Números caem, mas sensação de insegurança persiste em Goiânia

Apesar da redução dos índices de criminalidade no Estado, divulgada pela SSP, a população goianiense ainda reclama da falta de segurança

Foto: Reprodução

Os indicadores da criminalidade em Goiás indicam que o Estado é um lugar mais seguro para se viver hoje. Dados do observatório da Secretaria de Segurança Pública de Goiás (SSP/GO) mostram que, entre janeiro a maio de 2019, houve redução no percentual de 12 das 15 ocorrências registradas neste ano, em relação ao mesmo período de 2018.

O relatório aponta 876 casos de homicídio no ano passado contra 797 casos do mesmo tipo em 2019, o que representa uma queda de 9,02% dessas ocorrências. O crime de latrocínio reduziu de 51 para 34 (-33,33%) enquanto roubo a transeunte caiu de 28.682 para 14.113 este ano, registrando redução de 50,79% dos casos.

Fonte: Observatório da Segurança / SSP

Na teoria, a redução desses índices deveria transmitir à população goiana um clima de maior segurança nas forças do Estado. A fim de verificar o reflexo desses resultados, o Jornal Opção foi às ruas investigar a realidade desses efeitos na prática, no dia-a-dia dos goianienses. 

Carlos Augusto, 67 anos, que trabalha vendendo frutas em uma barraquinha no centro há 15, conta que no setor central a violência, de fato, decresceu. “Antes estava impossível trabalhar aqui. Melhorou um pouco. Tinha muito roubo, muito tráfico de drogas. Mas agora a gente vê mais policiamento”. No entanto, no bairro Orlando de Moraes, onde o autônomo vive, a realidade é diferente. “Morre gente lá direto. Desde o início do ano já morreram quatro perto da minha casa”, relata.

Ester de Souza, 20, estudante de Administração, que trabalha no centro e mora no setor Oeste, também destaca o aumento do policiamento nas ruas de Goiânia e afirma que se sente mais segura de uns dois anos para cá. “Antigamente o centro era bem abandonado. Agora eu sempre vejo alguma viatura passando”.

Para quem vive no centro, por outro lado, a realidade é analisada por uma ótica diferente. Saulo de Lima, 65, Agrimensor, lembra que o setor é vazio aos fins de semana, o que facilita a ação dos criminosos. “Não sei se é só um dado estatístico, mas não senti diminuição nenhuma na violência. A gente ainda escuta falar muito de assaltos”.

Saulo de Lima. Agrimensor. Foto: Opção/Fernando Leite

Do ano passado para cá, o estudo mostra um aumento apenas nos casos de “furto em comércio”, “furto em residência” e no crime de “lesão corporal seguida de morte”. Enquanto o roubo consiste no ato de subtração de um bem material por meio de violência ou ameaça, o furto é caracterizado pela ausência da vítima, que não está presente durante a ação do crime.

O balanço dos indicadores da segurança pública do mês de maio deste ano também mostra uma redução nos números de “Crimes Violentos Letais Intencionais” (CVLI). Em maio de 2018 foram registrados 181 casos ante 153 ocorrências no mês passado, revelando uma redução de 15,47%.

O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é proatividade.jpg

Os índices de proatividade, por outro lado, apresentam um aumento no trabalho efetivo das forças de segurança pública no Estado. No comparativo dos primeiros quatro meses de 2019 e 2018, houve um aumento de 42,28% no cumprimento de mandados de prisão. As prisões em flagrante também registraram alta de 6,89%, passando de 10.503 para 11.227 indivíduos presos durante o primeiro quadrimestre deste ano.

Eduardo Floriano. Segurança patrimonial. Foto: Opção/Fernando Leite

Para Eduardo Floriano, 36, que trabalha na área de segurança patrimonial e mora no Criméia Leste, os índices da criminalidade realmente diminuíram. “Não escuto falar de um roubo ou um furto há uns seis ou sete meses”. Na visão do segurança, há um estigma ao redor da violência e esta seria a razão das pessoas não perceberem a melhoria do ambiente. “Essas pessoas não procuram as informações corretas”, opinam.

Edemundo Dias de Oliveira Filho, advogado e ex-secretário de Administração Penitenciária de Goiás, explica esse sentimento de insatisfação crônica da insegurança. O especialista em Segurança Pública lembra que a violência é um produto rentável para a mídia e que as notícias de cunho violento chamam mais atenção do que o combate à criminalidade. “A violência vende. Virou uma mercadoria, uma espécie de Coliseu romano do entretenimento.”

O ex-delegado elogia o trabalho das forças de segurança no Estado, mas também confessa que ficou surpreso em relação aos indicadores da criminalidade em Goiás. Como cidadão, o advogado observa que houve uma leve melhoria nas ruas, mas não tão expressiva como demonstra o levantamento.

