“Movimente-se”: doenças relacionadas a maus hábitos encabeçam mortes precoces

O conjunto formado por tabagismo, alcoolismo, má alimentação e sedentarismo pode ser a porta de entrada para toda sorte de enfermidades que ceifam a vida de milhares de pessoas todos os anos

A obesidade é um dos maiores causadores de problemas cardíacos e do sistema circulatório / Foto: Reprodução

Trezentos e oitenta e oito. Segundo o Ministério da Saúde, esse é o número de pessoas que morrem por dia no Brasil em decorrência da hipertensão, ou a famosa “pressão alta”. Para se ter uma noção do quão grave é o problema, no ano de 2017 o Brasil registrou 141.878 mortes devido a essa doença ou causas atribuíveis a ela, o que significa quase 17 pessoas mortas por hora ao longo do ano. Já em 2018, ainda de acordo com o Ministério da Saúde, 24,7% da população que vive nas capitais brasileiras afirmou ter diagnóstico de hipertensão. Os dados revelam uma assustadora realidade: as pessoas estão morrendo mais e mais rápido por doenças agravadas ou ocasionadas por hábitos não-saudáveis.

As enfermidades relacionadas ao coração e ao sistema circulatório encabeçam o ranking dos males que mais matam no Brasil e no mundo. A maioria deles tem origem ou ganha complicações com estilos de vida irregulares que abrangem excessos e negligência. A Organização Mundial da Saúde (OMS) listou, no ano passado, dez males que são responsáveis  por 54% das mortes ocorridas no mundo nos últimos anos. São eles: Cardiopatia isquêmica; Acidente vascular cerebral; Doença pulmonar obstrutiva crônica; Infecções das vias respiratórias inferiores; Alzheimer e outras demências; Câncer de pulmão, traqueia ou brônquios; Diabetes; Acidentes de trânsito; Doenças diarreicas e Tuberculose.

No Brasil, especificamente, o cenário não é diferente. Conforme o Ministério da Saúde, em 2016, por exemplo, os males que mais ceifaram vidas foram doenças do coração e do aparelho circulatório; câncer; pneumonia e doenças respiratórias; diabetes mellitus e doença endócrina, nutricionais e metabólicas; doenças do fígado e do aparelho digestivo. A pasta federal contabiliza mais de 340 mil mortes por ano relacionadas às doenças do aparelho circulatório, incluindo doenças isquêmicas, que contam com cerca de 108 mil mortes. Já as doenças cerebrovasculares são mais de 99 mil mortes, e infarto agudo do miocárdio, quase 88 mil.

De acordo com o cardiologista e professor do internato de Medicina da Universidade de Brasília (UnB) Marcelo Pasquali, a cardiopatia isquêmica é multifatorial e engloba não só o infarto, mas outras enfermidades relacionadas ao entupimento das veias. O médico conta que diversas causas podem fazer com que o indivíduo sofra desse mal, tais quais questão genética, estresse, sedentarismo, obesidade, diabetes e colesterol alto. “De acordo com o ritmo que a pessoa vai levando a vida, ela aumenta o risco de lesões nessas tubulações internas. A cardiopatia em si normalmente vem depois do infarto, e é preciso evitar todos os fatores de risco”, explica Pasquali.

O médico também esclarece que a obesidade está intimamente relacionada aos problemas cardíacos, e que a simples circunferência abdominal acentuada do indivíduo já deve ser motivo de preocupação. A OMS aponta a obesidade como um dos maiores problemas de saúde pública no mundo. A projeção é que, em 2025, cerca de 2,3 bilhões de adultos estejam com sobrepeso; e mais de 700 milhões, obesos. No Brasil, a obesidade vem crescendo, e alguns levantamentos apontam que mais de 50% da população está acima do peso, ou seja, na faixa de sobrepeso e obesidade Na região Centro-Oeste, que engloba os Estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e o Distrito Federal, 48,3% dos adultos estão com excesso de peso, enquanto nos jovens de 10 a 19 anos esse número fica em 22%.“Atendo pacientes com obesidade diariamente. Umas das primeiras e principais avaliações que faço quando o paciente vem até o meu consultório é da circunferência abdominal. Isso está ligado diretamente com os problemas que ela possa vir a ter”, pontua Pasquali.

