Não importa o resultado dentro de campo. O vencedor da Copa do Mundo é Vladimir Putin

Evento serviu para mostrar ao mundo uma Rússia diferente da imagem que muitos torcedores tinham antes de conhecer o país

Vladimir Putin pôde “vender” ao mundo uma imagem positiva de seu país | Foto: Divulgação/Fifa

De Moscou, Rússia

A Copa do Mundo da Rússia foi a terceira seguida realizada em um dos países do grupo de cooperação política Brics (acrônimo para Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) — as sedes dos mundiais de 2010 e 2014 foram África do Sul e Brasil, respectivamente.

Em todas as três edições, o vencedor foi uma equipe europeia — Espanha, em 2010, Alemanha, em 2014, e França ou Croácia, neste ano. E mais: em 2018, os quatro semifinalistas — Bélgica e Inglaterra somam-se aos finalistas franceses e croatas — fazem parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que se contrapõe à Rússia do ponto de vista da política externa.

No futebol, a seleção russa foi mais longe do que ela própria imaginava. Muitos acreditavam que a Rússia sequer passaria da fase de grupos, mas o fez, eliminou a campeã mundial Espanha nas oitavas de final e só caiu diante da Croácia nos pênaltis na fase seguinte.

Saíram vitoriosos — e isso pode contribuir para surgir uma nova geração russa, uma vez que o interesse pelo esporte foi despertado entre os cidadãos, inclusive aqueles que preferem o hóquei no gelo. Contudo, o presidente do país, Vladimir Putin, foi o grande vencedor do torneio, independentemente do resultado dentro de campo.

Na cerimônia de abertura, fizeram-se presentes líderes de países com pouca expressão internacional, como Armênia, Azerbaijão, Bielorrússia, Bolívia, Cazaquistão, Coreia do Norte, Líbano, Moldávia, Panamá, Paraguai, Quirguistão, Ruanda, Tajiquistão e Uzbequistão, e outros com soberania parcialmente reconhecida, como Abecásia e Ossétia do Sul, além, é claro, de Mohammed bin Salman, príncipe herdeiro da Arábia Saudita, que perdeu de 5 a 0 para os donos da casa.

Isso se deu em razão do isolamento da Rússia perante nações ocidentais, que impuseram embargos econômicos ao país após a anexação da Crimeia, em 2014. Ademais, Inglaterra, Islândia e Austrália, entre outros participantes da Copa do Mundo, anunciaram um boicote diplomático — devido a questões políticas — à competição.

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Mesmo sob embargo — e com o suporte de oligarcas ligados ao governo, que ajudaram a construir estádios com suspeitas de corrupção —, a Rússia realizou uma Copa do Mundo de altíssimo nível e fez com que muitos turistas saíssem do país com impressões extremamente positivas.

Este era justamente um dos grandes objetivos de Putin, que mostrou ao mundo uma Rússia diferente da imagem que boa parte dos torcedores tinham antes de conhecer o país. Se essa imagem é, de fato, verdadeira, é uma outra questão. Para o governo, o importante é que o saldo foi, indiscutivelmente, positivo.

Em seu discurso durante a cerimônia de abertura, o presidente russo deixou bem claro a mensagem que queria passar ao citar qualidades da Rússia como “amigável”, hospitaleira” e “aberta”. “Desejamos sucesso às equipes e impressões inesquecíveis aos torcedores”, disse, sendo ovacionado pelos presentes no estádio após a fala.

O presidente da Federação Interna­cional de Futebol Associação (Fifa), Gianni Infantino, reconhece que o evento mudou a cabeça daqueles que visitaram o país-sede da Copa do Mundo. Em uma coluna publicada no jornal “O Estado de S. Paulo”, o mandatário da entidade máxima do futebol assinala que os turistas “não encontraram nem sinal do clima violento que tantos, tão ‘apocalipticamente’, previam”.

Vale a pena, ainda, reproduzir mais um trecho do texto de Infantino: “Por muito que minha opinião possa ser facilmente vista como suspeita, é muito fácil, para mim, dizer sem o menor receio: a Copa do Mundo da Fifa 2018 tem sido maravilhosa; um sucesso estrondoso. É tão fácil dizê-lo, porque nem bem se trata de palavra minha. Basta sair por aí e perguntar aos torcedores, atletas, jornalistas, integrantes das delegações. Na verdade, basta olhar ao redor e constatar o ambiente que contagia a Rússia estes dias: nada poderia ser mais distante da suposta frieza que um bocado de gente esperava”.