Edemundo Dias de Oliveira Filho. Ex-secretário de Administração Penitenciária de Goiás. Foto: Opção/Fernando Leite

“Observo ações mais efetivas da Policia Militar (PM) que é responsável pelo trabalho de prevenção. A Policia Civil (PC) também tem apresentado vários trabalhos de qualidade na área de investigação. Sinto a gestão mais técnica, o secretário mostra um perfil mais discreto, adequado para a função. Senti uma ação mais efetiva, mais contundente. Mas é necessário verificar como esses dados estão sendo contabilizados. O crime de latrocínio, por exemplo, não entra nas estatísticas de homicídios, assim como as mortes efetuadas por policiais. Deveríamos ter acesso a essas informações. Só assim poderíamos dar um parecer exato”, argumenta.

Edemundo Dias também reforça que problemas sociais e de infraestrutura, como iluminação, limpeza das ruas e taxa de escolaridade interferem no grau de criminalidade de cada região. “Os bairros mais carentes, muitas vezes, são menos assistidos pela polícia”, pontua.

O advogado Fernando Leal, 33, morador do setor Bueno, conta que assaltos e roubos de carro eram frequentes na região e que sentiu um incremento das forças de combate. “Realmente houve uma grande redução. Não posso opinar nos demais bairros, mas aqui tenho visto as rondas frequentes da guarda-metropolitana”, informa. A realidade, entretanto, para Maria Esmeralda, 58, desempregada, que vive no Jardim Novo Mundo, mostra-se díspar, evidenciando esta discrepância entre os bairros. “Direto a gente escuta histórias de assaltos. Nunca mudou. Não senti nenhuma mudança até agora”, afirma.

O ex-secretário de Administração Penitenciária vai além e lembra de considerar a expertise das associações do crime organizado, que podem migrar de região e modalidade de crime de acordo com o local de atuação e foco das forças de segurança. “Essas ocorrências de criminalidade são cíclicas. Em qualquer lugar do país, dependendo do período do ano, ela abaixa ou aumenta”, explica.

Atlas

O levantamento do Atlas da Violência de 2019, realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública expõe que o Brasil perdeu 65.602 pessoas assassinadas em 2017.

O estudo foi divulgado na última quarta-feira, 5, com base no Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde. O resultado representa também o maior nível histórico de letalidade violenta intencional no país, que atingiu a taxa de 31,6 mortes violentas para cada 100 mil habitantes.

Além do impacto social, o estudo também levantou a problemática econômica da criminalidade. O Ipea calcula que os custos relacionados à violência correspondam a 6% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. Outro destaque do estudo aponta que as mortes por arma de fogo cresceram 6%.

“O que está acontecendo no Brasil é algo realmente estonteante e fora dos padrões mundiais. Poucos países se aproximam do Brasil em termos de taxa de homicídio”, declarou Daniel Cerqueira, coordenador da pesquisa, em entrevista coletiva nesta quarta-feira, no Rio de Janeiro.

Daniel Cerqueira, coordenador da pesquisa do IPEA. Imagem: Reprodução/Youtube

O total de mortos aponta para 1.707 mortes a mais que o somatório dos resultados informados pelos órgãos de segurança no país. O destoamento dos dados, segundo o Atlas, acontece porque “Segurança pública e Saúde contam com metodologias distintas para contabilização das mortes, pois seus sistemas de informação servem a propósitos distintos”.

Além disso, o relatório também destaca que o número de assassinatos por arma de fogo cresceu 6,8% entre 2016 e 2017, alcançando o patamar inédito de 47,5 mil mortes, o que indica mais de 70% dos homicídios registrados durante o período. Dos 27 estados, 13 tiveram aumento no número de mortes por arma de fogo. Goiás não está entre esses estados e apresentou queda de 5,2% no comparativo de 2017 e 2016.

Cerqueira afirma que, “a taxa seria 12% maior”, se não fosse o Estatuto do Desarmamento. O argumento do especialista alerta para os possíveis reflexos da flexibilização da posse e porte de armas no Brasil. “Se o Estatuto do Desarmamento funcionou como um freio dos homicídios no Brasil, que levou alguns estados a ajudar na redução de homicídios, hoje nós vemos a situação mudando com uma flexibilização total sobre arma de fogo”, disse.

Voz das ruas

Jornal Opção: No seu bairro, é possível perceber a diminuição dos índices de criminalidade?

Otacílio Sebastião da Silva, 67, Taxista. Morador do Brisas da Mata, Setor Noroeste. Foto: Opção/Fernando Leite.

“Há cinco, seis anos atrás morria muita gente no meu bairro. Agora diminuiu um pouquinho. Mas continua ruim. O índice de roubos continua alto, eu não tenho coragem de andar com celular na mão”.

Eneias Narciso de Farias, 39, Ambulanceiro. Setor Santa Luzia, Aparecida de Goiânia. Foto: Opção/Fábio Costa

“A violência não diminuiu. Pelo que a gente escuta, a violência está sempre aumentando. O que eu sei é que a polícia, agora, está matando mais”.

