Novas universidades federais devem fortalecer a interiorização do ensino superior em Goiás

Emancipação das regionais da UFG em Catalão e Jataí traz o entendimento de que o sistema multicampi desenhado pelo governo nos últimos anos, embora funcione, já não é o suficiente

UFG em Catalão ganhará autonomia e se tornará uma universidade independente. A questão: Goiás precisa de outras instituições públicas de ensino superior

UFG em Catalão ganhará autonomia e se tornará uma universidade independente. A questão: Goiás precisa de outras instituições públicas de ensino superior

Marcos Nunes Carreiro

A notícia de que o governo federal decidiu criar duas novas universidades em Goiás causou estranheza em muitos, dada a crise econômica pela qual passa o País e que foi motivo dos cortes nas instituições federais de ensino. A verdade é que trata-se de um ato formal em que se dará autonomia a dois campus já existentes e estruturados da Univer­sidade Federal de Goiás (UFG): Catalão e Jataí.

A luta pela emancipação das duas regionais surgiu com o crescimento dos campus, realizado em grande parte devido aos programas de expansão das universidades federais, como o Reuni, colocados em prática durante os governos do ex-presidente Lula, a partir de 2005. Esses programas criaram o sistema multicampi (muitos campus de uma mesma universidade) que vigora atualmente na maioria dos Estados.

Até então, é possível dizer que as unidades viviam às custas do Esta­do, do município ou de uma combinação das duas coisas, o que não é o ideal. Ou seja, tais políticas fizeram com que os campus, que eram pequenos e restritos a apenas alguns cursos, se tornassem grandes e capazes de abarcar uma maior quantidade de graduações.

A história das regionais de Catalão e Jataí remete à década de 1980, quando as comunidades solicitaram a presença da universidade nos municípios, sobretudo para melhorar a qualidade do ensino médio. Os primeiros cursos instalados nas cidades eram licenciaturas.

A ida da UFG para esses municípios marcou o início da interiorização do ensino superior público em Goiás, em que a universidade ia com sua experiência e um professor para gerir o campus, mas era a comunidade que contratava os professores. Em Jataí, quem cuidava da questão era uma fundação; em Catalão, a própria prefeitura.

Atualmente, mesmo após o processo de expansão das federais, quando a UFG passou de fato a existir nas cidades com infraestrutura adequada e professores próprios, a instituição ainda conta com alguns des­ses docentes man­­­­­­­­tidos pelas co­muni­dades locais; remanescentes de uma época diferente e que deve mudar novamente. Por quê?

Como pontua o professor da UFG Catalão Alexander Meireles, a “criação de universidades é um ato político”. Por isso, Estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, que sempre tiveram muita força política no Congresso Nacio­nal, têm também maior presença universitária. “Felizmente”, diz o docente, “agora parece que o quadro está mudando e Goiás tem a chance de triplicar a sua representação universitária”.

A referência de Alexander é ao governador Marconi Perillo, que — a pedido da UFG — conversou com a presidente Dilma Rousseff e a convenceu a assinar o pedido de criação das duas novas universidades. O projeto agora será enviado para a aprovação do Congresso Nacional, o que deve demorar; a previsão para que as instituições saiam do papel é janeiro de 2017.

Acordos políticos à parte, é certo dizer que Dilma só aceitou a solicitação da universidade porque os gastos a serem feitos pelo governo federal serão mínimos. Afinal, a infraestrutura já está pronta e os cursos, tanto de graduação quanto de pós-graduação (mestrado e doutorado), funcionando em pleno vapor. Assim, para transformar os campus em universidades autônomas, a União precisa criar inicialmente apenas a estrutura administrativa.

Os reitores serão professores que já estão lá e que serão eleitos depois que as novas universidades já tiverem estatuto. Cada um receberá uma gratificação chamada CD-1 — os pró-reitores, também professores, vão receber CD-2. Ou seja, o governo vai criar essas gratificações que não existem atualmente, mais algumas gratificações para diretores de fa­cul­da­des. Fo­ra is­so, alguns cargos de técnicos-administrativos.

Em resumo, o governo federal vai criar duas universidades praticamente sem nenhum acréscimo de gastos. Obviamente, quando as instituições estiverem consolidadas, seu crescimento demandará maiores investimentos. E é exatamente essa perspectiva de desenvolvimento de cada um dos novos órgãos de ensino que faz a emancipação das regionais ser comemorada.

Reitor Orlando Afonso do Amaral: “A universidade se tornou muito grande, o que torna a gestão complicada”

Reitor Orlando Afonso do Amaral: “A universidade se tornou muito grande, o que torna a gestão complicada”

“O fato de termos mais universidades nas diferentes regiões do Estado amplia as possibilidades de formação de pessoas, de inclusão e de intervenção nessas re­giões. Além disso, uma grande parte dos Estados brasileiros tem mais de uma universidade federal”, diz Orlando Afonso Valle do Amaral, reitor da UFG.

