Nós, os mortos

Lamento pelo tapa que não levei do PM. Pela bordoada que não tomei pela resistência que não ofertei. Antes a tivesse levado e gemido, chorado

Jorge Gerdau, do Movimento Brasil Competitivo, e governador Marconi Perillo: aprovação ao Programa de Modernização da Gestão Pública de Goiás | Foto: Wesley Costa

Jorge Gerdau, do Movimento Brasil Competitivo, e governador Marconi Perillo: aprovação ao Programa de Modernização da Gestão Pública de Goiás | Foto: Wesley Costa

Henrique Morgantini
Especial para o Jornal Opção

Estamos mortos, eu escrevo numa mensagem a um amigo. E reflito sobre isto. Sobre como é respirar, andar, viver, sorrir, olhar para as mulheres lindas pelas ruas de Goiânia, recuperar de tantas ressacas, dormir, encontrar amigos, debater política, escrever postagens descoladas em redes sociais… e mesmo assim estar morto.

Mas nós estamos, sim, mortos.

Nós, quem?, afinal, você me indaga, se você está lendo tudo isso e tem consciência de estar no mundo real, tátil, das coisas vivas.

Eu respondo: nós, da oposição política de Goiás.

Quando Marconi Perillo venceu as eleições em 1998, eu tinha 20 anos. Quando a Polícia Militar invadiu o Campus Samambaia, matando um motorista do então “transporte alternativo”, eu estava lá como estudante de Jornalismo. Quando em 2002, a PM repetiu a dose invadindo uma área de responsabilidade federal para apreender o rescaldo do “Dossiê K”, com PMs sacando arma para estudantes, eu estava lá. Eu entreguei meu exemplar a um policial sem ofertar qualquer dificuldade. Fiquei sem o meu “Dossiê K”.

Antes de morrer, eu já era um covarde.

À reportagem da “Folha de S. Paulo” no dia 3 de outubro de 2002, a então assessoria da PM afirmou que não houve ordem do Comando Geral Metropolitano para que invadissem o campus e cometessem aquela ação. Argu-mentou que policiais “afastados, de folga ou de férias” podem ter tomado a iniciativa própria de invadir o Campus da UFG. Uma disposição espartana. Não foi Marconi Perillo quem pediu à polícia para invadir a área federal do campus e reprimir na porrada estudantes e professores. A ordem oficial veio do TRE-GO que pediu o confisco do livro de Jorge Kajuru, a pedido da chapa do Tempo Novo, por considerar que o material era impróprio para a leitura e distribuição.

Naquele momento da Histó­ria, o espectro de Nietzsche apontou para mim e disparou: “Ecce Homo”. O subtítulo desta obra é “Como Alguém Se Torna O Que Se É”. Eu, no meio daquela confusão, ao não reagir e entregar o livro e gravar na memória o que meus olhos viam, me tornei o que sou, o que jornalista é: um covarde das letras.

E me tornei, automaticamente por aquelas cenas (e outras tantas que vi nestes mais de dez anos) integrante da “oposição”.

Mas, agora, assim como tantos goianos, estamos mortos. Assis­timos a tudo o que acontece no Estado de Goiás e ficamos em silêncio. Assim como eu assisti à invasão do campus e me calei. Não estamos mudos porque nos calam a boca ou nos acertam um cassetete no pulmão. Não, este tempo passou e não é mais necessário. Os tempos e as formas de se silenciar são outros. Nós não falamos nada porque não temos voz. Nossa voz é o som que não há.

O que existe é um transe sobre a terra dos goyazes que impede que qualquer análise crítica seja feita e reverberada. Não há vozes na oposição, somente hiatos de resignado silêncio. Até o murmúrio da dor da derrota se foi. Há três semanas cito a oposição neste espaço. O PMDB está desaparecido, sufocado no engulho da sua confusão; Iris está de volta ao auto-ostracismo, à espera da convocação à eleição municipal ou ser o sparring de Marconi novamente. Vanderlan é tão “diferente” quanto a Bossa é Nova. No Partido do Traba­lhadores, a missão principal é sobreviver à estupidez fascista da internet, aos panelaços e à adjetivação do termo “petralha” como sinônimo do que é bandidagem na política ou fora dela. Maldito PT, maldita Geni.

São tempos melancólicos, de ocaso.

E a principal razão de tamanho silêncio é, acima de tudo, a supremacia da figura de Marconi Perillo por sobre todas as demais forças. Marconi não é maior somente que a oposição supostamente aniquilada. Ele, agora, é maior que seus criadores, adoradores, mantenedores, defensores. Perillo é a reinvenção de si mesmo, emulando agora algo mais que genial como agente público, há um quê de transcendental e mítico que “avança pelos campos, derrubando as cercas”.

