No PSG, Neymar vira “garoto propaganda” de país acusado de financiar terroristas

Doutor em ciência política pela Universidade de Oxford, Mathias Alencastro explica que a diplomacia do Catar é controversa, mas associá-la ao terrorismo é uma simplificação perigosa

FotoPress/Getty Images

A pré-temporada do futebol europeu é frequentemente marcada por especulações acerca de contratações de jogadores. Sem bola rolando, a mídia se volta para este tipo de cobertura e os rumores aumentam. No dia 18 de julho, o repórter Marcelo Bechler, do canal “Esporte Inte­rativo”, foi o primeiro a cravar a saída de Neymar para o Paris Saint-Germain (PSG). A princípio, o Barcelona negou. Ridicu­larizado até mesmo por colegas de profissão, o jornalista foi xingado nas redes sociais e recebeu inúmeras ameaças. Mas na quarta-feira, 2, o furo foi, finalmente, comprovado. Por meio de um comunicado em seu site oficial, a equipe da Catalunha anunciou que o craque brasileiro não jogará mais pelo clube.

O mundo futebolístico se viu diante da maior transação da história em termos financeiros. O valor da multa rescisória de Neymar é de 222 milhões de euros, equivalente a cerca de 820 milhões de reais. Com isso, comentaristas esportivos avaliam que o PSG sobe de patamar e se coloca como um dos favoritos a vencer Liga dos Campeões da Europa, a mais prestigiada competição do futebol para clubes.

Neymar chega à França para ser a estrela do time. Na Espanha, ficava “à sombra” do argentino Lionel Messi. O agora ex-Barcelona muda de país também para atingir um objetivo pessoal: conquistar a bola de ouro e se tornar o melhor jogador do mundo. Em um ano de Copa do Mundo, as chances desse sonho virar realidade já em 2018 são grandes.

Fora das quatro linhas

Cientista político Mathias Alencastro: “Sucesso do PSG passa a imagem para a Europa de que o Catar está em ascensão” | Foto: Reprodução

Não é qualquer clube que tem condições de comprar um jogador tão caro como Neymar. Até 2011, o PSG era pouco expressivo. Foi quando a Qatar Investiment Authority (QIA) comprou 70% dos seus direitos e o elevou à condição de principal potência da França, contratando jogadores reconhecidos internacionalmente, como o zagueiro brasileiro Thiago Silva e o atacante sueco Zlatan Ibrahi­mović. Desde então, o PSG venceu a liga francesa quatro vezes consecutivas, mas o objetivo maior é conquistar a Europa e Neymar chega com esse desafio.

Conforme consta em seu site, a QIA foi fundada pelo próprio governo do Catar. Trata-se, portanto, de um investimento estatal. Doutor em ciência política pela Universidade de Oxford, Mathias Alescastro explica ao Jornal Opção que a ascensão econômica do Catar está intrinsicamente associada à explosão da demanda por gás natural nos anos 1990. Com localização geográfica privilegiada, o país do Oriente Médio se tornou rapidamente um dos principais exportadores do recurso. Daí a capacidade do PSG de se dar ao luxo de realizar uma contratação deste porte.

“O PSG é uma vitrine do Catar para a Europa. O seu sucesso passa a imagem de uma país em ascensão. O fracasso passa a imagem contrária”, pontua o cientista político. Para ele, este é o contexto no qual a chegada de Neymar deve ser entendida. Durante participação no programa “Redação SporTV” na quarta-feira, 2, o editor de esportes de “O Globo”, Márvio dos Anjos, disse que Neymar se tonou um patrimônio do Catar, que utiliza outras duas vitrines de alcance mundial: a rede de TV Al Jazeera e a companhia aérea Qatar Airways.

Com o intuito de expandir sua influência também no âmbito regional, o governo do Catar acaba se envolvendo em algumas situações polêmicas. É acusado de financiar grupos como a Irmandade Muçulmana, além da Frente al-Nusra, o braço da al-Qaeda na Síria. Por isso, há quem associe o PSG ao terrorismo. Logo após o atentado ao jornal satírico “Charlie Hebdo”, em janeiro de 2015, torcedores exibiram uma faixa em um estádio ao longo de uma partida entre Bastia e PSG com os seguintes dizeres: “Le Qatar finance le PSG et le terrorisme”.

Contudo, Mathias Alencastro argumenta que a associação entre PSG e terrorismo é uma simplificação perigosa e desinformada, utilizada por políticos oportunistas. Dessa forma, atribuir a Neymar este tipo de responsabilidade é injusto. “Pode­mos olhar para a transferência de Neymar sob o prisma da geopolítica, mas não podemos responsabilizá-lo por questões de geopolítica”, afirma.

Crise diplomática

No início de junho, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Iêmen e Egito romperam ligações com o Catar justamente sob a justificativa do mesmo apoiar o terrorismo. Algumas exigências foram impos­tas para a retomada da norma­lidade. Dentre elas, o fechamento da Al Jazeera. Ademais, a Qatar Airways está tendo de desviar rotas a fim de evitar o espaço aéreo desses países.

Segundo Mathias Alencastro, ainda não se sabe como esta crise irá afetar PSG. “O Catar pode ficar sem recursos e retirar fundos ou apostar ainda mais para mostrar que seu projeto de crescimento continua de pé”, destaca. Vale lembrar que o Catar é a sede da Copa do Mundo de 2022 e um eventual conflito militar, descartado na visão do cientista político, pode resultar em uma mudança de planos. l

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