fazia como determina a Justiça. A vida estava controlada, como pessoa comum”. Vejam o imediatismo na fala da magistrada: o sujeito cometeu dois homicídios em 2010 e, depois de apenas quatro anos, já é considerado uma “pessoa comum”, “controlada”, “perfeitamente bem”. Ora, se nem do primeiro sutiã é possível esquecer, como diz a publicidade, como imaginar que no caráter de um indivíduo não ficará para sempre gravado o assassinato que cometeu? Uma pessoa que mata o próximo jamais voltará a ser uma pessoa comum. O próprio assassino sabe que, ao matar uma pessoa, ele salta as fronteiras do humano, num caminho sem volta. Não é à toa que o verdadeiro batismo dos novatos nas quadrilhas se faz com o sangue de seu primeiro assassinato.

Outro aspecto chama a atenção na entrevista da magistrada. Que importância tem se Cadu estava em casa no máximo às 23 horas, segundo enfatiza a juíza fervorosamente, como se essa fosse uma prova eloquente do acerto de sua decisão? Ela nem se deu conta de que Cadu cometeu um dos latrocínios às 21h30. Talvez a juíza esteja confundindo criminoso ou insano com o vampiro da lenda, que espera a meia-noite para atacar. Além disso, a juíza parece acreditar piamente nos relatórios da família, dando conta de que o assassino de Glauco não ficava na rua. Quem garante? Por força de querer acreditar na recuperação do filho, os pais tendem a fingir que não estão vendo nenhum problema até que as coisas fujam totalmente ao seu controle.

Criminosos desfrutam da confiança do Estado

Carlos Eduardo Nunes: cursando faculdade de psicologia apesar dos dois assassinos que cometeu / Reprodução

Carlos Eduardo Nunes: cursando faculdade de psicologia apesar dos dois assassinos que cometeu / Reprodução

No afã de inocentar o assassino e, talvez, a si mesma, a juíza destacou ainda, segundo a reportagem do “Estadão”, que “é preciso aprofundar a investigação para verificar se Cadu não estava sendo usado por criminosos, que tinham noção da sua doença mental e da condição de inimputável”. Ora, mas a juíza não disse que ele levava a vida de um homem comum, trabalhador e caseiro? Como foi, então, que ele teve contato com a quadrilha? Evidentemente, não pode ter sido em casa nem no trabalho. Isso significa que Carlos Eduardo não foi devidamente monitorado pelas autoridades judiciárias e médicas, que deixaram seu real controle a cargo da própria família. E é claro que a família não tem controle sobre ele, ou o cartunista Glauco e seu filho não estariam mortos.

Repito: só num País moralmente doente e mentalmente insano se confia tanto num sujeito tido com louco que matou duas pessoas com crueldade e, agora, mata e fere mais duas. Isso é tanto mais absurdo quando se sabe que vivemos numa sociedade de desconfiança (o avesso da “sociedade de confiança” de Alain Peyrefitte), em que o cidadão de bem, para dar um passo, é vigiado por câmaras, carimbado por documentos e burocratizado por cartórios. Quando vamos à praça de alimentação de um shopping, ninguém confia que iremos pagar o que consumimos e a esmagadora maioria de honestos, arcando com a culpa da minoria de caloteiros, tem que tirar dinheiro do bolso adiantado. Ou seja, enquanto o cidadão honesto é tratado cotidianamente como um ladrão em potencial, os assassinos ficam soltos na rua, gozando da plena confiança das instituições.

Como se vê, não é a quadrilha que precisa ser investigada, mas as autoridades. São elas que, por um misto de incompetência, soberba e má consciência, recusam-se a enxergar os fatos e tratam todo bandido como coitadinho, deixando que tomem conta do País. Senão vejamos. A se crer na reprodução que o “Estadão” faz de suas palavras, a juíza parece acreditar que é vantajoso para as quadrilhas disporem de um louco inimputável para arcar com as responsabilidades de seus crimes. Ora, se fosse assim não haveria doentes mentais comendo lixo pelas ruas – todos estariam empregados em quadrilhas de assaltantes de carro e de banco. O que ocorre é o contrário: o PCC, por exemplo, expulsa das áreas sob seu controle, sob ameaça de morte, os “nóias” do crack, por saber que, em sua insanidade, eles colocam em risco todo o crime organizado. Quando muito servem para atacar policiais em ações extremas, de caráter quase suicida, onde impera somente a força bruta.

A fala da juíza depõe contra o sistema penal brasileiro: se ela estiver certa e a quadrilha tiver recrutado Cadu por sabê-lo inimputável, então os bandidos são mais racionais do que as autoridades – eles sabem que o assassino de Glauco é um louco de conveniência, como bem observou o delegado Tiago Damaceno, ao afirmar que ele “parece ser mais dissimulado do que propriamente deficiente mental”. Porque não é razoável supor que uma quadrilha que se dedica ao roubo de veículos – um tipo de crime que exige um mínimo de organização – vá buscar loucos de pedra para fazer parte de seus quadros. Se essa quadrilha confia em ter Cadu como membro é porque sabe que ele não é tão louco como a Justiça pensa que é – ou seja, ele só é útil para a quadrilha porque sua inimputabilidade decorre de um erro de avaliação do sistema jurídico-penal.

Que tal um psicólogo e assassino nas horas vagas?

