Na linha de frente do combate à Covid-19, profissionais de saúde se dividem entre dedicação e medo

Eles têm família, sonhos e medos, mas precisam colocar o profissionalismo acima de tudo para salvar vidas nesta época de crise na Saúde

Profissionais de saúde se desdobram para garantir a manutenção do máximo de vidas / Foto: Cofen

O governador Ronaldo Caiado sancionou, recentemente, uma lei que autoriza a estadualização de quatro hospitais do interior de Goiás, nos municípios de Formosa, Jataí, Luziânia e São Luís de Montes Belos. O ato é mais um aceno do governo de Goiás no sentido de preparar o Estado para a crise do coronavírus que está colocando o mundo em sofrimento. Entretanto, além de estruturas prediais, Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), insumos e aparelhos especiais para o tratamento da Covid-19, uma ferramenta é absolutamente essencial na luta contra o coronavírus: os profissionais da saúde, justamente aqueles que têm atuado na linha de frente de combate ao vírus e absorvido o impacto de seus efeitos, fazendo todo o possível (e impossível) para remediar o estrago e salvar vidas.

Um dos principais “campos de batalha” contra o coronavírus no Estado tem sido o Hospital de Campanha, o HCamp, em Goiânia. A unidade hospitalar funciona no antigo Hospital do Servidor, e foi criada exclusivamente para receber os pacientes com suspeitas de terem sido infectados pelo novo coronavírus. O local conta com 406 funcionários, divididos em 89 médicos e 293 profissionais da saúde das mais variadas áreas, como enfermeiros, técnicos de enfermagem, odontólogos, fonoaudiólogos, psicólogos e nutricionistas. Porém, o número de pessoas com sintomas de Covid-19 tem aumentado e, antes de serem transferidos para o HCamp, os pacientes dão entrada em outras unidades hospitalares.

José (nome fictício, o entrevistado pediu para não ser identificado), de 24 anos, é enfermeiro numa Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira, o Hugol. Ele conta que, até o momento, sua unidade recebeu nove pacientes com suspeita de Covid-19. Ao darem entrada no hospital, os pacientes têm os dados protocolados e o material genético coletado, que é enviado ao Laboratório Estadual de Saúde Pública Dr. Giovanni Cysneiros, o Lacen.

José relata que, antes mesmo de serem confirmados – ou descartados – como portadores de Covid-19, os pacientes são transferidos para o HCamp. Porém, o corpo técnico do hospital precisa estar preparado para tudo. Ele conta que o paciente já chega com insuficiência respiratória e precisa ser submetido à intubação. Durante o procedimento, todos os médicos, enfermeiros e técnicos precisam estar devidamente paramentados. José descreve o rigor com que os profissionais se protegem: “O protocolo de imediato é a máscara N95. Então tem a máscara cirúrgica por cima, a touca, o protetor facial e o macacão. Todo cuidado é pouco”, destaca.

O enfermeiro diz que o momento de desparamentar, que é quando o profissional despe os EPIs, também é de suma importância, porque neste momento o risco de contaminação é alto, além do fato de que os insumos precisam ser economizados.

José, assim como todos os médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, técnicos, e outros profissionais do Hugol, passou por intenso treinamento com base nas notas técnicas emitidas pela Anvisa. Mas mesmo ciente da adoção dos procedimentos adequados para sua proteção, os acontecimentos não deixam de assustar o enfermeiro.

“Eu como pessoa fico com medo. A gente tem os pais da gente, eu tenho minha mãe, que já tem 56 anos, tenho minha irmã, meu sogro, que é idoso, minha namorada, que é profissional de saúde também, então eu fico me policiando. Eu preciso me proteger em dobro, e ter inteligência emocional, senão a equipe inteira se desestrutura”, finaliza.

“É por amor ao paciente que muitos cruzam a linha de perigo”, diz enfermeiro

O jovem Victor Augusto, de 28 anos, também é enfermeiro. O rapaz atua no Hospital Araújo Jorge, em Goiânia, e também tem lidado diretamente com os afetados pela Covid-19.

Segundo ele, o enfrentamento ao coronavírus teve diferentes momentos na unidade. Há algumas semanas, conforme o enfermeiro, houve uma evolução nos procedimentos de diagnóstico da Covid-19 no hospital, o que facilitou o trabalho do corpo técnico. Ele conta que, diante da crise do corona, os médicos e enfermeiros passaram a se preparar melhor depois dos devidos treinamentos.

Victor Augusto diz que o amor ao paciente o faz enfrentar riscos / Foto: arquivo pessoal

“Duas semanas atrás tivemos um caso suspeito, paciente que já veio entubado, e estabilizamos ele. Mas já estávamos precavidos com a paramentação e EPI correto. A equipe, há três semanas, ainda estava tentando entender, lidar com cada situação, então imagina, o medo dos técnicos de enfermagem, da equipe, em questão de receber esses pacientes, e com medo não só de pegar esse coronavírus, mas também de como lidar com ele. Mas graças a Deus fomos informatizados”, destaca.

Victor Hugo relata que antes o hospital não contava com triagem 24hrs, o que agora é uma realidade. Segundo ele, todo paciente que dá entrada no hospital “com sintomas de síndrome gripal, tosse, febre acima de 37.9, dispneia (dificuldade para respirar)”, já é enquadrado como suspeito de Covid-19. “Tentamos ser discretos para encaminhar esse paciente para o setor de imagem e não alarmar todo o setor, os postos, principalmente acompanhantes e pacientes”, conta.

O enfermeiro vê a situação atual como um desafio, mas enfatiza que uma “equipe capacitada  com conhecimento e prática” pode vencê-lo. Victor também fala a respeito do risco que enfrenta, enquanto profissional de saúde, mas é categórico ao defender a dedicação ao que faz. “Sinto que a preocupação com a família é o verdadeiro obstáculo para poder exercer essa função, mas é por amor à profissão e ao paciente que muitos cruzam linha do perigo e do medo e demonstram, no final, a coragem que poucos têm de encarar de verdade”, arremata.

Profissionais de saúde precisarão mobilizar recursos psicológicos para enfrentar o sofrimento, explica psicóloga

Neste momento de crise, os profissionais de saúde devem buscar forças, mas estão suscetíveis a transtornos psicológicos. Segundo a psicóloga e neuropsicóloga Leidiane Rosa da Silva, ao mesmo tempo em que profissional de saúde deve promover a cura e a recuperação do doente, ele, por sua vez precisa também “mobilizar todos os recursos psicológicos de enfrentamento contra o sofrimento do confronto real entre o adoecer, a experiência do isolamento social e a solidão”.

Segundo ela, mesmo se atendo às táticas de enfrentamento e resistência psicológica nesta crise provocada pelo coronavírus, “os trabalhadores da saúde precisam de apoio psicológico para que recebam uma escuta humanizada a este momento de extrema ansiedade emocional”.

A psicóloga esclarece que alguns transtornos psicológicos podem ser reativos aos momentos de intensa sobrecarga emocional, e a experiência da “ansiedade, medo e a luta pela sobrevivência em intensidade alta poderão desencadear problemas psicológicos tais como depressão, ansiedade e estresse pós-traumático” e outros. Entretanto, o profissional de saúde pode buscar a ajuda de outros profissionais, e salienta: a atuação do psicólogo na prevenção da saúde emocional do profissional da saúde pode ajudar no enfrentamento de menor sofrimento desta experiência atual com a pandemia.

 

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