E ele tem razão: das 27 unidades da Federação, 13 têm mais de uma universidade federal. Bahia, Ceará, Mato Grosso do Sul, Pa­raíba, Rio Grande do Norte e Santa Catarina têm duas cada; Pará, Paraná, Pernambuco e São Paulo, três; Rio de Janeiro, quatro; Rio Grande do Sul, seis. O Estado que mais tem federais é Minas Gerais, com 11.

Goiás, atualmente com apenas uma, tem exatamente por isso os dois maiores campus no interior: Catalão e Jataí. Isso, na visão de Orlando, mais complica que ajuda. “A universidade se tornou muito grande. E isso faz com que a gestão se torne mais complicada”, afirma.

De fato. Afinal, a logística para garantir a presença dos representantes das unidades na sede, em Goiânia, e dos pró-reitores no interior é bastante complicada. Catalão fica a 260 quilômetros da capital; Jataí a 320. “Então, o fato dessas unidades se tornarem independentes faz com que as decisões possam ser tomadas de maneira local, com muito mais foco e relevância regionais. Sem contar o fato de que, sendo autônomas, essas universidades podem crescer mais”, ressalta.

Crescer mais como? Para Or­lan­do, a presença de uma universidade em determinada região traz um impacto econômico, social e cultural muito relevante. A questão é que, na verdade, as unidades de Jataí e Catalão já estavam funcionando como universidades independentes, pois já tinham autonomia de concepção curricular, por exemplo.

Edward Madureira: “Cada uma das universidades construirá seu caminho de inserção regional, nacional e internacional” | Foto: Fernando Leite

Edward Madureira: “Cada uma das universidades construirá seu caminho de inserção regional, nacional e internacional” | Foto: Fernando Leite

“O curso de agronomia de Jataí, por exemplo, não é o mesmo do de Goiânia. Isso porque, respeitando regras gerais da universidade, não é necessário reproduzir o que era feito na capital. A grande questão é o projeto de universidade que será construído”, ressalta Edward Madureira, ex-reitor da UFG e atual secretário de Ciência e Tecnologia para a Inclusão Social do Ministério de Ciência e Tecnologia.

Fator fundamental da autonomia também é que, a partir de 2017, Jataí e Catalão não apenas ganham o status de universidade, como também passam a ter canal direto de negociação com o Ministério da Educação (MEC). “Assim”, aponta Edward, “cada uma delas construirá seu caminho de inserção regional, nacional e internacional; vão definir suas políticas de acordo com a realidade local, porque antes elas eram decididas seguindo a realidade total”.

Por outro lado, a emancipação das regionais mostra que um novo caminho se desenha para o ensino superior no Brasil. A questão é que, embora o sistema multicampi funcione, ele prova já não ser suficiente. Afinal, com campus grandes e longe das sedes a administração se torna complicada.

Isto é, os Estados com campus grandes como os de Goiás passarão cada vez mais a precisar de universidades independentes. É o caso de Mato Grosso, por exemplo, em que o campus da UFMT em Rondonópolis já está pronto para ganhar autonomia.

Há demanda pelo ensino público de qualidade

O Norte, o Nordeste e o Entorno do Distrito Federal são as três regiões de maior fragilidade econômico-estrutural de Goiás. Mas não apenas; representam também os maiores vazios no Estado em relação à Univer­sidade Federal de Goiás — que é uma instituição acima da média nacional, embora ainda tenha muito a melhorar.

E a universidade sabe disso, tanto que já foi aprovada pela presidente Dilma Rousseff a criação de um campus em Cidade Ocidental, município a 198 quilômetros da capital, situado entre Valparaíso e Luziânia, no Entorno. A autorização aconteceu na mesma ocasião em que Dilma Rousseff assinou a abertura do campus de Aparecida de Goiânia, cidade onde já há um trabalho ativo da universidade, desde o início de 2015. Porém, em Cidade Ocidental as ações ainda não foram iniciadas.

Por quê? O reitor Orlando Afonso do Amaral explica: “Em Aparecida de Goiânia, tivemos a possibilidade, em parceria com a UEG, de conseguir uma instalação provisória para iniciarmos os trabalhos. Em Cidade Ocidental isso não foi possível. Contudo, tivemos a doação de um terreno e vamos construir a sede”.

A licitação dessa obra deve ocorrer, segundo Orlando, no início deste ano, atendendo assim àquela região. Sobre as demais, a UFG já se movimentou para cumprir a demanda. Corre no MEC um pedido para que seja aprovada a criação de um novo campus em Porangatu, região Norte de Goiás.

