Mortes por Covid provocam medo e pressão no sistema funerário

Goiás ultrapassou a marca de 10 mil mortes causadas pela Covid. Quem trabalha no sepultamento das vítimas relaram como é lidar com a dor das famílias

Não há como se isolar de relatos e imagens da calamidade provocada pela Covid-19. A todo momento o noticiário, as redes sociais e as mensagens de familiares, surpreendem e chocam com alguma nova face revelada pela pandemia. Na última semana uma cena registrada em Goiás circulou por todo o País demonstrando como devastadora a doença é. A fila de carros de funerárias na porta do cemitério Jardim da Saudade, todos aguardando para sepultar vítimas da Covid.

Goiás ultrapassou a marca de 10 mil mortes causadas pela Covid. O cenário é de guerra. E enquanto profissionais de saúde estão na linha de frente em hospitais lutando para salvar vidas, mesmo com os leitos acima da capacidade de atendimento e com risco iminente de colapso em todo o sistema, na outra ponta, estão no front os coveiros e agentes funerários que vivenciam de perto a dor das famílias de quem perdeu a batalha para a doença. 

Segundo o Sindicato das Empresas Funerárias, Cemitérios e Crematórios de Goiânia e Região Metropolitana, foi observado um aumento de 350% nos serviços funerários para vítimas de Covid. A demanda se tornou crescente e acelerada desde o mês de janeiro.

Antônio Santos trabalha abrindo covas no Cemitério Jardim da Esperança | Foto: reprodução

“Ver esse tanto de cova aberta assusta e a gente pensa nas famílias e na nossa vida também”, conta Antônio Santos, coveiro que há 19 anos trabalha no Cemitério Jardim da Esperança, em Aparecida de Goiânia. 

Antônio lembra que até o ano passado eram abertas de cinco a seis covas por dia. Nos últimos dois meses esse número saltou para 15. “Nunca imaginei que um dia teria uma situação dessas”, diz.

Francismar Costa, que é agente funerário e também relata uma rotina estressante de trabalho lidando com as perdas causadas pela Covid-19. “Eu me pergunto onde a gente vai parar. É um trabalho que está pesado. Antes a funerária em que trabalho fazia três ou quatro atendimentos por dia. Agora teve dia que fizemos 20 atendimentos. E isso não para.” 

O agente funerário, que geralmente é quem faz o transporte do corpo entre a funerária e o cemitério, narra que chegou a fazer dez viagens por dia  para conseguir sepultar vítimas de Covid-19. “Tem cemitérios que estão trabalhando com três equipes. Antes era apenas uma”, diz. 

Veículo da funerária aguarda para sepultar vítima de Covid-19 | Foto: Divulgação

Para Francismar, lidar com a família de quem morreu vítima da doença se tornou um trabalho primordial. “A gente está se esforçando para atender melhor a família. Essa é uma doença que infelizmente a família não pode nem se despedir. A família não vê a pessoa pela última vez. É uma dor e que precisamos tentar minimizar com um atendimento humano”, pontua. “Buscamos tratar a família com amor a respeito, mas a gente não deixa de absorver um pouco da dor da família. A gente se põe no lugar”, conclui.

Pablo Renielly é proprietário da Funerária Pax Goiânia, está no ramo há quase 30 anos e apesar da experiência, se diz assustado com o momento e a pressão que a pandemia provoca no sistema funerário. “O mês foi o mês que mais trabalhamos. Tenho 29 anos que trabalho com funerária e desde 1992 eu nunca ví nada igual a este mês de março. Teve dia que pegamos 20 corpos de Covid na grande Goiânia.”

Amparo. Segundo Pablo, essa tem sido a palavra que tem norteado os trabalhos nos últimos dias junto às famílias das vítimas da Covid. “Tenho Deus no meus pensamentos diários. O sentimento que temos que colocar a frente é de ajudar aqueles que precisam neste momento, trato as família com muito amor e carinho, é o que elas necessitam neste momento”.

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