Michel Temer se tornou um golpista não por trair Dilma, mas o voto do eleitor

Novo presidente está em estágio probatório. Tem de ganhar a população que não o elegeu, mas o tem como um mal menor; e precisa vencer a difícil briga contra os que o elegeram (ainda que achem que não), mas só sentem exalar dele a fragrância da conspiração

Michel Temer à frente de seus novos “amigos”: traição foi do projeto | Foto: Valter Campanato/Agência Brasill)

Michel Temer à frente de seus novos “amigos”: traição foi do projeto | Foto: Valter Campanato/Agência Brasill)

Elder Dias

O presidente interino Michel Temer (PMDB) assumiu o comando de um mandato para o qual não foi eleito. Não por causa do argumento pró-governo (o antigo) de que não teve os 54 milhões de votos que foram para Dilma Rousseff (PT). Ao contrário: teve, sim, apesar de o brasileiro culturalmente ter o hábito de não dar a mínima para o vice de qualquer chapa: contudo, assim como a petista, a foto dele, ainda que em tamanho menor, aparecia no visor da urna eletrônica enquanto todos esses milhões confirmavam o voto depois de digitar o 13.

O problema não é esse. O problema é que ambos foram eleitos por um projeto com determinadas bases, centrado especialmente na continuidade e aprimoramento dos programas sociais e em busca de um crescimento sustentado que não sacrificasse a população mais pobre, ainda que combatendo a crise que já se agigantava. Isso demandaria um conjunto de reformas, sim, mas que observasse os pilares da desigualdade social do País.

As reformas vêm agora, com Michel Temer, capitaneadas pelo goiano Henrique Meirelles (PSD), ex-presidente do Banco Central do governo Lula e recém-nomeado ministro da Fazenda. Mas não as reformas pelas quais a população votou em 2014: pelo contrário, vem para “ajustar” a seu modo uma economia desequilibrada. A reforma da Previdência, ou mesmo a reforma tributária, de um governo Temer/PSDB não é a que sairia com um governo Dilma/Temer — o maior “risco”, aliás, era (e continua sendo) de não sair nenhuma

Meirelles tem sido, aliás, incensado além da conta e parece ser o único ponto positivo da novidade Temer. O cenário, entretanto, não é o mesmo de 2003, em que havia bastante margem para crescimento e a novidade Lula era muito mais interessante e verossímil. A conjuntura agora é outra e seria dura com qualquer nome para a pasta da Fazenda. O que significa que a popularidade que parece natural quando se toca no nome do ex-banqueiro e lhe dá uma aura de “craque” inquestionável pode ruir com as primeiras medidas amargas. No fim, pode sofrer o efeito Felipão 2014: a mesma turba que o viu como solução pode rechaçar um Henrique Meirelles afetado por maus resultados. Afinal, paciência não será uma característica do brasileiro nos próximos meses.

Os principais partidos que iniciaram o processo de mobilização contra o governo Dilma logo após sua reeleição foram PSDB e DEM, condutores da candidatura derrotada do tucano Aécio Neves. São os mesmos que agora dão sustentação ao governo Temer. O PSDB ficou com dois ministérios: o das Relações Exteriores, com o senador José Serra (SP), e o das Cidades, com Bruno Araújo (PE), conhecido agora também como o deputado que deu o voto decisivo para o impeachment de Dilma. Já o Democratas foi agraciado com o Ministério da Educação, comandado pelo deputado Mendonça Filho (PE).

Embora haja também vários herdeiros diretos (não mais “diletos”) do time de Dilma — Gilberto Kassab (PSD), exemplo maior, mudou de camisa em duas semanas, trocando a pasta de Cidades (a qual cedeu sob protestos) pela de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações —, o projeto é oposto ao da chapa eleita em 2014. E aí reside a traição de Michel Temer: ao se aliar a quem em tese seriam seus opositores, Temer mostrou que escolheu um projeto de poder, não com um projeto de país.

Nisso, Temer não difere nada de Luiz Inácio Lula da Silva. O número 1 do PT também foi seduzido, em vez de pensar em um projeto para o Brasil, pelo anseio de assegurar o poder. E assim buscou, em 2010, uma base que considerava segura para assentar sua pupila Dilma Rousseff. O PMDB na vice seria a garantia de que, mesmo sem ele na chapa e com uma candidata neófita na política, o PT saísse vencedor. Deu certo com razoável folga naquele ano, mas quase deu errado em 2014.

Lula, para sustentar um projeto de poder, apostou alto no presidencialismo de coalizão e ajudou a fabricar partidos que dividissem os que lhe fossem desfavoráveis. Foi assim, por exemplo, com o Pros e o PMB, mas o maior exemplo foi o PSD de Gilberto Kassab, que desidratou o DEM. O mesmo DEM que agora parece renascer.

Para chegar a esse formato de aliança e se aproximar de (ou até aglutinar) nomes que saíam de um partido nitidamente de direita como o DEM, o PT teve de abrir mão de quem não poderia lhe oferecer tanto poder: ficou inconciliável manter a esquerda considerada “radical” no mesmo projeto. E assim, durante a era de governo petista, foram surgindo dissidências em forma de partidos, como o Psol e a Rede.

Resultado final: enfraquecido de poder com o desgaste da economia, o PT não tinha nem mesmo mais como afiançar um projeto de país. Foi atropelado pelo golpe, porque fez a população desacreditar de que seria possível prosseguir tento tantas gambiarras para garantir votos.

Mesmo sem tocar no assunto “investigados na Operação Lava Jato”, o ministério de Temer parece já se iniciar com um alto desgaste de suas peças. Justamente por ter sido vendida a ideia de “notáveis” – dos quais só sobrou (e tende a “soçobrar”) Henrique Meirelles — e aparecer uma turma de homens muito mais ligados à velha forma de fazer política do que com algum ar de “ponte para o futuro”.

Michel Temer está em estágio probatório. Político experiente, deveria ter aprendido com os erros que cometeu sua antecessora, tão desastrada para lidar com esse meio. Ainda é cedo para falar, mas o peemedebista vai precisar de mais do que garantir votos para fazer seu trabalho: tem de ganhar a população que não o elegeu, mas o tem como um mal menor (os que votaram contra o PT); e tem de vencer a difícil briga contra os que o elegeram — ainda que achem que não —, mas que sentem exalar do presidente apenas a fragrância da conspiração.

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