No combate ao coronavírus, Argentina goleia o Brasil por 10 a 1

A taxa de brasileiros mortos pela pandemia de Covid-19 por grupo de 1 milhão de habitantes é dez vezes maior que entre os argentinos

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O palácio executivo argentino, a Casa Rosada, poderá continuar sendo ocupado por Macri ou passar a Fernández em 2020 | Foto: Reprodução / Wiki Commons

O Diario Clarín, maior jornal argentino, publicou 12 reportagens contendo o nome do presidente brasileiro na sexta-feira, 29. Foram 51 publicações que citam Jair Bolsonaro em algum trecho do texto apenas na semana do dia 24 de maio. Algumas o fazem no título, de forma objetiva ou crítica. Exemplos notáveis são: “Coronavírus no Brasil: em meio à crise política, Jair Bolsonaro seduz os mais pobres com cheque de US $ 110”; “Chuva de críticas a Jair Bolsonaro após a transmissão de um vídeo explosivo que o compromete” e “Jair Bolsonaro aprofunda seu ataque à Justiça brasileira devido à investigação de notícias falsas”.

A análise do discurso dos veículos de imprensa argentinos revela que o Brasil é tomado como contra-exemplo para políticas públicas no combate à pandemia do novo coronavírus. Não sem motivo – a Argentina tem dez vezes menos mortes por Covid-19 do que o Brasil, mantidas a proporção das populações; são 89 mortos brasileiros para cada grupo de 1 milhão de habitantes e apenas 8,7 mortos argentinos para cada milhão. Enquanto o país comandado por Alberto Fernández adota rígida quarentena desde a terceira morte confirmada no país, o isolamento no Brasil de Jair Bolsonaro é decidido em um cabo de guerra entre governadores, presidente, empresários do setor de serviços e trabalhadores informais.

Júnior Bueno é um jornalista goiano que reside em Buenos Aires há três anos e atualmente trabalha como editor na Editora Perfil. Segundo ele, o “fenômeno Bolsonaro”, como é chamado na Argentina, repercute na mídia portenha desde antes da pandemia. Pelo fato de que o presidente brasileiro antagonizou Alberto Fernández ainda durante sua candidatura, paralelos entre o líder brasileiro e políticos argentinos são feitos, frequentemente de forma a alertar sobre o avanço da onda de radicalismo da extrema-direita em outros países da América Latina.

“Jair Bolsonaro é entendido como um vetor para a extrema direita no mundo. Isso é objeto de fascínio e temor entre os cidadãos argentinos. Pelo fato de o Brasil ser tão grande e importante no jogo político da América Latina, é acompanhado muito de perto pela imprensa sul-americana”, afirma Júnior Bueno. “Mais recentemente, o presidente ganhou importância na dimensão da saúde pública, pois a situação brasileira que pode afetar toda a região – haja visto a proibição de viajantes brasileiros em países como o Paraguai. A maneira com que Bolsonaro se comporta em relação ao coronavírus é divulgada, em geral de forma crítica”, conclui.

Capa do maior periódico argentino durante campanha presidencial | Foto: Reprodução

Segundo Júnior Bueno, há preocupação econômica com o que pode ocorrer no país vizinho, pois são grandes parceiros comerciais. “Há aqui um ditado que diz, ‘Se o Brasil espirra a Argentina se protege de uma tuberculose’. Ou seja, qualquer coisa que afete o Brasil afetará ainda mais a argentina”. Segundo sua avaliação, os esforços das autoridades argentinas foi elogiável e responsável, mas caso o Brasil se torne um epicentro da pandemia no mundo, os esforços do país vizinho podem ser perdidos. 

Michel Afif Magul, advogado argentino que reside em Goiânia, tem familiares em Buenos Aires. Ele relata a preocupação de seus parentes com a saúde da parte da família que veio residir no Brasil: “Sempre pedem que nos cuidemos, que tomemos todas as cautelas, porque os números de infectados e mortos são impactantes. O Brasil é o epicentro da pandemia na América do Sul e veículos de imprensa argentinos de todas as linhas editoriais têm feito muitas críticas ao governo brasileiro. Tanto jornais de esquerda quanto de direita tomam o que ocorre no Brasil como o caminho que não se deve seguir.”