“O AVC não avisa quando vai acontecer”, diz neurologista

O infarto não é o único mal que pode acometer o indivíduo que adere a uma vida desregrada e não-saudável. O Acidente Vascular Cerebral (AVC), também listado pela OMS como uma das maiores causas de morte, também pode ter fortes contribuições de uma rotina de negligência quanto à própria saúde. Conforme a médica neurologista Lorena Bochenek, o AVC é uma interrupção do fluxo sanguíneo no cérebro. Assim como infarto, diversos fatores podem servir para propiciar o problema, como a hipertensão, a diabetes, o tabagismo e o sedentarismo. Porém, quando uma pessoa chega ao extremo de sofrer um AVC, é porque, segundo Lorena, outras enfermidades já tomaram conta de seu organismo. “Eu costumo dizer para os pacientes que quando se tem um AVC, isso é só a ponta do ice berg. Ninguém que tem um AVC está bem. Se ela tem isso, é porque já sofre com outras doenças”, explica a médica.

Lorena alerta que o AVC não avisa quando vai acontecer. De acordo com ela, “não existe um princípio” da doença: quando ela vem, já é tarde para qualquer prevenção. “É importante a pessoa reconhecer quando acontece. Normalmente, um dos lados do rosto paralisa, a pessoa fica com o rosto torto e a voz fica embolada, como se tivesse feito uso de bebida alcoólica, e não consegue caminhar. Se ela percebe os sintomas nas primeiras quatro horas e busca atendimento, as chances de ela não ficar com nenhuma sequela são bem maiores”, diz. Entretanto, nem sempre a pessoa que é tem um AVC consegue atendimento a tempo. Quando isso ocorre, aumenta a possibilidade de esse mal deixar rastros perda de memória, alteração na fala e paralisia de parte do corpo.

“É importante a pessoa reconhecer” os sinais do AVC, diz neurologista Lorena Bochenek / Foto: Arquivo pessoal

A médica conta que quando o indivíduo está com as taxas de colesterol e glicemia altas, se faz uso de cigarro, bebidas alcoólicas e não pratica exercícios físicos, “é como um rio que corre e segue seu fluxo [para enfermidades como o AVC] se nada for feito”. Lorena atribui a falta de trato da saúde com as transformações sociais e a rotina urbana agitada, e lembra que é preciso “desacelerar” se a pessoa quiser viver alguns anos a mais.

“Existe uma mudança de valores na nossa vida, na sociedade. ‘Eu preciso ter tempo para trabalhar, mas não tenho tempo para fazer minha refeição corretamente. Eu tenho que ser produtivo, então isso toma todo meu tempo’. Não há mais tempo nem para a família, nem para o lazer”, discorre a neurologista.

Para quem já possui algum tipo de enfermidade ou predisposição para outros males, todo cuidado é pouco. Conforme Lorena, a pessoa que sofre com pressão alta, por exemplo, precisa mantê-la sempre controlada, se atentando para a devida alimentação e exercícios físicos. Se há alguma arritmia, ela deve ser cuidadosamente tratada. Além disso, álcool e drogas devem ser evitados ao máximo.

Movimentar-se é preciso

A má circulação do sangue no corpo humano parece ser um dos elementos-chave para o surgimento dos mais variados tipos de doenças. Presentes no ranking dos males que mais matam no Brasil, as doenças do aparelho circulatório são temidas, mas podem ser evitadas. Adotar uma rotina saudável, alimentando-se equilibradamente e realizando atividades físicas diariamente, é o ponto de partida e permanência para se viver com qualidade. Porém, quando o indivíduo se submete à inércia e à alimentação desregrada, as portas se abrem para problemas diretamente relacionados com o aparelho circulatório, e a trombose venosa é um deles.

Associada diretamente com a obesidade e à condição de imobilidade, a trombose venosa se caracteriza pela formação de coágulos na circulação, e pode ser espontânea ou provocada. Segundo o cirurgião vascular Fábio Campedelli, a doença, que tem como sintomas vermelhidão, dor, rigidez na musculatura e inchaço na região afetada, pode aparecer em qualquer região do corpo, mas é mais frequente nos membros inferiores.

Campedelli explica que um dos fatores que facilitam o surgimento da trombose venosa é a ausência de movimentação, o que esclarece o fato de pacientes em repouso pós-operatórios, por exemplo, serem tão afetados. “Se não tiver os devidos cuidados, uma pessoa acamada tem grandes chances de desenvolver trombose venosa. Pessoas em UTI recebem profilaxia justamente para evitar os riscos. E a maior preocupação da trombose é com a possibilidade de os coágulos migrarem da perna para o pulmão, causando a embolia pulmonar. Isso sim pode levar ao óbito”, conta.