“Já tivemos várias reuniões com a comunidade de Porangatu e estive no MEC, em 2014, para levar o pleito dessa criação. Esse pedido está lá e nossa vontade continua sendo a de ter um campus na cidade. Mas isso depende de uma decisão do governo federal”, avalia o reitor.

“Goiás é grande e não pode ter apenas uma universidade federal” 

Alexander Meireles: “Goiás é grande, logo a UFG não tem mais condições de abarcar a totalidade do Estado, mesmo que tenha vários campus”

Alexander Meireles: “Goiás é grande, logo a UFG não tem mais condições de abarcar a totalidade do Estado, mesmo que tenha vários campus”

O professor adjunto da UFG Ca­talão Alexander Meireles da Silva tem uma história recente com a universidade; data de 2009. Con­tudo, como chefe da unidade acadêmica especial de Letras e Linguística da Regional, entende a situação atual e consegue analisar bem o quadro que se desenha com o processo de autonomia.

O primeiro aspecto positivo ressaltado por ele em relação à criação das novas instituições de ensino é justamente a interiorização do ensino superior. “Eu sou do Rio de Janeiro, que tem muitas universidades federais. “Goiás é grande, logo a UFG não tem mais condições de abarcar a totalidade do Estado com apenas uma universidade, mesmo que tenha vários campus”, relata.

Outra questão levantada por Alexander é a das verbas destinadas à unidade. Segundo ele, a verba nunca é suficiente para o desenvolvimento dos trabalhos, visto que a maior parte dos recursos enviados pelo governo federal fica em Goiânia, que tem a maioria dos alunos.

“Também temos uma enorme defasagem de técnico-administrativos. A faculdade não funciona a noite. Se os alunos do noturno precisarem de uma declaração, por exemplo, não conseguem porque só há técnicos para trabalhar pela manhã e à tarde”, ressalta.

Isso fora o ajuste fiscal, que cortou aproximadamente R$ 10 bilhões do orçamento do MEC — sendo 75% da pesquisa. Sendo uma universidade, a atual unidade de Catalão terá canal direto de negociação, embora as perspectivas não sejam boas a priori, afinal o País passa por crises tanto na economia quanto na política e que atingem sobretudo o governo federal, responsável direto pelas instituições.

Contudo, Alexander é otimista. “Podemos não ter os recursos, os técnicos e os professores que precisamos já no início, mas a gente vislumbra que toda crise passa. Mesmo porque temos uma estimativa de que essa universidade só sai do papel no fim de 2016. Temos esperança de que até lá a situação estará melhor”, relata.

Jataí

Thallita Vieira é estudante do 10° período de Direito na UFG Ja­taí. Ela conta que quando entrou na universidade, em 2011, chegou sem conhecer a cidade — como vários de seus colegas — e encontrou um campus pouco desenvolvido, mas que cresceu bastante em infraestrutura nos últimos cinco anos. “Atualmente, temos novos prédios e cursos, um Restaurante Uni­ver­si­tá­rio, e grupos fortes de mobilizações acadêmicas, embora ainda tenhamos de lidar com vários problemas que, acredito eu, sejam característicos às universidades públicas do interior do Brasil”, relata.

Ela conta que a atual unidade de Jataí já funciona com certa autonomia e vê sua “independência” como parte de algo maior, que é o processo de interiorização das universidades públicas no país. “Penso que pode haver um lado bom nisso tanto para a instituição como para toda a região do Estado e, finalmente, para os próprios alunos, já que significa ter maior autonomia. Isso pode fortalecer a universidade, que terá maior capacidade de desenvolvimento com os próprios recursos que chegarão de forma direta”.

Porém, Thallita é assertiva ao dizer que é necessário enxergar além, visto que não adianta espalhar universidades públicas pelo interior do Brasil e depois deixá-las de lado, como se tem visto com várias outras instituições de ensino do País — tanto federais quanto estaduais. “O país vive um momento crítico referente à educação. Há pouco tempo estas mesmas universidades estavam em greve buscando melhorias básicas, e este mesmo governo que agora cria novas instituições não ofereceu soluções reais e eficazes aos docentes, discentes e funcionários”, analisa.

Agora, algo que pode — ressalta-se o pode — melhorar com a au­tonomia da regional é a estruturação em torno da universidade. Thallita afirma que, apesar dos 35 anos da UFG em Jataí, a cidade ainda não possui uma estrutura voltada para os estudantes, pois a renda que gira em razão dos diversos estudantes que, assim como ela, são de fora, não traz grandes retornos. Dessa forma, para ela, é certo que a renda levada à cidade irá aumentar com a “independência” e crescimento da universidade, pois mais estudantes chegarão, “o que vai ser bom para a economia e comércio da cidade”.

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