É claro que nem tudo foi perfeito. Por exemplo, o inglês dos russos na hora de dar informações a turistas estava entre as reclamações mais recorrentes e a logística para se locomover de uma cidade a outra não era das melhores, como de Sochi para Rostov e de Samara para Cazã, sendo necessário fazer escalas sem sentido em Moscou, que conta com três aeroportos e foi um verdadeiro “hub” ao longo do mundial.

Em um país continental, é compreensível que haja este tipo de problema. Cabe lembrar que a Copa do Mundo ocorreu basicamente na parte europeia da Rússia, com exceção de Ecaterimburgo, a única cidade-sede localizada depois dos Montes Urais — na Sibéria, certamente não se viu o mesmo clima de Moscou e São Petersburgo.

Em contrapartida, os russos, apesar do fraco inglês, foram sempre simpáticos e davam um jeito de ajudar os estrangeiros — que, ao final, também se esforçavam para tentar ler as palavras escritas em alfabeto cirílico —, nem que seja por meio de diálogos no tradutor do celular — em cidades menores, a simpatia dos locais era ainda maior.

Destaca-se, por fim, que o transporte ferroviário era gratuito para quem apresentasse o Fan ID, uma espécie de “passaporte” para entrar nos estádios — neste caso, o único desafio era encarar longas horas de viagem nos trens, que, diga-se de passagem, estavam em boas condições. Em dia de jogo, o transporte público também era de graça.

Mistura
Há quem acredite que futebol e política não se misturam. Em uma Copa do Mundo, isto é praticamente impossível — ainda mais na Rússia. O astro egípcio Mohamed Salah supostamente sendo usado como objeto político ao posar ao lado do presidente da Chechênia, Ramzan Kadyrov, é apenas um exemplo disso — o Egito ficou alojado na referida região russa.

Mohamed Salah ao lado do presidente da Chechênia, Ramzan Kadyrov | Foto: Reprodução

Outros casos nítidos são o do zagueiro croata Domagoj Vida, que gravou um vídeo com frases em apoio à Ucrânia após a Croácia derrotar a Rússia nos pênaltis, e o dos jogadores suíços Xherdan Shaqiri e Granit Xhaka, ambos de origem kosovar-albanesa, que reproduziram o gesto da águia negra de duas cabeças da Albânia na comemoração de seus gols contra a Sérvia.

Já havia polêmica relacionada à política antes mesmo da bola rolar. A Federação Palestina de Futebol apresentou, durante o 68º Congresso da Fifa, realizado um dia antes da abertura do mundial, uma emenda ao estatuto da instituição com o objetivo de punir federações de países que venham a violar os direitos humanos, em um claro recado a Israel.

A proposta foi rejeitada por 156 votos contrários, enquanto somente 35 foram favoráveis. A própria Fifa recomendou votar contra. E o responsável por dar tal recomendação aos presentes foi Fernando Sarney, membro do Conselho da entidade em questão e filho do ex-presidente do Brasil José Sarney.

Futebol colonizador
Na semifinal entre França e Bélgica, nove jogadores das duas equipes poderiam estar defendendo as cores da República Democrática do Congo, que, nas eliminatórias africanas, ficou a um ponto de se classificar à Copa do Mundo — Steve Mandanda, Presnel Kimpembe, Steven N’Zonzi e Blaise Matuidi, pelo lado francês, e Vincent Kompany, Dedryck Boyata, Youri Tielemans, Romelu Lukaku, e Michy Batshuayi, pelo belga.

Trata-se de um reflexo do passado colonizador de países europeus, que parecem não querer enxergar outra maneira de integrar imigrantes e seus filhos à sociedade a não ser por meio do futebol. E o mais impressionante é que líderes anti-imigração exaltam a conquista de uma seleção, que, pela terceira vez em 20 anos — recheada de estrangeiros em todas elas —, leva o seu país a final de um mundial, como feito pela francesa Marine Le Pen no Twitter.

O futebol colonizador não fica restrito a este tipo de caso. Os clubes europeus, cada vez mais ricos, compram as jovens promessas de outros países e, assim, enfraquecem as equipes locais, “colonizando-as”. A diferença atual entre times da Europa e da América do Sul, por exemplo, é evidente.

E isso acaba refletindo também nas seleções, já que o futebol está sendo desenvolvido, na prática, no Velho Continente. Não é à toa que, em 2022, os sul-americanos vão completar pelo menos 20 anos sem conquistar uma Copa do Mundo e, na Rússia, nem sequer figuraram entre os semifinalistas.

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