Michel Magul conta que autoridades argentinas se uniram ao discurso oficial das organizações de ciência e saúde

Sobre as medidas de enfrentamento ao coronavírus, os entrevistados ressaltam que, diferentemente do que ocorreu no Brasil, autoridades argentinas se uniram ao discurso oficial das organizações de ciência e saúde em um momento de rara cooperação entre situação e oposição. “Foi um momento único na argentina”, afirma Michel Magul. “No primeiro dia de quarentena, representantes do governo surgiram em entrevista coletiva ao lado do chefe de governo de Buenos Aires (um opositor) para se pronunciar juntos”.

As regras na capital são estritas. Júnior Bueno conta que, pelo fato de que a Itália foi o maior colonizador da Argentina (62% dos argentinos têm ascendência italiana), estes dois países estão atrelados por suas populações. Como a Itália foi um dos primeiros focos da pandemia, a Argentina importou a doença muito cedo – no dia 7 de março, dez dias antes do Brasil, registrou-se a primeira morte pela Covid-19 em Buenos Aires. Como resposta, o presidente Alberto Fernández executou medidas de lockdown via decreto logo em seu primeiro pronunciamento em rede nacional. 

Aprovação de Alberto Fernández aumentou durante o combate a pandemia | Foto: Reprodução

Júnior Bueno diz que há adesão popular em massa às medidas contra a pandemia por conta dos evidentes resultados, principalmente quando comparados ao Brasil. “Isso revela um pouco do caráter político do argentino: eles trocam de político muito mais rápido e facilmente do que os brasileiros. Existem instituições que fazem oposição, mas não como no Brasil, porque aqui o coronavírus não é questão política mas de saúde pública”, diz Júnior Bueno. “As pessas estão dispostas a abrir mão de divergências para lutar contra uma coisa que coloca a todos em risco.”

Os conflitos entre os países vêm desde antes da pandemia. Bolsonaro escolheu antagonizar Alberto Fernández ainda na campanha presidencial por este ser o representante da esquerda. Sua vice, Cristina Kirshner, é reconhecida por políticas sociais. Alberto Fernández, entretanto, não comprou a briga com Bolsonaro; respondeu um tom abaixo ao afirmar que a Argentina deveria ter boas relações com o Brasil não importando seus mandatários e que presidentes são passageiros mas as relações entre os países não.

Bolsonaro foi o único presidente do Mercosul a não ir à posse de Fernández; enviou o general Hamilton Mourão em vez disso.  “Isso pegou muito mal por aqui, mas, institucionalmente, a briga não foi adiante”, diz Júnior Bueno. “Para a Argentina não é interessante comprar briga diplomática com o Brasil em qualquer situação. Este fato não impede que a imprensa argentina retrate Bolsonaro de forma crítica”. 

O cientista político argentino Jorge San Martino, residente em Buenos Aires, analisa: “Do ponto de vista comercial, a produção agrícola e pecuária posiciona ambos países como dois dos exportadores de proteínas mais promissores do planeta”. Isso quer dizer que Argentina e Brasil competem como exportadores de commodities e relações diplomáticas podem causar predileção por um fornecedor ou outro. “Com a crise chinesa causada pela gripe suína que dizimou um terço de sua produção, abre-se uma oportunidade. A China tem um mercado que pode aspirar a toda a produção argentina pelos próximos cinco anos”.

Segundo Jorge San Martino, Argentina e Brasil competem como exportadores de commodities e relações diplomáticas podem causar predileção pelo fornecimento de um país ou outro. | Foto: Acervo Pessoal

A atitude de Jair Bolsonaro frente ao coronavírus não diz apenas respeito à saúde dos brasileiros, mas aos negócios na América Latina: “Do ponto de vista político, esse mandato presidencial deu expectativas positivas para sua abordagem das reformas. A personalidade do primeiro mandante, entretanto, não ajuda a gerar uma imagem de confiança internacional. Ele está mais associado à personalidade de Donald Trump do que a qualquer outro estadista europeu”.

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