De acordo com o Ministério da Saúde, aproximadamente 5 a 15% de pessoas não tratadas de trombose venosa podem morrer devido à embolia pulmonar. Além das causas já mencionadas, também podem ocasionar a doença o uso de anticoncepcionais ou tratamento hormonal; tabagismo; hereditariedade; presença de varizes; idade avançada; tumores malignos, entre outros.

O “susto” do prefeito de Aparecida de Goiânia

No dia 26 de fevereiro, quarta-feira, o prefeito de Aparecida de Goiânia, Gustavo Mendanha, do MDB, pegou a todos de surpresa quando precisou ser internado no Hospital Santa Mônica, na Vila Sul, em Aparecida. Mendanha deu entrada no hospital se queixando de fortes dores de cabeça. Já na unidade hospitalar, o prefeito foi diagnosticado com trombose venosa cerebral. Ao Opção, sua assessoria informou que Mendanha havia viajado para São Paulo no fim de semana anterior para tratar de uma parceria do município com o renomado Hospital Sírio-Libanês. Quando retornou para Aparecida de Goiânia, o prefeito já se reclamava da forte dor de cabeça que o acometia. Foi quando decidiu procurar, a tempo, atendimento médico.

O primeiro exame não detectou nada sério. Entretanto, alguns dias depois, o prefeito passou mal, chegando a vomitar por causa da dor de cabeça. A internação se fez necessária. Mendanha, que tem 37 anos, chegou a ser levado para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital, onde ficou internado por três dias. No dia 1º de março, o prefeito teve alta da UTI, mas seguiu internado. Ele só foi liberado definitivamente do hospital no dia 5 de março, quinta-feira, 9 dias após ser internado.

O prefeito teve um tratamento a base de anticoagulantes, e não sendo preciso nenhum tipo de intervenção cirúrgica. Felizmente, ele não ficou com nenhuma sequela do mal que lhe acometeu.

Ainda não se sabe o que exatamente causou a trombose venosa cerebral. Em meados de 2018, o prefeito, que tem 1,87 de altura, chegou a pesar 130 quilos. Decidido a mudar, ele procurou um especialista e iniciou um acompanhamento com dieta hormonal. Nos primeiros meses, o prefeito perdeu mais de 16 quilos. Hoje, seu peso está abaixo de 100 quilos, com mais de 30 quilos eliminados.

Além disso, Mendanha também leva uma vida ativa, com a prática diária de exercícios. A rotina saudável que ele adotou desde que decidiu que devia perder peso é um dos fatores que podem ter contribuído para a sua cura rápida, mas as verdadeiras causas da trombose venosa que o acometeu ainda estão sendo investigadas.

“Eu cheguei à obesidade mórbida”, diz dona de casa que perdeu 63 quilos em um ano

A ex-conselheira tutelar e dona de casa Thaynara Miranda, de 31 anos, tem uma rotina que se pode chamar de ativa. Moradora de Nazário, a 70 quilômetros de Goiânia, ela leva os filhos e participa de eventos na escola, organiza e limpa a casa, vai às compras, sai com o marido e amigos e cumpre diariamente os compromissos que dependem de sua participação. Entretanto, seu cotidiano nem sempre foi assim.

Até o início do ano passado, Thaynara, que tem 1,62 de altura, pesava 130 quilos. A julgar pelo seu Índice de Massa Corporal, a jovem era o que se podia considerar de obesa mórbida. Seu peso a impossibilitava de fazer praticamente tudo, e sair de casa era algo feito apenas em últimas circunstâncias.

Thaynara relata que há cerca de 12 anos começou a engordar. Ela chegou a tentar alguns tratamentos à base de medicamentos para emagrecer, mas esses não surtiam o efeito esperado. “Era um efeito sanfona. Eu emagrecia, mas passava um tempo e recuperava aqueles quilos todos outra vez”, relembra. De acordo com ela, alguns fatores contribuíram para seu ganho anormal de peso, tais como má alimentação, sedentarismo e até mesmo depressão – mal esse que era fortemente agravado pelo seu peso. “Minha comida era toda desregrada. Eu quase morria de comer no almoço, quase morria de comer no jantar. Não comia frutas, nem verdura. Carne assada então, eu passava um dia inteiro comendo”, conta Thaynara.