Enquanto entidade pública, Mar­coni Perillo é como na canção “A tua presença morena”, de Caetano Veloso. “Entra pelos sete buracos da minha cabeça” do cidadão goiano.

Isto porque ao vencer sua quinta eleição ao Governo (sim, foram cinco), Perillo resignificou sua capacidade de ascender sobre todas as forças, incluindo as que estão a seu favor, que o elegeram. Sobretudo ao vencer o último pleito quando ele, aos olhos da oposição preguiçosa nossa de cada dia, estava morto. Havia a Operação Monte Carlo, gravações, explicações atravessadas e um clima de caos na gestão.

As forças políticas da oposição trataram Marconi como bêbado na ladeira. Tamanhas derrotas não ensinaram a respeitá-lo. E aí foi o erro cometido. Porque Perillo tornou-se recluso e curou suas feridas com habilidade e resultado, tanto político quanto administrativo. E venceu novamente, provando porque é fenômeno e porque tem o direito de reivindicar seu espaço na política nacional.
E, desta vez, quem invoca Nietzsche é Perillo. “Aquilo que não me mata, só me fortalece”. E esta derradeira vitória veio com o poder de calar a todos, de silenciar críticos de seu poder de reinvenção e de criação do Estado paralelo ao real.

Seu poder pessoal como líder emana força intangível e inefável a ponto de facultá-lo a capacidade de reinventar realidades e as entregar ao povo como a mais fidedigna fotografia dos fatos. Só que assim sofrem todos: adversários e discípulos.

Afinal, vejamos. Na última semana, o Governo convocou a cúpula do Movimento Brasil Competitivo (MBC) – leia-se o mundialmente famoso Jorge Gerdau –, para afagar o projeto denominado Programa de Modernização da Gestão Pública de Goiás (PMGP). Basicamente é a busca da administração Perillo pela excelência na qualidade de gerir, com objetividade e alcance de resultados.

No último mês desta mesma semana, o mesmo governo perseguidor da Excelência anunciou o parcelamento dos salários dos servidores, com todos os débitos abatidos numa só parcela. A gestão repassa ao funcionalismo o prejuízo acumulado de seu próprio histórico administrativo simplesmente porque o dinheiro acabou.

Mesmo com uma medida tão cruel e impopular – há quem tenha recebido uma quantia irrisória na primeira parcela tamanho foi o impacto dos descontos – o atual governo encontrou espaço na agenda da imprensa para divulgar um imenso relatório estruturado na comprovação os avanços da gestão pública rumo à modernização, ao futuro.

Rumo à excelência.

“Neste período, conquistamos avanços importantes em Goiás, em todas as áreas”, declarou Marconi Perillo diante de prefeitos, assessores, secretários, e à imprensa. Ao contrário do salário do funcionalismo estadual, o relatório das conquistas inquestionáveis veio de uma só vez, sem parcelamentos.

Enquanto isto nos acomete, PMDB, PT, PSB, e todas as demais siglas que fizeram oposição ao grupo político governista se ausentam da análise crítica, do debate franco, do posicionamento público, do estabelecimento de um contraponto à forma como a realidade é serenamente sobreposta por um delírio.  Um delírio cujo nome é “vanguarda de gestão”.

A vanguarda modernista do parcelamento de salários. “Neste período conquistamos avanços importantes para Goiás.”

Enquanto escrevo estas linhas, penso em todas as lideranças políticas de oposição que conheço – desde aquelas com que convivi até os que apenas acenei de longe e lamento pelo tapa que não levei do PM. Pela bordoada que não tomei pela resistência que não ofertei. Antes a tivesse levado e gemido, chorado. O silêncio destes homens me dói agora mais do que o arrependimento por aquela covardia no Campus Samambaia.

Eu me tornei apenas o jornalista. De onde estou assisto e reverencio a imagem mítica do político Marconi Perillo. Merece tudo o que se tornou e lhe há todo o direito de reivindicar tudo o que quiser. De onde estou, ouço um eco de gemido, mas são os professores e estudantes que apanharam em 2002. As lideranças que deveriam pontuar a oposição de Goiás seguem sepulcrais. Seguimos apanhando, mas agora já não dói. Estamos surpreendentemente dormentes.

Eu sou da oposição, estou dormente. E, por enquanto, estou morto. Mas não me fui embora, me mantenho pairando como o covarde das letras. Em algum momento sei que alguém há de nos levantar.

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