Valquíria Tavares, 28, Dona de casa. Loteamento Tropical Verde. Foto: Opção/Fábio Costa

“Embora meu bairro seja afastado, lá praticamente não tem assalto. O índice de criminalidade reduziu muito. Há uns cinco anos atrás era perigoso, mas agora não. A polícia está lá direto”. 

Ronag Coelho Passarinho, 57, Autônomo. Morador do Residencial Mar Del Plata, Vila Concórdia. Foto: Opção/Fernando Leite

“A polícia tá matando tudo, graças a Deus. Ainda tem muito crime, mas melhorou muito”.

Entrevista com o secretário de Segurança Pública de Goiás, Rodney Rocha Miranda

Rodney Rocha Miranda. Foto: Opção/Fábio Costa

“A violência vende, dá manchete e ocupa muitas vezes metade das notícias de TV. Já as ações produtivas da polícia, não merecem o mesmo espaço”

Por que algumas pessoas não sentem o reflexo positivo deste estudo no dia-a-dia e afirmam que a criminalidade continua alta no Estado?
A velocidade da percepção de aumento da segurança não acompanha a agilidade do trabalho policial que impacta na diminuição da criminalidade. Isto é um fato histórico e já objeto de vários estudos. Por outro lado vivemos em uma cultura muito visual onde o poder midiático, principalmente do que é exibido pelas TVs e pelos vídeos virais das redes sociais tem grande impacto.

E a violência vende, dá manchete e ocupa muitas vezes 50% das notícias de TV, por exemplo. Já as ações produtivas das forças policiais, as ações preventivas, as apreensões de drogas e armamentos, muitas vezes não merecem o mesmo espaço.  Da nossa parte, o que nos cabe é continuar o trabalho sistemático e sério de combate a criminalidade, derrubando os índices mês a mês em prol do cidadão de bem.

Há um estigma de pessimismo que não permite o reconhecimento desta melhoria?
Não vejo desta forma! Até porque já temos recebido várias manifestações públicas de cidadãos nas ruas ou mesmo de entidades representativas da sociedade civil, como as que representam setores do agronegócio, do comércio ou da indústria, com testemunhos incisivos de que percebem a eficiência do trabalho das polícias goianas.

Veja o caso do roubo de veículos. Tivemos o registro, em um passado não tão distante, de 30 casos por dia, hoje, a média é de dois ao dia, com o detalhe que aumentamos também a produtividade no que diz respeito à recuperação dos veículos, além de recentemente termos desbaratado duas grandes organizações criminosas.  Pontualmente, com um ou outro cidadão há a demora para perceber estes avanços. É um processo, e não estamos preocupados em reconhecimento midiático imediato. O que nos move é sim um trabalho célere, mas consistente e permanente.

Nos bairros mais carentes, a população parece relatar uma maior ocorrência de crimes. Como explicar esta disparidade entre os bairros?
No caso específico da atuação policial temos uma ação reativa imediata quando acontece um crime e, do ponto de vista preventivo ou de inteligência policial uma atuação mais concentrada nas manchas criminais. E é assim que precisamos atuar, sem distinção de bairro “x” ou “y” merecer maior ou menor atenção. Nossos policiais são destemidos e onde houver crime a ser enfrentado, eles estarão lá. Já a diferença socioeconômica existente na sociedade é algo muito mais amplo, que não dá para tratar somente no limite da segurança pública. 

O que foi feito para reduzir os índices na criminalidade no Estado e na capital? Houve investimento?
Já fizemos muito com pouco, como gosta de citar o governador Ronaldo Caiado. Mesmo com a situação de grande dificuldade financeira e fiscal que o Governador herdou da administração passado, ele tem apoiado o trabalho da segurança pública de forma muito contundente. Ao mesmo tempo, há um esforço dos homens e mulheres das diferentes forças em oferecerem um trabalho de excelência.

Estamos investindo em tecnologia, em novos e modernos veículos, em inteligência policial, em melhor distribuição de pessoal nas manchas criminais, em capacitação profissional, na retirada de alguns combatentes do trabalho administrativo para mandá-los para o campo, e em uma integração e colaboração entre as forças criminais como nunca se viu em Goiás.

E é por este conjunto de ações que os resultados têm aparecido. Dos 14 índices de criminalidade monitorados desde 2006 derrubamos 12 em apenas cinco meses de Governo, isto é muito significativo e histórico. Quando se traz para Goiânia registramos no mês de maio um decréscimo de 55% nos homicídios, um dado histórico desde que se começou este monitoramento em 2006.

E vamos melhorar ainda mais porque existe, sobretudo, uma forte determinação do governador Ronaldo Caiado em transformar o estado de Goiás em um lugar temido pelos que optaram por seguir o mundo do crime.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.