Thaynara revela que já chegou a pesar 130 quilos / Foto: Arquivo pessoal

Com o passar do tempo, a situação foi se agravando. A rotina de inércia e alimentação desequilibrada de Thaynara se intensificava juntamente com seu ganho de peso. E conforme sua saúde era deteriorada, sua autoestima também ia por ladeira abaixo. “Eu era depressiva, não saía de casa. Quando meu marido me chamava para sair, eu nunca aceitava. Não ia em festa de família, em festa da cidade, nada. Eu tinha vergonha de sair, eu achava que as pessoas ficavam me olhando”, recorda. Thaynara conta que, certa vez, foi até uma loja de roupas da cidade em busca de um presente para uma amiga. Assim que adentrou o estabelecimento, ouviu da vendedora: “Aqui não tem roupa para você”. “Ela nem me deixou falar o que eu queria, a roupa nem era pra mim. Eu saí da loja já chorando”, lembra. A situação a afetou profundamente.

Entretanto, a gota d’água veio em 2018. Thaynara relata que em maio do ano em questão, a escola onde seus filhos Davi e Arthur, à época com 4 e 9 anos, estudavam, promoveu uma festinha em comemoração ao Dia das Mães. Todas as mães de alunos foram convidadas, mas ela não pôde ir, e o motivo para a ausência no evento a deixou arrasada. “Por causa de problemas na coluna causados pelo meu peso, eu fiquei mais de 40 dias num sofá de casa, sem poder nem andar. Eu não conseguia fazer nada. Minha mãe e meu marido tinham que, inclusive, me ajudar a tomar banho”, revela. Faltar à festinha onde poderia ter tido momentos felizes com seus filhos a fez se indignar com sua condição. Foi quando decidiu, finalmente, procurar auxílio médico.

A dona de casa consultou um endocrinologista, que a transferiu para um cirurgião, e ali começava a saga de Thaynara. Assim que o médico se deparou com seu caso, informou que providências urgentes deveriam ser tomada. O profissional passou à Thaynara as devidas orientações que deveriam ser seguidas na preparação para uma cirurgia de Bypass gástrico, técnica de tratamento cirúrgico da obesidade e doenças metabólicas que consiste em construir um novo pequeno reservatório gástrico. Ao revelar seu medo do procedimento cirúrgico para o médico, Thaynara ouviu como resposta que ela tinha muito mais chances de morrer se continuasse do jeito que estava do que na mesa de cirurgia.

Ela passou por uma intensa preparação. Teve sessões com psicólogo, cardiologista, nutricionista e até oncologista, e no dia 19 de fevereiro de 2019, Thaynara foi submetida ao Bypass gástrico – cirurgia essa realizada com sucesso. Apenas 30 dias de repouso foram suficientes e, após o período, a nova Thaynara já estava de pé. Desde então, os hábitos da jovem passaram por uma verdadeira transformação.

Em um ano, Thaynara perdeu 63 quilos / Foto: Arquivo pessoal

Hoje, pouco mais de um ano depois da cirurgia, Thaynara está pesando 67 quilos – o peso atual significa que impressionantes 63 quilos foram eliminados de seu corpo. Ela conta que faz acompanhamento nutricional trimestralmente, frequenta a academia com supervisão de um personal trainer, procura sempre ir aos seus compromissos a pé ou de bicicleta, o que é facilitado por viver em uma cidade interiorana, e, claro, mudou radicalmente seus hábitos alimentares. “Não como mais sanduíche, o cheiro da carne assada me faz enjoar, cortei doces, frituras. Se antes eu evitava alimentos saudáveis, hoje eu sou conhecida como ‘a louca das frutas’”, brinca. A moça explica que as mudanças na alimentação foram essenciais para que ela recuperasse a vontade de viver e perdesse o excesso de peso. “Uma coisa que eu aprendi é: a gente é o que a gente come”, diz.

Todavia, a jovem garante que sua transformação jamais teria ocorrido sem o suporte e o incentivo daqueles que a amam, e garante: a transformação também precisa vir de dentro. “A pessoa tem que ter o apoio da família, não adianta querer fazer sem apoio. Essa base que você ganha de quem está à sua volta é que te fortalece. Cada dia que eu levanto é um desafio pra mim, mas hoje eu escolho viver saudável. Hoje eu saio de casa, faço tudo, hoje eu vivo. Mas a mudança tem que ser psicológica, tem que vir de dentro. Não é fácil, mas é possível”, finaliza.

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