Novo centro de pesquisa possibilitará estudo para medicamento contra Covid-19

“Me dá muito orgulho de atingir uma coisa tão sonhada. É gratificante – mais que isso: é uma possibilidade de dar de volta à universidade o que colhi nos últimos 30 anos de docência”, afirma Eliana Martins Lima

LIFE – laboratórios integrados para inovação em ciências farmacêuticas | Foto: Reprodução

Um dos maiores centros de pesquisa do Brasil acaba de ser instalado no Câmpus Samambaia, da Universidade Federal de Goiás. O LIFE – laboratórios integrados para inovação em ciências farmacêuticas – é um complexo de grupos de desenvolvimento de novas tecnologias que contribuirá para a produção científica e elaboração de produtos que auxiliem a sociedade. 

Com 2.300 metros quadrados, o novo parque tecnológico não é um projeto realizado pela universidade, como usualmente acontece, mas foi idealizado em função do histórico de pesquisa da professora da Faculdade de Farmácia da UFG e diretora do FarmaTec, Eliana Martins Lima. “É uma questão bem singular porque um pesquisador nunca trouxe uma infraestrutura deste tamanho para a universidade; geralmente é o contrário. É uma felicidade, uma satisfação muito grande retribuir 30 anos de docente pesquisadora com um prédio extraordinário para os colegas que colaboram conosco e para os que vierem depois”.

A pesquisa de Eliana Martins Lima já foi abordada pelo Jornal Opção, e tem como foco o desenvolvimento de novos fármacos com nanotecnologia. Entretanto, a pesquisadora afirma que as antigas condições de trabalho ainda deixavam a desejar no quesito do controle das variáveis envolvidas na realização das pesquisas. “Nossa proposta é chegar à aplicação das pesquisas em estudos clínicos. Para isso, dependemos de condições muito controladas – inclusive administrando ambientes estéreis – e hoje temos plenas condições de fazer qualquer pesquisa”.

Outro objetivo anteriormente impedido, mas que foi superado pela nova estrutura é a colaboração com a indústria farmacêutica. “Desenhamos uma área específica para essa indústria vir aqui e desenvolver produtos com nossa colaboração de forma segregada do restante dos laboratórios. Esta é uma atividade que demanda muito sigilo por conta da propriedade intelectual. Conseguiremos dar acesso à pessoas de forma adequada para evitar troca de material, contaminação e garantir a segurança dos produtos e da informação”, diz Eliana Martins Lima.

Ações do FarmaTec

O FarmaTec tem atuado durante a pandemia do novo coronavírus (Sars-CoV-2) no desenvolvimento de novos medicamentos que podem combater o vírus de uma forma inovadora. Enquanto a maioria dos esforços da área farmacêutica se dão no sentido de reposicionar fármacos que já funcionam para outros vírus – isto é, tentar investigar efeitos de substâncias já conhecidas e aprovadas para avaliar se podem ser úteis contra a Covid-19 – a nanotecnologia pode contribuir de uma forma diferente.

O projeto aprovado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) visa construir em escala nanométrica um sistema que simula uma célula humana, mimetizando o ambiente biológico. Esta célula sintética pela qual o vírus terá afinidade será contaminada pelo vírus, que perderá sua capacidade infectante de se replicar para novas células do corpo. “Será uma abordagem inovadora e a forma com que chegaremos a essa pequena estrutura biomimética será inovadora”, afirma a coordenadora do projeto. 

 Este pode ser apenas o início, segundo a pesquisadora. Caso o princípio se mostre eficaz, um desdobramento muito grande pode acontecer. “O sucesso da abordagem trará perspectiva positiva para doenças cujo mecanismo seja baseado em infecção de células por agentes estranhos. A ideia de mimetizar o alvo poderá ser aplicada de forma semelhante para diversas outras doenças”, afirma Eliana Martins Lima. 

A pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas, desenvolvida nos laboratórios FarmaTec, utiliza a nanotecnologia para obter a formulação. Isso quer dizer que a partícula foi construída em escala atômica e molecular. O composto – de fórmula confidencial até que seu patenteamento esteja completo – reúne centenas de moléculas e tem tamanho na ordem de dez a cem nanômetros. Cada nanômetro é um milhão de vezes menor que o milímetro, ou um bilhão de vezes menor que o metro.

“A pandemia nos fez enxergar que nós, cientistas, precisamos aplicar nosso conhecimento como forma de retribuição ao investimento da sociedade. Uma coisa que a pandemia mudou foi nossa rotina e, apesar de existir muita dificuldade, usamos toda nossa capacidade para responder aos desafios impostos pelo novo vírus”, afirma Eliana Martins Lima. Ao todo, o FarmaTec já fez cerca de 200 desenvolvimentos ao longo dos anos, entre medicamentos e cosméticos.

Nos últimos 25 anos, o FarmaTec investiu no desenvolvimento de nanopartículas para aumentar biodisponibilidade, formulação de fármacos, e outros. “Aumentamos a sofisticação e complexidade das nanopartículas, que ganharam novas funcionalidades, como não só liberar o conteúdo da molécula no local desejado, mas também encontrar alvo da doença. A medida que a patologia da Covid-19 foi sendo elucidada e os esforços para produção de medicamentos não surtiram o resultado esperado, nossa proposta foi usar nossa experiência para elaborar estruturas com uma nova proposta”, afirma Eliana Martins Lima. 

Eliana Martins Lima afirma: “usamos toda nossa capacidade para responder aos desafios impostos pelo novo vírus” | Foto: Reprodução / Acervo Pessoal

Dedicação exclusiva

Eliana Martins Lima lembra ainda que a pesquisa feita dentro da universidade prescinde do trabalho dos pós-graduandos: “Os bolsistas de mestrado, doutorado e pós-doutorado serão orientados por mim e a pesquisa deles será a base do desenvolvimento desses produtos a que pretendemos chegar. Isso tem investimento imprescindível dos alunos de doutorado e bolsistas de pós-doutorado, que estão inteiramente dedicados a sua pesquisa”.

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