Segundo o “Estadão”, a juíza Telma Marques “disse que Cadu estava fazendo Faculdade de Psicologia e tinha arrumado um emprego no ‘call center’ de uma companhia telefônica, mas foi dispensado quando a empresa soube que cumpria medida de segurança”. Ora, se Carlos Eduardo era louco de pedra a ponto de não ter consciência de que matar um ser humano é errado, o que ele estava fazendo num curso de psicologia, como aluno, e não como cobaia? Vivemos, de fato, tempos esquizofrênicos, em que as pessoas já não são capazes de perceber os absurdos criados e impostos à sociedade por uma elite acadêmica completamente alheia à realidade. Uma faculdade de psicologia que aceita em seu quadro discente um sujeito diagnosticado como assassino e louco de pedra teria quer ser imediatamente fechada pelo MEC.

E não me venham falar em John Nash, o genial matemático esquizofrênico norte-americano, responsável pelo desenvolvimento da “teoria dos jogos”, que lhe valeu o Prêmio Nobel de Economia e, segundo consta, foi utilizada com sucesso nos leilões de privatização de estatais pelo mundo afora, inclusive no Brasil de Fernando Henrique Cardoso. Quando se tornou esquizofrênico, lutando contra alienígenas pelos corredores do MIT, Nash já era considerado um gênio da matemática, mesmo assim não escapou de internações e eletrochoques, como mostra sua biógrafa Sylvia Nasar. De qualquer modo, matemática é conhecimento puro, que dispensa interações humanas e pode conviver sem problema com alguma dose de loucura. Mas o que dizer de um psicólogo que, nas horas de surto, é um assassino inimputável?

Outra coisa que chama a atenção na entrevista da juíza é o quanto nós, cidadãos normais, somos obrigados a servir de cobaia para experimentos estatais com toda sorte de criminosos e desajustados. A empresa telefônica onde Cadu arrumou emprego só soube que ele cumpria medida de segurança depois de tê-lo contratado. Pelo visto, o próprio Judiciário esconde essa informação dos empregadores, colocando em risco a segurança dos futuros colegas de um assassino tido como louco, isto é, uma bomba humana sempre passível de explosão. Como se vê, as autoridades não pensam nos demais empregados dessas empresas, que trabalham, estudam, tomam ônibus, sonham, sofrem e, como incentivo por todo esse esforço, recebem a missão de conviver com assassinos, drogados, estupradores e toda sorte de criminosos que estão cumprindo pena em regime aberto a pretexto de inclusão social.

Por fim, a juíza Telma Marques elogia o Programa de Atenção ao Louco Infrator, que já atendeu 425 pacientes, dos quais 88 tiveram medidas extintas e apenas dois, segundo ela, cometeram assassinato. “É menos de 1%”, disse a juíza. Data vênia, magistrada, mas a senhora, olhando nos olhos dos pais do estudante Mateus, diria que o filho deles não passa de mera porcentagem no programa estatal que patrocina assassinatos em série praticados por um criminoso paulista, importado por Goiás, até como forma de divulgar no País seu festejado programa de inclusão social de loucos criminosos, que já ganhou até prêmio, para orgulho do Ministério Público, seu principal idealizador? A pretexto de recuperar bandidos, o Estado brasileiro se tornou um assassino serial.

Por isso, a juíza Telma Apa­recida Marques não pode ser responsabilizada sozinha pela crônica dos homicídios anunciados de Cadu. Ela é apenas uma peça da engrenagem ideológica muito mais complexa, que envolve desde o calouro de psicologia e direito até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, patrono internacional da legalização das drogas, entre outros intelectuais universitários e formadores de opinião. Para toda essa gente, o crime e a loucura são uma decorrência das mazelas capitalistas e a cadeia e o hospício devem ser extintos para dar lugar à política de redução de danos em ambiente ambulatorial, mesmo que isso signifique filho drogado espancando e assassinando a mãe, como se vê diariamente pelo país afora. O próprio pai de Cadu, segundo o delegado do caso, contou que ele misturava às drogas os medicamentos que recebia no CAPS. Como se vê, o fim do manicômio e a popularização das drogas transformaram o louco numa bomba caseira.

3 respostas para “O assassino de Glauco e a crônica de um latrocínio anunciado”

  1. Isa disse:

    Excelente! Bom saber que ainda existe gente lúcida na mídia goiana!

  2. Sotírios Pegos disse:

    Caro José Maria e Silva
    Gostaria de complementar seu texto, com algumas opiniões que divergem um pouco do seu texto.
    1 – Tudo leva a crer que este assassino seja um psicopata antissocial, e que, possa ter sintomas psicóticos secundários ao uso de droga (psicose orgânica, como os alcoólatras que alucinam pelas ruas de nosso país), e que estes sintomas psicóticos não tem influência na maneira perversa e organizada que este assassino age, para ter ganhos, e não pelo mêdo, para se defender, como age um esquizofrênico.
    2- Homicídios psicóticos são quase sempre intra familiares
    3- A tal equipe que o mantinha no CAPS não contava, segundo informações, com um psiquiatra
    4 – o mais importante: psicopatia não é doença, é um nome que damos ao que a pessoa é. Não se trata a personalidade de alguém. Não somos Deuses, não há caso de sucesso na história médica de tratamento de psicopatas.
    5 – Uma pessoa deveria pagar pelo que ela faz, não pelo que ela é, trata-se de responder pelos seus atos, ou viver o resto da vida em um manicômio juduiciário
    6 – Concordo 100%, o estudo de Foucault, a vitimização dos criminosos ficou impregnada nas mentes dos advogados, psicólogos e alguns psiquiatras também.
    7- A liberalização da maconha só faz sentido se pensarmos: não é papel do Estado vigiar pessoas, quem quizer tomar gazolina que tome. Mas tem que pagar pelos atos danosos aos outros!

  3. leonardo motta disse:

    Esse artigo é perfeito ao descrever a minoria dos casos; minoria que se aproxima da exceção.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.