No meio do caminho tinha uma roda

Não é errado dizer que a morte nos coloca uma “questão”; todavia, em sua dimensão mais radical, não há questão alguma. Uma questão faz falar; a morte faz calar, pois diz respeito a um indizível

Cristiano Pimenta
Especial para o Jornal Opção

Pintura retrata Romeu e Julieta: imaginário coletivo que compõe tragédias de amor

Pintura retrata Romeu e Julieta: imaginário coletivo que compõe tragédias de amor

A morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo e de sua namorada, Allana Moraes, produziu, sem sombra de dúvida, reações e efeitos surpreendentes. O apresentador Zeca Camargo questionou a legitimidade da “comoção nacional” pela morte do cantor, já que Cristiano Araújo, aos olhos dele, não era um “ídolo de verdade”. Zeca criticou o fato de muitas pessoas que se comoveram não terem um motivo verdadeiro e legítimo para se entregarem ao “abraço coletivo” e à “catarse” que os uniu em torno das urnas de Cristiano e Allana. A cobertura massiva dada pela mídia lhe pareceu igualmente exagerada.

Mas por que, perguntamos, o fato de essa comoção servir para “expurgar dores” — expressão usada por Zeca — a tornaria ilegítima? Dores comuns entre pessoas desconhecidas produzem identificações, aproximações e abraços. Por exemplo, pais que sofreram alienação parental podem se unir em suas preocupações, suas dores e sua causa, podem lutar no Congresso para a aprovação de uma lei, como a da guarda compartilhada etc. Os exemplos seriam muitos.

A verdade é que, no coração desse fenômeno de epidemia histérica, e também na relação que todos nós tivemos com esse momento, há sim um ponto em comum e radical: a experiência da morte. A morte de qualquer pessoa pode, sob certas condições, projetar-se e tornar-se o meio pelo qual lidamos com o tema.

No caso do casal Cristiano e Allana algumas dessas condições para uma ampla comoção parecem se realizar. Há vários elementos capazes de nos “seduzir”. Ainda jovens, tinham uma vida promissora por viver. Todas as formas de sonhos que possamos imaginar foram abruptamente interrompidos por um acidente. Além disso, ambos viviam uma história de amor. Quando uma morte acidental impede a continuidade de uma história de amor, esta história pode eternizar-se. É o caso, por exemplo, de Romeu e Julieta, tragédia eternizada sob a pena de William Shakespeare.

Portanto, temos motivos para nos envolvermos com essa tragédia. Como não compartilhar o desespero dos pais? Como poderíamos ser indiferentes às suas declarações? Não há como não nos condoermos com um pai que rezava todos os dias pela segurança de seu filho e que se vê compelido a formular a dilacerante pergunta “será que Deus existe?”.

O que é um acidente? É um acontecimento imprevisto. Um pneu que estoura, uma roda que se parte, parecem ser coisas por demais bestas para mudar um destino. Todavia, neste caso, eles compõem os pedaços de um real que se intromete nos destinos de duas pessoas. No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra… ou uma roda, pouco importa. Poderia ter sido um cochilo. O decisivo é se isso é ou não suficiente para produzir a irrupção de um real aniquilador. O acontecimento imprevisto é a base do que chamamos de trauma. E o trauma é aquilo que é capaz de produzir um buraco. O buraco, por sua vez, é aquilo que foi causado pela pedrada, se assim podemos dizer, ou por uma bala perdida… Esse buraco traumático jamais é sem consequências. Uma delas é que somos condenados a contornar, a rodear, esse buraco sem mais cessar. Na vida há sempre um toco em torno do qual não cessamos de girar inutilmente. O exemplo mais evidente é o do modo como o nosso pensamento lida com o trauma. Quem duvida de que na cabeça dos pais da moça e do moço o pensamento permanece girando louca e repetidamente em torno de uma roda ilegítima na Range Rover? “E se essa roda não tivesse quebrado? E se o cinto de segurança estivesse afivelado? E se o carro estivesse numa velocidade mais baixa?” Esses pensamentos se repetem compulsivamente porque, frente à morte, o pensamento lida com um problema insolúvel. É como o poema de Drummond, que gira em torno de uma pedra, ou como um antigo vinil furado, que só pode repetir o mesmo trecho da música, impedido de seguir em frente.

Não é errado dizer que a morte nos coloca uma “questão”, ou várias; todavia, em sua dimensão mais radical, não há questão alguma. Uma questão faz falar, a morte faz calar, pois diz respeito a um indizível. A morte faz calar inclusive os fantasmas. Quando tomamos verdadeiramente consciência da morte de tal pessoa que nos é imprescindível experimentamos, concomitantemente, a certeza de que um vazio se abre lá onde ela existia. Esse vazio frio e silencioso se impõe sobre qualquer manifestação de vida, não deixando lugar nem mesmo para os fantasmas. Vive-se a certeza de que esse corpo, agora imóvel e sem vida, tal como uma pedra, nunca mais vai se mover. Não há, pois, o que temer.

A morte impõe a questão da nossa relação com o corpo. A existência humana dependeria da vida desse corpo que possuo? Habeas corpus! Que tenhas o teu corpo! Não apenas livre, mas também vivo! Quanto ao corpo vale mencionar a divulgação viral via internet de imagens mostrando a presença fria e silenciosa dos corpos sem vida de Cristiano e Allana. Como me disseram, pois eu não vi, ela estaria desfigurada e estendida no asfalto logo após o acidente, e ele, aparecia sob a forma de uma mera carcaça numa mesa fria. Eis aí o real da morte transformado em espetáculo macabro que satisfaz ao olhar. Visão desumana e insuportável de se ver, mas, ao mesmo tempo, tentadora. O crime em questão, ou melhor, a transgressão propriamente dita, feita por aqueles que filmaram e divulgaram esses vídeos, está em mostrar aquilo que não poderia aparecer na cena. A cena é o lugar do show. É o lugar da voz impressionante de Cristiano Araújo e da beleza de Allana.

Mas essas imagens insuportáveis e tentadoras não nos mostram também a situação em que todos nós ainda nos encontraremos? Como não pensar no texto sagrado do Antigo Testamento, o Eclesiastes, onde a verdade última é dita sob a forma de “tudo é vaidade”. Ou melhor, na bela tradução de Haroldo de Campos:

“Pois tudo é névoa-nada / Tudo vai para um só lugar / Tudo veio do pó/ E tudo volta ao pó”

Mas atenção, caro leitor: a experiência com a morte, abordada da perspectiva da psicanálise, nos coloca uma das questões mais cruciais da vida: “agiste em conformidade com o teu desejo?” (Lacan). Trata-se nessa pequena pergunta do ponto em que o nosso desejo se articula com aquilo que se nos impõe como um dever, ou seja, trata-se da ética do desejo. Fizeste a graduação que tanto sonhou fazer? Disse “eu te amo” a quem deveria dizer? Deu sua presença lá onde deveria ter dado?

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